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quinta-feira, abril 30, 2009

O mal superior português


in, JN


O facto de "Bo", o cão de água português que o senador do Edward Kennedy ofereceu às filhas de Obama, ter sido nado e criado (ele e os seus avós, e os avós dos seus avós) no Texas e ser, pois, tão português como são alemães os pastores alemães que por aí há ou o pudim francês é francês, não impediu que o país fosse varrido por um sobressalto de indignação nacional quando o "El Mundo" se referiu ao bicho como "autóctone da Península Ibérica". Não bastava aos espanhóis terem-nos roubado Olivença, agora queriam ficar com o "Bo". E até com S. Nuno "Alvarez" Pereira… Pessoa chamou o provincianismo de "mal superior português". Mas, se enumera os "sintomas flagrantes" desse provincianismo que são "o entusiasmo e admiração pelos grandes meios" e o "entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade", esquece o entusiasmo por tudo o que, "lá fora", cheire a "português", seja um cão na Casa Branca seja um medíocre político na Comissão Europeia. Será conflito diplomático certo se Zapatero se lembrar de dizer de Durão Barroso, como "El Mundo" disse de "Bo", que é "autóctone da Península Ibérica".

quarta-feira, março 25, 2009

Remendos e côdeas

Manuel António Pina
in, JN


Os sindicalistas bons, que não são "instrumentalizados" nem fazem greves e manifestações e "aposta(m) na concertação e não no conflito", reuniram-se em congresso, durante o qual o seu "programa de acção" foi aprovado com 90% de votos.

Um dia depois, em resposta a declarações do líder do patronato, segundo as quais um salário mínimo de 500 euros em… 2011 é apenas uma "indicação" e "iremos ver se é possível", o secretário-geral reeleito explicitou em que consiste a "aposta": o sindicalismo bom "espera" que o próximo Governo "seja sensível".

Este tipo de sindicalismo não reivindica, "espera", não reconhece o salário como direito de quem trabalha, mas como prodigalidade. Se o próximo Governo for "sensível", e o patronato também, "darão" em 2011 aos trabalhadores um salário mínimo compatível, como os pedintes dizem, com as suas possibilidades.

Em contrapartida, os sindicatos e os sindicalistas bons continuarão a ser bons, se possível ainda melhores, e a não perturbar o trânsito nem impedir os jornalistas igualmente bons da Antena 1 de chegar a horas às conferências de imprensa da CIP e do Governo.



Remendos e côdeas
José Mário Branco

Sempre que se rompe o casaco do povo
Aparecem uns doutores que descobrem
Que assim não pode ser
Há que achar remédio
Seja lá como for

Vão então negociar com os senhores
Enquanto cá fora os trabalhadores
Ao frio esperam que eles voltem triunfantes com
Um belo remendo

Remendo sim pois bem mas onde é que ficou
O casaco todo?

Sempre que gritamos "basta temos fome!"
Aparecem uns doutores que descobrem
Que assim não pode ser
Há que achar remédio
Seja lá como for

Vão então negociar com os senhores
Enquanto cá fora os trabalhadores
Cheios de fome até que voltem triunfantes com
Uma bela côdea

Côdea sim pois bem mas onde é que ficou
A carcaça toda?

Nós não precisamos só desses remendos
Precisamos do casaco por inteiro
Nós não queremos ficar só com essa côdea
Precisamos de comer o pão inteiro

Não nos basta que o patrão nos dê trabalho
Precisamos de mandar nas oficinas
Nos campos e nas minas
No poder de Estado
Disso é que precisamos

Mas o que é que essa gente tem para oferecer?
Remendos e Côdeas!

Roubo(s)

Manuel António Pina
in, JN


Uma petição de sportinguistas exigindo a repetição da final da Taça da Liga "porque nós merecemos a taça, lutámos por ela com honra e amor à camisola" reuniu, em poucas horas, mais assinaturas que petição idêntica que anda há uma eternidade na Net (na Net, clica-se em qualquer sítio e aparecem duas ou três petições) apelando à demissão de Dias Loureiro do Conselho de Estado na sequência do caso BPN e dos "seus comportamentos que põem em causa o bom-nome do Conselho de Estado, da Presidência da República e do País".

Quem julgasse que trafulhices de milhões como as do BPN chegariam para comover a Pátria, nunca, como na redacção daquela menina de Leiria, foi lá, à Pátria. A Pátria comove-se é com "penalties" roubados, não com milhões roubados. A Pátria não faz a mínima ideia do que é um milhão e está-se nas tintas (como o povo diz, isso são coisas "lá deles") para "o bom-nome do Conselho de Estado (de quem…?), da Presidência da República e do País". Ponham-lhe à frente uma petição a exigir a demissão do Eduardo de "Podia acabar o mundo" do tal Conselho de Estado, e essa, sim, a Pátria assina logo.

Os super-heróis

Manuel António Pina
in, JN


Na Tailândia, um menino autista de oito anos que se isolara na varanda de um 3.º andar e aparentemente fazia tenção de se suicidar foi salvo por um bombeiro que, sabendo quanto ele gostava de super-heróis, se vestiu de Homem-Aranha. "Parece incrível, mas o menino lançou-se-lhe nos braços assim que o viu", relatou o sargento Virat Boonsadao.

O autismo é uma doença terrível, causadora de grande sofrimento, segundo se supõe (sabe-se ainda muito pouco) provocado por uma insuportável e permanente tensão ao nível das meninges. Fazer deste caso, comovente, uma alegoria pode parecer cruel. Mas interrogo-me se os povos, como os indivíduos, não podem também ser "autistas", se o alheamento, os interesses limitados, o défice de atenção e a incapacidade de resposta ao que, a nível social e político, se passa à sua volta, acompanhados do gesto repetitivo de votar sempre nos mesmos partidos, não serão características de uma cultura autista. Povos assim lançam-se facilmente nos braços do primeiro bombeiro que, vestido de super-herói, lhes aparece pela frente. Basta ver as sondagens.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Muros de Palavras

Manuel António Pina
in, JN


Há uns anos, numa reportagem de "A Capital" sobre meninos da rua, um rapaz de 8 anos lamentava-se ao repórter: "A minha mãe fecha-me fora de casa". Conto muitas vezes esta história, bem como aquela do internado num hospício que, através das grades, diz para um passante: "Há muitos aí dentro?" Os muros, as grades, as portas fechadas prendem- -nos a todos.

Não criam "foras", multiplicam "dentros". E os muros mais difíceis de atravessar são os das palavras e das ideias. O que mais se tem visto e lido em relação ao actual conflito em Gaza são atitudes entrincheiradas atrás de muros de palavras e ideias, incapazes de vislumbrar no "outro" uma réstia de motivo ou humanidade. Ora, como escreve Nietzsche, julgo que no "Zaratustra", "tu, vítima, não penses que não tens culpa; e tu, carrasco, não penses que não sofres". É fácil ter ideias claras e a preto e branco sobre o que se passa em Gaza sentado diante da TV, vendo o que se quer ver e fechando os olhos ao resto. Os israelitas e palestinianos comuns (pois há israelitas e palestinianos comuns) são forçados há meio século a ver o que não querem ver.

quinta-feira, outubro 16, 2008

O Juízo Universal

Manuel António Pina, in JN


Afinal o fim do mundo não começou no buraco negro que o Grande Colisor de Hadrões ia gerar algures na Suíça, começou no buraco negro gerado na Wall Street pela colisão das expectativas dos especuladores financeiros com a realidade, que está a engolir bancos e países, boas intenções e intenções nem por isso, teorias económicas e terceiras vias políticas.

Já se sabia desde "Il Giudizio Universal", de Sica, que as pessoas reagem de diferentes modos ao Dilúvio: há quem compre a alma, quem compre galochas, quem venda guarda-chuvas e quem aproveite os últimos minutos em orgias apocalípticas nos andares altos. Os executivos da AIG são deste tipo. Mal receberam 85 mil milhões dos contribuintes para manter a empresa (a quem milhares de americanos confiaram os seus fundos de pensões) à tona, juntaram-se num fim-de-semana num "resort" de luxo da Califórnia onde investiram 440 mil dólares em jantaradas e spa. Segundo a ABC News, boa parte do investimento foi aplicado em manicures e pedicures. Provavelmente para embonecar a "mão invisível" que se diz que auto-regula o mercado. E, já agora, o pé.

sexta-feira, setembro 05, 2008

Os suspeitos do costume

Manuel António Pina in JN


Segundo números da ONU, Portugal, com um total de 464 878 polícias por mil habitantes, é o 2.º país mais policiado da UE (aqui ao lado, a Espanha tem, por exemplo, 2,86).

Surfando eleitoralmente sobre a "onda de criminalidade" que este mês se abateu sobre jornais e TV, Portas exige agora, além de mais quatro mil polícias, a instalação de videovigilância em "bairros problemáticos". Ora, apesar de aparentemente ter aumentado este ano, a criminalidade em Portugal está aos níveis de 2006, pois em 2007 baixara cerca de 10%. E isso sem mais polícias (embora com outro Código de Processo Penal). Não parece, pois, que seja com mais polícias que o "problema da criminalidade" se resolve. Já a videovigilância em locais "problemáticos" pode ser boa solução. E não apenas em bairros sociais. Porque não também em urbanizações de luxo? E em restaurantes onde se realizem "jantares de negócios"? E em serviços de urbanização camarários? E em gabinetes ministeriais "problemáticos" onde se façam leis sobre casinos, se tomem decisões sobre sobreiros e submarinos ou alegadamente se fotocopiem documentos secretos?

Tudo bons rapazes

Manuel António Pina in JN


Finalmente alguém se lembrou de que não há rapazes maus e que a resposta à "onda de criminalidade" que por aí anda é falar ao coração dos assaltantes e apelar ao seu civismo. A ideia foi de Augusto Cymbrom, presidente da Associação Nacional dos Revendedores de Combustíveis (ANAREC).

À saída, ontem, de uma reunião no MAI sobre a segurança das bombas de gasolina, vinha tão decepcionado e descrente do Governo que achou que era altura de experimentar a sua própria solução e, apelando à boa índole dos assaltantes, lembrou-lhes que "não compensa assaltar bombas de gasolina" e que devem meter a mão na consciência e pensar que, ao fazerem assaltos, "além de prejudicarem a empresa detentora do posto, estão a pôr em causa postos de trabalho". Por fim, deixou-lhes um bom conselho: "Deixem de assaltar e vão trabalhar, que é melhor". Trata-se de uma táctica (alertar para riscos de encerramento de postos de trabalho) que tem dado excelentes resultados às empresas na Concertação Social e nos assaltos anuais dos sindicatos por melhores condições salariais. Pode ser que também funcione com encapuzados.

sexta-feira, agosto 01, 2008

E a medalha da hipocrisia vai para?!

Manuel António Pina em JN


O COI prevê 40 casos de "doping" nos Jogos Olímpicos de Pequim. Nem 39 nem 41, exactamente 40. Só lhe falta anunciar o nome dos atletas que irão dopar-se, porque o COI tem tudo previsto.

A única coisa que o COI, pelos vistos, não previu foi que a China se estaria nas tintas para a promessa de que espezinharia um pouco menos os direitos humanos antes e durante os Jogos.

De facto, segundo a AI, "em algumas situações, pode mesmo dizer-se que (as autoridades chinesas) se serviram dos Jogos para intensificar as violações e as repressões", assegurando desde já medalhas de ouro nas modalidades de pena de morte, tortura, prisões arbitrárias e perseguição de dissidentes e "indesejáveis" (impedidos de falar com estrangeiros ou de entrarem em Pequim durante os Jogos).

E, claro, a mais disputada de todas, a da censura, que agora abrange também os jornalistas estrangeiros que cobrem o evento, proibidos de aceder a "sites" como os da AI, da BBC, da Deutsche Welle ou de jornais de Hong-Kong e Taiwan. O COI diz-se "decepcionado" com a situação. Já ganhou também uma medalha de ouro, a da hipocrisia.

Pedro e o Lobo...

Manuel António Pina in JN


Portugal parou ontem com a notícia de que o presidente da República interrompera as férias para fazer uma comunicação "verdadeiramente importante" ao país.

Os cafés, a rua, a blogosfera, os jornais "online", interrogavam-se sobre o que levaria o presidente a deixar a praia (enfim, o céu estava um pouco nublado e o tempo prometia chuva, mas isso não era suficiente) para ir a Belém falar às televisões à hora dos telejornais.

Seria a lei do divórcio?, a crise petrolífera e o regresso do "nuclear sim, sff" do sr. Patrick Monteiro?, o primeiro computador português, o Magalhães, que afinal não é primeiro, nem é português, nem é Magalhães?, iria Cavaco Silva demitir o Governo? Também eu, às 20 em ponto, estava em ânsias diante do televisor (cá para mim, a comunicação era sobre o João Moutinho).

Afinal era sobre uns artigos do Estatuto dos Açores, e o país soltou um grande suspiro de alívio. Às 20 e 15 já tudo voltara à normalidade. E eu, desligado o televisor, voltara a O'Neill: "Encontro um resmunguarda que me intima/ a parar // Seria por suspeita? Seria por rotina? / Não. Foi para conversar…"

quarta-feira, julho 16, 2008

Pagar primeiro e casar depois

Manuel António Pina
in, JN

Proclamou a dra. Ferreira Leite, para justificar a sua oposição aos casamentos homossexuais, que o casamento "tem por objectivo a procriação", à maneira daquele piedoso bispo italiano que um dia destes negou casamento a um paraplégico da cintura para baixo por ele não poder "procriar" (ainda se fosse paraplégico da cintura para cima, mas constara ao bispo que é da cintura para baixo que se procria!).

A levar a dra. Ferreira Leite a sério (o que, convenhamos, é cada vez mais difícil), se ela chegar um dia a primeira-ministra, os casais inférteis que se cuidem: não haverá casamento para ninguém. E o mesmo quanto aos casais que, por qualquer motivo, não pensem em (elegante expressão) "procriar". Ao mesmo tempo, será excluído do Código Civil, por indecente e má figura, o vetusto instituto do casamento "in articulo mortis", pois não é crível que um moribundo se ponha apressadamente a "procriar" mal se apanhe casado e antes que se fine. Com a dra. Ferreira Leite a primeira-ministra, talvez passe mesmo a ser obrigatório, para evitar fraudes, "procriar" (isto é, pagar) primeiro e casar depois

terça-feira, julho 15, 2008

Boas notícias?!

Manuel António Pina
in, JN

Os últimos dias foram férteis em boas notícias. Enquanto Sócrates prometia uma redução de 30% num imposto que não existe (o IA sobre automóveis eléctricos), a ministra da Educação anunciava que os alunos portugueses se tornaram, de um ano para o outro, génios matemáticos graças ao ovo de Colombo saído da mente imaginosa do seu Ministério: só lhes perguntar o que sabem, ou ainda menos, assegurando-lhes assim, mesmo aos mais ignorantes, aquilo que a directora de Educação do Norte classifica como o seu "direito ao sucesso".

Por sua vez, Vieira da Silva louvava no fim-de-semana efusivamente no "Expresso" as esquisitas virtudes do "seu" Código do Trabalho. Parece que o BE vai fazer suas, na AR, as propostas de alteração que o mesmo Vieira da Silva em tempos fez ao Código Bagão Félix.

O país está suspenso do modo como votará o PS as medidas que preconizava quando era Oposição, e que voltará a preconizar quando for Oposição outra vez, assim como a ministra da Educação passará então a ser a mais acrisolada crítica do facilitismo. Pensando bem, deveria ser sempre a Oposição a formar Governo.

segunda-feira, junho 02, 2008

Desmistificar as fezes

Manuel António Pina
2008-05-29, in JN

No caso, a "praxe" incluiu, além de humilhações sexuais, insultos e violências de toda a ordem, cobrir a caloira com fezes e, depois, esfregar-lhas no peito, costas, barriga e cabelo. A seguir, a jovem foi ainda forçada a mergulhar a cabeça numa bacia com excrementos de vaca. Selvajarias do género repetem-se impunemente todos os anos por esta altura, com a cumplicidade dos responsáveis de algumas universidades e escolas superiores. De facto, se hoje floresce nas universidades uma "geração rasca" cuja noção de festa e divertimento passa pela boçalidade à rédea solta e pelo coma alcoólico, é porque boa parte do Ensino Superior está entregue a uma geração não menos rasca. No tribunal de Santarém, em defesa do bando dos "praxistas", o então director da escola considerou "normal a praxe com bosta" e um professor terá chegado a declarar que "é preciso desmistificar as fezes". "Desmistificar as fezes" é um bom programa para a reforma de algum do Ensino Superior que temos.