terça-feira, julho 07, 2009
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terça-feira, junho 30, 2009
Amuo
segunda-feira, junho 29, 2009
sexta-feira, junho 26, 2009
segunda-feira, junho 15, 2009
segunda-feira, junho 08, 2009
segunda-feira, junho 01, 2009
Se eu fosse um dia o teu olhar
Por entre o corpo
Fraco de lutar
Quente o chão
Onde te estendo
Onde te levo a razão
Longa a noite e só o sol
Quebra o silêncio
Madrugada de cristal
Leve, lento, nu, fiel
E este vento
Que te navega na pele
Pede-me a paz
Dou-te o mundo
Louco, livre, assim sou eu
Um pouco mais...
Solta-te a voz lá do fundo
Grita, mostra-me a cor do céu
Se eu fosse um dia o teu olhar
E tu as minhas mãos também
Se eu fosse um dia o respirar
E tu perfume de ninguém
Se eu fosse um dia o teu olhar
E tu as minhas mãos também
Se eu fosse um dia o respirar
E tu perfume de ninguém
Sangue ardente
Fermenta e torna aos
Dedos de papel
Luz dormente
Suavemente pinta o teu rosto a pincel
Largo a espera
E sigo o sul
Perco a quimera
Meu anjo azul
Fica, forte, sê amada
Quero que saibas
Que ainda não te disse nada
Pede-me a paz
Dou-te o mundo
Louco, livre, assim sou eu
Um pouco mais...
Solta-te a voz lá do fundo
Grita, mostra-me a cor do céu
Se eu fosse um dia o teu olhar
E tu as minhas mãos também
Se eu fosse um dia o respirar
E tu perfume de ninguém
Se eu fosse um dia o teu olhar
E tu as minhas mãos também
Se eu fosse um dia o respirar
E tu perfume de ninguém
sexta-feira, maio 29, 2009
Quando eu for grande quero ser carregador de pianos
Música: José Mário Branco
in, Correspondências
Quando eu for grande (carta aos meus netos)
Quando eu for grande quero ser
Um bichinho pequenino
P'ra me poder aquecer
Na mão de qualquer menino
Quando eu for grande quero ser
Mais pequeno que uma noz
P'ra tudo o que eu sou caber
Na mão de qualquer de vós
Quando eu for grande quero ser
Uma laje de granito
Tudo em mim se pode erguer
Quando me pisam não grito
Quando eu for grande quero ser
Uma pedra do asfalto
O que lá estou a fazer
Só se nota quando falto
Quando eu for grande quero ser
Ponte de uma a outra margem
Para unir sem escolher
E servir só de passagem
Quando eu for grande quero ser
Como o rio dessa ponte
Nunca parar de correr
Sem nunca esquecer a fonte
Quando eu for grande quero ser
Um bichinho pequenino
Quando eu for grande quero ser
Mais pequeno que uma noz
Quando eu for grande quero ser
Uma laje de granito
Quando eu for grande quero ser
Uma pedra do asfalto
Quando eu for grande...
Quando eu for grande...
Quando eu for grande quero ter
O tamanho que não tenho
P'ra nunca deixar de ser
Do meu exacto tamanho
Intervenção na apresentação, no Porto, do livro "Andanças pela liberdade", de Camilo Mortágua
Não conhecia o Camilo até hoje, nem tive ainda a oportunidade de ler o livro, por isso, o que me trás aqui?!
Para melhor explicar, vou ler-vos o último capítulo de "O Estranho Caso do Cadáver Sorridente", do Miguel Miranda:
"- Deixa cair o corpo sobre a cama, e concentra-te apenas na minha voz...
Viajo na voz de Ofélia, com a pressa de quem deixou algo por fazer. Voz de mel, língua de veludo que me percorre o corpo que se entrega à sua hipnose húmida. Quero regressar ao passado, a ver se ainda vou a tempo. Desta vez, não vamos falhar. Não sei se acerto na espira certa do tempo, estas coisas da hipnose não sei se acontecem à medida dos desejos. Ofélia, ajuda-me a regressar àquela noite do vinte e cinco de Novembro, onde estávamos todos reunidos numa cave. Tu não sabes, Ofélia, nunca poderás saber a força que nos unia, eu, o Gato, o Alegria, o Mau Tempo, o Quim Comandos, o Professor, a Adélia, o Cofres, o Tono da Viela, o Leonel, a Lisa, a Elsa, o Dílio Bailarino, o Hiroxima, o Vagamente, o Beto Doutor, o Poeta, espalhados em silêncio esperando pelas armas pesadas que vinham de Lisboa. Tu nunca poderás ter a noção de como foi dura a espera, como a nossa força se transformou em desespero, pela madrugada dentro, quando nos convencemos de que as armas não chegariam nunca.
- Concentra-te na minha voz, tu tens muito sono...
Sim, sinto uma vontade irresistível de adormecer, e acordar noutro tempo. Desta vez nada vai falhar, iremos a Maceda buscar os arsenais de reserva, não ficaremos eternamente à espera. Cortaremos a Ponte da Arrábida e o Viaduto de Santo Ovídio na noite de vinte e quatro para vinte e cinco, abriremos caminho à bala e à granada, morreremos se preciso for, para que a noite não acabe. Para não voltarmos a acordar de manhã com os sonhos todos desfeitos. Revolução ou morte, será o nosso grito. Talvez ainda haja tempo para fazer com que não tenha acontecido o que aconteceu. Talvez possamos salvar a Revolução, repito vezes sem conta, enquanto escorrego na voz de Ofélia direito ao passado com a certeza de ter uma missão a cumprir. Como se caísse num poço sem fundo, sem certeza de regresso.
Desta vez, nada vai falhar."
E foi exactamente nesta noite, ou nas imediatamente a seguir, que os meus pais, companheiros de luta quer do Camilo, quer das personagens do texto que acabei de ler, me amaram pela primeira vez, e me trouxeram para a luta (uma vez que nasci 9 meses depois), porque de facto, a história e aquela noite ainda não acabaram.
Com 15 anos, em 1991, deixo-me fascinar pelo Francisco Louçã e pela campanha do PSR. 5 anos mais tarde tornava-me militante, no Porto, tendo chegado a ser dirigente nacional dos jovens do PSR, e tendo participado em movimentos anti-racistas, anti-praxe e nas lutas estudantis que se viveram no final da década de 90, do século passado. É por isso pois, que tenho o maior orgulho de, em 1999 ter tido a oportunidade de me pronunciar, e ter respondido afirmativamente quanto à construção do Bloco de Esquerda. Hoje, mais afastado da militância partidária, mas não totalmente desligado, continuo a lutar por aquilo em que acredito e actualmente, sou dirigente de uma associação de Comércio Justo.
Por isso, quer a minha simples existência, quer aquilo que hoje sou, devo-o a este passado, aos meus pais e a estas pessoas, Camilo Mortágua, Palma Inácio, e outros, que felizmente com eles se cruzaram.
Para terminar, as palavras do Luís Represas (que com o Manuel Faria, do Trovante, também andou pela LUAR):
“Fecho a fronteira p’ra lá de mim
olho-me em ti p’ra me ver
juro que a paz não faz parte de um sonho
espero por ti p’ra vencer”
Guilherme Rietsch Monteiro
quinta-feira, maio 28, 2009
Férias na cabina de voto

in Visão
Quando o Presidente da República apelou aos cidadãos para que não fossem de férias no fim--de-semana das eleições europeias, cheguei a pensar que, tomado pelo espírito europeu, Cavaco Silva estivesse a falar na qualidade de Presidente de outro país da União Europeia. No nosso, o pedido vai fazendo cada vez menos sentido: os desempregados, por definição, não têm férias; para os trabalhadores da Qimonda e da Auto-Europa, em princípio, a opção de tirar férias não será prudente; e os precários, os temporários e os endividados, provavelmente, não têm o desafogo financeiro que as férias, mais ou menos, requerem. O mais provável é que não haja assim tanta gente de férias no dia 7 de Junho. Infelizmente, também não é provável que haja muita gente a ir votar.
O problema é que os cidadãos, na altura das eleições europeias, costumam fazer férias da democracia. Quase seis milhões de pessoas votaram nas últimas legislativas, mas apenas cerca de três milhões foram às urnas nas últimas europeias. Ou as agências de viagens oferecem pacotes menos apelativos nos fins-de-semana das eleições nacionais, ou os portugueses não se interessam especialmente pelas eleições europeias - o que não deixa de ser uma atitude estranha. A opinião geral dos cidadãos sobre os políticos é má, pelo que não se compreende que desdenhem da oportunidade de mandar 24 deles lá para fora. Quando se esperava que houvesse longas filas à porta das secções de voto, os portugueses preferem ficar em casa. Vá lá uma pessoa compreender o eleitorado.
As eleições europeias começam, por isso, com dois incidentes políticos inquietantes: o primeiro, é o apelo absurdo do Presidente da República; o segundo foi a ausência de Paulo Portas da Feira do Queijo de Godim. No mesmo dia em que Cavaco pediu aos portugueses para não irem de férias, Portas anulou a ida à Feira do Queijo de Godim por, naquele dia, não haver queijo nem feira em Godim. Havia duas barracas de farturas e uma de algodão-doce, mas o presidente do CDS optou por não desenvolver, junto dos fritos e das guloseimas, uma campanha que estava programada para ser feita na presença de lacticínios. Esta é a segunda vez, num período de tempo razoavelmente curto, que o queijo faz uma desfeita a Paulo Portas: primeiro o limiano, agora o de Godim. É evidente que, mais do que se privarem de fazer férias, os portugueses devem obrigar-se a realizar feiras. Não há boas campanhas sem feiras, e uma campanha esclarecedora e informativa é o melhor contributo para que, no próximo dia 7, os cidadãos tenham todos os elementos necessários para, em consciência, se absterem de votar.
terça-feira, maio 26, 2009
quinta-feira, maio 14, 2009
Recentrar a questão do Bloco Central
Guilherme Rietsch Monteiro

in Visão
A ideia de que o Bloco Central é uma solução sensata, por oposição às propostas irrealizáveis dos partidos dos extremos, dá vontade de rir: pois, pois, o comunismo é utópico, mas a coabitação leal e pacífica de Sócrates e Ferreira Leite é simples bom senso. Está bem. Contem-me outra.
Desejar um governo de Bloco Central é como ser do Benfica e do Sporting. Trata-se de uma aberração política que merece, evidentemente, o mais profundo desdém. Ou, no caso da comunicação social, a mais elevada atenção, mesmo que a proposta não passe de uma fantasia que ninguém leva especialmente a sério. O destaque que os media têm dado à hipótese de constituição do Bloco Central é o equivalente jornalístico da actividade daqueles cães que correm um quilómetro seguido a ladrar a um pneu. É possível, no entanto, que os cães se atirem às rodas com um pouco mais de argúcia. O que acabo de expor é uma das razões que me levam a pretender recentrar a questão do Bloco Central. A outra razão é o encanto que reside no acto de recentrar. Já se recentrou mais na política portuguesa. Recentravam-se, sobretudo, debates. Em determinado ponto de uma discussão, um dos intervenientes manifestava a intenção de recentrar o debate. Essa atitude dizia tanto sobre o debate como sobre o interveniente: sobre o debate, mostrava que, devido à acção dos outros participantes, se tinha descentrado; sobre o interveniente recentrador, revelava que tinha não só o discernimento de perceber a descentralização actual do debate, como a capacidade de o recentrar devidamente. A recentralização do problema do Bloco Central passa pela explicação da impossibilidade do Bloco Central. Uma tarefa, apesar de tudo, fácil: o leitor que conte os casos de militantes que trocaram o PCP pelo PS, e de militantes do CDS que se juntaram ao PSD. São inúmeros. Mas são muito mais raros aqueles que trocaram o PSD pelo PS e vice-versa: de facto, são os partidos mais distantes um do outro, justamente porque acabam por estar no mesmo sítio. Não faz sentido trocar um pelo outro. É como trocar o nosso carro por um exactamente igual, com o mesmo número de quilómetros e o mesmo barulho na panela de escape. É evidente que aquela gente não se pode ver. Eles têm exactamente a mesma visão do País e as mesmas soluções. A razão pela qual uns são poder e os outros oposição é realmente incompreensível, e eles revezam-se a invejarem-se e a lamentar a própria sorte.
A ideia de que o Bloco Central é uma solução sensata, por oposição às propostas irrealizáveis dos partidos dos extremos, dá vontade de rir: pois, pois, o comunismo é utópico, mas a coabitação leal e pacífica de Sócrates e Ferreira Leite é simples bom senso. Está bem. Contem-me outra. Mais depressa faz sentido, portanto, um governo de Bloco Lateral. PCP e CDS unidos num executivo coeso, que pugnasse pelas melhores condições para os trabalhadores e também pelo máximo de direitos para os patrões. Ora aqui está uma ideia com valor. Vejam como, escassos minutos depois de recentrar o problema, a solução se apresenta.
quarta-feira, maio 13, 2009
segunda-feira, maio 11, 2009
A verdade, toda a verdade, e nada mais que a verdade

Este filme está dividido em 3 partes. Parte I - Sobre religião (História comparada das Religiões); Parte II - Aborda concretamente o 11 de Setembro e os recentes atentados terroristas e o que não foi revelado, assim como as dúvidas suscitadas pelos relatórios oficiais; Parte III - Analisa o poder da economia e dos Bancos Centrais, nomeadamente o dos E.U.A.
quinta-feira, abril 30, 2009
O mal superior português

in, JN
O facto de "Bo", o cão de água português que o senador do Edward Kennedy ofereceu às filhas de Obama, ter sido nado e criado (ele e os seus avós, e os avós dos seus avós) no Texas e ser, pois, tão português como são alemães os pastores alemães que por aí há ou o pudim francês é francês, não impediu que o país fosse varrido por um sobressalto de indignação nacional quando o "El Mundo" se referiu ao bicho como "autóctone da Península Ibérica". Não bastava aos espanhóis terem-nos roubado Olivença, agora queriam ficar com o "Bo". E até com S. Nuno "Alvarez" Pereira… Pessoa chamou o provincianismo de "mal superior português". Mas, se enumera os "sintomas flagrantes" desse provincianismo que são "o entusiasmo e admiração pelos grandes meios" e o "entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade", esquece o entusiasmo por tudo o que, "lá fora", cheire a "português", seja um cão na Casa Branca seja um medíocre político na Comissão Europeia. Será conflito diplomático certo se Zapatero se lembrar de dizer de Durão Barroso, como "El Mundo" disse de "Bo", que é "autóctone da Península Ibérica".
Uma córnea que prestigia
Guilherme Rietsch Monteiro

in Visão
A canonização de D. Nuno Álvares Pereira é, evidentemente, um motivo de orgulho para o País. O milagre que o novo santo operou em Guilhermina de Jesus, de 65 anos, natural de Vila Franca de Xira, pode não ser dos maiores - mas conta. A senhora estava em casa a fritar peixe quando um respingo de óleo a ferver lhe lesionou o olho esquerdo. Nuno Álvares viu a conjuntura propícia à santidade, e não falhou: curou-lhe a úlcera na córnea e prestigiou-se a si e a nós. Os portugueses sempre tiveram uma grande capacidade de se prestigiarem por interposto compatriota. Normalmente, o compatriota está vivo e pratica um desporto qualquer, mas um homem que está morto vai para 580 anos e cura úlceras na córnea a partir da eternidade também prestigia.
Contudo, receio bem que D. Nuno Álvares Pereira, que é santo há tão pouco tempo, já esteja a arranjar problemas com colegas que são santos há mais de 1500 anos. Refiro-me especificamente a Santo Agostinho, o santo que explicou a razão pela qual Deus, sendo embora omnipotente, omnisciente, omnipresente e infinitamente bom, permite que haja mal no mundo. A razão é o livre arbítrio: Deus concedeu a liberdade ao homem, que desfruta dela como entende, e é por isso que Ele não intervém quando os homens se matam uns aos outros. Ficou explicada a existência do mal moral. E o mal natural explica-se da mesma maneira: as catástrofes naturais são, também elas, causadas pela liberdade concedida por Deus, desta vez a Satanás e seus acólitos. É por isso, dizia Santo Agostinho, que Deus não salva ninguém das grandes catástrofes naturais, sejam elas um tsunami, um terramoto, ou um respingo de óleo a ferver para o olho. E, no entanto, Nuno Álvares Pereira intercedeu em nome d'Ele para curar a córnea de Guilhermina de Jesus. Como entender, então, a façanha oftalmológica do novo santo? Talvez Deus tenha interrompido por momentos o princípio do livre arbítrio para permitir a ocorrência de uma acção pedagógica. Pode ter sido um trabalho de equipa: Deus alerta Guilhermina de Jesus para os malefícios dos fritos respingando-lhe óleo a ferver para o olho, e Nuno Álvares, depois de aprendida a lição, intervém para lhe salvar a córnea. Os caminhos do Senhor são misteriosos e, como é cada vez mais evidente, até Santo Agostinho se perde neles.
O que interessa é que o milagre foi feito, registado, e levado em conta na beatificação de Nuno Álvares Pereira, para gáudio de Cavaco Silva. O Presidente da República suspendeu por instantes o preceito da separação entre Estado e Igreja e integrou a comissão de honra da canonização. Há quem diga que as congratulações do Presidente da República a propósito de um caso estritamente religioso violam o princípio da laicidade do Estado, mas se Deus interrompeu o livre arbítrio para prestigiar o nosso país, o mínimo que o Presidente pode fazer é mandar a laicidade às malvas para agradecer.
quinta-feira, abril 23, 2009
Um recado contra todos os recados

in Visão
A vida de José Sócrates está tão difícil que, por mais que um cidadão queira recriminá-lo pela crise em que mergulhou o País, não pode deixar de admirar a crise em que ele mergulhou a sua própria vida. Os portugueses podem estar em apuros, mas o certo é que o primeiro-ministro, talvez por solidariedade, não dorme mais descansado. E, esta semana, a situação atingiu uma gravidade inimaginável: que o povo contasse anedotas, tolerava-se; que a oposição criticasse, admitia-se; que ingleses avulsos o acusassem de corrupção, lá se ia aguentando. Mas se os Xutos e Pontapés fizessem uma música a chamar-me nomes, eu não sei se resistiria. José Sócrates tem de viver sabendo que o Tim não aprecia o seu trabalho. Custa. E Manuela Ferreira Leite percebeu esta semana que, quando faz conferências de imprensa, ninguém liga, mas quando o Kalu canta uma canção, vem na primeira página do Público. Também deve doer.
Os recados de Cavaco Silva acabam por vir na melhor altura para Sócrates. Quem aguenta a censura dos Xutos, está pronto para tudo. Por isso, quando Cavaco disse, no Congresso Associação Cristã de Empresários e Gestores, que o Governo devia resistir à tentação das medidas eleitoralistas e dedicar-se a sério à crise, o primeiro-ministro deve ter bocejado. Eu, confesso, não bocejei. Tenho pela Associação Cristã de Empresários e Gestores um fascínio enorme, na medida em que não consigo lembrar-me de actividade mais cristã do que a gestão de empresas. Amar como Jesus amou, sonhar como Jesus sonhou, definir critérios de racionalização e produtividade como Jesus definiu - não é o que diz a canção? Tudo o que é dito no âmbito de iniciativas levadas a cabo por aquela organização me interessa. E, além disso, interessa-me tudo o que é dito a propósito do que foi dito nessas iniciativas. É essa a razão pela qual recebi com particular atenção as declarações de Sócrates, segundo o qual o País não precisa da política do recado. O problema é que, quando diz que Portugal dispensa a política do recado, Sócrates está, infelizmente, a dar um recado - que, ao que parece, é precisamente aquilo que Portugal dispensa.
Percebo a preocupação de quem teme a deterioração das relações institucionais entre Cavaco e Sócrates, mas não creio que haja motivo para inquietação. O recado é a versão política do bilhetinho adolescente. Os namorados passam o dia juntos, mas durante as aulas não deixam de manter o contacto através de bilhetinhos. O Presidente e o primeiro-ministro reúnem-se uma vez por semana, mas não conseguem evitar a troca de recados nos outros dias. Sócrates, apesar da incoerência filosófica que já enunciei, respondeu satisfatoriamente ao recado do Presidente. Mas continuamos todos à espera do que terá a dizer a Kalu.
sexta-feira, abril 17, 2009
quinta-feira, abril 16, 2009
Capitão Moura
Capitão Moura
És o nosso herói
Tens do Gandhi o coração
E a coragem de um cowboy
Capitão Moura
És a luz de todos nós
Do pai, da mãe e da tia
E dos egrégios avós
És a força do oprimido
Dominas qualquer assunto
Vamos te homenagear
Sob a forma de presunto
Capitão Moura
De discurso altaneiro
Vem, governa esta nação
És melhor que o Engenheiro.
Ver a história desta música: aqui.
O PS não rejeita quaisquer ideologias, antes as subscreve a todas (com excepção, talvez, da socialista)

in Visão
Se o leitor acha que Portugal deve apoiar a recondução de Durão Barroso como presidente da Comissão Europeia, pode votar PS nas próximas eleições; se, pelo contrário, acha que Portugal não deve apoiar a recondução de Durão Barroso como presidente da Comissão Europeia, nesse caso, pode votar PS. José Sócrates, primeira figura do partido socialista, considera que Durão Barroso fez um bom trabalho e deve manter-se no cargo. Vital Moreira, primeiro nome na lista do PS para as eleições europeias, acha que Durão Barroso deve sair. Sócrates quer um presidente da nossa raça (para usar uma expressão cara ao Presidente da República), Vital Moreira quer um da sua cor. Certos leitores poderão perguntar: como pode um partido apresentar-se a eleições manifestando simultaneamente uma determinada intenção e a intenção rigorosamente inversa? Censuro a perfídia destes leitores. Desconhecem aquilo a que os cientistas políticos chamam um catch-all party: um partido político que, com o objectivo de captar o maior número possível de eleitores, renuncia a qualquer ideologia.
A originalidade do PS está neste pormenor engenhoso: o partido socialista não rejeita quaisquer ideologias, antes as subscreve a todas (com excepção, talvez, da socialista). O cidadão deseja que Barroso continue? Vote no PS, que tudo fará para o apoiar. Pretende ver Barroso fora da Comissão? Vote no PS, que eles também não querem lá esse bandido. Considera que Barroso deve presidir à Comissão Europeia apenas às segundas, quartas e sextas, cedendo o lugar a, digamos, uma peça de fruta às terças, quintas e sábados? Vote no PS, que há-de haver alguém lá dentro que defende essa orientação.
A bem dizer, tanto Sócrates como Vital Moreira sustentam posições compreensíveis: se Durão Barroso sair da Comissão Europeia, Sócrates sabe que, em lugar de ficar obrigado a criar 150 000 empregos, terá de arranjar 150 001, para ocupar mais um desempregado; Vital Moreira não esquece que Durão Barroso mudou do PCTP-MRPP para o PSD e, na qualidade de militante do PCP que passou para o lado do PS, não apreciará vira-casacas.
O plano de Sócrates será, talvez, o mais complexo. O primeiro-ministro quer que Portugal beneficie do facto de ter um português a ocupar um lugar que requer independência e neutralidade. No cargo em que deve esquecer-se de que é português, Durão Barroso não deve esquecer-se de que é português. Ao presidente da Comissão Europeia, que não pode olhar a nacionalidades, Sócrates pede que dê um jeitinho. Sempre com o máximo de independência e neutralidade, Durão Barroso beneficiará Portugal. É aqui que Sócrates tem razão: se há alguém que consegue levar a cabo uma tarefa destas, é mesmo um português.
quarta-feira, abril 15, 2009
terça-feira, abril 14, 2009
Samba do acordo ortográfico
Onde é que estás miúda?
Nina eu quero te encontrar
Precisamos conversar
Pra gente se entender.
Cadê você, morena?
Onde é que estás chabala?
Nina eu quero te encontrar
Precisamos conversar
Sobre o modo de escrever.
Eu não sei como vou fazer!
Tiro o H e aonde é que o vou meter?
Será que isto tem algum nexo?
Vão matar o acento circunflexo!
(e o galego?)
(refrão)
Eu não sei onde é que tu tá!
O acento grave para onde irá?
Eu não sei onde é que tá tu!
E o hífen depois do prefixo co!
(e o galego?)
(refrão)
Acordar
São duas da tarde e ainda estava a dormir,
foi bom teres falado estou mesmo a sair
Essa voz maviosa, logo pela manhã,
bate-me com mais speed que um Gorosan
Ai como é bom assim acordar,
com o sol na janela e a magia no ar
Olhar nos teus olhos e ver coisas sem fim,
e voltar para casa com esta música, dentro de mim
Ptu ru ptu tu ru ptu, tu ri ah ii uh ah ra,
Ptu ru ptu tu ru ptu, tu ri ah ai,
Ptu ru ptu tu ru ptu, tu ri ah ii uh ah ra,
Ptu ru ptu tu ru ptu, tu ri ah
ai, ai como é bom assim acordar
Um fim de tarde como este, aqui para nós,
mesmo com outros parece que estamos sós
Mais um café que a noite já aí vem,
gente como tu é o melhor que o mundo tem
Ai como é bom assim acordar,
com o sol na janela e a magia no ar
Olhar nos teus olhos e ver coisas sem fim,
e voltar para casa com esta música, dentro de mim
Ptu ru ptu tu ru ptu, tu ri ah ii uh ah ra,
Ptu ru ptu tu ru ptu, tu ri ah ai,
Ptu ru ptu tu ru ptu, tu ri ah ii uh ah ra,
Ptu ru ptu tu ru ptu, tu ri ah
ai, ai como é bom assim acordar
Heaven knows i'm miserable now
But heaven knows I'm miserable now
I was looking for a job, and then I found a job
And heaven knows I'm miserable now
In my life
Why do I give valuable time
To people who don't care if I live or die?
Two lovers entwined pass me by
And heaven knows I'm miserable now
I was looking for a job, and then I found a job
And heaven knows I'm miserable now
In my life
Oh, why do I give valuable time
To people who don't care if I live or die?
What she asked of me at the end of the day
Caligula would have blushed
"You've been in the house too long", she said
And I (naturally) fled
In my life
Why do I smile
At people who I'd much rather kick in the eye?
I was happy in the haze of a drunken hour
But heaven knows I'm miserable now
"You've been in the house too long", she said
And I (naturally) fled
In my life
Why do I give valuable time
To people who don't care if I live or die?
sábado, abril 11, 2009
Queres protocolinho?

in Visão
A acreditar na imprensa nacional e internacional, os dirigentes do G20 passaram quase dez minutos a discutir a solução para a crise mundial e o resto do tempo a reinventar o protocolo, a quebrar o protocolo e, ocasionalmente, a seguir o protocolo.
Escreveram-se várias páginas sobre o jantar que Brown ofereceu às mulheres dos governantes. Parece que os canapés estavam formidáveis, mas as opiniões dividem-se quanto ao convite que a anfitriã fez a Naomi Campbell, a modelo que arremessa telemóveis aos empregados, e quase toda a gente reprovou que tivesse convidado a sua própria mãe, por muito que a senhora não tenha historial de arremesso de aparelhos de telecomunicação.
A indisposição da rainha com os gritos de Berlusconi, durante a fotografia de grupo oficial, também foi longamente analisada. Há quem diga que Berlusconi se comportou como um arruaceiro malcriado, outros dizem que estava apenas a ser italiano, outros ainda defendem que é quase impossível distinguir aqueles dois padrões de comportamento.
Nenhum observador deixou de registar também a troca de presentes entre a rainha e o casal Obama. O presidente dos Estados Unidos ofereceu a Isabel II um iPod contendo imagens da visita que a rainha fez à América, e a rainha ofereceu a Obama uma fotografia sua acompanhada do marido, o Duque de Edimburgo.
Sempre me fez confusão que a rainha, sendo rainha, não tivesse conseguido melhor marido do que um duque, mas guardarei essa reflexão fascinante para outra ocasião. O que me interessa notar neste momento é o facto de a generalidade dos analistas ter considerado gentil uma troca de presentes que me parece, em ambos os casos, profundamente ofensiva: Obama recordou à rainha a visita que ela fez a um território que já foi administrado pela família dela e que agora é administrado pela família dele; a rainha, mesmo sendo chefe de um país que tem, no campo da fotografia, tradições como a da página dois do jornal The Sun, oferece ao presidente americano uma foto de dois gerontes. Cada uma à sua maneira, ambas as atitudes constituem desconsiderações revoltantes.
O caso mais delicado foi, no entanto, a transgressão protocolar levada a cabo por Michelle Obama e pela rainha. Diz o protocolo que ninguém pode tocar na rainha de Inglaterra (como durante anos foi evidente, o protocolo não impõe a mesma regra à Princesa de Gales), mas a mulher de Obama abraçou-a, e a rainha, em lugar de a censurar, abraçou-a de volta. O ódio entre representantes de países diferentes pode levar o mundo à ruína, mas o afecto também cria incidentes diplomáticos graves. As relações internacionais são complicadas do ponto de vista político, mas do ponto de vista afectivo são ainda mais complexas.
Ainda no âmbito da visita de Barack Obama à Europa, uma última nota sobre o papel desempenhado por Durão Barroso, que foi nenhum. Devo confessar, no entanto, que estou preocupado com o estado de saúde de Durão Barroso. Primeiro, porque Durão Barroso está a ficar sem sobrancelhas. Não se trata de uma metáfora política, estou a ser literal: neste momento, Barroso tem apenas três ou quatro pêlos em cima de cada olho, o que é razoavelmente inquietante. Segundo, temo pelas costas do nosso antigo primeiro-ministro. Obama veio lamentar a política internacional seguida por Bush e prometeu um novo rumo. Barroso, que na cimeira dos Açores ajudou Bush a concretizar a política que Obama critica, disse agora estar maravilhado com a mudança prometida pelo novo presidente. São pinotes que devem fazer mal à coluna.
segunda-feira, abril 06, 2009
Noutro lugar
D'outra vez, noutro lugar
ninguém espera junto ao cais
sem razão, barcos que não voltam mais
os dias vão sem te levar...
E tenho tanto a contar
hey, tens tanto para ver
Tens ainda de aprender
os nomes que te vou dar
Oh noutro lugar
para todo o sempre
Oh há uma canção
que faz partir
Oh noutro lugar
para sempre, sempre
Oh, há uma canção
que está por descobrir
Vem...
D'outra vez noutro lugar
os anos passam sem pesar
sem razão, vão em busca da canção
que ficámos de cantar...
E tenho tanto por contar
hey, tens tanto para ver
Tens ainda de aprender
os nomes que dei ao mar
Oh noutro lugar
quinta-feira, abril 02, 2009
quarta-feira, abril 01, 2009
terça-feira, março 31, 2009
Capitais do Mundo

Freetown - Capital da Serra Leoa

Freeport - Capital da...
segunda-feira, março 30, 2009
Protagonistas reconstituem fuga de Álvaro Cunhal de Peniche
ADELINO CUNHA
Joaquim Gomes e Carlos Costa voltaram à prisão para recordar a fuga com Álvaro Cunhal e mais um grupo de dirigentes do PCP. Depois do ter sido preso no Luso, esta fuga marca o início do exílio do líder comunista até ao 25 de Abril. Veja a reportagem multimédia
A multidão que palmilha as ruas da vila ainda vocifera impropérios contra o árbitro do jogo de futebol que terminara uns minutos antes. Há uma figura estranha que circula em sentido contrário. Um guarda da GNR desarvorado e sem chapéu berra com ardor: "Fui traído! Fui traído!". Berra alto o azedume. Um homem corre na sua direcção, agarra-se a ele e pragueja ainda com mais estardalhaço ofensas ao árbitro. A fuga podia ter acabado neste andamento do Diabo, mas não, não acabou: Cunhal, Joaquim Gomes, Jaime Serra, Carlos Costa, Francisco Miguel, Pedro Soares, Rogério de Carvalho, Guilherme Carvalho, José Carlos e Francisco Martins Rodrigues conquistam a liberdade.
"O homem meteu-se por Peniche aos gritos, fui atrás dele e, quando o apanhei no meio da confusão, comecei a gritar ainda mais alto. Fartei-me de gritar nomes ao árbitro!", recorda Joaquim Gomes. "Foram os meus gritos que acalmaram a situação".
Jorge Alves cedera aos apetites dos sentidos e aceitara dinheiro para facilitar a fuga. Fora recrutado por Joaquim Gomes durante uma breve troca de palavras. É preciso ver que os presos estão proibidos de se dirigirem aos guardas. Vive-se ao ritmo dos incontáveis sons do apito e em obediência às vozes de mando. Joaquim Gomes arrisca. Há riscos piores: o risco do tédio dos dias que desfiam e o risco de morrer sem dar por nada. "A primeira coisa que fazíamos ao chegar a uma prisão era estudar as possibilidades de fuga". O contacto com o guarda foi um tiro no escuro. "Não sabíamos como ele iria reagir, mas disse tanto mal do Salazar, que o Álvaro Cunhal e o Jaime Serra concordaram em usá-lo".
A determinação de coagir psicologicamente os presos está pespegada no cartaz do regulamento prisional colocado na parede: o preso deve ter a sensação de que está permanente sob a vigilância dos guardas. "Queriam criar a ideia de que não podíamos fazer nada sem que nos vissem, mas a verdade é que recrutámos um deles para nos ajudar a fugir", ironiza Carlos Costa.
Joaquim Gomes estabelece o contacto com o guarda Jorge Alves e os dirigentes no exterior tratam dos pormenores: acertar a fuga e pagar a colaboração muda. Dias Lourenço, Pires Jorge e Octávio Pato congeminam o plano e escolhem um domingo: dia 10 de Janeiro. "Havia menos PIDES. Iam à sua vida", invoca Joaquim Gomes.
Os dirigentes no exterior aceitam a aposta na colaboração do GNR, mas advertem para os riscos de a operação abortar e provocar um aumento da repressão. "Se aquilo desse para o torto havia de ser bonito", lembra Pires Jorge. As coisas parecem correr mal a certa altura. O GNR comunica uma súbita alteração das escalas. A fuga terá de ser antecipada para dia 3 de Janeiro. As coisas parecem mesmo correr mal.
Os fugitivos mantêm-se inabaláveis: querem fugir. Cedem em aspectos fundamentais da segurança e abandonam a ideia do corte das linhas telefónicas em redor de Peniche para evitar as comunicações após a fuga. Irão fugir no dia 3.
Está tudo pronto. No largo fronteiriço ao Forte de Caixas, o actor Rogério Paulo pára o automóvel, abre e fecha o porta-bagagens. São quatro da tarde. Dois minutos depois, vai embora. Está dado o sinal para os presos das celas do lado norte.
Após o jantar das 19 horas, os guardas fazem soar os apitos para os presos recolherem às celas. Cunhal está no grupo que regressa ao pavilhão C sem protecção especial: somente um guarda prisional. Guilherme da Costa Carvalho ataca: neutraliza-o com um toalha embebida em clorofórmio e é o próprio Cunhal quem lhe enfia na boca uma peça que impede o guarda de enrolar involuntariamente a língua e arriscar uma morte por asfixia. "Nem piou", afirma Jaime Serra. É preciso acrescentar que tudo isto se passa ao som da 6ª Sinfonia de Tchaikovsky, tocada no gira-discos do preso Humberto Lopes, autorizado a usufruir desse pequeno prazer num contexto de descompressão do regime prisional.
Ninguém presta atenção aos acordes. Dirigem-se de imediato para a porta do refeitório. É aqui que são esperados pelo guarda Jorge Alves. Um após outro, os presos colocam-se debaixo do seu capote, atravessam o pequeno pátio paralelo às celas, passam numa zona vigiada visualmente por um segundo guarda, continuam até perto de um muro que terão de saltar.
A operação corre normalmente até ao instante em que o guarda decide abortar o plano abruptamente. "Ele andava cada vez mais assustado à medida que o tempo passava e na noite da fuga esperava cinco ou seis presos e apareceram-lhe dez", justifica Joaquim Gomes.
O guarda cede aos seus demónios pessoais, entra em pânico e decide fugir. "Os últimos tiveram de fazer o percurso sozinhos, rastejando e andando de cócoras". Dificilmente poderiam passar pelo segundo guarda. "Viemos depois a saber que era cunhado do Jorge Alves. De certeza que nos viu, mas fingiu".
Chegar ao piso inferior exige agora um salto considerável. Atiram-se para cima de uma figueira e alcançam os terrenos das hortas. Pedro Soares precipita-se, cai e fere-se num joelho. Continuam. Têm de percorrer mais um troço vulnerável e só depois alcançam a muralha. Conseguem. Escondem-se dentro da guarita. Há silêncios que podem ser de morte.
É aqui que Jaime Serra fixa os lençóis sabiamente atados por Francisco Miguel e lança a corda através da ameia. Começam a descer pela muralha na direcção do fosso, mas, chegados lá abaixo, irão provar uma amarga surpresa que ameaçará novamente comprometer a fuga. Guilherme da Costa Carvalho larga a corda demasiado cedo, abate-se sobre os pedragulhos na base da muralha e acaba estendido no chão a sangrar da cabeça. Fica ferido.
O fracasso esteve iminente desde o início. O guarda corrompido por diversas vezes deu sinais de desistência, forçou uma alteração do dia da fuga que impediu a aplicação das medidas de segurança e no decorrer da própria fuga desistiu e desistiu dramaticamente.
"Quando demos por ele estava a descer a muralha com as botas cardadas a roçar pelas paredes abaixo. Aquilo fazia um barulho imenso", lamenta Joaquim Gomes.
A fuga continua. Descida a muralha, o êxito está aqui mais perto. Carlos Costa ampara o corpulento Guilherme da Costa Carvalho pelo fosso até ao último muro que os separa da liberdade: avistam os carros e correm. O carro de Cunhal é dos primeiros a arrancar.
Dois homens ficam para trás e perdem-se na direcção da vila. Joaquim Gomes corre no encalço de Jorge Alves. O guarda da GNR desarvorado e sem chapéu berra com ardor: "Fui traído! Fui traído!". Berra alto o azedume. Joaquim Gomes corre na sua direcção, agarra-se a Jorge Alves e pragueja ainda com mais estardalhaço ofensas ao árbitro. Regressam aos carros e fogem. A fuga termina com sucesso neste andamento do Diabo.
sexta-feira, março 27, 2009
E depois do mercado
in, DN
Na Visão de ontem, uma série de economistas e outros especialistas vem, na senda de Silva Lopes, defender uma descida generalizada dos salários em 20%. O motivo é a crise, assim como, na formulação de António Nogueira Leite, "o desfasamento entre a produtividade e os custos laborais". Não sendo a economia o meu forte, acompanho Manuel Carvalho da Silva, citado na revista como ficando "maldisposto com a discussão".
Num país onde a diferença entre os rendimentos dos mais ricos e dos mais pobres é das maiores da Europa, onde o ordenado mínimo é metade do praticado em Espanha mas os salários dos gestores estão ao nível dos auferidos na Alemanha, e onde o preço dos bens de consumo é equiparado (quando não superior) ao que se pratica no resto da UE, haver quem ache que o caminho é baixar ainda mais os salários de todos custa um bocado a perceber. Claro que num contexto específico - o de uma empresa que arrisca fechar - se aceitam ajustes para salvar postos de trabalho. Mas estabelecer isso como regra geral, ainda por cima fundamentando-a numa espécie de fatalidade estrutural - a do tal desfasamento -, acrescentando ainda que "os portugueses se habituaram mal", surge apenas imoral.
O salário médio dos portugueses é baixo e baixá-lo global e cegamente não pode ser solução. Primeiro porque muitas pessoas já vivem no limiar da pobreza - mesmo se o nível de vida médio tem aumentado e as expectativas, felizmente, não têm comparação com as que existiam há 30 anos (será isso o "mau hábito"?). Em segundo lugar, a ideia de que o investimento estrangeiro poderá ser atraído com salários mais baixos já provou há muito a sua valia - há sempre salários mais baixos noutro lado, e é impossível (e indesejável) competir nesse quesito com países em que as pessoas não têm direitos. Se há empresas que só podem sobreviver com trabalho escravo, então não devem sobreviver - e essa é provavelmente uma das grandes consequências desta crise, a da inevitabilidade de reformulação de certos sectores, sob pena de desaparecerem. Terceiro: a animação da economia também depende do consumo - se se baixarem 20% os salários de toda a gente, é muito provável que o consumo baixe pelo menos nessa percentagem, implicando a descida de preços, falência de mais empresas e, por arrasto, uma eventual nova descida dos salários, numa espiral sem fim.
Alegar que por mais que se resista à ideia a redução salarial se aplicará "a bem" (por acordo) ou "a mal" (devido ao dumping criado pelo aumento do desemprego) é, paradoxalmente, negar a existência do mercado: mesmo num contexto de crise há sectores que florescem. E se foi uma ideia de mercado em roda livre e louca, sem relação com a realidade e o realismo, que nos trouxe onde estamos, convém talvez não querer substituí-lo completamente. É capaz de haver uma outra via - a ver se a encontramos, de preferência sem histerias e mantendo em vista algo de fundamental: a dignidade das pessoas e do trabalho.
quinta-feira, março 26, 2009
Aprendi a amar
no frio denso, no frio denso
com os dentes fechados a morder o lenço
sem poder calcar a porta de entrada
aprendi a matar bem mais do que penso
aprendi a matar bem mais do que penso.
Aprendi a amar com as duas mãos
de amor intenso, de amor intenso
uma para a ferida outra para o penso
a molhar os dedos nos líquidos sãos
aprendi a matar bem mais do que penso
aprendi a matar bem mais do que penso.
Aprendi a amar junto dos armários
queimando incenso, queimando incenso
repetindo mais palavras por extenso
aprendi a amar por motivos vários
aprendi a matar bem mais do que penso
aprendi a matar bem mais do que penso.
Aprendi a amar derramando vinho
no mar imenso, no mar imenso
a ver se não perdia o que sei que não venço
deixando corpos caídos no caminho
aprendi a matar bem mais do que penso
aprendi a matar bem mais do que penso.
Amores de Marta
Que vento tão forte lá sopra, é o do amor
Por vezes parece uma rua assombrada
Com sombras de bruxa fazendo de fada
Que faço eu na rua deserta do amor
Não há uma só porta aberta pró amor
Por vezes lá se abre uma frincha de nada
Na porta do amor que eu queria escancarada
Aguenta aí
o meu apelido Mendes
sou do Porto, porque sim
mas também sou donde sendes
E quero aplaudir a gente
Que se amanda e que se mexe
É p´lo menos ponto assente
Não ficar no queixe-queixe
Mas não vou dizer amen
quando as coisas dão p´ro torto
embora haja para quem
criticar é só desporto
Aguenta aí, não és santo nem és padre
Fazes por ti, mas não há cão que não te ladre
Há dias de manhã
em que um homem à tarde
não pode sair à noite
nem voltar de madrugada
Grande piada!
Cada dia, saio cedo
p´ra um trabalho mesmo chato
e o patrão diz-me em segredo
fazes bem e sais barato
Tenho, pra não ir a pé
um carro em sétima mão
trava com a marcha à ré
e acelera, também não
Farto de engarrafamentos
aqui vai meu contributo
vou mas é mandar o trânsito
apanhar no viaduto
Aguenta aí, não és santo nem és padre
Fazes por ti, mas não há cão que não te ladre
Há dias de manhã
em que um homem à tarde
não pode sair à noite
nem voltar de madrugada
Grande piada!
Atirei o pau ao gato
que se vendia apor lebre
vou passear ao Palácio
mas habito num casebre
Busquei casa na cidade
há justiça nesta vida
a prova é que a má qualidade
está tão bem distribuída
Património mundial
é orgulho, com certeza
falta pôr no pedestal
"aqui não entra a pobreza"
a-a-e-i-o
A-A-E-I-O vai para a neta o que foi d´ávó
A vida de quem anda
às ordens de quem manda
já cheira que tresanda
não anda nem desanda
não anda nem desanda
não anda nem desanda
A vida de quem cresce
a pensar que a merece
não esquenta nem aquece
nem sequer arrefece
nem sequer arrefece
nem sequer arrefece
(A-A-E-I-O...)
(A vida de quem anda...)
A vida de quem chora
à espera duma aurora
que leve a noite embora
bem perde pla demora
bem perde pla demora
bem perde pla demora
(A-A-E-I-O...)
(A vida de quem anda...)
A vida de quem cata
pulgas numa barata
é tão longa e tão chata
não ata nem desata
não ata nem desata
não ata nem desata
(A-A-E-I-O...)
A-A-E-I-O bate na neta quem bateu n´ávó
A-A-E-I-O bate na neta quem bateu n´ávó
A-A-E-E-I bate na neta quem bateu em ti
A-A-E-E-I bate na neta quem bateu em ti
A-E-I-O-U s´a canção não t´agrada, mete-a no...
A vida é feita de pequenos nadas
trabalhei de olhos fechados
na terça-feira
acordei impaciente
na quarta-feira
vi os meus braços revoltados
na quinta-feira
lutei com a minha gente
na sexta-feira
soube que ia continuar
no sábado
fui à feira do lugar
mais uma corrida, mais uma viagem
fim-de-semana é para ganhar coragem)
Muito boa noite, senhoras e senhores
muito boa noite, meninos e meninas
muito boa noite, Manuéis e Joaquinas
enfim, boa noite, gente de todas as cores
e feitios e medidas
e perdoem-me as pessoas
que ficaram esquecidas
boa noite, amigos, companheiros, camaradas
a vida é feita de pequenos nadas
a vida é feita de pequenos nadas
Somos tantos a não ter quase nada
porque há uns poucos que têm quase tudo
mas nada vale protestar
o melhor ainda é ser mudo
isto diz de um gabinete
quem acha que o casse-tête
é a melhor das soluções
para resolver situações
delicadas
a vida é feita de pequenos nadas
E o que é certo
é que os que têm quase tudo
devem tudo aos que têm muito pouco
mas fechem bem esses ouvidos
que o melhor ainda é ser mouco
isto diz paternalmente
quem acha que é ponto assente
que isto nunca vai mudar
e que o melhor é começar a apanhar
umas chapadas
a vida é feita de pequenos nadas
(Segunda-feira
trabalhei de olhos fechados
na terça-feira
acordei impaciente
na quarta-feira
vi os meus braços revoltados
na quinta-feira
lutei com a minha gente
na sexta-feira
soube que ia continuar
no sábado
fui à feira do lugar
mais uma corrida, mais uma viagem
fim-de-semana é para ganhar coragem)
Muito boa noite, senhoras e senhores
muito boa noite, meninos e meninas
muito boa noite, Manuéis e Joaquinas
enfim, boa noite, gente de todas as cores
e feitios e medidas
e perdoem-me as pessoas
que ficaram esquecidas
boa noite, amigos, companheiros, camaradas
a vida é feita de pequenos nadas
a vida é feita de pequenos nadas
Ouvi dizer que quase tudo vale pouco
quem o diz não vale mesmo nada
porque não julguem que a gente
vai ficar aqui especada
à espera que a solução
seja servida em boião
com um rótulo: Veneno!
é para tomar desde pequeno
às colheradas
a vida é feita de pequenos nadas
boa noite, amigos, companheiros, camaradas
a vida é feita de pequenos nadas.
A paixão do velho Pires, o marinheiro
é como se tocasse um sino
um hino, um trino
de um alegre passarinho
Vou voar para o teu ninho
vou tentar fazer o pino
vou ser bailarino
argentino, desatino
Mas que hei-de eu fazer?
O amor é um furacão
desgovernando
a minha embarcação
A noite passada
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste
A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos
A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"
A barca dos amantes
p´ra sempre a barca dos amantes
onde o que eu sei deixei de ser
onde ao que eu vou não ia dantes
Ah, quanto eu queria conseguir
trazer a barca à madrugada
e desfraldar o pano branco
na que for terra, mais amada
E que em toda a parte
o teu corpo
seja o meu porta-estandarte
plantado no seu mais fundo
posso agitar-me no vento
e mostrar a cor ao mundo
Ah, quanto eu queria navegar
p´ra sempre a barca dos amantes
onde o que eu vi me fez vogar
de rumos meus a cais errantes
Ah, quanto eu queria me espraiar
fazer a trança à calmaria
avistar terra, e não saber
se ainda o é, quando for dia
E que em toda a parte
o teu corpo
seja o meu porta-estandarte
plantado no seu mais fundo
posso agitar-me no vento
e mostrar a cor ao mundo
Uma reflexão acerca de lixo

Certo dia, quando trabalhava no JL, fui incumbido de entrevistar uma escritora chamada Adília Lopes. A primeira pergunta que lhe fiz foi sobre um poema seu de que eu gostava e gosto muitíssimo. Chama-se Autobiografia sumária e só tem três versos: "Os meus gatos / gostam
de brincar / com as minhas baratas." O meu objectivo era impressionar a autora com a minha excelente interpretação do poema. Disse-lhe que aqueles versos eram também o resumo da minha vida. Os meus gatos, isto é, aquilo que em mim é felino, arguto, crítico ("Não é por acaso", disse eu, "que Fialho de Almeida reuniu os seus textos críticos num volume chamado Os Gatos"), aquilo que em mim é perspicaz - e até cruel - gosta de brincar com as minhas baratas, ou seja, com aquilo que em mim é repugnante, negro, rasteiro, vil. E aquela operação poética - que é, igualmente, uma operação humorística - de escarnecer de si próprio era-me tão familiar que podia descrever-me de forma tão competente como à autora do poema.
Os olhos de Adília Lopes humedeceram-se. Fosse qual fosse a noite solitária em que escreveu o poema, estava longe de imaginar que, tanto tempo depois, a sua alma gémea se apresentasse à sua frente, compreendendo-a tão profundamente. Foi então que Adília Lopes falou. Disse o seguinte: "Pois. Bom, comigo, o que se passa é que eu tenho gatos. E tenho também baratas, na cozinha. E os gatos gostam de ir lá brincar com elas." E depois exemplificou, com as mãos, o gesto que os gatos faziam com as patinhas.
Foi naquele dia, amigo leitor, que eu deixei de me armar em esperto. Tinha citado Fialho de Almeida, tinha usado a expressão "operação poética", e tinha-me visto a mim onde só havia gatos e baratas. Os olhos de Adília Lopes estavam húmidos, provavelmente, do esforço que a sua proprietária fazia para não rir. Não eram só os sacanas dos gatos que escarneciam de mim: a Adília Lopes também. E, desde esse dia, tenho constatado que o mundo inteiro, em geral, me mofa (quem aprecia a frase bem torneada fará bem em registar, num caderninho próprio, a elegante construção "me mofa").
Vários filósofos têm reflectido sobre o lixo, sobretudo acerca do modo como a nossa sociedade trata o seu lixo. Eu estou magoado com o modo como a nossa sociedade trata o meu lixo em especial. Não me interessa o tratamento que a sociedade dá ao seu lixo: a forma como trata o meu é humilhante. O lixo de Adília Lopes gera vida e poemas. O meu lixo não só não gera nada como tem uma falta de personalidade que o amesquinha quase tanto quanto me amesquinha a mim. É muito frequente encontrar-me na circunstância de ter lixo na mão e, quando confrontado com os rótulos que hoje designam as várias secções dos caixotes do lixo (cartão, papel, embalagens, vidro), verificar que o lixo que eu possuo se enquadra, invariavelmente, na categoria dos indiferenciados. Quase todo o meu lixo se caracteriza por uma falta de carácter que só posso ser eu a transmitir--lhe. Eis, afinal, a minha autobiografia sumária: "O meu lixo / é tão desinteressante / como eu."
quarta-feira, março 25, 2009
Ainda é só o começo
Jim Morrison e Mário de Sá Carneiro falavam do "FIM", Gabriel O Pensador anunciava que "Ainda é só o começo!"
Por me identificar com a seguinte mensagem:

partilho convosco o sítio de onde ela foi retirada, e onde se pode ver uma BD com um Tintin Revolucionário.
Apreciem!
Guilherme Rietsch Monteiro
Remendos e côdeas
in, JN
Os sindicalistas bons, que não são "instrumentalizados" nem fazem greves e manifestações e "aposta(m) na concertação e não no conflito", reuniram-se em congresso, durante o qual o seu "programa de acção" foi aprovado com 90% de votos.
Um dia depois, em resposta a declarações do líder do patronato, segundo as quais um salário mínimo de 500 euros em… 2011 é apenas uma "indicação" e "iremos ver se é possível", o secretário-geral reeleito explicitou em que consiste a "aposta": o sindicalismo bom "espera" que o próximo Governo "seja sensível".
Este tipo de sindicalismo não reivindica, "espera", não reconhece o salário como direito de quem trabalha, mas como prodigalidade. Se o próximo Governo for "sensível", e o patronato também, "darão" em 2011 aos trabalhadores um salário mínimo compatível, como os pedintes dizem, com as suas possibilidades.
Em contrapartida, os sindicatos e os sindicalistas bons continuarão a ser bons, se possível ainda melhores, e a não perturbar o trânsito nem impedir os jornalistas igualmente bons da Antena 1 de chegar a horas às conferências de imprensa da CIP e do Governo.
Remendos e côdeas
José Mário Branco
Sempre que se rompe o casaco do povo
Aparecem uns doutores que descobrem
Que assim não pode ser
Há que achar remédio
Seja lá como for
Vão então negociar com os senhores
Enquanto cá fora os trabalhadores
Ao frio esperam que eles voltem triunfantes com
Um belo remendo
Remendo sim pois bem mas onde é que ficou
O casaco todo?
Sempre que gritamos "basta temos fome!"
Aparecem uns doutores que descobrem
Que assim não pode ser
Há que achar remédio
Seja lá como for
Vão então negociar com os senhores
Enquanto cá fora os trabalhadores
Cheios de fome até que voltem triunfantes com
Uma bela côdea
Côdea sim pois bem mas onde é que ficou
A carcaça toda?
Nós não precisamos só desses remendos
Precisamos do casaco por inteiro
Nós não queremos ficar só com essa côdea
Precisamos de comer o pão inteiro
Não nos basta que o patrão nos dê trabalho
Precisamos de mandar nas oficinas
Nos campos e nas minas
No poder de Estado
Disso é que precisamos
Mas o que é que essa gente tem para oferecer?
Remendos e Côdeas!
Roubo(s)
in, JN
Uma petição de sportinguistas exigindo a repetição da final da Taça da Liga "porque nós merecemos a taça, lutámos por ela com honra e amor à camisola" reuniu, em poucas horas, mais assinaturas que petição idêntica que anda há uma eternidade na Net (na Net, clica-se em qualquer sítio e aparecem duas ou três petições) apelando à demissão de Dias Loureiro do Conselho de Estado na sequência do caso BPN e dos "seus comportamentos que põem em causa o bom-nome do Conselho de Estado, da Presidência da República e do País".
Quem julgasse que trafulhices de milhões como as do BPN chegariam para comover a Pátria, nunca, como na redacção daquela menina de Leiria, foi lá, à Pátria. A Pátria comove-se é com "penalties" roubados, não com milhões roubados. A Pátria não faz a mínima ideia do que é um milhão e está-se nas tintas (como o povo diz, isso são coisas "lá deles") para "o bom-nome do Conselho de Estado (de quem…?), da Presidência da República e do País". Ponham-lhe à frente uma petição a exigir a demissão do Eduardo de "Podia acabar o mundo" do tal Conselho de Estado, e essa, sim, a Pátria assina logo.
Os super-heróis
in, JN
Na Tailândia, um menino autista de oito anos que se isolara na varanda de um 3.º andar e aparentemente fazia tenção de se suicidar foi salvo por um bombeiro que, sabendo quanto ele gostava de super-heróis, se vestiu de Homem-Aranha. "Parece incrível, mas o menino lançou-se-lhe nos braços assim que o viu", relatou o sargento Virat Boonsadao.
O autismo é uma doença terrível, causadora de grande sofrimento, segundo se supõe (sabe-se ainda muito pouco) provocado por uma insuportável e permanente tensão ao nível das meninges. Fazer deste caso, comovente, uma alegoria pode parecer cruel. Mas interrogo-me se os povos, como os indivíduos, não podem também ser "autistas", se o alheamento, os interesses limitados, o défice de atenção e a incapacidade de resposta ao que, a nível social e político, se passa à sua volta, acompanhados do gesto repetitivo de votar sempre nos mesmos partidos, não serão características de uma cultura autista. Povos assim lançam-se facilmente nos braços do primeiro bombeiro que, vestido de super-herói, lhes aparece pela frente. Basta ver as sondagens.
sexta-feira, março 20, 2009
Eu não sei fazer música
Mas eu faço
Eu não sei cantar as músicas que faço
Mas eu canto
Eu não tenho certeza
Mas eu acho
Eu não sei o que falar
Mas eu falo
Ninguém sabe nada
Ninguém sabe nada
Ninguém sabe nada
Ninguém sabe nada
Você você você você você você
Ninguém sabe nada
Queima de recibos verdes

No próximo dia 21 de Março, desperta a primavera. É a partir do equinócio que dias e noites têm a mesma duração.
Este ano, o MayDay Porto vai assinalar o equinócio com uma fogueira na rua: será a queima dos recibos verdes.
Em Portugal, cerca de 900 mil pessoas trabalham como 'falsos' recibos verdes; são falsos trabalhadores independentes. Falsos porque deveriam ter um contrato de trabalho: cumprem horário, têm subordinação hierárquica e trabalham não em casa mas numa empresa ou num serviço do Estado. Os recibos verdes são assim utilizados para mascarar uma situação de trabalho por conta doutrem. Noutros casos, são apenas uma forma que impede que o trabalho intermitente tenha protecção social.
Em Portugal, cerca de 900 mil pessoas não têm protecção social, não têm direito ao subsídio de desemprego se ficarem sem trabalho, nem a protecção na doença. Muitas delas, acumulam dívidas imensas à segurança social e não têm sequer o direito de planear e organizar o futuro.
Os falsos recibos verdes são, na maior parte dos casos, um abuso, uma mentira e uma exploração para que os trabalhadores tenham menos direitos. O Estado é um dos grandes utilizadores desta falcatrua.
Estamos fartos. E com o despertar da Primavera, despertam também os nossos gritos de revolta. Na fogueira do equinócio vamos queimar este símbolo maior da precariedade. As nossas noites terão a mesma duração dos nossos dias e ambos têm sempre a exacta duração da nossa luta.
Dia 21 de Março, traz a tua indignação e vem queimar os teus recibos. Porque é a sede de justiça e de dignidade que desperta em nós profundas primaveras!
quinta-feira, março 19, 2009
segunda-feira, março 16, 2009
Dança Nua
Dança Nua - Essa Entente
Tão perto daquela antiga avenida
Passeiam as moças da noite
Que hão-de chamar ao meio das pernas
Os olhares que passam
Uma quer levar-me, mas eu não vou ficar
Apenas vou sorrir, passar
Desço ao cais onde o brilho da ponte
Ilumina um bar tão vazio
Mas sei que tão cheio vai ficar
Por mil tragos, avancem
Uns para o meu lado, outros para a frente
Vamos lá rapazes por mil tragos cantar
Eram já três, venham mais duas
As damas ao meio p'ra dança nua
E uma volta a entornar, e outra voz a cantar
Trocam-se os passos no ar, esperem ainda que...
Eram já três, venham mais duas
As damas ao meio p'ra dança nua
E uma volta a entornar, e outra voz a cantar
Trocam-se os passos no ar, esperem ainda que...
Olhos inchados, descanso no cais
À beira de um barco esquecido
Que tal como eu já foi tão forte
Mas feliz só esta noite
Leva-me contigo, dentro de ti
Para depois voltar ao bar
E por mil tragos cantar
Eram já três, venham mais duas
As damas ao meio p'ra dança nua
E uma volta a entornar, e outra voz a cantar
Trocam-se os passos no ar, esperem ainda que...
Eram já três, venham mais duas
As damas ao meio p'ra dança nua
E uma volta a entornar, e outra voz a cantar
Trocam-se os passos no ar, esperem ainda que...
Eram já três, venham mais duas
As damas ao meio p'ra dança nua
E uma volta a entornar, e outra voz a cantar
Trocam-se os passos no ar, esperem ainda que...
Eram já três, venham mais duas
As damas ao meio p'ra dança nua
E uma volta a entornar, e outra voz a cantar
Trocam-se os passos no ar, esperem ainda que...
Ai vão, vão!
No programa "Contra-Informação" de ontem, a bonecada do PS cantava...
"É um longo caminho para a maioria
É duro manter o poder
É um longo caminho para a maioria
Ainda nos vamos foder"
Ai vão, vão!!!
Nos 3 actos eleitorais de 2009, vou votar Bloco de Esquerda! E tu?
quinta-feira, março 12, 2009
Coisas lindas
in Blog das Vozes da Rádio
O meio que a rodeia é este: o dos neologismos, dos novos grafismos. Ela não erra. Ela reinventa. Ela é a figura messiânica de um futuro acordo ortográfico que renovará toda a nossa língua. Ela é a língua portuguesa do futuro. Há quem diga que ela é mesmo o software do Magalhães sob a forma de humanoide.
Este cartaz é um sinal. É um passo em frente para essa tal nova escrita, que quem recebe recados da Sotora já conhece bem.
Fica aqui a premonição da nova língua que se anuncia a espaços e fica a sugestão: para quem gosta de circo, aproveite este fim-de-semana. Os Ermãos Torralvo, estarão em Santa Cruz, mesmo em frente ao estabelecimento preseonal.
Um grande beijo de plástico para a Barbie
De todas as bonecas que partilham o nome com carniceiros nazis, posso dizer que a Barbie é, sem dúvida nenhuma, a minha favorita
Ricardo Araújo Pereira
in, Visão
O 50.º aniversário da Barbie foi assinalado pela generalidade da comunicação social com uma altivez que se reprova. Uma boneca não pode celebrar 50 anos sem que a imprensa entreviste inúmeros críticos e não tente sequer falar com a aniversariante. Os jornalistas argumentarão que, sendo a Barbie uma boneca oca sem nada na cabeça, não faz sentido dar-lhe tempo de antena na comunicação social - mas a verdade é que esse critério nunca foi suficiente para os impedir de entrevistar alguém. Basta pensarmos na quantidade de entrevistas que eu tenho dado.
A Barbie tem sido vítima de uma das mais chocantes campanhas negras alguma vez urdidas em Portugal, país em que se urdem a toda a hora campanhas negras especialmente chocantes. Uma boneca que, em 50 anos de vida, desempenhou 108 profissões diferentes (é das poucas pessoas do mundo que se pode gabar de, no espaço de uma década, ter tido carreiras profissionais bem sucedidas quer como astronauta quer como instrutora de aeróbica - algo que Neil Armstrong tentou sem sucesso, nunca tendo conseguido ensinar competentemente o bodypump), foi apontada como símbolo da mulher doméstica - uma acusação que só pode ser explicada pela inveja que a reforma acumulada da Barbie, forçosamente, provoca nos críticos.
Pois bem, vejo-me forçado a defender a Barbie, até porque a Mattel costuma processar quem se mete com ela. Defendendo a Barbie estou, aliás, a defender-me a mim mesmo: só no ano passado foram vendidas cerca de 100 milhões de Barbies, metade das quais são propriedade das minhas filhas. A Mattel fez a descoberta comercial do século: todas as meninas nascem com uma vocação especial para a pirosice que esteve durante milénios à espera de ser capitalizada.
Começo então por dizer o óbvio: de todas as bonecas que partilham o nome com carniceiros nazis, posso dizer que a Barbie é, sem dúvida nenhuma, a minha favorita. Nunca gostei especialmente da Goebbels Assistente de Bordo e sempre considerei a Himmler Patinadora um pouco sinistra, mas a Barbie tem aquele encanto suave que, digam o que disserem, faltava a Klaus Barbie - apesar de partilhar o seu porte ariano.
Claro que conheço as críticas segundo as quais o corpo da boneca é irrealista, mas não concordo. Actualmente há muitas senhoras que, quando chegam aos 50 anos, também já são quase todas de plástico. Tenho visto várias quinquagenárias bem mais inexpressivas do que a Barbie. E boa parte delas chega ao fim da vida com o rosto mais jovem que o Benjamin Button. Eis um filme cuja história é bem banal: basta ir a Cascais para ver meia dúzia de senhoras que sofrem da mesma doença.
quinta-feira, março 05, 2009
Dia Mau
E com a dimensão da dor
A legitimar o fim
Eu dei
Mas foi para mostrar
Nao havendo amor de volta
Nada impede a fonte de secar
Mas tanto pior
E quem sou eu para te ensinar agora
A ver o lado claro de um dia mau
Eu sei
A tua vida foi
Marcada pela dor de não saber aonde dói
Mas vendo bem
Não houve à luz do dia
Quem não tenha provado
O travo amargo da melancolia
E então rapaz,
Então porque a raiva se a culpa não é minha
Serão efeitos secundários da poesia
Mas para que gastar o meu tempo
A ver se aperto a tua mão
Eu tenho andado a pensar em nós
Já que os teus pés não descolam do chão
Dizes que eu dou só por gostar
Pois vou dar-te a provar
O travo amargo da solidão!
Eu tenho andado a pensar em nós
Já que os teus pés não descolam do chão
Dizes que eu dou só por gostar
Eu vou dar-te a provar
O travo amargo da solidão!
É só mais um dia mau, mau, mau
É só mais um dia mau, mau, mau
É só mais um dia mau
É só mais um dia mau
É só mais um dia mau
Morrer por ser preciso, nunca por chegar ao fim
Ninguém prometeu nada.
Fui eu que julgei que podia arrancar sempre
Mais uma madrugada.
Ninguém disse que o riso nos pertence
Ninguém prometeu nada.
Fui eu que julgei que podia arrancar sempre
Mais uma gargalhada.
E deixar me devorar pelos sentidos,
e rasgar-me do mais fundo que há em mim
emaranhar-me no mundo, e morrer para ser preciso,
Nunca por chegar, ao fim.
Ninguém disse que os dias eram nossos
Ninguém prometeu nada
Fui eu que julgei que podia arrancar sempre, mais uma madrugada.
E deixar-me devorar pelos sentidos,
E rasgar-me do mais fundo que há em mim.
Emaranhar-me no mundo, e morrer por ser preciso,
Nunca por chegar ao fim.
E deixar-me devorar pelos sentidos,
e rasgar-me do mais fundo que ha em mim.
Emaranhar-me no mundo, e morrer por ser preciso,
nunca por chegar ao fim.
E deixar-me devorar pelos sentidos,
e rasgar-me do mais fundo que ha em mim.
Emaranhar-me no mundo, e morrer por ser preciso,
nunca por chegar ao fim.
E deixar-me devorar pelos sentidos,
e rasgar-me do mais fundo que há em mim.
Emaranhar-me no mundo, e morrer por ser preciso,
nunca por chegar ao fim.
Deixar-me devorar pelos sentidos
Pensa em mim protege o que eu te dou
Eu penso em ti e dou-te o que de melhor eu sou
Sem ter defesas que me façam falhar
Nesse lugar mais dentro
Onde só chega quem nao tem medo de naufragar
Fica em mim que hoje o tempo dói
Como se arrancassem tudo o que já foi
E até o que virá e até o que eu sonhei
Diz-me que vais guardar e abraçar
Tudo o que eu te dei
Olhar-te um pouco, enquanto acaba a noite
Enquanto ainda nenhum gesto te magoa
E o mundo for aquilo que sonhas nesse lugar só teu
Olhar-te um pouco, como se fosse sempre
Até ao fim do tempo, até amanhecer
E a luz deixar entrar o mundo inteiro e o sonho se esconder
Enquanto dormes, por um momento à noite
É um tempo ausente que te deixa demorar
Sem guerras nem batalhas para vencer, nem dias para rasgar
Eu fico um pouco, por dentro dos desejos
Por mil caminhos que sao mastros e horizontes
Tao livres como estrelas sobre os mares e atalhos pelos montes
A noite vem às vezes tao perdida
E quase nada parece bater certo
Ha qualquer coisa em nós inquieta e ferida
E tudo o que era fundo fica perto
Nem sempre o chao da alma é seguro
Nem sempre o tempo cura qualquer dor
E o sabor a fim do mar que vem do escuro
É tanta vezes o que resta, do calor
Trocamos as palvras mais escondidas
Que só a noite arranca sem doer
Seremos cumplices o resto da vida
Ou talvez só ate amanhecer
Fica tao facil entregar a alma
A quem nos traga um sopro do deserto
Olhar onde a distância nunca acalma
Esperando o que vier de peito aberto
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
Se um gesto cair assim
Despedaçado
Se eu nao souber
Recolher a dor
Se te esperar a céu aberto
Onde se enconde
O que tu és que eu também sou
É que hoje mais que qualquer outra noite
Ha qualquer coisa que me fere
E que me faz querer tanto ter-te aqui
Nalgum lugar perdido vou procurar sempre por ti
Ha sempre no escuro um brilho, um luar…
Nalgum lugar esquecido eu vou esperar sempre por ti
Mesmo que a vida mude os nossos sentidos
E o mundo nos leve pra longe de nós
E que um dia o tempo pareça perdido
E tudo se desfaça num gesto só
Eu vou guardar cada lugar teu
Ancorado em cada lugar meu
E hoje apenas isso me faz acreditar
Que eu vou chegar contigo
Onde só chega quem nao tem medo de naufragar
E deixar-me devorar pelos sentidos
E rasgar-me do mais fundo que há em mim
Emaranhar-me no mundo
E morrer por ser preciso
Nunca por chegar ao fim…
terça-feira, março 03, 2009
Baile dos Vampiros
Madrugada de 28 de Fevereiro, para 1 de Março de Março de 2009. Os Clã sobem ao palco do Teatro Sá da Bandeira, para encerrar o Fantasporto, no já célebre Baile dos Vampiros. Num ambiente "vampiresco", em que tornaram algumas das suas músicas mais "tenebrosas", tocaram ainda algumas versões de outros. Foi o caso de "The Beautiful People" de Marilyn Manson:
The Beautiful People
Marilyn Manson
I don't want you and I don't need you
Don't bother to resist, Or I'll beat you
It's not your fault that you're always wrong
the weak ones are there to justify the strong.
The beautiful people, the beautiful people
it's all relative to the size of your steeple
you can't see the forest for the trees
and you can't smell your own shit on your knees
There's no time to discriminate, hate every motherfucker that's in your way
Hey you, what do you see?
something beautiful, something free?
hey you, are you trying to be mean?
you live with apes man, it's hard to be clean
(Ahh)
(Ahh)
the worms will live in every host
it's hard to pick which one they eat most
the horrible people, the horrible people
it's as anatomic as the size of your steeple
capitalism has made it this way,
old-fashioned fascism
will take it away
Hey you, what do you see?
something beautiful, something free?
hey you, are you trying to be mean?
you live with apes man, it's hard to be clean
There's a chance to discriminate,
hate every motherfucker that's in your way
The Beautiful People, The Beautiful People
The Beautiful People, The Beautiful People
Hey you, what do you see?
something beautiful, something free?
hey you, are you trying to be mean?
you live with apes man, it's hard to be clean






