quarta-feira, junho 18, 2008

Não te borrifes!


A União Europeia prepara-se para discutir a possibilidade de as chamadas de telemóvel serem pagas também por quem as recebe.
Dizem que isso já acontece nos EUA e que a médio prazo, com esta medida, as operadoras reduzirão o valor das chamadas.
Viu-se o que verdades absolutas como estas fizeram ao preço dos combustíveis.
As operadoras não vão abdicar da hipótese que lhes querem dar de facturar, facturar, facturar,...

A Entidade Reguladora do Sector Energético, propõe que as facturas incobráveis sejam pagas por tod@s! Pergunto-me então, porque hei-de continuar a pagar a minha factura! Deixo de pagar e depois alguém pagará a sua e a minha! Parece-me justo! Não vos parece? Mas há mais... A Deco, ao invés de recusar liminarmente tal proposta, propõe-se discuti-la, dizendo que poderá ser a forma de tornar as coisas mais transparentes, uma vez podemos estar já a pagar essas facturar de forma subliminar. Ou seja, a Deco, desconfia e aceitou até agora, que nos tenha sido cobrado valores indevidos, e aceita discutir uma proposta, em que esses valores nos continuam a ser cobrados (mas em que obviamente se reflectirá num aumento da factura), mas de uma forma transparente! Brilhante, não acham?!

Cientistas, descobriram através de experiências em ratos que o cheiro do café tem as mesmas propriedades que a sua ingestão. Como medidas práticas de tal descoberta, sugerem o borrifamento de aroma de café em locais como obras, evitando o adormecimento dos trabalhadores e reduzindo assim o número de acidentes de trabalho. Apresentando-nos uma medida, que parece ser em nosso benefício, o que nos estão a querer "vender" é a possiblidade de podermos trabalhar 24 horas por dia, sem precisar de dormir, pois borrifam-nos com café e voilá! Já nos estou a ver a todos, meio drogados, sempre que entrarmos num táxi, os camionistas que forarem piquetes de greve, não vão levar apenas uma pessoa à frente (com infelizmente aconteceu recentemente), mas todo o piquete, pois de tão excitados que estarão não conseguem tirar o pé do acelerador, os hospitais vão transformar-se em autênticos manicómios em que ninguém dorme e todos berram uns com os outros, and so on, and so on.

Com tanto disparate, não podes deixar não te borrifem, nem podes borrifar-te para isto tudo!
Revolta-te!

Como diz Salgueiro Maia no filme Capitães de Abril de Maria de Medeiros: "Há momentos em que o único caminho é desobedecer!"

Atreve-te! Desobedece!

Guilherme Rietsch Monteiro

segunda-feira, junho 16, 2008

A fome infame

Boaventura Sousa Santos
in, Visão

O escândalo, finalmente, estalou na opinião pública: a substituição da agricultura familiar, camponesa, orientada para a auto-
-suficiência alimentar e os mercados locais, pela grande agro-indústria, orientada para a monocultura de produtos de exportação (flores ou tomates), longe de resolver o problema alimentar do mundo, agravou-o. Cerca de um sexto da humanidade passa fome; segundo o Banco Mundial, 33 países estão à beira de uma crise alimentar grave; mesmo nos países mais desenvolvidos, os bancos alimentares estão a perder as suas reservas; e voltaram as revoltas da fome.
A opinião pública está a ser desinformada sobre esta matéria, para que se não dê conta do que se está a passar. Porque é explosivo: a fome do mundo é a nova grande fonte de lucros do grande capital financeiro e os lucros aumentam na mesma proporção que a fome. A fome no mundo não é um fenómeno novo. Ficaram famosas na Europa as revoltas da fome, desde a Idade Média até ao século XIX. O que é novo são as suas causas e o modo como as principais são ocultadas.

A opinião pública tem sido informada de que o surto da fome está ligado à escassez de produtos agrícolas (e que esta se deve às más colheitas provocadas pelas alterações climáticas); ao aumento de consumo de cereais na Índia e na China; ao aumento dos custos dos transportes devido à subida do petróleo; à crescente reserva de terra agrícola para produção dos agro-combustíveis. Todas estas causas têm contribuído para o problema, mas não são suficientes para explicar que o preço da tonelada do arroz tenha triplicado desde o início de 2007. Estes aumentos especulativos, tal como os do preço do petróleo, resultam de o capital financeiro (fundos de pensões, fundos hedge, de alto risco e rendimento) ter começado a investir fortemente nos mercados internacionais de produtos agrícolas, depois da crise do investimento no sector imobiliário.

Em articulação com as grandes empresas que controlam o mercado mundial de sementes e de cereais, o capital financeiro investe no mercado de futuros na expectativa de que os preços continuarão a subir, e, ao fazê-lo, reforça essa expectativa. Quanto mais altos forem os preços, mais fome haverá no mundo, maiores serão os lucros das empresas e os retornos dos investimentos financeiros. Nos últimos meses, os meses do aumento da fome, os lucros da maior empresa de sementes de cereais aumentaram 83 por cento. Ou seja, a fome de lucros da Cargill alimenta-se da fome de milhões de seres humanos.

O escândalo do enriquecimento de alguns à custa da fome e subnutrição de milhões já não pode ser disfarçado com as «generosas» ajudas alimentares. Tais ajudas são uma fraude que encobre outra maior: as políticas económicas neoliberais que há 30 anos têm vindo a forçar os países do Terceiro Mundo a deixar de produzir os produtos agrícolas necessários para alimentar as suas próprias populações e a concentrar-se em produtos de exportação, com os quais ganharão divisas que lhes permitirão importar produtos agrícolas... dos países mais desenvolvidos. Quem tenha dúvidas sobre esta fraude que compare a recente «generosidade» dos EUA na ajuda alimentar com o seu consistente voto na ONU contra o direito à alimentação, votado por todos os outros países.

A revolta contra a fome é mais um aviso contra as consequências da destruição do bem-estar dos povos para benefício exclusivo de um pequeno grupo de países. Para lhes responder eficazmente será preciso pôr termo à globalização neoliberal. O capitalismo global tem de voltar a sujeitar-se a regras que não as que ele próprio estabelece para seu benefício. Os cidadãos têm de começar a privilegiar os mercados locais, recusar nos supermercados os produtos que vêm de longe, exigir do Estado e dos municípios que criem incentivos à produção agrícola local, exigir da UE e das agências nacionais para a segurança alimentar que entendam que a agricultura e a alimentação industriais não são o remédio contra a insegurança alimentar. Bem pelo contrário.

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Apenas acrescentaria que os cidadãos, em vez de cairem no "nacionalismo" e começarem a cultivar chá nos seus quintais, podem também privilegiar quem pratique outras regras de mercado, nomeadamente o Comércio Justo!

Guilherme Rietsch Monteiro

Em louvor de Amy Winehouse(e Vodkahouse e Whiskyhouse)

Ricardo Araújo Pereira
in, Visão

Começou, na passada sexta-feira, o Rock in Rio, o popular festival de música que se caracteriza por não ser de rock nem decorrer no Rio. Sob o lema Por um Mundo Melhor, dezenas de artistas lutam, ao longo de dois fins-de-semana, para proporcionar um Mundo realmente melhor a todos os habitantes do resto do Planeta e meia dúzia de dias infernais a quem reside em Chelas. Uma coisa são tiroteios entre os vizinhos e a polícia, violência entre gangs na rua e tráfico de droga à descarada. Mas, porém, ao virar da esquina, o Rod Stewart a uivar à uma da manhã é um castigo que aquela gente não merece.
Nesta edição do festival, acompanhei, com especial interesse, o concerto de Amy Winehouse. Devo dizer que qualquer expectativa que eu pudesse ter foi superada. Além de lutar por um Mundo melhor, Winehouse lutou, e muito, para se manter de pé. São dois combates em vez de um. Nem sempre conseguiu, é certo, mas fez um esforço heróico. À primeira vista, dir-se-
-ia que Amy Winehouse entrou em palco sob a influência de mais que uma substância, sendo que o álcool talvez tomasse a dianteira. Tratando-se de um festival familiar, a actuação de Amy proporcionou divertimento para toda a família. «Eu acho que ela está bêbada. E tu, papá?» «Creio que não, filho. Repara como ela cambaleia. Isto é chinesa, e da boa.»

Acima de tudo, foi um concerto que sublinhou, uma vez mais, a diferença que existe entre um bêbado deprimente e um grande artista. Ambos balbuciam coisas sem sentido e cantam, mas o que está à frente de um baterista e dois guitarristas é o grande artista.

Não quero com isto sugerir que Amy Winehouse não contribuiu para que o Mundo fosse melhor. Por um lado, toda a gente que já se entregou aos prazeres do álcool percebeu que, ao segundo ou terceiro copo, o Mundo parece, de facto, começar a melhorar. Agora imaginem quão bom é o Mundo de Amy Winehouse. É possível que a artista estivesse convencida de que se encontrava, de facto, no Rio de Janeiro.
É possível até que estivesse convencida de que aquilo que estava a fazer era cantar. Por outro lado, deve destacar-
-se a mensagem que Amy passou aos jovens. Os jovens, aparentemente, precisam muito de receber mensagens, e a generalidade das pessoas espera que sejam os cantores e as estrelas da televisão a enviá-las. Pois bem, a mensagem de Winehouse era clara e edificante: não consumam álcool nem drogas, pois receio que não sobrem para mim.

Há quem diga que estes concertos podem fazer muito para resolver a pobreza no Mundo. Mas são artistas como Amy Winehouse que vão além da caridade
e têm, de facto, uma intervenção macroeconómica séria. A economia da Colômbia, por exemplo, está toda às costas da rapariga.

Estrume na Cabeça

Gabriel, o Pensador

Estrume na cabeça
É bom que fertiliza
Eu tenho até demais
Tem gente que precisa.

A merda aduba a mente
E nasce alguma idéia
Plantando outra semente
Pensando em diarréia.

Mudemos de Assunto

Sérgio Godinho

Andas aí a partir corações
como quem parte um baralho de cartas
cartas de amor
escrevi-te eu tantas
às tantas, aos poucos
eu fui percebendo
às tantas eu lá fui tacteando
às cegas eu lá fui conseguindo
às cegas eu lá fui abrindo os olhos

E nos teus olhos como espelhos partidos
quis inventar uma outra narrativa
até que um ai me chegou aos ouvidos
e era só eu a vogar à deriva
e um animal sempre foge do fogo
e mal eu gritei: fogo!
mal eu gritei: água!
que morro de sede
achei-me encostado à parede
gritando: Livrai-me da sede!
e o mar inteiro entrou na minha casa

E nos teus olhos inundados do mar
eu naveguei contra minha vontade
mas deixa lá, que este barco a viajar
há-de chegar à gare da sua cidade
e ao desembarque a terra será mais firme
há quem afirme
há quem assegure
que é depois da vida
que a gente encontra a paz prometida
por mim marquei-lhe encontro na vida
marquei-lhe encontro ao fim da tempestade

Da tempestade, o que se teve em comum
é aquilo que nos separa depois
e os barcos passam a ser um e um
onde uma vez quiseram quase ser dois
e a tempestade deixa o mar encrespado
por isso cuidado
mesmo muito cuidado
que é frágil o pano
que enfuna as velas do desengano
que nos empurra em novo oceano
frágil e resistente ao mesmo tempo

Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?

sexta-feira, junho 13, 2008

Acabou o Euro!


Pois é! Acabou o Euro 2008!
A vencedora da competição é a Irlanda!

Esta sexta-feira 13, foi tudo menos de azares. O F.C. Porto, vai dispostar (e conquistar!!!) a Liga dos Campeões 2008/09 e a Irlanda chumbou o Tratado de Lisboa!

Assim, os portugueses colocam bandeiras portuguesas na janela, orgulhosos por a Irlanda ter chumbado um Tratado que por azar até tem o nome da nossa capital. Estamos orgulhosos deles, assim como estariamos de nós próprios, se o mentiroso do Sócrates cumprisse as suas próprias promessas!

Terminou o Euro! Irlanda: Sim, Lisboa: Não!

terça-feira, junho 10, 2008

A Raça de Cavaco Silva


Cavaco Silva referiu-se ao dia de hoje como o dia da Raça!
Quem fala assim, de certeza que não é de boa raça!
Viva a raça do Deco e do Pepe!

Fascismo e Racismo, Nunca mais!
Racismo é burrice!

segunda-feira, junho 09, 2008

A gente vai continuar

Letra e Música: Jorge Palma

Tira a mão do queixo, não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou, ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega aonde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém, não
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

As praxes

terça-feira, junho 03, 2008

Interrompemos este blog...


...Para mais um momento de reportagem sobre a nossa selecção.

5 mililitros de gasolina a seguir às refeições

Ricardo Araújo Pereira
in, Visão

A gatunagem apanhou-me, amigo leitor. Assaltaram-me o carro. E eram profissionais, os bandidos: deixaram o auto-rádio onde estava, desdenharam a minha carteira, mal escondida no porta-luvas, e não tocaram no GPS.
Levaram-me só os sete litros e meio de gasóleo que tinha no depósito. Espertalhões. Isto da carestia dos combustíveis também tinha de ter os seus inconvenientes.
Felizmente, as vantagens são inúmeras: há menos engarrafamentos, menos acidentes na estrada e menos carjacking. Com a gasolina a este preço, nenhum bandido no seu juízo perfeito rouba um carro. É meter-se em despesas. Por cada três Multibancos que assalta, dois são para pagar a gasolina necessária para as deslocações. É evidente que não compensa.

Mesmo assim, não faz sentido dizer que a vida está difícil, porque a verdade é que a morte está ainda pior. O Governo tem tudo previsto. Se o primeiro-ministro nos faz a vida negra, façamos-lhe a justiça de reconhecer que também nos torna a morte quase impossível. O suicídio, hoje em dia, está praticamente fora de hipótese. A imolação pelo fogo, tão popular no Médio Oriente, é-nos vedada pelo preço da gasolina. A escassez de sobreiros faz do enforcamento uma impossibilidade técnica. Comprimidos, nem pensar: as farmacêuticas vão-nos ao bolso. Apostar no cancro do pulmão é arriscado, porque quase não se pode fumar em lado nenhum. E as intoxicações alimentares são cada vez mais custosas, que a ASAE não dorme. A única hipótese é morrer de tédio, na fila para abastecer o carro nas bombas que vendem gasolina dois ou três cêntimos mais barata.

O que eu lamento, sobretudo, é a sorte daquela gente que tem o hábito de meter um valor de gasolina, e não uma quantidade. O leitor sabe como é: em vez de meterem 10 litros de combustível, estão habituados a ir à bomba meter 10 euros. Coitados. De há dois ou três anos a esta parte, tiveram uma surpresa. Em 2005, metiam 10 litros, e hoje metem uma colher de sopa. Dantes, enchiam o depósito com a mangueira, e agora abastecem com a colherzinha dos medicamentos.

Actualmente, é possível começar a encher o depósito e o preço do combustível aumentar duas ou três vezes enquanto se abastece. Uma pessoa pensa que tem dinheiro para atestar e no fim verifica que afinal tem de vender o carro para pagar a conta da gasolina. É possível, aliás, que o barril de crude tenha batido sete novos recordes desde que o leitor começou a ler isto. O melhor é ir encher o depósito antes que as estações de serviço comecem a vender gasolina em frasquinhos de perfume. Não deve faltar muito.

segunda-feira, junho 02, 2008

Estado do Ensino

Vejam-me esta ficha:

http://escv.drealentejo.pt/documentos/aulas_tic/Ficha%20formativa_xls1.doc


Como é que é possível uma das opções de resposta ser: "Não sei"?!!!
Eu acho que assim, as outras três deveriam ser:
- Nem quero saber!
- Tenho raiva de quem sabe!
- Esta não é de certeza!

E voilá ficávamos apenas com a resposta correcta.

Contudo, estou convicto de quem nem assim, haveria 100% de nota 20. É que raciocinar dá muito trabalho, e nem com a papinha toda, se vai lá, quando não se quer mesmo ir. Quando a escola é uma brincadeira, não há volta a dar-lhe...

Normal ou super?

Rui Reininho
2008-05-31,in JN

Quando os carros andavam a Normal, os dos remediados cujos pais se deslocavam a pé ou de carroça no sentido de dar estudos e educação aos filhos, o gasóleo era para quem trabalhava e se tinha que fazer à estrada; os do normal tiravam o coberto ao carro, limpavam-lhe pó e iam ali até à praia ou à ribeira mais próxima ouvir o relato enquanto se fazia um croché e as crianças suspiravam pela sumol e pelos bolos de coco.


Nesse Mesozóico, também houve uma gravíssima crise de combustíveis por causa dos ayatollas que contestavam as modernices do xá da Pérsia. As viaturas tinham só um depósito com que se haver aos fins-de- semana, de matrículas par ou ímpar para circular e o Júlio Isidro aproveitou para inventar a Música na TV, como o Bernstein cá do burgo.

Mais avisados, os do Norte da Europa desataram a andar de bicicleta e a descobrir o charme de compartilhar odores e sabores a próximo nos transportes públicos.

Agora, a ritmo de Super, com a luz na reserva a ameaçar-nos a ida ao "shop" com os wufas ao máximo a fazer untz untz untz, vai ser mais politicamente incorrecto desbaratar gota do que usar peles de animais, mortos.

Faça-se luz e ponha-se os olhos no maior exemplo de patriotismo triunfal que é a nossa menina Vanessa: começa-se por umas braçadas, passa-se para a bicicleta e dá-se uma corrida até casa; pelo meio pode aproveitar-se para dar uns tiritos. Eu vou!

É que isso de nos vendermos aos espanhóis não é para todas...

Desmistificar as fezes

Manuel António Pina
2008-05-29, in JN

No caso, a "praxe" incluiu, além de humilhações sexuais, insultos e violências de toda a ordem, cobrir a caloira com fezes e, depois, esfregar-lhas no peito, costas, barriga e cabelo. A seguir, a jovem foi ainda forçada a mergulhar a cabeça numa bacia com excrementos de vaca. Selvajarias do género repetem-se impunemente todos os anos por esta altura, com a cumplicidade dos responsáveis de algumas universidades e escolas superiores. De facto, se hoje floresce nas universidades uma "geração rasca" cuja noção de festa e divertimento passa pela boçalidade à rédea solta e pelo coma alcoólico, é porque boa parte do Ensino Superior está entregue a uma geração não menos rasca. No tribunal de Santarém, em defesa do bando dos "praxistas", o então director da escola considerou "normal a praxe com bosta" e um professor terá chegado a declarar que "é preciso desmistificar as fezes". "Desmistificar as fezes" é um bom programa para a reforma de algum do Ensino Superior que temos.

Somar esquerda à Esquerda

A nova etapa começa já amanhã! Quando Alegre, Camilo Mortágua, companheir@s da Pintassilgo e o Bloco de Esquerda, se juntarem em Lisboa para celebrar Abril e Maio!
Sim, porque há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não e que não sai à rua de cravo na mão a horas certas e por isso celebra em Junho e no resto do ano, tanto Abril como Maio.
Tenho um orgulho enorme de ter sido um dos que pouco mais de uma centena, que deram o sim para a constituição do Bloco de Esquerda.
Tudo farei para continuar a somar Esquerda à Esquerda e a atirar pedras para o charco!

Caiu uma pedra no charco,
Caiu um penedo no rio,
Caiu mais um barco da boa esperança no mar,
P'ra gente se agarrar.

Deixamos de ver as nuvens
Que nos tapavam o céu
Pudemos sentir de perto
A meiguice do tempo
Onde a gente se escondeu

É que hoje
Nasceu mais um dia.
É que hoje
Nasceu mais alguém.
É que hoje
Nasceu um poeta na serra
Com a estrela da manhã.

Foi quando os lobos uivaram,
Foi quando o lince miou,
As ovelhas não tinham fome
E a alcateia repousou.

E entre os uivos e os miados
O poeta abriu o choro.
E entre os vales e o cabeço,
Cavalgando uma alcateia
O poema deslizou.

Luís Represas
in Cais das Colinas, Trovante

sexta-feira, maio 30, 2008

Ricardo Araújo Pereira a Presidente em 2016!

Ricardo Araújo Pereira, in Visão


Agora que terminou o campeonato nacional de futebol, o povo português pode enfim concentrar-se naquilo que verdadeiramente importa: o campeonato europeu de futebol. O facto de a competição se disputar, desta vez, no estrangeiro, não nos isenta do dever de, num acto prenhe de patriotismo, voltarmos a engalanar as nossas janelas com as melhores bandeiras portuguesas que se fabricam em território chinês. Em 2004, o professor Marcelo incentivou os portugueses a desfraldarem bandeiras nacionais por essas vidraças afora, de modo a mostrar a toda a gente o orgulho que nós, enquanto povo, temos em fazer compras nas lojas dos trezentos. Desta vez, se me permitem, gostaria de me adiantar ao professor Marcelo numa proposta de elevado valor patriótico. Saliente-se que o faço por simples amor ao País, e não por querer ser Presidente em 2016. A minha sugestão é a seguinte: além da bandeira nacional, ornamentemos os nossos parapeitos com um busto da República e uma fotografia do Cavaco. Nada contra a bandeira, que é bonita e ondula ao vento como ninguém (melhor do que o busto, por exemplo), mas desbota depressa e tem tendência para esfiapar ao fim de uma semana ou duas.

Já o busto, que é de gesso, resiste melhor à intempérie. Além disso, como a República tem um seio de fora, entusiasma um pouco mais (com todo o respeito para com a esfera armilar, também ela muito sensual, à sua maneira). A fotografia do Presidente, além de completar este ramalhete patriótico, contribui para espantar os pombos, inibindo a passarada de debicar a bandeira e de se empoleirar no busto.

Confesso que ficarei muito triste se o povo português, que aderiu tão maciçamente à proposta do professor Marcelo, não fizer caso da minha só porque é um pouco mais onerosa e, em certa medida, parva. Mas a desilusão será mitigada pelo facto de o País já estar completamente empenhado no Euro, e com razão.

O Público de segunda-feira trazia uma interessante reportagem que juntava especialistas em futebol, como Humberto Coelho ou Bruno Prata, e completos leigos que pouco ou nada sabem sobre bola, como José Diogo Quintela ou Artur Jorge. Afinal de contas, já só faltam 23 dias para o jogo de abertura. Não temos muitos dias para iniciar a nossa preparação, enquanto adeptos. Em meados de Junho, teremos de estar com os níveis de patriotismo no ponto certo para apoiar os jogadores da selecção nacional e suportar com denodo a desilusão que eles vão proporcionar-nos desta vez. Todo o tempo é pouco.

Onde há fumo há Sócrates

Ricardo Araújo Pereira, in Visão

Quando, há quinze dias, foi publicado um documento segundo o qual a ASAE tinha como objectivo efectuar 410 detenções só este ano, confesso que achei a meta muito ambiciosa. Mas agora que José Sócrates e Manuel Pinho foram apanhados a fumar num avião, suponho que já só faltem 408. Mais três ou quatro visitas oficiais e a ASAE pode meter férias em Junho. Sortudos. Além de saberem quais são os restaurantes menos badalhocos, ainda têm férias grandes. Quem me dera um emprego desses.
Como é evidente, a história do cigarro no avião deu polémica. Não era caso para menos: Sócrates foi visitar um dirigente sul-americano meio maluco, que manda fechar as estações de televisão que o criticam e chama Hitler a toda a gente, incluindo a pessoas com quem o primeiro-ministro tem boas relações. Até aqui, tudo bem. Mas põe-se a fumar a bordo? Realmente, é um escândalo. Para resolver o problema, Sócrates anunciou uma medida de grande alcance político: disse que ia deixar de fumar. Chamem-me cínico, mas parece-me que estamos na presença de mais uma promessa não cumprida. Se ele pretende cumprir as promessas por ordem, só deixará de fumar depois de criar os tais 150 mil empregos.
A Tabaqueira bem pode continuar a enrolar cigarros, que não fica sem este cliente. Por outro lado, tendo em conta que, deixando de fumar, Sócrates viverá mais tempo, não sei se a medida será benéfica para o País. Nesse sentido, é possível que não seja uma promessa, mas sim uma ameaça.

Não se pense, contudo, que o caso é desprovido de significado político. Ser apanhado a fumar dentro de um avião foi das atitudes mais populares que José Sócrates já tomou. Conhecendo o povo português, será difícil encontrar alguém que não tenha passado a simpatizar mais com ele.
O homem violou uma lei que ele mesmo inventou. O Sócrates, esse malandro, aprovou uma lei chata para os fumadores, mas o Sócrates, esse companheiro, transgrediu-a logo que pôde. O Sócrates, o nosso Sócrates, mostrou-lhes como é. Passou-lhes a perna. Se eles julgam que nos controlam, estão muito enganados. Bem podem fazer leis a proibir a malta: enquanto nós tivermos uma cortina para fumar à socapa, ninguém nos apanha. O primeiro-ministro José Sócrates é, no fundo, um tuga. Sabe-a toda, o bandido.

Algarve

Letra e Música: Pedro Abrunhosa
in, Silêncio

Já são 5 da manhã
Ainda há tempo esta noite
Para quem começa a viver,
A rádio sussurra "Manhatã"
Em acordes distorcidos
Que nos enchem de prazer

Voam pássaros morcegos
Assustando o pára-brisas
E a paisagem que amanhece.
Queres parar, mas não aqui
Que essa luz parte de ti
E o desejo que acontece.

Da chuva faço mil estradas de vidro
E o meu carro a rolar.
No ar o cheiro do destino,
No chão a pele quente
Do Algarve a acordar

Uuu! Uuu!

Já passamos Castro Verde,
E escreveste na planície
Como se esta fosse um papel,
Dizes: "o mundo não compreende
+ do que está à superfície"
"Ne me quitte pas", pede Brell

Entre néons e Nirvana
Vais mudando de estação
Como se a próxima
Fosse a melhor.
E os sons que a serra esconde
Entre o asfalto e o monte,
São + que a pressa do motor.

Da chuva faço mil estradas de vidro
E o meu carro a rolar.
No ar o cheiro do destino,
No chão a pele quente
Do Algarve a acordar

Refrão

Um dia de silêncio
É um dia de amargura
Igual a outro dia qualquer
Trazes nos olhos o desejo
Onde vejo a aventura
Que ainda vamos viver.

Da chuva faço mil estradas de vidro
E o meu carro a rolar.
No ar o cheiro do destino,
No chão a pele quente
Do Algarve a acordar

Refrão

Moções de Censura

Será que é desta que alguém acerta nos motivos certos para uma moção de censura ao Governo, que o próprio Sócrates, diz haver vários?!
Até agora ainda ninguém acertou...
Está na hora de o próprio PS, dar mais uma lição ao país e apresentar a sua própria moção e fazer a verdadeira homenagem a Humberto Delgado. Já estou a ver o Sócrates na Assembleia da República: "Perante esta tão boa moção de censura apresentada pelo PS, óbviamente demito-me!" :-)



quinta-feira, maio 29, 2008

Sopro do Coração

Letra: Sérgio Godinho
Música: Hélder Gonçalves
in, Lustro, Clã

Sim, o amor é vão
É certo e sabido
Mas então (Porque não)
Porque sopra ao ouvido
O sopro do coração
Se o amor é vão
Mera dor mero gozo
Sorvedouro caprichoso
No sopro do coração
No sopro do coração

Mas nisto o vento sopra doido
E o que foi do
Corpo no turbilhão

Sopra doido
E o que foi do
Corpo alado
Nas asas do turbilhão
Nisto já nem de ar precisas
Só meras brisas
Raras

Corto em dois limão
Chego o ouvido
Ao frescor
Ao barulho
À acidez do mergulho
No sangue do coração
Pulsar em vão
É bem dele É bem isso
E apesar disso eriça a pele
O sopro do coração
O sopro do coração

Mas nisto o vento sopra doido
E o que foi do
Corpo no turbilhão

Sopra doido
E o que foi do
Corpo alado
Nas asas do turbilhão
Nisto já nem de ar precisas
Só meras brisas
Raras

Pensar pequenino


É mesmo pensar pequenino...
Querem extender a linha do Metro do ISMAI à Trofa, em linha única!!!
Motivo? Mais barato...
Entretanto, a população que há anos se viu privada do Comboio, por causa do Metro, é "premiada" com uma solução mais demorada...
Mais barato hoje, para ficar muito mais caro, amanhã! Jorge Coelho e a Mota-Engil, agradecem...
Entretanto, gastam-se milhões num aeroporto e TGV que o país claramente, não precisa...
Quem paga tudo isto? O não utilizador destas obras! Aquele que continua a consumir combustível... Por isso é que o Governo não reduz a carga fiscal! Para realizar projectos megalómanos em vez de servir as populações!

Guilherme Rietsch Monteiro

Metro até à Trofa será em via única
Carla Sofia Luz, in JN

A linha do metro entre o ISMAI (Maia) e a Trofa deverá ser construída em via simples. O JN apurou que o Governo se inclina para essa opção, reservando um canal para que, no futuro, possa ser executada a segunda via. Se tal suceder, fará aumentar o tempo de deslocação até à Paradela, tornando a ligação mais demorada e menos atractiva para a população (que ficou sem comboio há vários anos). A obra será, no entanto, mais barata. Em Outubro de 2007, a Metro lançou um concurso para a elaboração do projecto de execução que contemplava as duas possibilidades.

A vinda do ministro das Obras Públicas, Mário Lino, e da secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino, ao Porto serviu para que os governantes reunissem, na passada segunda-feira e ontem, com a nova Comissão Executiva da Metro, liderada por Ricardo Fonseca. Tirando a extensão da Linha Verde à Trofa (que está definido que irá avançar na segunda fase de expansão do projecto do metro), não há ainda definição sobre as ligações que integrarão o concurso público global de construção, de exploração e de manutenção da rede, apesar de, como admitiu o governante Mário Lino, não estarem a ser cumpridos os prazos previstos no memorando de entendimento, celebrado entre a Junta Metropolitana do Porto e o Governo.

Após a inauguração do novo troço da Linha Amarela, em Gaia, Mário Lino reconheceu os atrasos e deixou a ideia de que dificilmente será possível lançar o concurso global no próximo mês. Isso não deverá implicar, contudo, o lançamento da execução do troço entre a Maia e a Trofa e da Linha da Boavista em concursos separados, como determina o memorando de entendimento. O ministro entende que, se essa data também não for respeitada, terá de avaliar-se se vale a pena ou não realizar concursos separados para as referidas linhas.

Reunião na Junta

Neste momento, o novo Conselho de Administração decidiu solicitar um aprofundamento dos estudos sobre a segunda fase de desenvolvimento do projecto, elaborados pelas equipas de Paulo Pinho e de Álvaro Costa, docentes na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.

No caso da Linha da Boavista, trabalha-se na definição pormenorizada do traçado e também na elaboração de estudos de tráfego, antes de fechar o dossiê. A expectativa é que, no próximo mês, já seja possível indicar quais as linhas que avançarão no concurso global da segunda fase de expansão da rede e se haverá alguma adiada para outra fase.

Certa apenas é o arranque da construção da linha de Gondomar, entre o Estádio do Dragão e a Venda Nova, em Rio Tinto. A intervenção será adjudicada no próximo mês. Em Junho, será lançado, também, o concurso público para a construção de mais um pequeno troço da Linha Amarela. Chegará, finalmente, à rotunda de Santo Ovídio, que é uma obra complexa de engenharia.

É neste cenário de indefinição que os 14 autarcas reúnem, amanhã, na Junta Metropolitana. O balanço da evolução do projecto do metro um ano depois da assinatura do memorando será o ponto mais quente. Falta saber se, no final do encontro, sairá uma posição conjunta sobre os atrasos na concretização do acordo.

Luso-Qualquer-Coisa



Ser Português
in, LusoQualquerCoisa, Clã
Letra e Música: Hélder Gonçalves

Se pensas que é agora a tua vez, e não vês que és
100 % português, 100% impossível de vencer
o tão dotado, infalível, o mercado estrangeiro
vem de fora - "É verdadeiro!?"
Até o velho 1, 2, 3, 4 passa a ser
one, two, three, four
E depois, não há tempo p'ra aprender
que nem sempre (sem saber) o movimento vem de fora
vem de toda a volta, fura a toda a volta
vem de barco, avião, comboio, imitação
entretanto vai andando, costumado
o povo português, vai perdendo a sua vez

Sê português, encontra a tua vez
Ser português, ser contra a tua vez

E pensas que é agora que a historia vai mudar
o artista Luso-Qualquer Coisa vai dançar
mas mesmo que não caia, vai ser sempre comparado
ainda bem não está parado é um valor acrescentado
Ainda há muito a fazer por esta causa a rever
rever independentemente como pode ser
como pode ser expressa essa nova novidade
de ser português e ter a sua vez

Sê português, encontra a tua vez
Ser português, ser contra a tua vez

Vai haver um sol nascente na Nação, vai haver, vai haver

Se pensas que é agora a tua vez, e não vês que és
100% português, 100% impossível de vencer
o cobiçado infalível, o produto importado
chega e já tem mercado
Até o velho 1, 2, 3, 4 passa a ser, quer ser
one, two, three, four
E depois, ninguém quer saber
que nem sempre o movimento vem de fora

Vai haver um sol nascente na Nação, vai haver, vai haver

Procura de diálogo à esquerda junta socialista Manuel Alegre e Bloco

29.05.2008 - 09h00 São José Almeida, in Público

O deputado do PS Manuel Alegre, o do BE José Soeiro e a professora catedrática e ex-secretária-geral do Graal Isabel Allegro de Magalhães serão oradores da Festa por Abril e Maio que se realiza a 3 de Junho, no Teatro da Trindade, em Lisboa. Às intervenções seguem-se concertos dos Rádio Macau, de António Manuel Ribeiro e o conjunto Terrakota.

Em declarações ao PÚBLICO, Manuel Alegre salientou a importância da sessão, mas afastou que ela significasse o lançamento de um movimento político. "A ideia é juntar o que está disperso, juntar pessoas de esquerda sem alimentar ilusões", afirmou Alegre, concluindo: "É um acto novo que pode trazer confiança e é um sinal de que há outras coisas, outros mundos, que há esquerda".

Este encontro está a ser promovido por um abaixo-assinado que reúne já a subscrição de várias personalidades de esquerda e onde "é tempo de buscar os diálogos abertos e o sentido de responsabilidade democrática que têm de se impor contra o pensamento único, a injustiça e a desigualdade".

O texto é subscrito por individualidades tão diversas como a escritora Ana Luísa Amaral, o professor universitário António Nóvoa, Elísio Estanque e José Manuel Pureza, o ex-dirigente do PCP Carlos Brito, o arqueólogo Cláudio Torres, a responsável da Cuidar o Futuro Fátima Grácio, o líder do BE, Francisco Louçã, o fundador do PS José Neves, o editor Nélson Matos, o músico Francisco Fanhais e o sindicalista Ulisses Garrido. Os subscritores traçam um quadro negro do país: "Novas e gritantes desigualdades, cerca de dois milhões de portugueses em risco de pobreza, aumento do desemprego e da precariedade, deficiências em serviços públicos essenciais, como na saúde e na educação. Os rendimentos dos 20 por cento que têm mais são sete vezes superiores aos dos 20 por cento que têm menos".

E prossegue: "A corrupção e a promiscuidade entre diferentes poderes criaram no país um clima de suspeição que mina a confiança no Estado". Defendendo que, "numa democracia moderna, os direitos políticos são inseparáveis dos direitos sociais", pelo que, "se estes recuam, a democracia fica diminuída".

domingo, maio 25, 2008

5 de Junho - Dia Mundial do Ambiente


A 5 de Junho comemora-se o Dia Mundial do Ambiente. Este ano o slogan é «kick the habit! Low carbon economy!».
Sendo, a “protecção e promoção de um desenvolvimento sustentável”, o 10º princípio orientador do Comércio Justo, é altura de falarmos um pouco daquilo que as alterações do clima estão a fazer ao planeta e na forma como o Comércio Justo contribui, verdadeiramente, para a sustentabilidade do planeta.
Tem-se falado muito nos “biocombustíveis”. Aquilo que, à partida, parecia ser uma boa ideia (adoptar outras formas de combustível, mais ecológicas, sem emissão de GEE (Gases de Efeito de Estufa), vai (a continuar o ritmo), provocar a fome a biliões de pessoas e, consequentemente, aumentar o número de refugiados que deixarão as suas casas, não por causa de uma guerra ou de um qualquer regime totalitário, mas por não terem que comer. Como é que se passa para aqui? Como é que uma boa ideia, vira uma coisa horrenda? Tal acontece por causa da lógica de mercado que temos. De repente, começa-se a falar em “biocombustíveis”, não porque se tenha ganho consciência política, cívica, social ou ambiental, mas porque se viu a hipótese de mais um negócio. O “velho” lucro! Por isso é que o Comércio Justo, ao colocar as pessoas e o ambiente acima do lucro, está a contribuir para que as coisas sejam diferentes. No passado, o Comércio Justo já se recusou a produzir certos alimentos, que estavam a ter um procura elevadíssima, porque o mercado internacional estava a produzir de tal maneira, que os solos já não aguentavam mais produção. Assim, o Comércio Justo, ao invés de pensar no seu próprio lucro, decidiu não o fazer. Já diziam os “índios” que a terra é nossa irmã. E é isso mesmo. A espécie humana não pode usufruir dos recursos como se estes lhes pertencessem de pleno direito.
Por isso, o Comércio Justo não só quer mudar a consciência do consumidor final, apelando a um consumo responsável, mas desde o princípio que tem outro tipo de preocupações que visam, também, a protecção do ambiente e a sustentabilidade do planeta. Tenta construir, diariamente, um mundo melhor.

Guilherme Rietsch Monteiro

sexta-feira, maio 23, 2008

O Analfabeto Político


"Não há pior analfabeto que o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. O analfabeto político é tão burro que se orgulha de o ser e, de peito feito, diz que detesta a política. Não sabe, o imbecil, que da sua ignorância política é que nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, desonesto, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo."

Bertolt Brecht (1898-1956)

quinta-feira, maio 15, 2008

Unidos contra o iogurte

Ricardo Araújo Pereira
in, Visão


Aqui há dois ou três anos, prometeram-me que iam ser criados 150 000 novos empregos e até agora nada, mas a malta da União Europeia está preocupada é com as promessas que os iogurtes não cumprem. São prioridades lá deles

A União Europeia quer pôr ordem no mundo dos lacticínios. Ora até que enfim. Alguém tinha que deitar a mão ao badanal que se vivia nos iogurtes. A partir de agora, os anúncios a iogurte só podem afirmar que o produto faz bem à saúde se as marcas conseguirem prová-lo cientificamente. Significa isto que a publicidade vai passar a ter de dizer a verdade. Não sei se aguento o choque civilizacional. Se vamos impedir os publicitários de mentir, há fortes probabilidades de os intervalos dos programas televisivos passarem a ser preenchidos com dez minutos de silêncio.

Aqui há dois ou três anos, prometeram--me que iam ser criados 150 000 novos empregos e até agora nada, mas a malta da União Europeia está preocupada é com as promessas que os iogurtes não cumprem. São prioridades lá deles. Parece que aquele iogurte que garante criar uma bolha amarela de protecção à volta das pessoas para as proteger das bactérias vai mesmo ter de provar que cria a bolha amarela. Era bem feita que conseguisse. Acredito mais nisso do que nos 150 000 empregos – apesar de nunca ter visto nem a bolha nem os empregos.

Acima de tudo, eu levo a mal que os burocratas de Bruxelas queiram acabar com os anúncios, logo a minha parte favorita da programação. Quem é o génio residente na Bélgica que pretende impedir-me de contemplar a protagonista do anúncio dos Corpos Danone, mas não levanta qualquer objecção a que eu assista às Chiquititas?
É a isto que eles chamam proteger o cidadão?

Bom, eu sei que os anúncios aos chamados alimentos saudáveis andavam a pedi-
-las. Há para ali muita promessa de salvação e melhoramento do meu organismo que nunca me convenceu – e é sobretudo por isso que eu continuo a fazer uma dieta à base de fritos e gorduras, produtos que nunca tentaram persuadir-me de que me fariam viver mais um dia que fosse. Aprecio a honestidade nos víveres, e a entremeada nunca me tentou enganar.

Em todo o caso, sinto algum desconforto pelo facto de a União Europeia considerar que eu preciso de ser defendido das patranhas do bifidus activo. Quem é que eles julgam que o bifidus activo engana? Ele que me tente convencer de que regula os meus intestinos, a ver se eu caio nessa. Seres humanos, alguns dos quais dotados de entendimento, nunca me apanharam com a história do time sharing, e ia agora cair na esparrela do aloé vera, que nem ao reino animal pertence? Tenham juízo.

Nobody expects the portuguese winter

Ricardo Araújo Pereira
in, Visão


As calamidades ajudam-nos a organizar a vida. São pontos de referência. «Quando é que mudámos de casa? Foi depois dos incêndios de 91, porque eu já tinha o Citroën que foi levado pelas cheias de 94, mas ainda não tinha ficado sem a perna esquerda...»

Todos os anos, Portugal é surpreendido duas vezes: uma vez pelo Verão e outra pelo Inverno. Nunca estamos à espera deles. Para o resto do mundo, a natureza é cíclica, monótona e repetitiva. Para nós, é uma caixinha de surpresas. «Olha, lá vem o Verão outra vez. E não é que traz novamente muito calor, este bandido? Se calhar devíamos ter feito uma limpeza às matas.

Ops!, tarde de mais, já está tudo a arder.» No Inverno, a mesma coisa.

«Olha, lá vem o Inverno outra vez. E não é que traz novamente muita chuva, este bandido? Se calhar devíamos ter feito uma limpeza às sarjetas. Ops!, tarde de mais, já está tudo alagado.» E assim sucessivamente.

Nunca cansa. E, no entanto, imagino que os jornalistas usem sempre a mesma notícia. Há dois ou três pormenores que mudam, como a marca dos helicópteros que combatem o fogo ou o número de viaturas que são arrastadas pela enxurrada, mas o resto é igual: «Violento incêndio ali», «Fortes chuvas acolá». Até os adjectivos que qualificam as catástrofes são previsíveis: os incêndios são quase todos violentos e é raro as chuvas serem outra coisa que não fortes. Não há memória de fortes incêndios e violentas chuvas, por exemplo. Mas não é por isso que deixamos de receber as notícias com renovada surpresa. Temos dificuldade em acreditar que ainda não foi desta que a chuva deixou de causar os estragos próprios da chuva. É verdade que, este ano, a chuva deu novamente cabo das estradas e voltou a fazer vítimas, mas pode ser que, para o ano, chova mais civilizadamente. Todos os anos damos uma oportunidade à chuva. E, por um lado, ainda bem.

Não sei se consigo imaginar Portugal sem as calamidades. As calamidades ajudam-nos a organizar a vida. São pontos de referência. «Quando é que mudámos de casa? Foi depois dos incêndios de 91, porque eu já tinha o Citroën que foi levado pelas cheias de 94, mas ainda não tinha ficado sem a perna esquerda, que foi ao ar nos incêndios de 92.» Se as autoridades competentes começam a varrer as matas e a limpar as sarjetas, deixamos de ter a noção da passagem do tempo. Ainda vamos ter de comprar uma agenda. Com as calamidades, é dinheiro que se poupa.

E não só. Há gente cuja vida tem sido salva pelas calamidades. Gente que sobreviveu às cheias de 87 porque ainda estava no hospital a recuperar dos incêndios de 86. Gente que se salvou dos incêndios de 99 porque ainda tinha a casa alagada pelas cheias de 98 e usou a água para combater as chamas.

Enfim, gosto da esfera armilar, na nossa bandeira. Mas uma sarjeta entupida, entre o vermelho e o verde, também não ficava mal.

No meu tempo não era assim

Ricardo Araújo Pereira
in, Visão


O filme da escola Carolina Michaëlis tem essa virtude: mostra a idiotice em toda a sua nudez. Um regalo para os meus olhos, que aprecio muito idiotice – e nudez ainda mais

Quando este texto for publicado, o leitor já viu várias vezes o vídeo em que uma aluna da escola Carolina Michaëlis dá início a um motim porque a professora de Francês teve a ousadia de lhe confiscar o telemóvel. (Se não viu o filme, digo-lhe que impressiona. Sobretudo porque, enquanto a generalidade dos cidadãos é assaltada na rua, a esta senhora o gang apareceu-lhe no local de trabalho.) Também calculo que já terá tido oportunidade de ouvir várias pessoas a garantirem-lhe que isto, no tempo delas, não era assim. Eu nunca perco uma oportunidade de me juntar a um coro de moralistas (que, normalmente, têm uma afinação irrepreensível), e por isso estou aqui para dizer o mesmo: isto, no meu tempo, não era assim.

Era pior. Sobretudo porque não havia telemóveis. Privados da possibilidade de filmar os seus actos de indisciplina, os alunos do meu tempo tinham muito mais dificuldade em tomar consciência da sua própria idiotia. O filme da escola Carolina Michaëlis tem essa virtude: mostra a idiotice em toda a sua nudez. Um regalo para os meus olhos, que aprecio muito idiotice – e nudez ainda mais. Acredito sinceramente que, depois de verem a figura que fizeram, tanto a protagonista do filme como o magnífico cineasta que captou a acção, lançando a todo o passo estupendas indicações de cena, não voltarão a comportar-se assim. No meu tempo, teríamos continuado. Um alarve que toma consciência de ser alarve insiste na alarvidade? Não creio. E se um alarve cair no meio de uma floresta e não estiver lá ninguém para ouvir, faz barulho? Julgo que sim, e confesso que até espero que se aleije com alguma gravidade na queda.

A verdade é que, se há coisa que nunca muda em toda a História da Humanidade é esta: os adolescentes são parvos em todo o lado. Todos os senhores respeitáveis já foram, numa altura ou noutra, adolescentes parvos. Jorge de Sena começa um livro autobiográfico dando conta da «indisciplina ruidosa» que eram as suas aulas de Filosofi a. Que, notem, decorreram no tempo dele. Tempo esse que é bem anterior ao tempo dos que agora dizem que no seu tempo isto não era assim. Está baralhado com isto dos tempos? Siga para o próximo parágrafo, que é já o penúltimo.

É por isso que a culpa do que sucedeu na escola Carolina Michaëlis, a ser de alguém, é da professora. Ser professor de liceu é das actividades mais insolentemente arrogantes a que alguém se pode dedicar: trata-se de pretender ensinar coisas a quem já sabe tudo. Eu, pelo menos, sabia tudo aos 15 anos. A própria Carolina Michaëlis, que era tão boa senhora, sabia com certeza muito mais aos 15 anos do que quando foi ensinar para a Universidade de Coimbra. Toda a gente sabe tudo aos 15 anos. Só com o passar do tempo se vai descobrindo, com razoável sobressalto, que não se sabe quase nada. Mas há duas ou três pessoas que nunca aprendem o seguinte: o tempo delas, apesar de contar com a sua inestimável presença, não é especial em nada. No meu tempo, aliás, toda a gente sabia isto.

Nota: Não conheço bem as recentes propostas do Ministério da Educação e por isso não sei se, actualmente, posso pronunciar-me acerca de um professor sem o avaliar. Aqui fica, então, a minha avaliação da professora de Francês da escola Carolina Michaëlis, baseando-me apenas nas imagens do vídeo:

Resistência: 17

Capacidade de sofrimento: 19

Equilíbrio: 16

Persistência: 18

1% é melhor que nada (muito ligeiramente, mas é)

Ricardo Araújo Pereira
in, Visão


As minhas ideias para explorar o povo português são ainda mais pérfidas do que as de José Sócrates, o que é ao mesmo tempo difícil e assustador

Se uma pessoa não anda com atenção, deixa-se enganar com facilidade. Segundo a comunicação social, o Governo anunciou uma descida de 1% no IVA. Não é verdade. O que o Governo fez foi anunciar um aumento de 1% no IVA. Vamos lá pensar bem nisto: há uns meses, aumentaram o IVA em 2%. Agora, tiraram 1%. O resultado é que, desde que este governo foi eleito, o IVA aumentou 1%. É uma excelente ideia, mas podia ser melhor. Realmente bem pensado seria José Sócrates anunciar, no primeiro mês de governação, um aumento do IVA de 250%. Depois, todos os meses anunciava uma substancial descida de 5%. No fim do mandato ainda teria saldo positivo e, quando a comunicação social fizesse um balanço da legislatura, contabilizaria apenas uma medida impopular contra 48 medidas populares. Daqui se conclui que as minhas ideias para explorar o povo português são ainda mais pérfidas do que as de José Sócrates, o que é ao mesmo tempo difícil e assustador.
Não estou a dizer que a ideia do Governo é má, antes pelo contrário. O facto de ser mais sonsa que a minha só lhe fica bem. O conceito é, aliás, tão bom que não ficaria surpreendido se Sócrates o aplicasse a várias outras áreas. Escolher duas ou três medidas impopulares que foram tomadas até meio do mandato e suavizá-las na metade que sobra até às eleições. Por exemplo, abrir meio centro de saúde em cada concelho. Ou avaliar só metade dos professores, e com teste de consulta. Ou ir tirar meia licenciatura. Bom, isso, ao que dizem, já ele fez, e deu sarilho. Esqueçam a última. Mas as outras têm potencial.

Quanto ao impacto que a medida vai ter na economia, permitam-me que manifeste algum receio. Todos sabemos que o povo fazer poupanças de IVA a menos no bolso, assim de um dia para o outro, pode começar a desbaratar. Eu, que não sou excepção, já estou de olho num iate, que vou adquirir só com o que passo a poupar na mercearia.

O ideal seria que a medida fosse acompanhada de, adivinharam, uma acção de sensibilização. Por princípio, apoio todas as acções de sensibilização. Julgo que uma pessoa sensibilizada é uma pessoa melhor. E, se os cidadãos forem sensibilizados no sentido de amealhar todos os cêntimos que pouparão no IVA que deixam de pagar, quando chegarem à idade da reforma aqueles 10 ou 15 euros vão-lhes saber bem. Hoje parece pouco, mas no futuro, com a inflação, parecerá menos ainda.

Sobre um pequeno pormenor chamado liberdade

Ricardo Araújo Pereira
in, Visão


Para quem aprecia a liberdade, o 25 de Abril foi agradável; para os que não gostam, foi uma oportunidade para fazerem aquela viagem ao Brasil

Eu não gosto de militares. Não gosto da ética militar, nem da brutalidade, nem daquele fanatismo patriótico que é, com muita frequência, trágico.
E também não gosto do povo. Não gosto da irresponsabilidade da multidão, nem daqueles que parecem ser os dois principais factores de interesse da massa popular: aglomerar-se em torno de acidentes rodoviários e insultar as camionetas que levam os arguidos para o tribunal. Tinha um amigo da UDP (notem que é possível fazer amizade com gente da UDP) que gritava com gosto a palavra de ordem do partido: «UDP, sempre ao lado do povo!» E depois acrescentava, mais baixinho: «Mas nunca no meio dele.» O escritor Mário de Carvalho costuma advertir para a necessidade de distinguir o povo do populacho, porque o primeiro é um conceito nobre e até mítico, e o segundo é uma massa infame. O problema é que é difícil encontrar o povo, mas é muito fácil dar de caras com o populacho.

E, no entanto, foram os militares e o povo que fizeram o 25 de Abril. Às vezes dá-se o caso de um casal muito feio ter um filho muito bonito. Parece-me que foi o que aconteceu, embora nem toda a gente esteja convencida da beleza da criança. Para mim, o mais divertido nas comemorações do 25 de Abril têm sido as tentativas para tornar a data «mais consensual». O Dia da Liberdade não reúne consenso, o que me deixa verdadeiramente surpreendido. Percebo que a liberdade não seja consensual, mas do meu ponto de vista ninguém teve razões de queixa: para quem aprecia a liberdade, o 25 de Abril foi agradável; para os que não gostam, foi uma oportunidade para fazerem aquela viagem ao Brasil que tinham andado tanto tempo a adiar. Sempre pensei que a data agradasse a todos.

Na verdade, porém, o 25 de Abril parece agradar a cada vez menos gente. Há autores para quem o Salazarismo não foi um fascismo, e outros para quem o 25 de Abril não foi exactamente uma revolução. O que faz com que, aparentemente, na frase «25 de Abril sempre, fascismo nunca mais», não haja nada que se aproveite. Nem o 25 de Abril foi 25 de Abril, nem o fascismo foi fascismo.

E por isso, amanhã, numa data que, pelos vistos, não chegou a ocorrer, comemora-se a nossa libertação de um opressor que, ao que me dizem agora, nunca existiu. Até parece mais bonito assim, não parece? Parece. Resumindo e concluindo: 25 de Abril sempre, fascismo nunca mais.

A rotatividade é o melhor de todos os sistemas

Ricardo Araújo Pereira
in, Visão


Neste momento, há cinco candidatos a presidente do partido, sendo que entre estes se incluem alguns que todos sabemos não terem a mais pequena hipótese de ganhar umas eleições nacionais, como um Neto da Silva ou, imagine o leitor, um Santana Lopes

Toda a gente concorda que o PSD faz falta ao país. Ninguém sabe bem para quê, mas é consensual que faz falta. Pessoalmente, não tenho nada contra os sociais-democratas. Do ponto de vista ideológico, nada me afasta do PSD.

É muito difícil divergir ideologicamente de um partido que não tem ideologia nenhuma. Recordo que o presidente mais bem sucedido de sempre do PSD ficou conhecido, não pelo programa político que apresentou num congresso, mas por ter lá ido fazer a rodagem de um carro. Só por embirração eu poderia arranjar divergências ideológicas com aquela gente, e é por isso que o facto de PS e PSD continuarem a descobrir matéria para discordar entre si me deixa sempre surpreendido. Deve ser um esforço tremendo.

Bom, nada de exageros. É evidente que há dois ou três traços ideológicos no partido. O PSD tem muito apreço pela iniciativa privada, e talvez isso explique a razão pela qual nenhum dos militantes tenha especial vontade de gerir a coisa pública. O problema é que se torna muito mais fácil termos êxito nas nossas iniciativas privadas se tivermos um companheiro a organizar as coisas públicas. Normalmente, o PSD (e o PS) põe em prática um inteligente sistema de rotatividade em que alguns militantes vão suportando o aborrecimento de olhar pelo bem comum enquanto os outros vão tratar da vida, e depois troca. E assim sucessivamente. Mas, ultimamente, o PS tem gerido a coisa pública de modo agradável para os militantes do PSD que estão a tratar da vida, pelo que nenhum deles está suficientemente aborrecido para precisar de dar uns retoques na coisa pública.

Luís Filipe Menezes, entretanto, foi tão inofensivo para o Governo como Marques Mendes havia sido, mas Marques Mendes foi inofensivo de um modo muito mais respeitável. Como os militantes do PSD apreciam a compostura e a discrição, inquietaram-se. Neste momento, o PSD está de tal forma confuso que se torna difícil de compreender. Os militantes que fizeram excelente oposição a Luís Filipe Menezes não parecem interessados em fazer oposição a José Sócrates. E, na altura em que escrevo, há cinco candidatos a presidente do partido, sendo que entre estes se incluem alguns que todos sabemos não terem a mais pequena hipótese de ganhar umas eleições nacionais, como um Neto da Silva ou, imagine o leitor, um Santana Lopes. Ou o PSD recupera a credibilidade, ou não conseguirá voltar a ser alternativa a José Sócrates, para ir para o Governo fazer mais ou menos o mesmo que ele. É todo o nosso conceito de democracia que está em perigo.

A violação de Sócrates



O aumento dos combustíveis...

...Causa diminuição de fertilidade.

Veja porquê!



Porreiro Pá!



terça-feira, maio 13, 2008

Nada de especial

António Lobo Antunes
in, Visão


Que silêncio tão grande. No interior do silêncio mais silêncio e no interior do mais silêncio um relógio minúsculo a anunciar
– Já é tarde, já é tarde

de forma que nem reparamos nos ponteiros. Para quê se o relógio insiste

– Já é tarde, já é tarde

e nós a olharmos uns para os outros,
inquietos

– O que diz o relógio?

apesar de termos ouvido perfeitamente a sua vozinha apressada, nós de súbito com medo

– Tarde?

e o que significa tarde meu Deus, o que pretende o relógio? Mesmo tapando as orelhas com as mãos a teimosia permanece

– Já é tarde

mesmo não escutando mais nada escutamos o

– Já é tarde

não sabemos se no relógio se no interior da gente, olhamos em volta, olhamos para dentro à procura, achamos episódios antigos, um triciclo, um avô a espantar-se

– O que tu cresceste

um colar de pérolas

(de quem?)

numa tacinha, achamos a nossa vida de hoje e qual o sentido da nossa vida de hoje, o que fazemos com ela, dias atrás de dias, o supermercado, o jantar no restaurante aos domingos, a maçada das crianças às vezes e não era bem isto que nos apetecia, não era bem isto o que tínhamos desejado, falta qualquer coisa, onde é que errámos, o que falhámos, não somos infelizes mas também não temos o que secretamente ansiávamos, os anos vão passando

(– o que tu cresceste)

e não temos o que secretamente ansiávamos, de vez em quando momentos tão vazios, de vez em quando, mesmo no meio dos outros, uma solidão tão grande, um desamparo, uma sensação de queda, esta dificuldade em respirar, porque a mobília sufoca, que vem e desaparece e volta, de vez em quando, sem motivo, vontade de chorar, não lágrimas grandes, não soluços, uma coisa vaga, uma pergunta

– E agora?

sem resposta, caras familiares que se tornam estranhas, se te abraçar continuo sozinho, o que se passa comigo, o que se passa connosco, o relógio prossegue

– Já é tarde

monótono, acusador, implacável, os
objectos quietinhos sem nos ajudarem

– Porque não nos ajudam?

Nada nos ajuda, é tarde, tentamos conversar e é tarde, fazemos amor e é tarde apesar de termos feito amor na esperança que não seja tarde e depois, em lugar do prazer, ou misturado com o prazer, ou mais forte que o prazer, uma espécie de amargura que persiste, se não dilui, persiste, o

– E agora?

sem resposta aumenta, um

– E agora?

imenso, que horror, um

– E agora?

que nos preenche inteiros, se nos pegassem ao colo, fugissem connosco, nos
garantissem

– Não é tarde ainda

e pudéssemos acreditar que não é tarde ainda, tranquilizar-nos afirmando

– Não é tarde ainda

embora cientes que mentimos

– Não é tarde ainda

e tornar a mentira verdade, que outra coisa fizemos para além de tentarmos transformar as mentiras em verdades, não há ninguém mais crédulo que um desesperado

– O que tu cresceste

e em que direcção cresci que não dou por ter crescido, lá está o triciclo, lá está o avô, lá está o colar, os frascos de perfume que cheirávamos às escondidas, os cigarros que fumávamos secretamente no quintal, cresci para onde, cresci como, se nos metermos no carro, se almoçarmos fora, se te pegar na mão melhoramos e contudo

ficamos parados

a teimar no silêncio

(que silêncio tão grande)

– Já é tarde

e não é o relógio, somos nós

– Já é tarde

não noite ainda e contudo tão tarde, aproximamo-nos da janela, os prédios do costume na rua

(esperavas outros prédios, outro
bairro?)

e tão tarde, ganas de apanhar aquele cinzeiro e quebrá-lo no chão, de que serve apanhar aquele cinzeiro e quebrá-lo no chão, no espelho a nossa cara

– O que tu cresceste

diferente, a nossa cara e diferente, porquê diferente, o que é isto nos olhos, o que é isto na boca, a boca a ecoar

– Tarde

tal como os olhos ecoam

– Tarde

todo o corpo a afirmar

– Tarde

e quando o

– Tarde

diminui o

– E agora?

a dilatar-se nele, o

– E agora

imenso, sentamo-nos no sofá com uma revista, o jornal, um livro e as mãos vazias, apertamo-las uma na outra, espreitamos o triciclo, a certeza que se pedalássemos muito depressa não seria tarde, pedalar mais depressa que o relógio, os episódios antigos, aquela parente que nos oferecia rebuçados cujo papel não descolava e se nos prendia aos dentes, tentávamos retirar o papel com a unha e não saía, ainda nos lembramos do gosto do papel na língua, largamos a revista, o jornal, o livro, e ficamos no sofá, tanto tempo passado, com o papel na língua, a mastigá-lo, a mastigá-lo, a mastigá-lo, no fundo da gente nós mesmos a acusarmo-nos

– Porque me tornaste nisto?

o silêncio aumentou tanto que o relógio se calou, uma palma no nosso ombro

– O que foi?

e construímos peça a peça um sorriso
difícil

(custa tanto um sorriso)

que responde por nós

– Não foi nada.

Migalhas

Excerto do texto "Migalhas" de António Lobo Antunes publicado na Visão


Gosto do teu cheiro. Se te apetecer voltar toca a campainha três vezes e carrego naquele botão que abre a porta da rua. E se me avisares com antecedência compro um bolo. Quando não estiveres cá e me sentir sozinho como as migalhas que sobrarem. Vou contar-te um segredo: há alturas em que as migalhas ajudam.

Abraça-me bem

Mafalda Veiga
in, Chão

levantas o teu corpo cansado do chão
afastas esse peso que te esmaga o coração
abres uma janela e perguntas-te quem és
respiras mais fundo e enfrentas o mundo de pé

eu venho de tão longe e procuro há mil anos por ti
estendo a minha mão até te sentir
não sabemos nada do que somos nós
mas sabemos tanto do que muda por não estarmos sós

abraça-me bem

levantas os teus olhos para me olhar assim
procuras cá dentro onde me escondi
e eu tenho medo, confesso, de dar
o mundo onde guardo tudo o que mais vale salvar

tu dizes que não há outra forma de ficarmos perto
não há como saber se o caminho é certo
só pode voar quem arriscar cair
só se pode dar quem arriscar sentir

abraça-me bem

segunda-feira, maio 12, 2008

Sem comentários!

Notícia do DN

"A minha filha mereceu morrer por se apaixonar"

Pai esfaqueou rapariga por falar com soldado


Abdel-Qader Ali não tem dúvidas: o mínimo que a filha merecia era morrer. O crime da rapariga de 17 anos? Ter-se apaixonado por um dos 1500 soldados britânicos estacionados na cidade iraquiana de Baçorá. "Se eu soubesse no que ela se ia transformar, tê-la-ia matado logo que a mãe a deu à luz", garantiu este funcionário público xiita, numa entrevista ao semanário britânico The Observer.

Dois meses depois de a morte de Rand Abdel-Qader - sufocada e esfaqueada pelo pai e irmãos a 16 de Março - ter chocado o mundo, Abdel-Qader Ali continua em liberdade. Foi no jardim da sua casa que o homem de 46 anos recordou como teve "o apoio dos meus amigos que também são pais e sabem que o que ela fez é inaceitável". A própria polícia, que chegou a deter Abdel-Qader umas horas, deu-lhe razão. "Todos sabem que os crimes de honra são impossíveis de evitar", disse o iraquiano, segundo o qual "os agentes ficaram ao meu lado o tempo todo a dar-me os parabéns pelo que fizera".

Rand Abdel-Qasser terá conhecido Paul, um militar britânico de 22 anos, numa acção de caridade na cidade do Sul do Iraque, em que ambos participavam como voluntários. Como qualquer adolescente apaixonada, apressou-se a contar tudo à melhor amiga Zeinab. "Ela gostava de falar do seu cabelo louro e olhos cor de mel, da sua pele branca e da sua maneira suave de falar", recordou a rapariga de 19 anos em declarações ao Daily Mail. Para as amigas, o britânico era "muito diferente dos homens de cá, rudes e analfabetos".

Estudante de Inglês na Universidade de Baçorá, Rand tinha a vantagem de poder falar com Paul sem intermediários. E rapidamente começou a usar todos os argumentos possíveis para prolongar o seu trabalho de voluntariado, que lhe dava a oportunidade de estar com ele.

Uma paixão que podia até nem ser retribuída. De facto, Rand e Paul não se terão encontrado mais de meia dúzia de vezes e sempre em locais públicos. "Ela nunca fez nada para além de falar com ele", garantiu Zeinab. Mesmo assim, esta não se cansou de alertar a amiga para os perigos desta amizade: "Disse-lhe vezes sem conta que ela era muçulmana e que a sua família nunca aceitaria que casasse com um soldado britânico cristão." Como confidente de Rand, era Zeinab quem guardava os presentes que este lhe oferecia, como um leão em peluche para o qual diz agora ser "difícil olhar".

E foi o que aconteceu. Quando o pai de Rand soube que a filha se andava a encontrar com o militar, perdeu a cabeça. "Entrou em casa com os olhos raiados de sangue e a tremer", recordou ao The Observer a mãe da rapariga. Quando viu o marido a sufocar a filha com o pé, Leila Hussein chamou os dois filhos, de 21 e 23 anos, para ajudarem a irmã. Mas quando o pai lhes disse o motivo da agressão estes ainda o ajudaram.

Considerada "impura", Rand não teve direito a funeral e os tios cuspiram sobre o seu corpo quando este foi lançado a uma vala. Incapaz de viver sob o mesmo tecto que o homem que matou a sua filha, Leila pediu o divórcio e está, desde então, escondida para evitar a vingança do marido. "Fui espancada e fiquei com o braço partido", disse a mulher, que agora trabalha para uma organização que denuncia os crimes de honra.

Em 2007, 47 mulheres foram mortas por terem violado "a honra" da família só em Baçorá e desde Janeiro deste ano a Comissão de Segurança da cidade garante que o número já vai em 36. Segundo a ONU, pelo menos cinco mil mulheres são anualmente vítimas de crimes de honra em todo o mundo, e, apesar de a maioria decorrer em países islâmicos, estão a acontecer cada vez mais a muçulmanas que vivem no Ocidente.

Apesar da presença britânica, Baçorá é em parte controlada pelas milícias, que definem regras estritas de comportamento. São elas quem impõem os códigos de vestuário, as práticas religiosas e determinam que a prostituição e a homossexualidade são puníveis com a morte.

sexta-feira, maio 09, 2008

Seu pensamento

A uma hora dessas
por onde estará seu pensamento
Terá os pés na terra
ou vento no cabelo?

A uma hora dessas
por onde andará seu pensamento
Dará voltas na Terra
ou no estacionamento?

Onde longe Londres Lisboa
ou na minha cama?

A uma hora dessas
por onde vagará seu pensamento
Terá os pés na areia
em pleno apartamento?

A uma hora dessas
por onde passará seu pensamento
Por dentro da minha saia
ou pelo firmamento?

Onde longe Leme Luanda
ou na minha cama?

Pelo tempo que durar

Nada vai permanecer
no estado em que está
E eu só penso em ver você
Eu só quero te encontrar

Geleiras vão derreter
Estrelas vão se apagar
E eu pensando em ter você
pelo tempo que durar

Coisas a se transformar
para desaparecer
E eu pensando em passar
a vida a te transcorrer

E eu pensando em passar
pela vida com você

O outro

Texto: Mário de Sá Carneiro
Música: Adriana Calacanhoto

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro.

quinta-feira, maio 08, 2008

Canção por acaso

Adriana Calcanhoto

Sem ordem
Sem harmonia
Sem belo
Sem passado
Sem arte
Sem artéria
Sem matéria
Sem artista
Sem voz
Sem formato
Sem escalas
Sem achados
Sem sol
Sem Tom
Sem Melodia
Sem tempo sem contratempo
Sem mito
Sem rito
Sem ritmo
Sem teoria

Uma canção por acaso
Uma música sem som
Uma canção por acaso
Uma sem som

Calor

Adriana Calcanhoto

Tarde turquesa
Quarenta graus
Talvez porque você não esteja
Tudo lateja

Tarde sem nuvem
Cinquenta graus
Talvez por sua ausência
tudo derreta

Noite sem ninguém
Nada se mexe
Eu sonho nosso amor a sério
e você em outro hemisfério

Enquanto tudo derrete
enquanto tudo derrete
enquanto tudo parece
derreter

Âmbar

Adriana Calcanhoto

Tá tudo aceso em mim
Tá tudo assim, tão claro
Tá tudo brilhando em mim
Tudo ligado
como se eu fosse um morro iluminado
por um âmbar elétrico
que vazasse nos prédios
e banhasse a Lagoa
até São Conrado
e ganhasse as Canoas
aqui do outro lado
Tudo plugado, tudo me ardendo
Tá tudo assim queimando em mim
como salva de fogos
Desde que sim, eu vim morar nos seus olhos

Alegre

Adriana Calcanhoto

Hoje tem uma alegria em mim
Hoje eu acordei alegre
Nem nada mudou tanto assim
mas qualquer coisa em mim
urge
arde em febre
Hoje serei enfim
quem você quiser de mim, me leve
que eu hoje vou dizer: sim
ao que quer que me espere
me espere

Onde andarás

Letra: Caetano Veloso
Música: Ferreira Gullar
in Maré, Adriana Calcanhoto

Onde andarás nesta tarde vazia
Tão clara e sem fim
Enquanto o mar bate azul em Ipanema
Em que bar, em que cinema
Te esqueces de mim?
Enquanto o mar bate azul em Ipanema
Em que bar, em que cinema
Te esqueces…
Eu sei
Meu endereço apagaste do teu coração
A cigarra do apartamento
O chão de cimento
Existem em vão
Não serve pra nada a escada, o elevador
Já não serve pra nada a janela
A cortina amarela
Perdi meu amor
E é por isso que eu saio pra rua
Sem saber pra quê
Na esperança talvez de que o acaso
Por mero descaso
Me leve a você
Na esperança talvez de que o acaso
Por mero descaso
Me leve…
eu sei

quarta-feira, abril 30, 2008

Rui Reininho : "A estupidez dos ‘tripeiros’ foi virarem-se contra Lisboa em vez de se virarem para Barcelona"



Entrevistas Vox Publica
Rui Reininho : "A estupidez dos ‘tripeiros’ foi virarem-se contra Lisboa em vez de se virarem para Barcelona"
28.04.2008 - 17h14 Sérgio C. Andrade, Carla Marques (Rádio Nova)

Há pouco mais de uma semana, em Lisboa, foi a reunião em palco, impensável há uns anos atrás, dos dois GNR – o Grupo Novo Rock e a banda sinfónica da Guarda Nacional Republicana. Na próxima quarta-feira, é o concerto em nome próprio (e da nova Companhia das Índias) na Casa da Música. Rui Reininho está a abrir um ciclo de novas apostas na sua carreira. Mas continuará a ser a voz do GNR e de uma certa “pronúncia do Norte”: crítica, irónica e sempre um pouco blasé. Não é pose, diz ele, que agora, “depois de umas terapias”, já não é as três personagens que costumava ser. Conseguiu passar para uma “bipolaridadezita mais simpática”. “Agora sou só dois: o Sr. Rui Braga, ex-chefe de família, e Rui Reininho, mais conhecido aí entre o povo. O outro, um tal Rudy Romeu, adormeci-o”.

Na altura da fundação, em 1981, a escolha do nome GNR [Grupo Novo Rock] fez algum barulho. Agora apareceram envolvidos com a [própria banda sinfónica da] GNR. Fizeram as pazes?
Nunca tive, assim, um conflito com a corporação. Mas, agora, conhecendo os seres humanos que estão dentro daquelas fardas… É uma gente fantástica. São músicos como nós. Têm bastante talento e qualidade musical. Antigamente, associava-se sempre as bandas militares às charangas. Agora, têm uma qualidade de instrumentos muito boa. Estão ali milhares de euros em bons instrumentos. São muito disciplinados, e têm grande sentido de humor. Talvez também pese o facto de a sua média de idades andar aí pelos 30 anos...

Muitos cresceram a ouvir os GNR.
Sim. Foram seis dias de uma relação muito simpática.

Não teve medo de ser preso?
Não. Eu não sou um ilegal. O único cadastro que tive foi ali na antiga PIDE, ao pé de minha casa. Vim a descobrir, por um amigo que estava na comissão de extinção da PIDE, que tinha lá cadastro.

Por mau comportamento social, ou político?
Fazíamos umas reuniões lá em casa [dos meus pais], gente ligada à UEC, aos maoístas. Era prático, porque era perto do liceu.

O concerto com a GNR vai ser levado a outro lugar, ou foi gravado para editar?
Foi gravado pela RTP, que parece que o irá apresentar. Foi uma coisa bem nacional, uma daquelas decisões administrativas, três dias antes do concerto.

Mas a edição em disco não está prevista?
Eu gostaria. Achei um pouco estranho, até, a falta de interesse da EMI, que é dona do nosso reportório. Mas isso faz parte da crise discográfica. Está tudo a assobiar para o ar, e raramente se toma uma decisão firme. Aquilo é um pouco como o Titanic: eles viram um bocado de gelo e não viram o iceberg que estava por trás, os down-loads, o MP3...

Como é que o GNR está a sobreviver à situação?
Com os espectáculos. Como sempre fizemos.

Mas estão agora a fazer menos concertos do que antes.
O ano passado foi excepcionalmente bom, mesmo sem disco [editado]. Talvez porque fizemos os Coliseus, que dá uma certa visibilidade. E provavelmente até atrelados a um êxito de rádio, que foi a versão do Inferno, do Roberto Carlos. Este ano está particularmente fraco para os artistas nacionais, porque há muita invasão do chamado artista estrangeiro. E há dois ou três vortex, quase sanguessugas, que dão cabo dos apoios todos. Não quero estar agora a ser desagradável, a dizer que é o festival A, B ou C, que leva os apoios todos. O chamado promotor local desapareceu. Aquele sujeito que estava ali na Mealhada, e que não pode competir com os bancos, com as gasolineiras, com as cervejeiras.

A nova lei da rádio não vai ajudar a resolver a crise?
Estas coisas não deviam ser forçadas – também não tenho quotas lá em casa. Devia ser uma coisa espontânea, como respirar. Mas há uma certa autofagia. Para artistas, sem falta modéstia, mais ou menos consagrados desta geração, como nós, os Xutos, o Rui Veloso e por aí fora, se calhar, nem afectará muito. Mas, para quem está a começar, é autofágico, esta coisa de se ter acabado com o CD. Nenhuma editora vai apostar em projectos giros. Por muito talento que tenha, ninguém vai editar. Então, tocamos todos músicas entre nós, em computador, como muita gente faz.

Vão às Queimas, este ano?
Provavelmente não. Já estamos em Maio, e só tenho espectáculos a partir de Junho.

Também não é grande adepto de tocar em Queimas e em festivais.
Fui, durante muitos anos. Creio que Coimbra é o nosso recorde. É a cidade onde mais tocamos na vida, mais de vinte vezes.

Mas os festivais de Verão…
Sim. Claro que prefiro ir espreitar o de Paredes de Coura, de que gosto da programação. Não sou homem para me deslocar lá abaixo ao Alentejo só para ver A, B ou C.

E tocar em festivais?
Não é o meu formato preferido, em termos de espectáculos, estar ali no meio daquela programação. Até porque aconteceu-me, há dois anos, no Rock in Rio, um dos momentos mais desagradáveis da minha vida. Deram-nos das 7 às 9 da manhã para fazer o ensaio de som. É um pouco de desconsideração, àquela hora da manhã… E nos outros festivais, também. Acham que é uma honra, terem-nos lá, e vice-versa.

Vai fazer um concerto no ciclo Música e Revolução, na Casa da Música. Por que é que lhe chamou Mayday?
Partiu de um filmezito daqueles mal traduzidos que eu estava a ver. “Mayday” é o S.O.S. na aviação. Nesse filme de guerra, um avião caía e o piloto estava a falar com terra: “Mayday, Mayday”... E o tradutor, na sua ignorância, traduziu “1º de Maio. 1º de Maio”. Achei fantástico. Ainda se fosse “13 de Maio”…

O concerto vai ser sobre a sua história pessoal do rock n’ roll?
Sim. A maneira como eu a vejo. Vamos começar com o Elvis Presley. Há mesmo uma frase que tirei do Leonard Bernstein, o grande maestro, que dizia que aquele homem mudou tudo: mudou o ritmo, mudou a maneira de vestir das pessoas. Foi, de facto, uma ruptura. E o John Lennon dizia que, antes do Elvis, não havia nada. É engraçado ele dizer isso. E, por ser a véspera do 1º de Maio e da festa das maias, tive uma ideia fantástica para decorar a Casa da Música, lembrando-me da minha infância, quando se punha uma maia nos buraquinhos das casas, porque andava o diabo à solta.

Mas, nos anos 75/76, você estava mais virado para o jazz.
Sim. Foi quando me abriram a cabeça. Creio que foi com o Miles Davis, num festival Monterey pop, creio. Fiquei admirado. Era uma música um pouco mais estranha do que aquilo a que estava habituado a ouvir, desde muito cedo, no liceu Alexandre Herculano.

No concerto haverá um mestre-de-cerimónias, Armando Teixeira, e outros convidados...
Montámos aquilo a que chamei a Companhia das Índias. Pode ser que venha a resultar num disco. Gosto muito de trabalhar com o Armando [Teixeira]. Entendemo-nos muito bem, do ponto de vista musical. E com o João Rato, que é um pouco o director musical, e também responsável pela maior parte dos arranjos. E também com o Nuno Espírito Santo (que tem tocado com o Sérgio Godinho), e o Zé Vilão, que foi uma grande surpresa. Nesta formação, eu estava a apostar até em não ter baterista, mas, depois, talvez resultasse um bocadinho frio. O nosso cuidado é não fazer um espectáculo de covers, de versões que toda a gente pode ouvir nalguns bares.

Não quer fazer um espectáculo de karaoke.
Exactamente – é um “desporto” que abomino. Não percebo qual é a graça de ver as pessoas a tentar imitar os cantores. Há que ter respeito por estes clássicos. No jazz, faz-se isso aos músicos: pega-se nos chamados standards... Não tenho a pretensão de ir por esse caminho. Mas os Beatles são incontornáveis. Nunca fui grande adepto deles, como muita gente da minha geração. Eu era mais dos Stones. E gostava ainda mais dos Kinks. A minha maneira de pegar nos Beatles vai ser quase um improviso à volta do meu Beatle preferido, que é o George Harrison, que trouxe o lado oriental. Vamos fazer uma encenação ligada às cítaras, e não o óbvio do Oblá-di Obla-dá, ou do Yesterday.

O pressuposto do programa é ir buscar músicas que fizeram revoluções, na história da música e na própria História. Agora, a música já não faz revoluções, como a Marselhesa ou o Grândola Vila Morena…
Pois. Aquela fase dos anos 70 e do punk, para mim, foi extremamente importante. Até pela maneira como me levou para a música. Pensei: “Se estes tipos tocam dois acordes ou três e conseguem fazer discos, vou tentar fazer também”. Sempre me considerei um músico medíocre menos, e arrisquei um pouco… Depois conheci os GNR, onde executei algumas das minhas ideias. De facto, hoje, os ícones são muito distantes. Eu sou contemporâneo, até em termos de idade, da geração da Madonna, e desde Like a Virgin não há aquela ruptura. As coisas estão diferentes.

Por que é que isso acontece?
É um processo um bocadinho esquizóide. Está tudo muito no teclado e no ecrã. As pessoas estão muito na rede, fechadas umas com as outras, e parece-me que a única maneira em que ainda há contacto físico, de prazer com as músicas, é nos espectáculos.

Que tal é a acústica da Casa da Música?
É uma casa difícil. Não quero juntar-me ao coro dos protestos, mas há muita gente que diz que ali se gastou muito dinheiro nas maçanetas e nas carpetes, e que há deficiências.

Mas gosta da arquitectura?
Ontem disseram-me que o projecto era para um milionário que queria oferecer aquele diamante a uma princesa, e que depois a coisa não se efectivou e ele acabou por aterrar ali no cimo da Avenida da Boavista. Mas gosto. Gosto de certas modernices. Mas – e podem-me chamar parolo – detesto o que fizeram ao Jardim da Cordoaria e à Avenida dos Aliados. E à minha praia de Leça da Palmeira, que é agora uma auto-estrada, sem uma sombra onde os passarinhos possam pousar, onde a gente possa escrever o nome da pessoa amada numa árvore.

Mas são projectos de arquitectos de renome.
Concerteza. E tenho o máximo respeito por eles. Sempre tive. Em Leça da Palmeira, por exemplo, estou perante uma das coisas mais lindas: a casa de chá, a piscina, que frequento até de Inverno – salto o muro. Mas “cada macaco no seu galho”. Não me parece que todas as pessoas sejam adequadas. Eu não servia para cantar ópera. Tenho a noção das minhas limitações. Mas a Casa da Música, naquele sítio, parece-me um pouco uma nave espacial que aterrou ali por acidente. Seria muito mais agradável ter aquele objecto no meio de um jardim.

Em termos de acústica, o que é que não funciona na Sala Suggia?
É uma sala difícil. Não sei porquê. Ainda não tive oportunidade de discutir isso com o técnico que vai fazer o som. Também já assisti a espectáculos do chamado reportório clássico – não gosto de lhe chamar assim, acho um preciosismo chamar-lhe clássico ou ligeiro. Mas, naquela música mais séria, notei que tinha alguma dificuldade em ouvir os baixos ou contrabaixos. Mas cada caso é um caso. E acho que pode ser melhorado. Uma das coisas que a Casa da Música não tem, e devia ter, era disponibilizar mais salas para o exterior, para os músicos terem os seus gabinetes, o seu lado experimental. Mas é uma honra estrear ali uma ideia assim tão rubicunda como esta. E isto vai ser o princípio de muitas coisas. Abriram-se muitas portas. Por exemplo, fazer um disco de originais.

No GNR, retratou o Porto dos anos 70 e 80, por exemplo, em Piloto automático, Whiskey puro ou Vodka vodka, e noutras músicas que sugeriam uma geração muito boémia, muito voltada para o álcool e para as drogas. Já não bebe, já não fuma.
Vou bebendo o que me deixam.

Que relação tem hoje com o Porto?
Eu fui, de certa maneira, expulso da Baixa. Não foi por culpa de A, B ou C. A Capital da Cultura também contribuiu, de certa maneira, para o desmantelamento da Baixa. Fiquei um bocado triste por ver a Baixa toda em pantanas. E aqueles comerciantes, uns até pais de amigos meus – o Sr. Moreira e o Sr. Santos ¬– ali aflitos, à porta das suas lojas, a ver as pessoas a começarem a debandar para os centros comerciais. Rebentaram com o pequeno comércio. Talvez o facto de os novos campus universitários e aqueles núcleos adjacentes ao Piolho, a Medicina, Ciências… Aquela gente debandou toda. Para o 2001, o [Artur] Santos Silva tinha uma ideia fantástica – a cultura também é civilização, não é só exibir o Pierre Boulez. A cultura de rua, a animação, faltou ao 2001, tirando performances pontuais. Apostou-se, um pouco, naquele pseudo-elitismo e não se devolveu a cidade às pessoas.

Agora começa a haver grande animação à noite, nas ruas de Cândido dos Reis, Galeria de Paris e Almada.
São ruas lindíssimas. Mas é uma fauna muito típica. Sem querer mandar “bocas”, é um bocadinho Ípsilon, não é? É o pessoal de alterne de maneira diferente. E a Ribeira está um pouco perigosa. Se não fossem os meus amigos Super Dragões, não me atreveria a ir à Ribeira.

Tem boas relações com os Super Dragões?
Gosto das tribos. Se os fenómenos existem, têm que ser entendidos. Percebo o meu caro colega Morrissey, que chegou a ser obrigado a sair de Inglaterra, porque, de certa maneira, defendia o hooliganismo. Conotavam-no com aquele nacionalismo inglês, e ele dizia. “Eu percebo estes jovens pobres, que chegam a Copenhaga e não têm nada – o seu gesto mais brutal será assaltar a ourivesaria ou partir tudo”. Há um lado de violência que é inata à humanidade e que se tem de compreender. Eles nada têm a perder. Se calhar, é o meu lado bakuniniano. Mas não vou por aí. São tribos que, a certa altura, são tão necessários, ou tão desnecessárias, como o exército.

Em que ponto está o seu anarquismo?
É pura e simplesmente estético. A minha ideologia não é nem deus nem chefes, porque, precisamente, tenho vivido sem uns nem outros. E, se calhar, eles existem.

Falava, há bocado, do Morrissey. Há muita gente que diz que você se parece agora com ele.
É da idade. Os velhinhos tendem…

Aquela pose de fato branco, com a GNR, é deliberada?
Não. O fato branco foi uma questão estética, por estarem cento e tal senhores fardados com fato azul e verde. Por acaso, é bem bonita, a farda da GNR. É extraordinário. As pessoas dizem: “O tipo está um bocado xé-xé”. Ou dizem: “Não, agora está mais comedido”. Tenho é de tirar o máximo partido das minhas potencialidades, enquanto tiver um fiozinho de voz. Não me vejo a fazer as mesmas acrobacias de há vinte anos atrás. Era mesmo cansativo. A tal personagem, já prescindi dela.

Havia, então, uma personagem deliberada.
Não era deliberada. Era espontânea. Não me reconheço nalgumas delas, no tom de voz, no comportamento. Agora, se não me sai, vou tentar procurar outra via. Não percebo porque é que um músico da chamada clássica pode fazer espectáculos até aos 70, 80 anos, e ao pop-rock exigem… Teremos que morrer cedo?

O concerto que vai apresentar em Maio no S. Luiz, em Lisboa, é já a expressão dessa nova etapa?
Sim. De um novo espaço de contenção sonora. Há menos decibéis, e uma exigência grande. São vinte canções.

Terá originais?
Não. Felizmente vou tocar com estes músicos [do concerto na Casa da Música]. Em 15 dias, não vou mexer no plantel. Vamos fazer rearranjos de músicas. Até porque, se conseguir concretizar, ainda este ano, um disco com a Companhia das Índias, no espectáculo que se lhe seguirá, o objectivo será fazer uma pequena viagem pelo país, mas em recintos fechados. Há sítios maravilhosos, como o Vila Flor, em Guimarães. (Parece que custou um décimo da Casa da Música, e tem condições acústicas óptimas). E há muitos outros sítios que gostaria de visitar. É aquilo a que chamo um voo low-cost: cabe tudo num táxi. E é realista, na crise que estamos a atravessar. É uma coisa mais portátil.

Voltando a falar do Porto. Numa entrevista, disse uma vez que era bom que Rui Rio se candidatasse à liderança do PSD, “para desamparar a loja”....
Era bem feito. Com o senhor como primeiro-ministro, se calhar, aí o pessoal dos subsídios nacionais ia sentir na pele. Passava a ser um problema nacional.

Também acha que há um esvaziamento cultural na cidade?
No outro dia, estava com o meu antigo mestre, o Ricardo Pais, em Lisboa, e ele disse-me: “Se reparares, no roteiro do Porto, não há hoje uma única peça de teatro em cena”. A Seiva não estava a funcionar, e como o S. João estava com uma peça em Lisboa… Isto é mau, numa cidade destas. Desabitua as pessoas de ir ao teatro, como de ir ao cinema.

O que pensa da privatização do Rivoli?
“Nein Danke”. O teatro popular tem todo o direito... Lembro-me de ir ver a revista ao Sá da Bandeira, com a Laura Alves. Mas tem que haver espaço para a dança, e para um cinema que não é propriamente comestível. Eu passava fins-de-semana fabulosos, gastava ali todas as minhas mesadas a ver as noites e as tardes fantásticas, com o Howard Hawks. Nem sequer há uma cinemateca. O Pedro Mexia está agora na Cinemateca, lá em baixo. Dou-lhe os parabéns. E acho que uma das ideias dele é descentralizar a Cinemateca nacional e haver um protocolo com o Porto, com uma ou mais salas. O Mexia tem inteligência e acção suficiente para fazer uma coisa dessas.

Com o Rui Veloso e, depois, o Pedro Abrunhosa, o GNR assumiu, de certo modo, a pronúncia do Norte. Sentia essa responsabilidade de estar a representar a cidade e a região?
Sem bairrismo, gosto da proximidade das pessoas. Emociono-me bastante com o povo, como dizia o Pedro Homem de Melo. Sou um bocado casmurro, um bocado forreta. Nesta região até à Galiza, sinto uma proximidade, mais do que com o calcário alentejano. Mas também me dou bem com alentejanos. A única coisa de que não gosto é daquele espírito do antigo Terreiro do Paço. Mas Lisboa é uma cidade maravilhosa. A estupidez dos “tripeiros” foi, durante muito tempo, virarem-se contra Lisboa em vez de se virarem para Barcelona, por exemplo, uma atitude que era muito mais interessante.

Mas essa estratégia deu frutos no FC Porto, até certo ponto.
Essa e outras. As pessoas sentem-se ressentidas. Tive a felicidade de ter estado no after party [da conquista do campeonato de futebol] com a equipa toda, aquela gente toda, e vi o que eles sentem contra aquela imprensa desportiva. Eles podem conquistar os feitos mais gloriosas, mas é sempre uma nota de roda-pé. O que vem na primeira página é sempre quem vai ser o novo treinador do “Glorioso”. Eles sentem-se feridos. E aquele programa da SIC anti-FCP foi um grande tocar a reunir.

Esse espírito faz algum sentido, nos dias de hoje?
Não, porque não há tropas, como diria o outro senhor da Madeira. É pena. Aparecem trinta ‘gatos pingados’, e são sempre os mesmos voluntariosos, ali no Rivoli. Se calhar, vão aparecer poucos mais no Bolhão, repetindo o que me disse a minha amiga Regina Guimarães, que é uma defensora de um mercado de frescos no centro da cidade.

O que está a acontecer com o Bolhão mostra que a cidade já não reage como reagiu com o Coliseu.
Não, porque não há gente. As pessoas estão mais nos subúrbios e pensam assim: “Se calhar, vou defender uma coisa que já não é a minha luta”. A Baixa tem uma população muito envelhecida e triste. São os que restam. Não há grande apelo. É pena, porque eu gostava de regressar, nem que fosse para ser cremado ali. Mas, agora, ouvi dizer que vai haver um crematório na Lavra. Vou-me inscrever ali, nas cinzas da Petrogal.

Estado da Educação

Está visto!
Passagens automáticas, a bem do défice!

Notícia do Público de hoje:

Insucesso sai caro ao Estado
Chumbos no básico e secundário custam mais de 600 milhões de euros por ano
30.04.2008 - 09h04 Isabel Leiria

Sem apresentar estimativas globais para o impacto económico que o insucesso escolar tem, o exemplo foi dado pela ministra da Educação: "Se o Estado gasta por ano três mil euros com um aluno, quando ele repete vai custar seis mil no ano seguinte". Ou seja, contabilizando os cerca de 170 mil que chumbaram em 2006/2007 (100 mil no básico e 70 mil no secundário) e multiplicando pelo custo por aluno, chega-se a um valor superior a 600 milhões de euros.

Estas contas são feitas pelo PÚBLICO a partir do valor de 3700 euros que, em 2004/2005, o Estado pagou para financiar integralmente a frequência de cada aluno em escolas privadas localizadas em sítios onde não há oferta pública (através dos contratos de associação).

"Se, ao fim de três anos, o aluno ainda abandona a escola, então o país acaba por ter no final um gasto que não serviu", sublinhou ontem a ministra Maria de Lurdes Rodrigues, em declarações aos jornalistas, a propósito do ensino da Matemática e da conferência internacional sobre o ensino da disciplina, que decorrerá em Lisboa, na próxima semana.

O encontro reunirá peritos nacionais e estrangeiros e servirá para fazer a avaliação das medidas tomadas ao longo dos últimos três anos para melhorar os resultados a uma das disciplinas que mais dificuldades causam aos alunos portugueses. "Será também um momento de prospectiva, para verificar que outras medidas são necessárias", explicou a ministra.

O que não é necessário, considera Maria de Lurdes Rodrigues, é continuar a ter taxas de insucesso sem paralelo no espaço da OCDE - aos 15 anos, só Espanha e Luxemburgo apresentam taxas de repetências comparáveis a Portugal -, cuja eficácia é posta em causa pelo facto de que quem fica retido frequentemente volta a chumbar. "Os sistemas de ensino moderno tentaram substituir um sistema chamado "chumbo" por outros instrumentos chamados "mais trabalho". É isso que precisamos de fazer nas nossas escolas: substituir este instrumento que não tem um objectivo de recuperação", defendeu Maria de Lurdes Rodrigues. "O objectivo actual é proporcionar a todos os alunos, sem excepção, a escolaridade básica de nove anos." E o chumbo, que foi introduzido quando o sistema educativo se organizava para seleccionar e separar, "não é adequado a este objectivo", reforçou.

O exemplo finlandês

Para a ministra, a solução passa pela "identificação precoce das dificuldades" e pela diversificação de estratégias de recuperação, num trabalho que tem de ser feito por toda a escola. Maria de Lurdes Rodrigues rejeita ainda a ideia de que este princípio corresponda a qualquer tipo de "facilitismo": "Facilitismo é chumbar. Rigor e exigência é fazer com que todos aprendam".

Num relatório recente da OCDE, intitulado No More Failures: Ten Steps in Education e ontem distribuído na conferência de imprensa, apoiam-se os argumentos da ministra. "Apesar de a repetência ser frequentemente utilizada pelos professores, faltam provas de que as crianças ganhem com isso. A retenção é cara - o custo económico global vai até aos 20 mil dólares [13 mil euros] por cada aluno que chumba um ano -, mas as escolas são pouco incentivadas a ter em conta os custos envolvidos", lê-se no documento.

Os peritos da OCDE referem o Luxemburgo como um dos países que estão a tomar medidas para reduzir as taxas de insucesso e apontam o caso finlandês, onde os chumbos são absolutamente residuais, como exemplo a seguir. "A Finlândia recorre a um conjunto de intervenções formais e informais para ajudar quem está a ficar para trás na escola. Esta abordagem parece ser bem sucedida." A OCDE diz mesmo que "muitos países podiam seguir" esta estratégia de "sucesso", recomendando ainda o apoio aos professores no desenvolvimento de técnicas de recuperação dos alunos.

sexta-feira, abril 25, 2008

Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar!






A defesa da escola pública e democrática foi o centro da intervenção do meu camarada e amigo, na sessão parlamentar do 25 de Abril. "A limitação da democracia na vida das escolas, na sua gestão, na sua organização, é sempre um empobrecimento da escola pública. Se pedirmos a professores e alunos para se demitirem de participar na gestão das escolas, não nos admiremos que se demitam também da gestão do país."