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terça-feira, fevereiro 08, 2011

Pedro Abrunhosa sobre Educação

A contínua hostilização aos professores feita por este, e outros governos, vai acabar por levar cada vez mais pais a recorrer ao privado, mais caro e nem sempre tão bem equipado, mas com uma estabilidade garantida ao nível da conflitualidade laboral.

O problema é que esta tendência neo-liberal escamoteada da privatização do bem público, leva a uma abdicação por parte do estado do seu papel moderador entre, precisamente, essa conflitualidade laboral latente, transversal à actividade humana, a desmotivação de uma classe fundamental na construção de princípios e valores, e a formação pura e dura, desafectada de interesses particulares, de gerações articuladas no equilíbrio entre o saber e o ter.

O trabalho dos professores, desde há muito, vem sendo desacreditado pelas sucessivas tutelas, numa incompreensível espiral de má gestão que levará um dia a que os docentes sejam apenas administradores de horários e reprodutores de programas impostos cegamente.

(…)

O que eu gostaria de dizer é que o meu avô, pai do meu pai, era um modesto, mas, segundo rezam as estórias que cruzam gerações, muito bom professor e, sobretudo, um ser humano dotado de rara paciência e bonomia. Leccionava na província, nos anos 30 e 40, tarefa que não deveria ser fácil à altura: Salazar nunca considerou a educação uma prioridade e, muito menos, uma mais-valia, fora dos eixo Estoril-Lisboa, pelo que, para pessoas como o meu avô, dar aulas deveria ser algo entre o místico e o militante.

Pois nessa altura, em que os poucos alunos caminhavam uma, duas horas, descalços, chovesse ou nevasse, para assistir às aulas na vila mais próxima, em que o material escolar era uma lousa e uma pedaço de giz eternamente gasto, o meu avô retirava-se com toda a turma para o monte onde, entre o tojo e rosmaninho, lhes ensinava a posição dos astros, o movimento da terra, a forma variada das folhas, flores e árvores, a sagacidade da raposa ou a rapidez do lagarto. Tudo isto entrecortado por Camões, Eça e Aquilino.

Hoje, chamaríamos a isto ‘aula de campo’. E se as houvesse ainda, não sei a que alínea na avaliação docente corresponderia esta inusitada actividade. O meu avô nunca foi avaliado como deveria. Senão deveria pertencer ao escalão 18 da função pública, o máximo, claro, como aquele senhor Armando Vara que se reformou da CGD e não consta que tivesse tido anos de ‘trabalho de campo’. E o problema é que esta falta de seriedade do estado-novo no reconhecimento daqueles que sustentaram Portugal, é uma história que se repete interminavelmente até que alguém ponha cobro nas urnas a tais abusos de autoridade.

Perante José Sócrates somos todos um número: as polícias as multas que passam, os magistrados os processos que aviam, os professores as notas que dão e os alunos que passam. Os critérios de qualidade foram ultrapassados pelas estatísticas que interessa exibir em missas onde o primeiro-ministro debita e o poviléu absorve.
(…)

Pedro Abrunhosa

quinta-feira, março 11, 2010

Bullying


Aproveitei a questão para fazer formação cívica aos meus alunos do 7º ano.
Acho que mais importante do que discutir o estrangeirismo da palavra, ou a violência em si, faz mais sentido discutir o tipo de brincadeiras que eles têm.
Primeiro incutir-lhes que toda a brincadeira "parva", tem as suas consequências, e que eles são responsáveis por elas e segundo que nenhum de nós reage da mesma maneira às mesmas coisas. Se um de nós pode reagir com um encolher de ombros quando colocado dentro de um armário, outro pode reagir de forma violenta e outro ainda pode ganhar um medo tal de quem o colocou no armário, que ao vê-lo desata a correr a fugir, podendo atravessar uma rua sem olhar e ser atropelado (ou atirar-se para dentro de um rio, sabendo que não sabe nadar).
E dei-lhes outros exemplos de brincadeiras que presenciei e que podem ter consequências:
- andar a atirar garrafas de água pelo ar, encharcando o chão de um pavilhão.
alguém escorrega e parte uma perna... eles são responsáveis
- andar com um colega às costas debaixo de um vão de escadas.
batem com a cabeça do colega nalgum lado... são responsáveis
Acima de tudo, este tipo de educação, responsabilizar, mostrar que as nossas acções têm consequências, mesmo que não as desejássemos, partem de casa.
Quando o meu sobrinho faz uma asneira e lhe ralho, responde logo: "foi sem querer"... Pois foi, mas explico-lhe sempre que podia ter sido evitado. Se ele se levanta da mesa a correr e com os braços leva tudo à frente e entorna um copo que está em cima da mesa, é óbvio que foi sem querer, não o fez de propósito, mas poderia ter sido evitado, se se levantasse da mesa com calma. E é sempre estas lições que ele leva de mim.
De resto, isto é também um pouco o que se passa na praxe.
Uns interpretam o que se passa como uma brincadeira, participam com gosto e defendem com unhas e dentes, outros sujeitam-se porque têm medo. E, infelizmente, raras não são as vezes, em que as brincadeiras têm consequências...

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Circunspecção de mau gosto

Não posso estar mais de acordo com o Ricardo!

Guilherme Rietsch Monteiro

Ricardo Araújo Pereira
in, Visão

Julgo que a opinião da directora da DREN, Margarida Moreira, segundo a qual a ameaça a uma professora com uma arma de plástico foi uma brincadeira de mau gosto, é uma brincadeira de mau gosto. Mais uma vez se prova que a crítica de cinema é extremamente subjectiva. Eu também vi o filme no YouTube e não dei pela brincadeira de mau gosto. Vi dois ou três encapuzados rodearem uma professora e, enquanto um ergue os punhos e saltita junto dela, imitando um pugilista em combate, outro aponta-lhe uma arma e pergunta: «E agora, vai dar-me positiva ou não?» Na qualidade de apreciador de brincadeiras de mau gosto, fiquei bastante desapontado por não ter detectado esta antes da ajuda de Margarida Moreira.
Vejo-me então forçado a dizer, em defesa das brincadeiras de mau gosto, que, no meu entendimento, as brincadeiras de mau gosto têm duas características encantadoras: primeiro, são brincadeiras; segundo, são de mau gosto. Brincar é saudável, e o mau gosto tem sido muito subvalorizado. No entanto, aquilo que o filme captado na escola do Cerco mostra aproxima-se mais do crime do que da brincadeira. E os crimes, pensava eu, não são de bom-gosto nem de mau gosto. Para mim, estavam um pouco para além disso – o que é, aliás, uma das características encantadoras dos crimes. Se, como diz Margarida Moreira, o que se vê no vídeo se enquadra no âmbito da brincadeira de mau gosto, creio que acaba de se abrir todo um novo domínio de actividade para milhares de brincalhões que, até hoje, estavam convencidos, tal como eu, que o resultado de uma brincadeira é ligeiramente diferente do efeito que puxar de uma arma, mesmo falsa, no Bairro do Cerco, produz.
O mais interessante é que Margarida Moreira, a mesma que agora vê uma brincadeira de mau gosto no que mais parece ser um delito, é a mesma que viu um delito no que mais parecia ser uma brincadeira de mau gosto. Trata-se da mesma directora que suspendeu o professor Fernando Charrua por, numa conversa privada, ele ter feito um comentário desagradável, ou até insultuoso, sobre o primeiro-ministro. Ora, eu não me dou com ninguém que tenha apontado uma arma de plástico a um professor, mas quase toda a gente que conheço já fez comentários desagradáveis, ou até insultuosos, sobre o primeiro-ministro. Se os primeiros são os brincalhões e os segundos os delinquentes, está claro que preciso de arranjar urgentemente novos amigos.

sábado, dezembro 20, 2008

Milu, leave those teacher's alone

We dont need no education.
We dont need no thought control.
No dark sarcasm in the classroom.
Milu, leave those teacher's alone.
Hey, Milu, leave those teacher's alone!
All in all its just another brick in the wall.
All in all youre just another brick in the wall.

We dont need no education.
We dont need no thought control.
No dark sarcasm in the classroom.
Milu, leave those teacher's alone.
Hey, Milu, leave those teacher's alone!
All in all youre just another brick in the wall.
All in all youre just another brick in the wall.

Adaptado de The Wall, dos Pink Floyd
por Guilherme Rietsch Monteiro

segunda-feira, junho 02, 2008

Estado do Ensino

Vejam-me esta ficha:

http://escv.drealentejo.pt/documentos/aulas_tic/Ficha%20formativa_xls1.doc


Como é que é possível uma das opções de resposta ser: "Não sei"?!!!
Eu acho que assim, as outras três deveriam ser:
- Nem quero saber!
- Tenho raiva de quem sabe!
- Esta não é de certeza!

E voilá ficávamos apenas com a resposta correcta.

Contudo, estou convicto de quem nem assim, haveria 100% de nota 20. É que raciocinar dá muito trabalho, e nem com a papinha toda, se vai lá, quando não se quer mesmo ir. Quando a escola é uma brincadeira, não há volta a dar-lhe...

quarta-feira, abril 30, 2008

Estado da Educação

Está visto!
Passagens automáticas, a bem do défice!

Notícia do Público de hoje:

Insucesso sai caro ao Estado
Chumbos no básico e secundário custam mais de 600 milhões de euros por ano
30.04.2008 - 09h04 Isabel Leiria

Sem apresentar estimativas globais para o impacto económico que o insucesso escolar tem, o exemplo foi dado pela ministra da Educação: "Se o Estado gasta por ano três mil euros com um aluno, quando ele repete vai custar seis mil no ano seguinte". Ou seja, contabilizando os cerca de 170 mil que chumbaram em 2006/2007 (100 mil no básico e 70 mil no secundário) e multiplicando pelo custo por aluno, chega-se a um valor superior a 600 milhões de euros.

Estas contas são feitas pelo PÚBLICO a partir do valor de 3700 euros que, em 2004/2005, o Estado pagou para financiar integralmente a frequência de cada aluno em escolas privadas localizadas em sítios onde não há oferta pública (através dos contratos de associação).

"Se, ao fim de três anos, o aluno ainda abandona a escola, então o país acaba por ter no final um gasto que não serviu", sublinhou ontem a ministra Maria de Lurdes Rodrigues, em declarações aos jornalistas, a propósito do ensino da Matemática e da conferência internacional sobre o ensino da disciplina, que decorrerá em Lisboa, na próxima semana.

O encontro reunirá peritos nacionais e estrangeiros e servirá para fazer a avaliação das medidas tomadas ao longo dos últimos três anos para melhorar os resultados a uma das disciplinas que mais dificuldades causam aos alunos portugueses. "Será também um momento de prospectiva, para verificar que outras medidas são necessárias", explicou a ministra.

O que não é necessário, considera Maria de Lurdes Rodrigues, é continuar a ter taxas de insucesso sem paralelo no espaço da OCDE - aos 15 anos, só Espanha e Luxemburgo apresentam taxas de repetências comparáveis a Portugal -, cuja eficácia é posta em causa pelo facto de que quem fica retido frequentemente volta a chumbar. "Os sistemas de ensino moderno tentaram substituir um sistema chamado "chumbo" por outros instrumentos chamados "mais trabalho". É isso que precisamos de fazer nas nossas escolas: substituir este instrumento que não tem um objectivo de recuperação", defendeu Maria de Lurdes Rodrigues. "O objectivo actual é proporcionar a todos os alunos, sem excepção, a escolaridade básica de nove anos." E o chumbo, que foi introduzido quando o sistema educativo se organizava para seleccionar e separar, "não é adequado a este objectivo", reforçou.

O exemplo finlandês

Para a ministra, a solução passa pela "identificação precoce das dificuldades" e pela diversificação de estratégias de recuperação, num trabalho que tem de ser feito por toda a escola. Maria de Lurdes Rodrigues rejeita ainda a ideia de que este princípio corresponda a qualquer tipo de "facilitismo": "Facilitismo é chumbar. Rigor e exigência é fazer com que todos aprendam".

Num relatório recente da OCDE, intitulado No More Failures: Ten Steps in Education e ontem distribuído na conferência de imprensa, apoiam-se os argumentos da ministra. "Apesar de a repetência ser frequentemente utilizada pelos professores, faltam provas de que as crianças ganhem com isso. A retenção é cara - o custo económico global vai até aos 20 mil dólares [13 mil euros] por cada aluno que chumba um ano -, mas as escolas são pouco incentivadas a ter em conta os custos envolvidos", lê-se no documento.

Os peritos da OCDE referem o Luxemburgo como um dos países que estão a tomar medidas para reduzir as taxas de insucesso e apontam o caso finlandês, onde os chumbos são absolutamente residuais, como exemplo a seguir. "A Finlândia recorre a um conjunto de intervenções formais e informais para ajudar quem está a ficar para trás na escola. Esta abordagem parece ser bem sucedida." A OCDE diz mesmo que "muitos países podiam seguir" esta estratégia de "sucesso", recomendando ainda o apoio aos professores no desenvolvimento de técnicas de recuperação dos alunos.