terça-feira, setembro 09, 2008

Para não esquecer

Texto de João Coelho

Regresso das férias que incluíram uma semana na Polónia: Cracóvia, um pouquinho de Varsóvia e Auschwitz. Auschwitz-Birkenau.

Às 8 da manhã de 17 de Agosto já estou na Estação de Camionagem de Cracóvia, aguardando a saída do autocarro, num percurso de 1h e 20m para cerca de 60 km. A viatura já conheceu melhores dias, a estrada faz lembrar as de S. Miguel há 40 anos, estreita, com mau piso, os passageiros, que enchem o autocarro, são quase todos jovens (ainda bem) e fala-se italiano, francês, espanhol e inglês; há uma freira, polaca, uma miúda, trajada a rigor, que se embrenha na leitura do breviário… muita freira e muito padre há neste país, sempre trajando a rigor!
A lentidão da viagem ajuda-me a uma preparação psicológica de que sinto necessidade, apesar do que aprendi em muitos livros, documentários e filmes sobre aquilo a que Jorge Semprun, prisioneiro em Mauthausen, chamou o "mal definitivo"... Eu sei ao que vou, mas tenho dificuldade em interiorizar que, depois de pensar por tanto tempo em vir aqui, esteja agora tão próximo do lugar da Besta.
A ronceirice da viagem é quebrada pelos sinais de chegada a uma localidade - Oswiecim, Auschwitz em polaco - e vejo um cartaz, à beira da estrada onde se lê "Auschwitz, terra de paz".
Pouco depois, chegámos a um parque de estacionamento, há muitos autocarros, automóveis, caravanas, muita gente e um edifício com a cor típica do campo, a do tijolo; entro, há alguma confusão, uma livraria, uma pequena exposição, uma sala de projecção de filmes, balcões para visitas guiadas - eu dispenso os grupos, quero estar sozinho. Saio do casarão, há uma zona de terra, árvores e dou comigo em frente ao célebre portão com a inscrição "Arbeit macht frei"… Preciso de parar, a transição foi demasiado rápida, deixar que os meus olhos absorvam tudo. Passo o portão, e vou seguindo ao acaso por entre os numerosos barracões - aqui, tocava a orquestra, formada por prisioneiros, mais além está o terreiro onde se faziam as terríveis contagens de detidos, durante horas e horas - uma delas prolongou-se por 19 horas, todos em formatura, às vezes nus, os mortos da noite colocados no chão… Mais à frente, o muro das execuções, onde se assassinavam, a tiro, os desgraçados que a Gestapo e as SS entendiam matar… Ainda aqui estão também os cadafalsos onde os nazis enforcavam outros prisioneiros, aqueles a quem queriam provocar maior sofrimento… Entro nalguns barracões, circulando pelo emaranhado de corredores balizados pelos postes de sustentação do arame farpado, que era electrificado… o edifício da Gestapo, com as celas na cave, as salas, noutros edifícios, onde estão expostos os cabelos cortados às mulheres, os sapatos, as roupas, de adultos e de crianças, os óculos, os objectos pessoais, as malas - há fotos, muitas fotos, de prisioneiros, e muitos expositores com documentação dos alemães, sempre meticulosos na burocracia… E ali está o barracão das experiências pseudo-científicas dos médicos de Auschwitz… e quase à saída, a primeira câmara de gás e crematório que os nazis instalaram aqui, e onde ensaiaram a forma mais expedita de matar um milhão e meio de pessoas…
No total, estão neste sector, 28 barracões, que chegaram a alojar, em 1942, 20 mil pessoas, trabalhadores forçados nas fábricas que funcionavam em Auschwitz e que vinham aproveitar-se da mão-de-obra escrava.
É altura de passar ao campo da morte, Birkenau, a cerca de 3 km, feitos num autocarro gratuito; circula-se por uma estrada prazenteira, em plena planície, e, minutos depois, cá estamos, junto à linha de caminho-de-ferro que entra no campo passando por debaixo de uma torre onde estava o controlo geral de Birkenau. Não fazia ideia de que isto fosse tão grande, o terreno é plano, estende-se até lá ao fundo, ao bosque… e o tempo está, como por vezes acontece nos Açores, marcado por uma "calma tranquila" - expressão que procurei durante anos para caracterizar alguns dias de S. Miguel, aquela leveza dos ares, o sossego… -
Sigo a linha do comboio, até à "rampa dos Judeus", onde se fazia a selecção dos recém-chegados de todos os países ocupados pelos alemães, o chão é de gravilha, ladeado por relva dos dois lados, tenho, por companhia, o som dos meus passos, o canto dos pássaros e a cor dos trevos, amarela, animando o verde circundante. Aqui estava o poder absoluto, a decisão final: desembarcados dos vagões de gado, os médicos SS escolhiam… para a esquerda, a morte imediata, para a direita, a morte adiada…
Mengele, o "Anjo da Morte", reinava aqui, sempre impecavelmente fardado, botas luzindo, jovem, alto e loiro, cheirando a água de colónia, formado em Filosofia e Medicina. Dizem sobreviventes que gostava de assobiar trechos de obras de Wagner, e que tinha movimentos vivos e delicados nas mãos com que indicava as suas decisões… Mengele que era obcecado por gémeos e por indivíduos com deformações físicas, que apreciava "estudar" depois de mortos… Mengele que sobreviveu à guerra e acabou por morrer no Brasil, já velho, com um ataque de coração enquanto nadava…
Saio da rampa e dou comigo na estrada, à esquerda da linha, que era a que percorriam os que tinham sido escolhidos para a morte imediata - idosos, e mulheres com filhos abaixo dos 14 anos… Lá ao fundo estão as câmaras de gás e os crematórios, destruídos pelos nazis quando perceberam que os russos estavam perto (um deles foi demolido na sequência da única revolta registada em Birkenau, desencadeada por um grupo de prisioneiros que trabalhava nas câmaras de gás); os degraus que se desciam para a morte têm latinhas com velas e flores que os visitantes deixam aqui, há grupos de jovens israelitas que circulam pelo campo, acompanhados por adultos e percebo que alguns dos miúdos estão como que bloqueados mentalmente, sentam-se com um ar vazio, há outros que choram, em silêncio. Vejo que a linha de comboio vem até junto das câmaras, sei depois que a prolongaram até aqui quando, entre Maio e Julho de 44, cerca de 440 mil judeus húngaros vieram para Birkenau, levando as SS a acelerar o processo de extermínio… Há um casal jovem com um bebé, mesmo no fim da linha, acendem uma vela, a jovem senta-se nos carris e chora convulsivamente, afasto-me e sigo para o bosque que rodeia as câmaras de gás - passo pelo terreiro onde se queimaram corpos (porque os crematórios, nesses meses de 44 não conseguiam cremar todos os mortos) e vou parar a um dos lagos onde os nazis depositavam as cinzas dos assassinados… Caem alguns pingos de chuva, há uma garça real pousada à borda d'água, imóvel, parece estar de guarda, algumas plantas, com um aspecto muito viçoso, saem da água, firmes, à vertical… a chuva apagou as velas que estão por aqui, mas, entretanto, deixou de cair, e aproveito para acender uma delas… continuo e passo pelo pequeno bosque onde judeus aguardavam a entrada nas câmaras de gás, a minha memória visual recupera as imagens das fotos (que vi em tempos) das mulheres e crianças aqui sentadas, com um ar despreocupado, não sabem ao que vão, falaram-lhes em duche... sinto necessidade de tocar nas árvores… volto atrás e vou até ao Monumento internacional de homenagem às vítimas de Auschwitz-Birkenau… e está a decorrer uma cerimónia promovida por gente que já não é nova; há uma bandeira de uma organização de veteranos de Israel, do grupo destacam-se três pessoas, uma senhora e dois homens. Dos homens, um segura uma fotografia ampliada, que se percebe ser ele, ainda adolescente, prisioneiro, com um número, o seu número de preso - 157.615; acendem velas, depositam uma coroa de flores e há um senhor que vem para a frente do conjunto e que, voltado para o monumento, faz o que me parece ser uma oração, percebo que diz "Adonai, Adonai"… mas é uma reza imprecativa, interrogativa, quase que grita, chora… a cerimónia termina e vejo que senhora do trio de ex-prisioneiros está acompanhada por um jovem, a quem digo que gostava de a cumprimentar… o rapaz diz-me que esteja à vontade, a senhora é judia francesa, esteve presa 1 ano e 4 meses, e fez parte da "marcha da morte" para outro campo, Bergen-Belsen, quando os nazis, sabendo da chegada dos russos, deslocaram para outros campos, no interior da Alemanha, os sobreviventes de Auschwitz. A senhora é uma "madame" na melhor acepção da palavra, diz-se encantada por encontrar um português, desejo-lhe muita saúde e faço uma coisa que nunca tinha feito na vida - beijo-lhe a mão… E só depois lamento já não ter mais fotos no rolo (ainda não uso digital…) Vou saindo de Birkenau lentamente, ainda passo pelos barracões das mulheres, pelas latrinas, e por um barracão onde estiveram 148 crianças húngaras, antes de serem mortas - está lá um cartãozinho, que diz, em inglês, "Em memória de Hulinéck, morto, aos 3 anos, em Birkenau", com uma tira com as cores nacionais da Hungria, vermelho, branco e verde…
Subo à torre de entrada e lanço um olhar, lá de cima, ao longo do campo, enorme, e penso, mataram tanta gente, tão impiedosamente, tão fria e cruelmente… e as últimas vitimas foram assassinadas poucos meses antes de eu nascer… os judeus húngaros, depois os do gueto de Lodz e ainda os da Grécia, de Corfu…
Volto a Cracóvia, de novo com o autocarro cheio, de novo gente nova… Agora reina o silêncio, e eu também venho a pensar no que vou dizer à Joana, minha filha de 9 anos, quando ela me perguntar porque é que fui a Auzchwitz-Birkenau…

PS - Em Auschwitz-Birkenau, não foram assassinados só judeus; também mataram ciganos, testemunhas de Jeová, homossexuais, prisioneiros de guerra russos, resistentes polacos, embora em menor número.

A Paixão (Segundo Nicolau da Viola)

Letra: Carlos Tê
Música: Rui Veloso
in: Mingos e os Samurais

Tu eras aquela que eu mais queria
Para me dar algum conforto e companhia
Era só contigo que eu sonhava andar
Para todo o lado e até quem sabe? talvez casar

Ai o que eu passei só por te amar
A saliva que eu gastei para te mudar
Mas esse teu mundo era mais forte do que eu
E nem com a força da música ele se moveu

Mesmo sabendo que não gostavas
Empenhei o meu anel de rubi
Para te levar ao concerto
Que havia no Rivoli

Era só a ti que eu mais queria
Ao meu lado no concerto nesse dia
Juntos no escuro de mão dada a ouvir
Aquela música maluca sempre a subir

Mas tu não ficaste nem meia hora
Não fizeste um esforço para gostar e foste embora
Contigo aprendi uma grande lição
Não se ama alguém que não ouve a mesma canção

Mesmo sabendo que não gostavas
Empenhei o meu anel de rubi
Para te levar ao concerto
Que havia no Rivoli

Foi nesse dia que percebi
Nada mais por nós havia a fazer
A minha paixão por ti era um lume
Que não tinha mais lenha por onde arder

segunda-feira, setembro 08, 2008

Lembrar uma amiga


Catarina Lacerda

Nasci em Massarelos, na Maternidade Júlio Dinis, como grande parte da população nascida no Porto. Vivi até aos 19 anos numa casa amarela com jardim, cão e quintal, pais e avós, junto ao rio e perto do mar. Quando terminei o secundário senti a necessidade de perceber melhor o bichinho da representação. Ter estudado economia fez-me perceber que o caminho dos números, que até dominava, não seria o meu. Andava um pouco indecisa e fui fazer terapias vocacionais de grupo na Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto. Tornou-se aí evidente que tinha que avançar com isto do teatro. Ser actriz é um jogo de risco e prazer, um abismo feliz. Quanto mais arriscas, mais prazer podes ter. É isso que me move. Serei actriz enquanto me preencher, mas imagino-me a fazer muitas outras coisas desde que haja vontade, tempo e conjunturas favoráveis. A ordem não é aleatória. O cinema é um território novo para mim. Tudo começou no final de 2006. Um amigo reencaminhou-me um «e-mail» para um «casting». Alguns meses depois estava em pleno Coentral, aldeia da serra da Lousã, nas filmagens de «Deus Não Quis». O argumento é baseado na canção tradicional portuguesa «Laurindinha». Conta-nos a história quase feliz de um jovem casal separado pela guerra. A Laurindinha, personagem que interpreto, é uma mulher que vê o seu grande amor partir para a guerra e oscila entre um misto de cheio e vazio. O cheio daquilo que a une ao seu amor, o vazio perante a inevitabilidade dessa separação. É um sentimento profundamente humano, creio. Receber um prémio no Chipre, um país onde se pressente a tensão política e militar, foi especial. Nicósia é atravessada por um muro. De um lado cipriotas turcos, do outro cipriotas gregos. Ao fugir da guerra, as famílias turcas e gregas deixaram para trás casas devolutas. Essas casas, e as suas histórias, foram ocupadas por outras famílias turcas e gregas. Ver as pessoas saírem da projecção emocionadas e agradecerem o filme, torna-o duplamente especial. Há registo do surgimento das primeiras sardas pelos meus três anos. Fazem parte do carimbo que é o meu rosto e variam de estação para estação: são imensas no Verão, mais raras no Inverno.

A actriz é a protagonista de «Deus Não Quis», produzido pela ZED Filmes, e a vencedora do Prémio de Melhor Actriz no Festival Internacional de Curtas-Metragens do Chipre


Texto de Nelson Marques in Expresso


Parabéns, Catarina!

Beijinhos,
Gui

Optimista Céptico



Tatuagens



Fragilidade



Abraça-me bem



Maçã com bicho




O tempo passa
e lembras com saudade
o saudoso tempo da universidade
foste caloiro
e quintanista
já comes caviar
esquece o alpista

P`ra entrar na universidade
é preciso
prender o humor
na gaiola do riso
ter médias altas
hi-hon, ão-ão
zurrar, ladrar
lamber de quatro o chão

Mas há quem ache
graça à praxe
É divertida (Hi-hon)
Lição de vida (Ão-ão)
Maçã com bicho
acho eu da praxe
É divertida (Mé-mé)
Lição de vida (Piu-piu)
Maçã com bicho
acho eu da praxe

Chamar-se a si mesmo
besta anormal
dá sempre atenuante ao tribunal
é formativo
p`ró estudante
que não quer ser popriamente
um ingnorante

Empurrar fósforos com o nariz
tirar à estupidez a bissectriz
eis causas nobres
estruturantes

eis tradição
sem ser o que era dantes

Mas há quem ache
graça à praxe
É divertida (Hi-hon)
Lição de vida (Ão-ão)
Maçã com bicho
acho eu da praxe
É divertida (Mé-mé)
Lição de vida (Piu-piu)
Maçã com bicho
acho eu da praxe

Não vou usar
mais exemplos concretos
é rastejando
que se ascende aos tectos?
Então vejamos
preto no branco
as cores da razão
porque a praxe eu desanco

Mas há quem ache
graça à praxe
É divertida (Hi-hon)
Lição de vida (Ão-ão)
Maçã com bicho
acho eu da praxe
É divertida (Mé-mé)
Lição de vida (Piu-piu)
Maçã com bicho
acho eu da praxe

Capitão Romance



Quer eu queira, Quer Não

J.J.Galvão/ Rufi

Ai saudade
Que me desespera
Ansiedade
No meu peito mora
Ai saudade
Sentida e sincera
Diz-me se ainda é verdade
Que pensas em mim

Quem me dera
Não ter a lembrança
Desses tempos
De tanta esperança
Primavera
Com pena suspensa
Diz-me que às vezes ainda
Te lembras de mim

Tenho um encontro marcado
Dentro do meu coração
Talvez me tenha esquecido
Que ele tem sempre razão
Tenho um tesouro escondido
Dentro do meu coração
Tenho lá escrito este fado
Quer eu queira, quer não

Ai saudade
Daquela viela
Na cidade
Da velha aguarela
Ai saudade
Guitarra e viola
Diz-me se ainda é verdade
Que gostas de mim

Quem me dera
Poder ser criança
E sem medo
Cumprir a sentença
Primavera
Da eterna mudança
Diz-me que às vezes ainda
Te lembras de mim

Tenho um encontro marcado
Dentro do meu coração
Talvez me tenha esquecido
Que ele tem sempre razão
Tenho um tesouro escondido
Dentro do meu coração
Tenho lá escrito este fado
Quer eu queira, quer não

O que fazes tu de mim

Desastrada como eu sou
Eu fiz-me à estrada da vida
Nem um sopro me abalou
Na hora da despedida

Corre por aí o mito
De a vida ser de cetim
Dou o dito por não dito
Quando se trata de mim
Quando se trata de mim

Não adianta ser rico
Se o teu coração for ruim
Bendito seja, bendito
Quem me fez assim, assim

Vim aqui contar a história
De uma aliança fatal
Entre as brumas da memória
E a descrença total

Quero ver os resultados
Mas sem antes semear
Quero que haja trabalho
Mas não quero trabalhar
Mas não quero trabalhar

Não adianta ser rico
Se o teu coração for ruim
Bendito seja, bendito
Quem me fez assim, assim
(Bis)

Ai quem me fez assim, assim
(x4)

Sape-gato lambareiro
Tira a mão do açucareiro
Sape-gato lambuzão
Tira a tua mão

Sape-gato lambareiro
Tira a mão do meu dinheiro
Sape-gato comilão
Tira a tua mão

Gato-sapato, sape-gato até ao fim
Gato-sapato, o que fazes tu de mim

Sape-gato lambareiro
Tira a mão do açucareiro
Sape-gato lambuzão
Tira a tua mão

Sape-gato lambareiro
Tira a mão do meu dinheiro
Sape-gato comilão
Tira a tua mão

Gato-sapato, sape-gato até ao fim
Gato-sapato, fazes tu de mim
Gato-sapato, sape-gato até ao fim
Gato-sapato, o que fazes tu de mim

Não adianta ser rico
Se o teu coração for ruim
Bendito seja, bendito
Quem me fez assim, assim

Pintar a Verdade

J. J. Galvão

Ai se eu pudesse pintar a verdade
De um tom cor-de-rosa ou mesmo de azul
Talvez contasse com mais à vontade
Este rosário de sombras e luz

Ai se eu caísse num sono profundo
Talvez eu pensasse que estava a sonhar
Ai se eu mandasse nas coisas do mundo
Mandava ser tempo de recomeçar

Ai se eu não fosse assim tão fadista
Desvendava o mistério de ter esta dor
Fui alquimista por ouro e amor
Mas jamais consegui transformar o real
Numa flor...

Ao luar, vem-me procurar ao luar
Que eu sou pequenina e não sei andar
Anda ver, anda ver o sol a nascer
E verás que o que for será, tem que ser...

Ai se eu pudesse pintar a verdade
Em tons prateados ou mesmo de azul
Talvez contasse com mais à vontade
Este rosário de sombras e luz

Ai se eu não fosse assim tão fadista
Desvendava o mistério de ter esta dor
Fui alquimista por ouro e amor
Mas jamais consegui transformar o real
Numa flor...

Ao luar, vem-me procurar ao luar
Que eu sou pequenina e não sei andar
Anda ver, anda ver o sol a nascer
E verás que o que for será, tem que ser...
Ao luar, ao luar...

A minha circunstância

J.J.Galvão/ Rufi

É a minha circunstância
Ser a voz da solidão
Um minuto de silêncio
Ao meu pobre coração
Não lhe digas mais que não

Devagar se vai ao longe
À procura de uma estrela
Devagar que é p'ra hoje
Amanhã a vida é bela
Não me digas mais que não

Deixa-me ser pobre
Deixa-me ser como sou
Deixa-me ser livre
De escolher com quem eu vou

Boa noite meus senhores
Prestem todos atenção
É pesada a penitência
Do meu pobre coração
Não lhe digas mais que não

Deixa-me ser pobre
Deixa-me ser como sou
Deixa-me ser livre
De escolher com quem eu vou
Deixa-me ser pobre
Mas ser nobre no meu pobre coração

Não me digas mais que não, não, não, não
Não me digas mais que não
Não me digas mais que não, não, não, não
Não me digas mais

Não me faças mais promessas
Dessas cheias de ilusão
Não lhe vendas mais quimeras
Ao meu pobre coração
Não me digas mais que não

Deixa-me ser pobre
Deixa-me ser como sou
Deixa-me ser livre
De escolher com quem eu vou
Deixa-me ser pobre
Mas ser nobre no meu pobre coração

Festival Internacional de Marionetas (Porto)


Festival Internacional de Marionetas, na Praça D. João I
Entrada Livre


Teremos uma parede de mentira porque tem portas de verdade - que sabem mais abrir do que fechar – e porque uma parede sozinha não fecha, enquadra.

O FIMP vai ter um Hino. Composto por Hélder Gonçalves dos Clã, será executado na Praça D. João I por uma Fanfarra, na primeira convocatória deste FIMP 2008. A Fanfarra levar-nos-á depois pelas ruas da baixa do Porto até ao TeCA. Aí será o espectáculo de abertura: pelo Teatro de Marionetas do Porto. Associamo-nos assim ao Teatro Nacional de S. João na celebração dos vinte anos de criações e actividade desta companhia. As primeiras palmas desta edição são para eles.

Sem bilheteiras, de portas abertas.
Vamos viver na Praça. Venha lá morar connosco.


Mais informações em: http://www.fim.com.pt

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E agora pergunto eu. Será que a exemplo dos aviões, que já há por aí notícias de que querem levar para Lisboa, também vão roubar-nos este evento?! Não... Primeiro, porque é cultura, depois porque é feito por gente do Porto. Só podia!!!

Guilherme Rietsch Monteiro

Código de Barras

Letra: Carlos Tê
Música: Hélder Gonçalves

Deixa que o silêncio faça parte de nós

deixa que o silêncio
seja parte de nós
funda e indizível
porque não estamos sós
apenas a só
e até se dispensa a voz

deixa que ele seja
um espelho fiel
do que sinto por ti
basta um gesto de mão
só um olhar
p'ra mostrar a paixão

e se eu te mentir alguma vez
é porque nos lançam amarras
é para iludir o video oculto
que nos segue lá do alto
e nos traduz em barras

num código de barras
num código de barras

assim nem eu nem tu
teremos um amor captável
pelo serviço secreto
será indetectável
jamais será cifrável

ao abrirmos a boca
será como o previsto
e até a felicidade
será a que anunciam
na publicidade

e se eu te mentir alguma vez
é porque nos lançam amarras
é para iludir o video oculto
que nos segue lá do alto
e nos traduz em barras

num código de barras
num código de barras

Povo americano, eis a votação do júri de Castelo Branco

Ricardo Araújo Pereira in Visão


De quatro em quatro anos, os analistas portugueses discutem as eleições americanas e, como é óbvio, influenciam decisivamente o seu resultado. Nenhum sociólogo responsável deixou de registar, aqui há tempos, a célebre crónica de Luís Delgado, intitulada Eu voto Bush, e a responsabilidade que essa corajosa declaração de voto teve na vitória do actual presidente. Menos bem sucedida, mas igualmente ousada, foi, há quatro anos, a iniciativa do vespertino A Capital. O jornal, entretanto extinto (e ninguém me convence de que a sua extinção não teve mãozinha da CIA), anunciou que iria adoptar uma linha editorial que defendia a derrota de George W. Bush. Hoje, sou eu que me encontro na posição de comunicar aos americanos a minha intenção de voto. É uma honra, tanto para mim como para eles.
A verdade é que não tenho intenção de votar em ninguém. Já encontro sérias dificuldades para decidir em quem votar no meu próprio país, quanto mais nos outros. Além disso, ao contrário da generalidade das pessoas de esquerda, eu não quero que Barack Obama ganhe as eleições. Quero que Barack Obama seja Presidente – o que não é bem a mesma coisa, como Al Gore bem sabe.
Em todo o caso, não ficarei especialmente abalado se Obama não for Presidente. Creio que sou imune ao efeito que a política americana produz nos portugueses. Se os democratas ganharem as eleições, os portugueses de direita que agora odeiam Obama vão acabar por lhe dedicar o amor que qualquer Presidente dos EUA lhes merece, e os portugueses de esquerda que agora o apoiam acabarão por desprezar o chefe dos imperialistas assim que ele jurar a Constituição. Pelo sim, pelo não, eu vou mantendo uma coerente indiferença perante todos os candidatos. É uma atitude que os magoa, nota-se, mas eu sou mesmo assim.
Por outro lado, embora preferisse a vitória de Obama, não deixo de reconhecer que a campanha de McCain me parece mais interessante. O candidato republicano conheceu a senhora que escolheu para vice-Presidente há apenas seis meses, e só esteve com ela uma vez antes de a anunciar como sua companheira na corrida à Casa Branca. É uma espécie de vice-presidência à primeira vista, o que acaba por ser enternecedor. Além disso, Sarah Palin tem 44 anos e foi primeira dama de honor no concurso de Miss Alaska de 1984. Ora, escolher uma mulher quase 30 anos mais nova que já foi modelo não é política: é crise de meia-idade. Qualquer homem que sabe o que isso é não pode deixar de simpatizar com McCain.
Além disso, a candidatura dos republicanos tem capacidade para fazer história. É certo que Obama pode ser o primeiro Presidente negro, mas Palin pode ser a primeira mulher. Reparem: McCain tem 72 anos. Segundo o World Fact Book, editado pela CIA, a esperança de vida média de um americano é de 75 anos. Há, por isso, uma forte hipótese de Sarah Palin vir a ser Presidente dentro de três anos. Enquanto os democratas propõem Obama e Biden para a presidência em 2008, os republicanos apontam McCain para 2008 e Palin para 2011. Oferecem dois presidentes em vez de um. Pode ser um bom negócio.

sexta-feira, setembro 05, 2008

Jim Morrison disse:

"Loucos são aqueles que com toda a sua inteligência não compreendem as minhas loucuras"

A muda


(...)
Ninguém ousa, por exemplo, criticar o pensamento político da presidente do PSD. Por uma razão extremamente simples: ninguém sabe qual é. Quando recusa participar em eventos nos quais há o perigo de ter de o revelar, Ferreira Leite está a preservar um trunfo inestimável para as próximas eleições legislativas. O povo ganhou uma certa aversão ao discurso político. É muito provável que esteja disposto a votar numa muda. Quase aposto que o tempo de antena do PSD vai ser feito com recurso ao jogo Pictionary. A Manuela desenha e o povo, em casa, tenta adivinhar o que ela propõe.
(...)


Ricardo Araújo Pereira in Visão

Um dia na vida de um português em Agosto de 2008

Ricardo Araújo Pereira in Visão


8h30 – José Silva acorda e constata que a sua casa foi assaltada durante a noite. Espreguiça-se. Toma banho tentando poupar a água, toma o pequeno-almoço tentando poupar o leite e põe-se a caminho do emprego tentando poupar os sapatos.

9h00 – Empurra o carro até à bomba de gasolina e é assaltado duas vezes: a primeira pela gasolineira, que voltou a aumentar os preços do combustível; a segunda por criminosos armados, que lhe levam o pouco que ainda restava na carteira. Boceja. Conclui que prefere os segundos assaltantes, na medida em que roubam menos e com menor frequência. Nota que, apesar disso, a polícia não faz qualquer esforço para apanhar os primeiros.

10h00 – Já na estrada, é vítima de carjacking. Encolhe os ombros. Prossegue a pé.
10h05 – Um gang tenta assaltá-lo. Explica que ficou sem a carteira num assalto anterior.

10h10 – Outro gang tenta assaltá-lo. Fornece a mesma explicação. Os membros do gang colam-lhe um autocolante na lapela para que futuros meliantes saibam que já foi assaltado nesse dia e evitem perder tempo com ele. Recomendam-lhe que retire o autocolante assim que voltar a transportar valores.

11h30 – Vai ao banco levantar dinheiro.

11h32 – Criminosos armados irrompem no banco. Clientes e funcionários formam calmamente uma fila e tiram senhas para serem assaltados por ordem.

11h35 – O criminalista Moita Flores irrompe no banco e começa a comentar o assalto junto de um grupo de clientes. Tece várias considerações sobre um novo tipo de criminalidade violenta que parece estar a aumentar no nosso país, aponta as limitações da polícia e sublinha as incongruências do novo código de processo penal. Alguns clientes oferecem-se para serem sequestrados, caso os assaltantes lhes garantam que os levam para longe do criminalista Moita Flores.

11h45 – O criminalista Moita Flores interpela os assaltantes e comunica-lhes que o método que escolheram para levar a cabo o assalto não é o melhor, criticando sobretudo a não utilização de luvas e tecendo alguns reparos ao plano de fuga, que considera extremamente frágil.

11h46 – Um dos assaltantes dispara duas vezes sobre a perna do criminalista Moita Flores.

11h47 – Clientes e funcionários do banco homenageiam os assaltantes com um forte aplauso.

17h30 – Depois de várias horas de sequestro, o assalto termina. A polícia detém os criminosos, resgata os reféns e amordaça o criminalista Moita Flores, para que vá receber assistência hospitalar.

18h00 – Por sorte, mal acaba de sair do banco, José Silva encontra o seu carro abandonado na berma da estrada. Entra
no veículo e dirige-se para casa.

18h05 – É detido pela polícia por se encontrar a conduzir um carro que foi usado em diversos crimes.

20h00 – É identificado e preso. Na cela, verifica que o relato da sua vida é extraordinariamente demagógico e conclui que toda a sua existência podia ter sido inventada por Paulo Portas. Chora.

Obviamente, demita-se!

Mário Crespo in JN


O PSD encontrou a solução política que poria fim imediato à insegurança, acabaria com os assaltos às bombas de gasolina, com o carjacking, com os conflitos armados nos bairros sociais, enfim com a desordem. Demitia-se o ministro da Administração Interna. Já! O da Justiça pode ficar, embora a instrução dos processos em que criminosos são soltos por leis absurdas e polícias retidos em interrogatórios tenham tudo a ver com os absurdos dos códigos penal e do processo penal engendrados em regime de pactos de bloco central, onde o PSD tem, também, a sua grande quota de responsabilidade.

Não interessa tão-pouco lembrar o superdesastre dos anos 90 quando, por supostas razões de eficiência de custos e meios, se reduziu o número de esquadras e se criaram as superesquadras de Dias Loureiro e Cavaco Silva, num governo em que Manuela Ferreira Leite participou. E tudo isto são pormenores do grande disparate governativo que têm um contributo directo na terrível situação a que chegamos, e que o PSD nesta encarnação acha que se resolve demitindo ministros.

A meio da crise. Neste caso, querem que seja Rui Pereira, apesar de ser sob a sua direcção que a Polícia tem tido mais eficácia e menos ambiguidade na gestão dos mais perigosos episódios na história do crime em Portugal.

Depois do ensurdecedor silêncio sobre a vida pública em Portugal, ao fim de três meses de retiro o novo PSD não tem nem propostas concretas, nem aplausos de solidariedade para o que tenha sido bem conduzido, nem críticas ao que de mal esteja a ser feito. Do actual PSD vêm apenas dois registos. O silêncio do vazio de ideias e, agora, esta "exigência" de demissão, que por si só é manifestamente um eco da falta de qualquer outra proposta política séria. Como a própria Manuela Ferreira Leite disse no inconclusivo artigo que recentemente escreveu "a segurança interna é uma função da exclusiva competência do Estado e sobre a qual só se têm ouvido responsáveis intermédios". Presumo que estivesse a fazer a sua autocrítica depois de ter falhado um pronunciamento sobre o modo como o Governo actuou no sequestro do BES quando o PSD estava de férias e não as interrompeu. Se a insegurança no país preocupa a dr.ª. Manuela Ferreira Leite então devia ter vindo já há bastante tempo dar uma palavra de serenidade ao país. Uma palavra que teria tido todo o eco nacional que o PSD quisesse se, por exemplo, tivesse sido dita no comício do Pontal, que preferiu ignorar com os seus esfíngicos silêncios, que os indefectíveis defendem como obras-primas de "estratégia". Aí poderia ter dito, por exemplo, que uma política de segurança nacional tem de ser isso. Nacional. Não pode ser objecto de guerrilhas partidárias, com tiros de pólvora seca a pedir demissões sem mais propostas. A política de segurança nesta crise tem de ser desinibidamente consensual, sem soluções pronto-a-vestir para problemas de extrema gravidade. Um desses seus incondicionais apoiantes, Vasco Graça Moura, escreve no "Diário de Notícias" que "toda a gente sabe que o Pontal não tem hoje importância nenhuma". O dr. Graça Moura tem razão, como sempre. Só que a sua verdade é ainda mais ampla desta vez. De facto, toda a gente sabe que o PSD hoje não tem importância nenhuma.

Os suspeitos do costume

Manuel António Pina in JN


Segundo números da ONU, Portugal, com um total de 464 878 polícias por mil habitantes, é o 2.º país mais policiado da UE (aqui ao lado, a Espanha tem, por exemplo, 2,86).

Surfando eleitoralmente sobre a "onda de criminalidade" que este mês se abateu sobre jornais e TV, Portas exige agora, além de mais quatro mil polícias, a instalação de videovigilância em "bairros problemáticos". Ora, apesar de aparentemente ter aumentado este ano, a criminalidade em Portugal está aos níveis de 2006, pois em 2007 baixara cerca de 10%. E isso sem mais polícias (embora com outro Código de Processo Penal). Não parece, pois, que seja com mais polícias que o "problema da criminalidade" se resolve. Já a videovigilância em locais "problemáticos" pode ser boa solução. E não apenas em bairros sociais. Porque não também em urbanizações de luxo? E em restaurantes onde se realizem "jantares de negócios"? E em serviços de urbanização camarários? E em gabinetes ministeriais "problemáticos" onde se façam leis sobre casinos, se tomem decisões sobre sobreiros e submarinos ou alegadamente se fotocopiem documentos secretos?

Tudo bons rapazes

Manuel António Pina in JN


Finalmente alguém se lembrou de que não há rapazes maus e que a resposta à "onda de criminalidade" que por aí anda é falar ao coração dos assaltantes e apelar ao seu civismo. A ideia foi de Augusto Cymbrom, presidente da Associação Nacional dos Revendedores de Combustíveis (ANAREC).

À saída, ontem, de uma reunião no MAI sobre a segurança das bombas de gasolina, vinha tão decepcionado e descrente do Governo que achou que era altura de experimentar a sua própria solução e, apelando à boa índole dos assaltantes, lembrou-lhes que "não compensa assaltar bombas de gasolina" e que devem meter a mão na consciência e pensar que, ao fazerem assaltos, "além de prejudicarem a empresa detentora do posto, estão a pôr em causa postos de trabalho". Por fim, deixou-lhes um bom conselho: "Deixem de assaltar e vão trabalhar, que é melhor". Trata-se de uma táctica (alertar para riscos de encerramento de postos de trabalho) que tem dado excelentes resultados às empresas na Concertação Social e nos assaltos anuais dos sindicatos por melhores condições salariais. Pode ser que também funcione com encapuzados.

terça-feira, setembro 02, 2008

Vai na volta...


Vai na volta... sou campeão olímpico e não sei!!!
Com tanto fingimento em Pequim (fogo de artifício encenado, menina a cantar em playback, a Orquestra Sinfónica de Sidney, afinal fingiu tocar o que tinha sido pré-gravado pela Orquestra Sinfónica de Melbourne em estúdio...), vai na volta o salto do Nelson Évora também foi pré-gravado e sou eu o detentor do salto, não?! ;-)

sexta-feira, agosto 29, 2008

Xaile


Com as Xaile redescobri o que é apaixonarmo-nos à primeira vista.
Quando as vi na apresentação da SIC Notícias, apaixonei-me de imediato por uma menina que tocava cavaquinho, que vim mais tarde a saber chamar-se Bia! ;-)
A música, as letras, a energia e a alegria, fizeram o resto, contagiaram-me!
Tendo estado lado a lado com a Bia durante o ensaio da apresentação na FNAC do Gaia Shopping, a sempre presente timidez impediu-me de dizer o que quer que fosse.
Nas férias deste verão, tendo ido para S. Martinho do Porto, soube que estariam em Alcobaça, e claro lá fui eu ao concerto! ;-)
De volta ao Porto, tinha como prenda de aniversário, do meu pai e da sua Sal, o CD delas. Obrigado!
Afinal, ainda se podem ter paixões platónicas aos 32! ;-)
Divirtam-se a "Xailar!"

Gui




Entrevista e ensaios




Entrevista e ensaios




Entrevista e ensaios




Entrevista e ensaios




Ensaios




Ai linda, linda




Quer eu queira, quer não




E Nós, A ver o mar




Haja Saúde




Pintar a Verdade




Triste Sina Não Saber




Aquele Maio




Alcobaça, 22 de Agosto de 2008

terça-feira, agosto 26, 2008

SOS

Eternamente a sós
Bramando um SOS
Barata tonta perdida
Nos novelos desta floresta ardida

Haverá sempre mais
Do que o mais diante de nós?
Estaremos mesmo a sós?

Guilherme Rietsch Monteiro
São Martinho do Porto
18 de Agosto de 2008

segunda-feira, agosto 25, 2008

Porque esperas?

Espera só um bocadinho
Para!
Fecha os olhos.
O que vês?
O que ouves?
O que sobra quanda páras?
Porque corres?
A tua vida faz algum sentido?
E na rádio ouve-se:
"Um homem corre na noite
É uma imagem banal..."
Até quando?

Guilherme Rietsch Monteiro
São Martinho do Porto
18 de Agosto de 2008

sexta-feira, agosto 01, 2008

E a medalha da hipocrisia vai para?!

Manuel António Pina em JN


O COI prevê 40 casos de "doping" nos Jogos Olímpicos de Pequim. Nem 39 nem 41, exactamente 40. Só lhe falta anunciar o nome dos atletas que irão dopar-se, porque o COI tem tudo previsto.

A única coisa que o COI, pelos vistos, não previu foi que a China se estaria nas tintas para a promessa de que espezinharia um pouco menos os direitos humanos antes e durante os Jogos.

De facto, segundo a AI, "em algumas situações, pode mesmo dizer-se que (as autoridades chinesas) se serviram dos Jogos para intensificar as violações e as repressões", assegurando desde já medalhas de ouro nas modalidades de pena de morte, tortura, prisões arbitrárias e perseguição de dissidentes e "indesejáveis" (impedidos de falar com estrangeiros ou de entrarem em Pequim durante os Jogos).

E, claro, a mais disputada de todas, a da censura, que agora abrange também os jornalistas estrangeiros que cobrem o evento, proibidos de aceder a "sites" como os da AI, da BBC, da Deutsche Welle ou de jornais de Hong-Kong e Taiwan. O COI diz-se "decepcionado" com a situação. Já ganhou também uma medalha de ouro, a da hipocrisia.

Pedro e o Lobo...

Manuel António Pina in JN


Portugal parou ontem com a notícia de que o presidente da República interrompera as férias para fazer uma comunicação "verdadeiramente importante" ao país.

Os cafés, a rua, a blogosfera, os jornais "online", interrogavam-se sobre o que levaria o presidente a deixar a praia (enfim, o céu estava um pouco nublado e o tempo prometia chuva, mas isso não era suficiente) para ir a Belém falar às televisões à hora dos telejornais.

Seria a lei do divórcio?, a crise petrolífera e o regresso do "nuclear sim, sff" do sr. Patrick Monteiro?, o primeiro computador português, o Magalhães, que afinal não é primeiro, nem é português, nem é Magalhães?, iria Cavaco Silva demitir o Governo? Também eu, às 20 em ponto, estava em ânsias diante do televisor (cá para mim, a comunicação era sobre o João Moutinho).

Afinal era sobre uns artigos do Estatuto dos Açores, e o país soltou um grande suspiro de alívio. Às 20 e 15 já tudo voltara à normalidade. E eu, desligado o televisor, voltara a O'Neill: "Encontro um resmunguarda que me intima/ a parar // Seria por suspeita? Seria por rotina? / Não. Foi para conversar…"

quinta-feira, julho 31, 2008

Individualismo

José Luis Peixoto in Diário de Notícias

"Vivemos num individualismo muito cru. As pessoas são levadas a acreditar que a promoção do conforto físico e das aparências é o que mais conta. Existe uma desvalorização do conforto afectivo e moral. Existe a ideia errada de que podemos ser felizes sozinhos ou, pior ainda, contra os outros. "

Não nos interessa

"Roubei" o seguinte comentário daqui

Se sermos nós próprios não chega;
Se por equiparação com terceiros, não somos aceites;
Se olhando para nós, não é a nós que nos vêm;

Então...

Não interessa!
A pessoa não nos interessa!
A relação não nos interessa!

Porque nós, nunca seremos suficientes;
E nós, nunca teremos, o que no fundo merecemos.

Eu não sei dizer

O silêncio, deixa-me ileso
E que importância tem?
Se assim, tu vês em mim
Alguém melhor que alguém
Sei que minto, pois o que sinto
Não é diferente de ti
Não cedo, este segredo
É frágil e é meu
Eu não sei...Tanto, sobre tanta coisa
Que às vezes tenho medo
De dizer aquelas coisas
Que fazem chorar
Quem te disse, coisas tristes
Não era igual a mim
Sim, eu sei, que choro
Mas eu posso, querer diferente para ti
Eu não sei...Tanto, sobre tanta coisa
Que às vezes tenho medo
De dizer aquelas coisas
Que fazem chorar
E não me perguntes nada
Eu não sei dizer...

sábado, julho 26, 2008

Zeca Afonso

O que faz falta




Traz Um Amigo Também



A Formiga No Carreiro



Venham Mais Cinco



Zeca eterno, mas sobretudo actual.

Viver ou Morrer pela Liberdade!

sexta-feira, julho 25, 2008

O pulso

Arnaldo Antunes / Tony Bellotto / Marcelo Fromer - 1989

O pulso ainda pulsa
O pulso ainda pulsa
Peste bubônica câncer pneumonia
Raiva rubéola tuberculose anemia
Rancor cisticircose caxumba difteria
Encefalite faringite gripe leucemia
O pulso ainda pulsa
O pulso ainda pulsa
Hepatite escarlatina estupidez paralisia
Toxoplasmose sarampo esquizofrenia
Úlcera trombose coqueluche hipocondria
Sífilis ciúmes asma cleptomania
O corpo ainda é pouco
O corpo ainda é pouco
Reumatismo raquitismo cistite disritmia
Hérnia pediculose tétano hipocrisia
Brucelose febre tifóide arteriosclerose miopia
Catapora culpa cárie câimbra lepra afasia
O pulso ainda pulsa
O corpo ainda é pouco

Contato Imediato

Arnaldo Antunes / Marisa Monte / Carlinhos Brown

peço por favor
se alguém de longe me escutar
que venha aqui pra me buscar
me leve para passear

no seu disco voador
como um enorme carrossel
atravessando o azul do céu
até pousar no meu quintal

se o pensamento duvidar
todos os meus poros vão dizer
estou pronto para embarcar
sem me preocupar e sem temer

vem me levar
para um lugar
longe daqui
livre para navegar
no espaço sideral
porque sei que sou

semelhante de você
diferente de você
passageiro de você
à espera de você

no seu balão de São João
que caia bem na minha mão
ou numa pipa de papel
me leve para além do céu

se o coração disparar
quando eu levantar os pés do chão
a imensidão vai me abraçar
e acalmar a minha pulsação

longe de mim
solto no ar
dentro do amor
livre para navegar
indo para onde for
o seu disco voador

O silêncio

Arnaldo Antunes / Carlinhos Brown - 1996

antes de existir computador existia tevê
antes de existir tevê existia luz elétrica
antes de existir luz elétrica existia bicicleta
antes de existir bicicleta existia enciclopédia
antes de existir enciclopédia existia alfabeto
antes de existir alfabeto existia a voz
antes de existir a voz existia o silêncio
o silêncio
foi a primeira coisa que existiu
um silêncio que ninguém ouviu
astro pelo céu em movimento
e o som do gelo derretendo
o barulho do cabelo em crescimento
e a música do vento
e a matéria em decomposição
a barriga digerindo o pão
explosão de semente sob o chão
diamante nascendo do carvão
homem pedra planta bicho flor
luz elétrica tevê computador
batedeira, liquidificador
vamos ouvir esse silêncio meu amor
amplificado no amplificador
do estetoscópio do doutor
no lado esquerdo do peito, esse tambor

Num dia

Arnaldo Antunes / Hélder Gonçalves / Manuela Azevedo / Chico Salém
in, Qualquer

sujar o pé de areia pra depois lavar na água
lavar o pé na água pra depois sujar de areia
esperar o vaga-lume piscar outra vez
ouvir a onda mais distante por trás da onda mais próxima
sujar o pé de areia pra depois lavar na água

respirar
sentir o sabor do que comer
caminhar
se chover, tomar chuva
não esperar nada acontecer
ser gentil com qualquer pessoa

sujar o pé de areia pra depois lavar na água
lavar o pé na água pra depois sujar de areia
esperar o vaga-lume piscar outra vez
ouvir a onda mais distante por trás da onda mais próxima

respirar
sentir o sabor do que comer
caminhar
se chover, tomar chuva
ter saudade no final da tarde
para quando escurecer esquecer
ao se deitar para dormir, dormir

Eu não vou me adaptar

Arnaldo Antunes - 1985

Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia.
Eu não encho mais a casa de alegria.
Os anos se passaram enquanto eu dormia,
E quem eu queria bem me esquecia.

Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar.

Eu não tenho mais a cara que eu tinha,
No espelho essa cara não é minha.
Mas é que quando eu me toquei, achei tão estranho,
A minha barba estava desse tamanho.

Será que eu falei o que ninguém dizia?
Será que eu escutei o que ninguém ouvia?
Eu não vou me adaptar.

O quê

Arnaldo Antunes - 1987

Que não é o que não pode ser que
Não é o que não pode
Ser que não é
O que não pode ser que não
É o que não
Pode ser
Que não
É
O que não pode ser que
Não é o que não pode ser
Que não é o que
O que?
O que?
O que?
Que não é o que não pode ser que não é

Se tudo pode acontecer

Arnaldo Antunes / Alice Ruiz / Paulo Tatit / João Bandeira - 2001

se tudo pode acontecer
se pode acontecer
qualquer coisa
um deserto florescer
uma nuvem cheia não chover

pode alguém aparecer
e acontecer de ser você
um cometa vir ao chão
um relâmpago na escuridão

e a gente caminhando
de mão dada
de qualquer maneira
eu quero que esse momento
dure a vida inteira
e além da vida
ainda de manhã
no outro dia
se for eu e você
se assim acontecer

Sem você

Arnaldo Antunes / Carlinhos Brown

pra onde eu vou agora livre mas sem você?
pra onde ir o que fazer como eu vou viver?
eu gosto de ficar só
mas gosto mais de você
eu gosto da luz do sol
mas chove sempre agora
sem você
sem você
sem você
sem você

às vezes acredito em mim mas às vezes não
às vezes tiro o meu destino da minha mão
talvez eu corte o cabelo
talvez eu fique feliz
talvez eu perca a cabeça
talvez esqueça e cresça
sem você
sem você
sem você
sem você

talvez precise de colchão, talvez baste o chão
talvez no vigésimo andar, talvez no porão
talvez eu mate o que fui
talvez imite o que sou
talvez eu tema o que vem
talvez te ame ainda
sem você
sem você
sem você
sem você

quinta-feira, julho 24, 2008

Compaixão


Enquanto procurava a letra da canção "Socorro" de Arnaldo Antunes, encontrei um texto que fala da canção, e que por ter gostado, partilho convosco.

O texto encontra-se publicado aqui e é o seguinte:

Compaixão

Fátima Regina Flórido Cesar de Alencastro Graça

Maria, 19 anos, queixa-se de tédio e sentimento de vazio. Na experiência com ela, a analista vê refletida sua própria adolescência: "a palavra do paciente pode funcionar como interpretação do recalcado do analista" (Fédida).


"Pessoas pertencidas de abandono me comovem:

tanto quanto as soberbas coisas ínfimas."

Manoel de Barros, Retrato do artista quando coisa.

Maria! Maria!


...Tudo começou com a chegada de Maria. Ou melhor, eu que cheguei até ela. Antivirtuosa, anjo às avessas. "Não sou simpática. Não sou amorosa. Por que você gosta de mim?" Outra vez: "Por que você gosta tanto de mim?".

Porque Maria é daquelas moças, antiboa moça, anti-Patricinha, que mal consegue sustentar um sorriso. Rosto crispado de angústias que não se disfarçam. E se existem esforços para disfarçar... Ah! Em vão! Mas não pensem que tenho aqui a virtude do amor ao feio e ao torto e ao impuro. Maria é meu anjo torto, é verdade (um dia me falara de um quadro – que gosta muito – de anjos distorcidos. Você anjo distorcido; você que disfarça sua bondade). Quando olho Maria (com todos os meus olhos, com tudo que é possível ser visto por mim), enxergo / suspeito / a beleza / a potência que é (in) visível em Maria encoberta, as forças, a beleza de turbulências e trevas.

Para mim Maria é encantadora; e tem o encanto – não de almas fáceis – mas dessas subjetividades aflitas, "vida a vida", "móvel-mar..." Lolita maldita! O encanto vem dali onde acredito na saída, na crença de que a crise é caminho/passagem para a não permanência no mesmo. Eu carrego a esperança que Maria mal experimenta e me alegro tanto. O encanto vem dali onde nossas juventudes se entrelaçam. Nossos dezenove anos, sua juventude transviada, minha juventude quase transviada. Perdições, paz que não vem de graça, de quando se nasce e pronto. Minha adolescência veloz comparece e sua adolescência grita de dor:

"Dezenove anos. Não fiz nada! Tudo errado: má aluna, má filha, má amiga. Só revolta, uma fome permanente de detonar".

E os livros que tanto lê? As músicas? Às formas ela se rebela. Qualquer forma aprisiona? Ódio às formas e depois o vazio! Por que não tem valor aos olhos de Maria a matéria informe dos livros, poesias, devaneios? O sonho não é capital. "O que vale ser sensível? Meus amigos gays, amigos loucos, drogados: Não há salvação!"

(Calma, garota! e eu tenho que controlar-me para não devorá-la com cuidados e esperança e lembranças. Vai dar tudo certo, alguém já me falou um dia e eu tento silenciar.)

Não sei o tamanho da angústia de Maria. Deve ser grande, porque a dor já se mostra no rosto. As "esquisitices internas" já se fazem visíveis, nos gestos impensados, nas respostas atravessadas, nas interrupções de conversas. E sempre uma tentativa de sorriso, um esboço que não vinga, que não se sustenta. Maria. Maria só dor. (Cuidado, vê se não a atropela com sua alegria! Calma garota, calma eu!).

Gosta muito de Clarice (Lispector) (aqui na cidade é verdadeira raridade: uma menina com tais interesses!). As anti-heroínas claricianas, Joana, Sofia e Maria podia ser mais uma.

Na primeira sessão, a primeira pergunta: Você acredita em Deus? Você acredita em Deus? Em busca da fé. "Ora sou rebelde, ora visto uma saia de seda nas bodas de minha mãe. Cada hora sou de um jeito". (Mas, garota onde te ensinaram que nós somos apenas um?)

Às voltas com sua indiferença. "Sou má". Sua mãe infeliz chora a juventude perdida, chora ouvindo Roberto Carlos chora os mortos, os doentes, os infelizes. "Eu sou insensível".

A indiferença de Maria será a indiferença oculta de vulcões? Ou será mesmo a indiferença o "berçário da compaixão?"

Ajude-me a não atropelá-la com meus dezenove anos. Vamos aprender juntas a aguardar o sentido... Um tempo/espaço vazio, compartimento vizinho do ódio (ódio ao preconceito, à formas não autênticas de vida. Quando qualquer concessão à máscaras pode significar a morte).

Que eu sobreviva à indiferença e ao ódio de Maria!

Que o mundo sobreviva....

Que Deus que Maria tanto procura.

Foi então que chegou de outro tempo (de minha própria adolescência) a lembrança de Abraxas... Esse Deus serviria para Maria?

Tudo começou...

Abraxas


"A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir um mundo. A ave voa para Deus. E o deus se chama Abraxas."1

Meus encontros com Maria me remetem à minha própria adolescência, muito mais que qualquer outra adolescente que até hoje eu tenha atendido. Lembrei-me então de Hesse, autor que Maria não conhece. Lembrei-me de Abraxas, um deus que talvez comovesse Maria.

A melancolia de sua mãe deita-se como uma sombra em cima de sua vida. Assim repudia o bom e o piedoso, que identifica na figura materna. Abomina as sensibilidades piegas. Hard! Punk! Adora "Tarantino" (Quentin). "Eu sou feita de lama imunda"2 . Busca destruir o "mundo luminoso", e apropriar-se da maldade (agressividade): "minha maldade vem do mau acomodamento da alma no corpo. Ela é apertada, falta-lhe espaço interior"3, que sua mãe varreu pra baixo do tapete da vida e mais e mais quem sabe, as gerações que antecederam a mãe e sua própria tristeza. Destruir (até) os mundos de seus ancestrais4 . O mundo escuro é onde se refugia com amigos dilacerados. Mundo das drogas (eventuais?!) e dos bares sujos. "A feiúra é o meu estandarte de guerra. Eu amo o feio como um amor de igual para igual. E desafio a morte"5 . Chora num show de Marisa Monte assim como sua mãe chora com Roberto Carlos.

"Eu não gosto do bom gosto

Eu não gosto do bom senso

Eu não gosto dos bons modos

Não gosto.

...

Eu gosto dos que têm fome

Dos que morrem de vontade

Dos que secam de desejo

Dos que ardem..."6

Renato Russo, Cazuza, Clarice, Pessoa, Adélia Prado, Fernanda Young, Arnaldo Antunes, Machado de Assis... "Beleza de escuras" (Clarice lhe diria).

Mas no mundo dos sensíveis não haverá lugar para a alegria?

Foi assim que lembrei dos dois mundos entre os quais, Sinclair, o jovem amigo de Demian, vivia:

"Dois mundos diversos ali se confundiam; o dia e a noite pareciam provir de pólos distintos.

Desses dois mundos, um se reduzia à casa paterna, e nem mesmo a abarcava toda; na verdade, compreendia apenas as pessoas de meus pais. Esse mundo era-me perfeitamente conhecido em sua maior parte; suas principais palavras eram papai e mamãe, amor e severidade, exemplo e educação. Seus atributos eram a luz, a claridade, a limpeza. As palavras carinhosas, as mãos lavadas, as roupas limpas e os bons costumes nele tinham centro. Nele se cantavam os coros matutinos e se festejava o Natal. Nesse mundo havia linhas retas e caminhos que conduziam diretamente ao porvir; havia o dever e a culpa, o remorso e a confissão, o perdão e as boas intenções, o amor e a veneração, os versículos da Bíblia e a sabedoria. Nesse mundo devia-se permanecer para que a vida fosse clara e limpa, bela e ordenada.

O outro mundo começava – curioso – em meio à nossa própria casa, mas era completamente diferente: tinha outro odor, falava de maneira diversa, prometia e exigia outras coisas. Nesse segundo universo havia criadas e aprendizes, histórias de fantasmas e rumores de escândalo; havia um onda multiforme de coisas monstruosas, atraentes, terríveis e enigmáticas, coisas como matadouro e a prisão, homens embriagados e mulheres escandalosas, vacas que pariam e cavalos que tombavam ao solo; histórias de roubos, assassinatos e suicídios... enfim, por todo lado brotava e fluía esse outro mundo impetuoso, em todo lado menos em nossos aposentos, ali onde estavam meu pai e minha mãe. E isso era magnífico. Era maravilhoso que ali em casa houvesse paz, ordem, repouso, deveres cumpridos e consciência tranqüila, perdão e amor...; mas era também admirável que existisse aquilo tudo mais: o estrepitoso e o agudo, o sombrio e o violento, de que se podia escapar imediatamente, refugiando-se quase de um salto no regaço maternal."7

Maria não quer uma "bondade fácil". Até porque não pode, já que não tolera falsas soluções. Apresenta uma "moralidade feroz"8. Busca criar, em cima do que destrói.

Foi por isso que pensei em Abraxas, o deus de Demian e Sinclair, que reunia em si o mundo luminoso e o mundo escuro: "divindade dotada da função simbólica de reunir em si o divino e o demoníaco"9.

Na verdade, o que quero dizer com isso é que para Maria "construir" (ela assim se queixa, que nada faz, nada cria) teria/tem que acolher em si sua própria destrutividade. Ela não tolera deuses piegas. Que fé procura?

(A busca da esperança). Segundo Winnicott, a construtividade precisa estar fundada no sentimento de culpa em relação à aceitação da própria destrutividade. Para chegar ao "Deus da bondade pura" Maria precisa atravessar o inferno de sua própria maldade e mesmo de seus não-sentimentos. (Ah... Adélia Prado ensina: "O inferno também está em Deus"). Para ela não há a facilidade da piedade e se existe um caminho de comunicação com o outro este só pode desembocar/desabrochar na compaixão. Quando assusta/aterroriza sua mãe com sua parte maldita é para ser aceita em sua totalidade (como diz Winnicott, os pais devem aceitar que os filhos se encontrem em sua totalidade, e não apenas em seus aspectos construtivos).

Rebelde como sua mãe fora um dia e depois nevermore. A rebeldia em sua mãe transformou-se em amargura: um sentimento de não existência, de infelicidade. Adeus à sensualidade.

Amor impiedoso, a destruição fazendo parte do amor. Por isso Clarice: Maria que podia ser Sofia, que podia ser Joana, as anti-heroínas com sua "paixão pelo mal", com seu "exercício de crueldade"10, que precisam destruir mundos (mundos luminosos? Do bom gosto!) para vir à luz.

O mal irrompe como elemento desestruturador que desorganiza forças estabelecidas, que "bagunça radicalmente coretos", que funda alteridades. E eu preciso sobreviver ao seu não-sentimento ou à sua fúria, ou desdém: "hoje eu não tive vontade de ir". "Por que você pergunta como assim? Odeio quando fala assim: coisa de psicólogo".

O não sentir conduz a um (outro tipo) de inferno: o de não existir e não se sentir real. Ela me oferece a música de Arnaldo Antunes que expressa tão bem sua vivência de vazio e falta de sentido.

A letra diz:

"Socorro, eu não estou sentindo nada

Nem medo, nem calor, nem fogo/ Não vai dar mais para chorar, nem para rir / Socorro, alguma alma mesmo que penada / me entregue suas penas / Já não sinto amor, nem dor / já não sinto nada / Socorro, alguém me dê um coração / Que esse já não bate nem apanha / Por favor, uma emoção pequena, qualquer coisa / Qualquer coisa que se sinta? Tem tanto sentimento / Deve ter alguma que sirva / Socorro, alguma rua que me dê sentido / Em qualquer cruzamento, acostamento, encruzilhada / Socorro, eu já não sinto mais nada."

A oposição às vezes é o único recurso que se tem para se sentir existindo. Reajo, logo (parece que) eu existo. Mas dura pouco e renovam-se os ataques até que se espere o tempo suficiente de atravessar/transpor a "zona de calmarias"11.

Segundo Winnicott, os adolescentes rejeitam falsas soluções ou "curas imediatas", ao invés, vêem-se obrigados a "transpor uma espécie de zona de calmarias, uma fase em que se sentem fúteis e ainda não se encontraram"12. Os pais e a sociedade não podem se apressar, e tentar "curá-lo de sua adolescência".

É preciso tempo.

Como disse Françoise Dolto, referindo-se aos adolescentes, "nem tudo que tende para frente é porque vai cair". Penso que Maria tentou várias soluções, como por exemplo, sua casca áspera e dura, para evitar.

O colapso


Noites sem dormir. Dias sem fome. Angústia, medo de multidão, falta de ar, medo de... medo de.... e "medo puro". Choro compulsivo sem motivo. Um grande susto: "nunca me aconteceu isso! Não sei porque choro sem motivo". No meio do filme De olhos bem fechados, pânico. Acho que vou morrer, implora aos pais que a levem ao hospital. Alguém sugere que vá a um psiquiatra, que tome remédio. Ela quer diminuir a dor. Os cuidados da mãe (que está apavorada) a tranqüilizam um pouco. Aos poucos a dor ganha um contorno; a agonia, pensável. Não é mais possível espernear no colo como sempre. Está cansada (como Clarice no vídeo que tanto a emocionou). Teme enlouquecer.

A mãe por sua vez busca desesperadamente oferecer aquilo que Maria necessita.

Para Winnicott, "a organização que torna a regressão útil se distingue das outras organizações defensivas pelo fato de carregar consigo a esperança de uma nova oportunidade de descongelamento da situação congelada e de proporcionar ao meio ambiente, isto é, o meio ambiente atual, a chance de fazer uma adaptação adequada, apesar de atrasada"13. Penso que Maria está se/nos dando uma chance, de tentar oferecer um cuidado adequado.

A falência das defesas, das forças falseadas.

Numa de suas noites de terror (Por que à noite o pavor? – "O entardecer é o desembocar de todas as ausências"14) vai com sua grande amiga dormir na casa dos pais num casebre (de chão de terra) e lá recomeça o pânico. A mãe da menina – "gostei tanto dela, eles são simples, sabe" – lhe oferece chá de erva cidreira explicando que é calmante. (Até então falava: "nada me acalma, 'Olcadil’ pra mim é igual a água"). Tranqüiliza-se. Agora aonde vai, leva um pacote de chá de erva-cidreira.

Volta e meia fala: "eu quero pouco eu quero o simples. Um dia meu tio perguntou: ‘o que você pedir de aniversário eu compro.' Mas eu não quero, quero apenas que você veja algo e pense ‘isso parece com Maria". É o gesto necessário e exato que procura.

A falha da analista ocorre principalmente quando não se corresponde à sua fome do essencial. É quando, ela muito apropriadamente, "debocha" de mim, de qualquer coisa que "não cheire a verdadeiro"... Se me equivoco e sou desastrada nos gestos, desperdiço seu pedido: "O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno"15.

Pede sessões extras. Chega ferida, quase mansa, suas unhas-garras não mais arranham, chora e diz que nunca falou "eu te amo" ou "eu gosto", sabe de sua própria aspereza. Numa tentativa de conviver com o "mundo luminoso" vai a um churrasco com "pessoas normais". O incômodo de conviver não é porque os outros, aqueles do "mundo luminoso", são babacas. Por trás do sentimento de superioridade: "dói porque eles experimentam uma coisa que eu não conheço: felicidade". É como se dissesse:

Eu sou humana, cara!


"De que você pensa que são feitas as minhas mãos? De ferro? De madeira? De cimento? Elas são feitas de carne, cara. Eu sou humana, cara. Devo gritar isso? Sou humana. Está me ouvindo? Sou humana. Minhas mãos são feitas da carne que dois pregos podem atravessar furando buracos a caminho da madeira da cruz. Minhas mãos são feitas da carne que ejacula sangue, sou humana, cara."16

O mundo apresentado a Maria foi/é um mundo inóspito, cruel, uma vida sem brilho, onde o desencanto é o único horizonte possível. O processo de desilusão longe de ter sido lento e gradativo, desenvolveu-se veloz e absoluto. Se o pânico corresponde a "um estado psicopatológico que se instaura quando não houve as condições para uma subjetivação tolerável da condição fundamental de desamparo"17, no plano da articulação simbólica, um ataque de pânico estrutura-se como um pedido transcendente de amor, dirigido a um "Outro idealizado e onipotente, colocado numa posição divina que garantiria pela sua ternura a proteção do sujeito contra o desamparo"18.

Ela escreve e me dá:

"Pânico"


Hoje minha respiração parou

momentaneamente

e nos dois segundos em que chorei

por falta de vida

A morte dolorosa que imaginei não aconteceu

Por duas vezes eu perdi o sol

a chuva que caía

perdi a batida lenta do meu

coração

A batida dos carros na esquina

Deixei de ver o momento

e só senti a escuridão

e a escuridão não tem cheiro

de flores

apenas dois segundos

e vinte anos se passaram

Como se não pudesse viver mais vinte anos

e vinte anos de existência

eu perdi durante dois segundos

não sorri com a passagem de menina

não sofri com a falta do menino

não consegui ver da janela

a bicicleta que corria

e os dois segundos se passaram

e eu tive mais dois segundos para viver".

Quando perguntei se podia incluir o poema "Pânico" num trabalho, ironicamente me questiona: "Por quê? Se você tem a Clarice?".

Flor de cactus, pensei.

Mãe perua – filha trash


Mário Eduardo Costa Pereira adverte ainda que a noção de desamparo não deve deixar de fora a dimensão sexual: a crise de pânico emerge no encontro com a falta de garantias frente à própria pulsionalidade.

Uma das grandes questões/dores da mãe de Maria se liga ao não vivido no plano sexual. Na juventude, linda saindo e vista como puta por sua própria mãe. Depois engorda e lamenta o tempo perdido, o amor não encontrado, o casamento-vazio sem emoções. A filha, de seu lado, que nunca se apaixonou, que se deita e depois nem lembra que sexo existe.

O morrer-em-vida de sua mãe cai sobre sua vida e Maria se sente sufocada, desaprovada em seu estilo quando a mãe insiste: "coloque um batom. Parece uma mendiga". Ao menos, os anéis, vários, que brilham nos dedos. Único luxo? A mãe que a sufoca com tantos presentes que nunca usará, apenas os anéis. Sua mãe que queria ser "perua". Fica confusa por causa do ódio à mãe, já que esta é tão presente e quer tanto que ela fique bem. Mas não sabe como. (Com carro novo? Roupas? Livros? Anéis).

Idas e vindas na relação com a mãe. Confrontos violentos. Por que não é possível ser igual às outras garotas? Por que os amigos não podem ser normais? E Maria, entre a culpa e a insistência aflita. Não é uma busca qualquer: é a obstinada e desesperada busca – "de arrancar da mãe o direito de ser ela própria19".

E o pai? Tudo sobre a mãe. Quase nada sobre o pai.

Saudade20


Maria observa o mundo com um olhar de estranhamento. E esse olhar, que já existia na infância (do pouco que se lembra dela), se acentua na adolescência – tempo em que desembocam as angústias (e as ausências). (O uso freqüente dos óculos escuros ocultando o olhar terrível!). Olhar de asco diante do não-humano. Então o impasse: entre a necessidade (por vezes desesperada) de entrar no mundo e o temor de perder esse olhar/lugar profundamente ético. Será possível acontecer no mundo e experimentar a alegria sem que se traia a sua fome do essencial, sem que se perca a delicada escuta de qualquer grito parado no ar? Na parede do quarto: "O Grito" (de Munch). O grito. Na parede do quarto fotos e fotos e fotos das "pessoas especiais" que a ajudam a sair do isolamento. Com eles e elas dialoga sobre a miséria humana e as alegrias possíveis.

Quando partem, o despencar no vazio. Para onde as pessoas vão quando partem? Por que te vas? A pior dor, a dor que mais dói é a saudade. Ah... como é lindo o que Clarice diz... (Os dois portais por onde Maria entra no mundo: pela ética e pela beleza. Às vezes beleza terrível):

"Saudade

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida."21

Enquanto espera, a companhia da poesia...


Eu sempre sonho que uma

coisa gera,

nunca nada está morto.

O que não parece vivo,

aduba.

O que parece estático, espera22


Tem sido na companhia dos poetas, da literatura, de filmes, de alguns poucos amigos (tão perdidos e sensíveis quanto ela) que Maria encontra interlocução. Como diz Safra, o rosto humano não é para ser encontrado apenas na mãe, mas ainda na cultura, no mundo, no social: "Há pacientes que vivem na queda de si mesmo e na queda do mundo. A poesia tem um valor semelhante ao ícone: devolve o rosto humano ao ser humano. É possível encontrar um poeta (como Fernando Pessoa ou Clarice) antes de encontrar alguém como interlocutor. É uma estética que revela o ser."23

Gilberto Safra, em seu livro A face estética do self enfatiza o estético – o sensorial – "objetos na sua materialidade, e nas suas formas, os corpos, os gestos, as dimensões do mundo – tempos, espaços, sons, cores, movimentos, ritmos – são tratados como as raízes e os ingredientes básicos de processos de constituição do self."24

O autor ali esclarece que utiliza o termo estético "para abordar o fenômeno pelo qual o indivíduo cria uma forma imagética, sensorial, que veicula sensações de agrado, encanto, temor, horror, etc... Estas imagens, quando atualizadas pela presença de um outro significativo, permitem que a pessoa constitua os fundamentos ou aspectos de seu self, podendo então existir no mundo humano"25.

Se a linguagem discursiva é tão valorizada no mundo ocidental e na psicanálise, há também uma evolução do objeto sensorial, ao longo do processo maturacional:

"Há o objeto subjetivo, que inicia a constituição do self; o objeto transicional, primeira possessão não-eu; o objeto de self, articulação simbólica de um estilo de ser; o objeto de self na cultura, conectando o sujeito à história do homem; o objeto de self artístico-religioso, apresentando o vértice estético e sagrado e inserindo o homem na atemporalidade da experiência humana" 26.

Maria e eu temos trabalhado principalmente em torno de objetos da cultura compartilhados por nós duas – nos quais ela se ancora, dando um uso pessoal27, e dessa forma sendo-lhe possível aos poucos tomar contato com sua capacidade criativa. Lugares-espaços-objetos que amenizam a dor do exílio e lhe dão a sensação de: "pensei que até pode ser que a vida valha a pena". Se, porventura, à mãe não foi possível devolver-lhe um olhar humano, os objetos da cultura a refletem.

Isso é tão urgente, que aquilo que não a reflete é repudiado!

Embora interpretações verbais sejam feitas, esse espaço de encontro se dá muito mais em torno desses objetos. Sendo assim, a sessão se apresenta mais como um espaço de experiência, do que de deciframento. Uma vez que o encontro se dá em torno principalmente de objetos materiais as interpretações acontecem na verdade, focando aqueles aspectos do self que são refletidos pelo objeto. Já os lugares-pessoas-objetos que não a espelham são vividos como não-lugares, espaços de abandono e desamparo.

O que eu posso lhe oferecer e o que ela necessita de mim?

Não é qualquer coisa: os cacoetes/códigos pré-definidos são desmontados com ironia, sem dó. "A fala tem que ser um dizer" (Safra). Rumble Fish, que não pode ser aprisionado, que desliza num setting criado a dois, cheio de portas e janelas, com espaço para silêncios e não-comunicação.

Se ela está na porta do mundo, não sou eu que tenho a chave, estou ali como (mais um) "representante da humanidade", sou alguém com quem é possível dialogar. Buscamos juntas compreender seus movimentos e não-movimentos aflitos; mas se o sentido não vem, o melhor é aguardar lendo Adélia Prado ou "praticando silêncios" (não, não – "são os silêncios que nos praticam", como diz Manoel de Barros).

É assim que Maria e eu nos comunicamos em torno do espaço potencial / zona de sonho em que circulam sentidos, objetos compartilhados, livros, textos, discos de Renato Russo, filmes, Adriana Calcanhoto, "cores de Frida Kahlo", "cores de Almodóvar". Um dia, conversando sobre o filme "Cria cuervos" comentei que gostava muito da cena em que o pequena Ana dançava uma música, que eu tinha o disco e o havia perdido. Ela me presenteia com a notícia que o Pato Fu!? havia gravado a tal música e me oferece uma fita cassete.

São oásis. Brechas num mundo não humano, possibilidades sagradas / preciosas de comunicação.

Ana-Maria-eu na dança da dor da perda do amor / Dança de tempos sobrepostos, almas entrelaçadas: chora-se a morte da mãe/do pai e do amante que partiu ou que um dia quem sabe partirá:


"Porque te vas

Hoy en mi ventana brilla el sol

Y el corazón se pone triste contemplando

la ciudad

Porque te vas

Como cada noche desperté pensando en ti

Y en mi reloj todas las horas vi pasar

Porque te vas

Todas las promesas de mi amor se irán

contigo

Me olvidarás, me olvidarás

Junto a la estación lloraré igual que un

niño

Porque te vas, porque te vas

Bajo la penumbra de un farol se

dormirán

Todas las cosas que quedaron por decir

se dormirán

Junto a las manillas de un reloj

despejarán

Todas las horas que quedaron por vivir

Esperarán" (José Luís Perales)

Enfim, Compaixão!


Comecei a escrever sobre Maria pensando em compaixão. Por quê?

Suas queixas de indiferença, ou de maldade, ou de uma sensibilidade não voltada para o fácil me fizeram lembrar o caminho de construção de minha própria compaixão. Também constituída na travessia de desertos de vazios ou vulcões de raivas e desamores. Compaixão que não exclui negativos. Este texto é também um passeio/re-visitação aos objetos que me fizeram companhia na minha travessia adolescente.

Se podemos falar de virtudes necessárias à clínica, a compaixão será das mais fundamentais? Não aquela que é puro sentimentalismo, piedade, ou compaixão vedante (que Dolto diferencia de compaixão estruturante28); mas que se sustenta na identificação com o outro, em sua totalidade (incluindo os aspectos destrutivos): "A compaixão é a simpatia na dor ou na tristeza, em outras palavras, é participar do sentimento do outro"29

Diferente da piedade que ressalta a insuficiência de seu objeto, "a compaixão, é um sentimento horizontal, só tem sentido entre iguais, ou antes, e melhor, ela realiza essa igualdade entre aquele que sofre e aquele (ao lado dele, e portanto, no mesmo plano) que comparti- lha do seu sofrimento. Nesse sentido, não há piedade sem uma par- te de desprezo; não há compaixão sem respeito"30.

A compaixão liga-se com um "respeito fundante" (não moral) pela singularidade da natureza humana que aí está. A compaixão permite a passagem da ordem afetiva à ordem ética.

"Compadece-te e faz o que deves" – passa-se assim da ordem do sentimento ao "que devemos". E se pensamos que em relação ao que devemos – em outros tempos/termos – se falaria em técnica, aqui eu pensaria em ética. Não é um dever senti-la (a compaixão), mas desenvolver em si a capacidade de senti-la.

No dizer de Françoise Dolto:

"A ética do humano, na medida do seu desenvolvimento, leva-o a identificar-se com todos os seres da criação. A ética não é a moral. A moral é um código de comportamento; a ética sustenta uma intenção na sua mira, ela é o desejo e o sentido que dele decorre. A moral, seja ela aplicada de forma agradável ou desagradável, seja ou não nociva para outrem, provém de pulsões. A ética é assunto do sujeito, a moral é assunto do ego; o sujeito funda-se sobre o simbólico, enquanto que o ego está no imaginário, está a serviço do funcionamento."31

Essa compaixão-nossa-de-cada dia que não pode ser desencarnada, como o "amor que não é puro sentimentalismo"32, que se nutre na própria dor e maldade. Que é tolo se não se enraíza na história pessoal (do ódio e do amor). Compaixão resultante do acolhimento dos vários outros de si mesmo. E só assim. Novamente recorro a Françoise Dolto:

"Para 'fazer o bem que se deseja’, é necessário poder falar de seu desejo de mal. Aliás, é isso que a cultura faz, em seu conjunto. Ela permite satisfações imaginárias (arte, literatura, esporte, ciência) e dá apaziguamento aos desejos, ao mesmo tempo que permite um enriquecimento de trocas na sociedade. Há no ser humano contradições, e todo desejo precisa poder ser falado. Há a realidade, há o imaginário, e também há essa vida simbólica que é o encontro de um outro com quem nos compreendemos, e com quem não estamos mais totalmente sozinhos diante de nossas contradições internas."33

Tempo


Ainda que eu falasse a língua dos homens

E falasse a língua dos anjos

Sem amor eu nada seria

(Luís de Camões, adaptação de Renato Russo).


Logo Maria completará vinte anos.

Feliz Aniversário, Maria!

E eu, quarenta.

"Quarenta anos: não quero faca nem queijo.

Quero a fome"34

Vou parando por aqui e seguindo o conselho de Maria, revisito Clarice, que em sua crônica "Mineirinho" nos diz:

"Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime. Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem."35

NOTAS


1. H. Hesse, Demian. História da juventude de Emil Sinclair, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira 1968, p. 91.

2. M. Felinto, As mulheres de Tijucopapo. Rio de Janeiro, Ed. 34, 1992, p. 55.

3. C. Lispector, Um sopro de vida: pulsações, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1994.

4. Neste sentido, Gilberto Safra vem pensando a "falha ambiental relacionando-a com a história de gerações".

5. C. Lispector, Água viva, Rio de Janeiro, Rocco, 1998, p. 40.

6. A. Calcanhoto.

7. H. Hesse, op. cit. P. 9-10.

8. D. W. Winnicott, Privação e Delinqüência, São Paulo, Martins Fontes, 1995, p. 122.

9. H. Hesse, op. cit. P. 93.

10. Y. Rosenbaum, Metamorfoses do mal: uma leitura de Clarice Lispector, São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo: Fapesp, 1999.

11. D. W. Winnicott, A família e o desenvolvimento individual, São Paulo, Martins Fontes, 1993, p. 125.

12. D. W. Winnicott, , op. cit., p. 122.

13. D. W. Winnicott, Textos selecionados da pediatria à psicanálise, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1993, p. 466.

14. M. Felinto, op. cit. p. 54.

15. C. Lispector, Para não esquecer, São Paulo, Siciliano, 1994, p. 188.

16. M. Felinto, op. cit., p. 62.

17. M. E. C. Pereira, Pânico e desamparo, São Paulo, Escuta, 1999, p. 370.

18. M. E. C. Pereira, op. cit. P. 370.

19. J. McDougall, As múltiplas faces de Eros: uma exploração psicoanalítica da sexualidade humana. São Paulo, Martins Fontes, 1977.

20. Reflexões enriquecidas por observações em aula (23/09/00) do Prof. Gilberto Safra.

21. C. Lispector, A descoberta do mundo, Rio de Janeiro, Rocco, 1999, p. 106.

22. A. Prado, Poesia reunida.

23. G. Safra, palestra 2/10/99.

24.. G. Safra, A face estética do self: teoria e clínica, São Paulo, Unimarco, 1999, p. 11.

25. G. Safra, op. cit., p. 20.

26. G. Safra, op. cit., p. 30.

27. G. Safra, op. cit., p. 22.

28. Françoise Dolto fala de "compaixão vedante" e "compaixão estruturante". Compaixão vedante seria aquela "regressivadora", que quer poupar o outro de seus próprios sofrimentos; diferente da outra que implica em estar ao lado, a partir de uma identificação que não seja via culpa.

29. Comte-Sponville, Pequeno tratado das grandes virtudes, São Paulo, Martins Fontes, 1999, p. 117.

30. Comte-Sponville, op. cit., p. 127.

31. F. Dolto, Dialogando sobre crianças e adolescentes, São Paulo, Papirus,1989, p.112.

32. D. W. Winnicott, Textos selecionados da pediatria à psicanálise, op. cit., p. 352.

33. F. Dolto, As etapas decisivas da infância, São Paulo, Martins Fontes, 1999, p. 169.

34. A. Prado, op. cit., p. 155.

35. C. Lispector, Para não esquecer, São Paulo, Siciliano, 1994, p. 186.

Fátima Regina Flórido Cesar de Alencastro Graça é mestre em Psicologia Clínica, doutoranda na PUC/SP, membro do Laboratório de Estudos da Transicionalidade da PUC/SP e professora no curso de Psicologia da UNIP (São José dos Campos).

Socorro

Arnaldo Antunes / Alice Ruiz - 1998

Socorro, não estou sentindo nada.
Nem medo, nem calor, nem fogo,
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir.

Socorro, alguma alma, mesmo que penada,
Me empreste suas penas.
Já não sinto amor nem dor,
Já não sinto nada.

Socorro, alguém me dê um coração,
Que esse já não bate nem apanha.
Por favor, uma emocão pequena,
Qualquer coisa.

Qualquer coisa que se sinta,
Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva.

Socorro, alguma rua que me dê sentido,
em qualquer cruzamento,
acostamento,
encruzilhada,
Socorro, eu já não sinto nada.

Socorro, não estou sentindo nada.

Quarto de dormir

Arnaldo Antunes / Marcelo Jeneci

um dia desses você vai ficar lembrando de nós dois
e não vai acender a luz do quarto quando o sol se for
bem abraçada no lençol da cama vai chorar por nós
pensando no escuro ter ouvido o som da minha voz
vai acariciar seu próprio corpo e na imaginação
fazer de conta que a sua agora é a minha mão
mas eu não vou saber de nada do que você vai sentir
sozinha no seu quarto de dormir

no cine-pensamento eu também tento reconstituir
as coisas que um dia você disse pra me seduzir
enquanto na janela espero a chuva que não quer cair
o vento traz o riso seu que sempre me fazia rir
e o mundo vai dar voltas sobre voltas ao redor de si
até toda memória dessa nossa estória se extinguir
e você nunca vai saber de nada do que eu senti
sozinho no meu quarto de dormir

Qualquer


Um dos temas que Manuela Azevedo cantou ontem à noite na Casa da Música, com Arnaldo Antunes


Qualquer
Arnaldo Antunes / Hélder Gonçalves / Manuela Azevedo, in Qualquer

qualquer traço linha ponto de fuga
um buraco de agulha ou de telha
onde chova

qualquer perna braço pedra passo
parte de um pedaço que se mova

qualquer

qualquer fresta furo vão de muro
fenda boca onde não se caiba

qualquer vento nuvem flor que se imagine além de onde o céu acaba

qualquer carne alcatre quilo aquilo sim e por que não?

qualquer migalha lasca naco grão molécula de pão

qualquer dobra nesga rasgo risco
onde a prega a ruga o vinco da pele
apareça

qualquer lapso abalo curto-circuito
qualquer susto que não se mereça

qualquer curva de qualquer destino que desfaça o curso de qualquer certeza

qualquer coisa

qualquer coisa que não fique ilesa

qualquer coisa

qualquer coisa que não fixe

Pedido de casamento


Pois é! A noite de ontem na Casa da Música, teve pedido de casamento e tudo...
Faço minhas as palavras do Arnaldo Antunes:

"Mas se quiser me diga, por favor", deixa um comentário, vai! ;-)


Pedido de casamento
Arnaldo Antunes - 2003, in Saiba

Eu sei que a gente ia ser feliz juntinho
Pra todo dia dividir carinho
Tenho certeza de que daria certo
Eu e você, você e eu por perto

Eu só queria ter o nosso cantinho
Meu corpo junto ao seu mais um pouquinho
Tenho certeza de que daria certo
Nós dois sozinhos num lugar deserto

Se você não quiser
Me viro como der
Mas se quiser me diga, por favor
Pois se você quiser
Me viro como for
Para que seja bom como já é

Eu sei que eu ia te fazer feliz
Dos pés até a ponta do nariz
Da beira da orelha ao fim do mundo
Sugando o sangue de cada segundo

Te dou um filho, te componho um hino
O que você quiser saber eu ensino
Te dou amor enquanto eu te amar
Prometo te deixar quando acabar

Se você não quiser
Me viro como der
Mas se quiser me diga, meu amor
Pois se você quiser
Me viro como for
Para que seja bom como já é

Debaixo d'água


Uma das canções que Arnaldo Antunes cantou ontem à noite na Casa da Música.
Lembrando o tempo em que vivíamos nas barrigas das nossas mães e éramos: "um feto
sereno confortável, amado completo, sem chão sem teto,sem contato com o ar...".

O concerto contou com a participação de Manuela Azevedo em duas músicas, e na plateia podia-se ver também Hélder Gonçalves, dos Clã.


Debaixo d'água
Arnaldo Antunes - 2001

Debaixo d'água tudo era
mais bonito
mais azul mais colorido
só faltava respirar

Mas tinha que respirar

Debaixo d'água
se formando
como um feto
sereno confortável
amado completo
sem chão sem teto
sem contato com o ar

Mas tinha que respirar

Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia

Debaixo d'água por encanto
sem sorriso e sem pranto
sem lamento e sem saber
o quanto esse momento
poderia durar

Mas tinha que respirar

Debaixo d'água ficaria
para sempre
ficaria contente
longe de toda gente
para sempre
no fundo do mar

Mas tinha que respirar

Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia

Debaixo d'água
protegido salvo
fora de perigo aliviado
sem perdão e sem pecado
sem fome sem frio
sem medo
sem vontade de voltar

Mas tinha que respirar

Debaixo d'água tudo era
mais bonito
mais azul mais colorido
só faltava respirar

Mas tinha que respirar

Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia

segunda-feira, julho 21, 2008

Clã no Festival "Delta Tejo"


Sendo fã incondicional dos Clã, considerando-a a melhor banda do mundo, é com enorme satisfação que leio o seguinte na edição do Jornal Metro de hoje:

"Adriana Calcanhoto fechou o festival com forte concorrência. Os Clã actuavam no palco secundário e Manuela Azevedo é bem conhecida por fazer as plateias caírem a seus pés. A banda portuense acabaria mesmo por roubar algum público à brasileira qu além dos temas do último disco, "Maré", interpretou grandes êxitos. Foram, de resto, esse os pontos altos num concerto morno."

Reparem bem. Eu também adoro Adriana Calcanhoto. Se procurarem, irão encontrar várias referências à Adriana, neste blog. Comprei o "Maré" e só não fui vê-la em Abril, ao Coliseu do Porto, porque na altura estava mal de finanças (não que me encontre numa situação muito melhor hoje...). O que eu contesto é os Clã terem sido considerados uma banda de palco secundário, e mais ainda terem actuado ao mesmo tempo que a Adriana. Por isso ter acontecido, e só por isso, fico contente com o "roubo" à Adriana.

Energia Nuclear? Não, obrigado!



sexta-feira, julho 18, 2008

Os Delfins Acabaram



Vamos esta noite


Vamos Esta Noite, é o terceiro single do albúm Cintura.
A animação de Laurie Thinot volta a servir de imagem a um vídeo dos Clã depois do sucesso de Sexto Andar. Em «Vamos Esta Noite» (Arnaldo Antunes/Hélder Gonçalves), a realizadora francesa cruza esta técnica com imagens da banda ao vivo e o resultado supera as expectativas.
Letra: Arnaldo Antunes / Música: Hélder Gonçalves
Realizadora: Laurie Thinot
Produtora: Autour de Minuit



quinta-feira, julho 17, 2008

Radiohead gravam novo videoclip sem câmaras

Notícia retirada do Expresso
por Pedro Miguel Neves

A banda britânica volta a inovar e prescinde de câmaras para gravar o vídeo do single "House of Cards", partilhando o software com os cibernautas. (Veja o vídeo no final do texto).

Os Radiohead voltaram a surpreender a indústria musical com mais uma inovação. A banda britânica gravou o videoclip do single "House of Cards" sem utilizar câmaras ou luzes, recorrendo apenas a lasers e dados. As imagens a três dimensões de Thom Yorke e dos actores foram capturadas com recurso a 64 lasers e a luz estruturada.

No vídeo, os lasers rodam e filmam a 360 graus, 900 vezes por minuto, para produzir as cenas de exteriores. Os Radiohead voltam a criar uma grande interactividade com os fãs, pois os dados resultantes dessas imagens podem ser descarregados e utilizados livremente pelos cibernautas. Isto depois de a banda ter lançado partes do single "Nude" para os fãs remisturarem livremente a música, que faz parte do alinhamento do último álbum, "In Rainbows".

O vocalista Thom Yorke explicou porque a banda escolheu não usar câmaras na gravação do videoclip de "House of Cards". "Sempre gostei da ideia de usar tecnologia de uma forma que não é suposto, da luta para levar a tua mente a fazer algo com isso. Gostei da ideia de fazer um vídeo de seres humanos, da vida real e do tempo sem usar câmaras; existem apenas pontos matemáticos - e acabou por se tornar tão estranhamente emocional", afirmou o líder dos Radiohead.

Quem quiser experimentar a nova tecnologia ou criar um vídeo, basta consultar os links no final do texto. Os Radiohead já criaram um grupo no Youtube para os fãs fazerem o upload das suas criações.




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quarta-feira, julho 16, 2008

A frase


"Os países que adoptaram políticas neo-liberais são os grandes derrotados; não souberam tirar partido do crescimento, e quando cresceram de facto, os benefícios ficaram nas mãos dos que ocupam o topo da pirâmide".


Joseph E. Stiglitz, prémio Nóbel da Economia, "Diário Económico", 14-07-2008

Pagar primeiro e casar depois

Manuel António Pina
in, JN

Proclamou a dra. Ferreira Leite, para justificar a sua oposição aos casamentos homossexuais, que o casamento "tem por objectivo a procriação", à maneira daquele piedoso bispo italiano que um dia destes negou casamento a um paraplégico da cintura para baixo por ele não poder "procriar" (ainda se fosse paraplégico da cintura para cima, mas constara ao bispo que é da cintura para baixo que se procria!).

A levar a dra. Ferreira Leite a sério (o que, convenhamos, é cada vez mais difícil), se ela chegar um dia a primeira-ministra, os casais inférteis que se cuidem: não haverá casamento para ninguém. E o mesmo quanto aos casais que, por qualquer motivo, não pensem em (elegante expressão) "procriar". Ao mesmo tempo, será excluído do Código Civil, por indecente e má figura, o vetusto instituto do casamento "in articulo mortis", pois não é crível que um moribundo se ponha apressadamente a "procriar" mal se apanhe casado e antes que se fine. Com a dra. Ferreira Leite a primeira-ministra, talvez passe mesmo a ser obrigatório, para evitar fraudes, "procriar" (isto é, pagar) primeiro e casar depois

Ó Zé aperta o laço, ó Zé aperta-o bem

O laço bem apertado
Ai ó José
Fica-te bem! ;-)