quarta-feira, julho 16, 2008

O óleo que deita fora pode ser mais perigoso do que imagina


Talvez não saiba, mas o óleo alimentar que já não serve para si pode ainda ajudar muita gente. Em vez de o deitar fora, entregue-o nos restaurantes aderentes para que este seja recolhido. Além de diminuir a poluição do planeta, cada litro de óleo será transformado num donativo para ajudar a AMI na luta contra a exclusão social. Dê, vai ver que não dói nada.



Para participar neste projecto da AMI:
- Junte o óleo alimentar que usa na sua cozinha numa garrafa de plástico e entregue-a quando estiver cheia num dos restaurantes aderentes. Os restaurantes estão identificados e a lista completa está disponível em www.ami.org.pt;
- Afixe cartazes no comércio da sua localidade e distribua folhetos nas caixas de correio. Solicite materiais, enviando um e-mail para reciclagem@ami.org.pt;


  • Divulgue esta informação no seu site ou blog;
  • Encaminhe este e-mail para a sua lista de contactos.


Press release:
Pela primeira vez, vai passar a existir em Portugal, uma resposta de âmbito nacional para o destino dos óleos alimentares usados. A partir de dia 15 de Julho, a AMI lança ao público este projecto que conta já com a participação de milhares de restaurantes, hotéis, cantinas, escolas, Juntas de Freguesia e Câmaras Municipais.
A AMI dá com este projecto continuidade à sua aposta no sector do ambiente, como forma de actuar preventivamente sobre a degradação ambiental e sobre as alterações climáticas, responsáveis pelo aumento das catástrofes humanitárias e pela morte de 13 milhões de pessoas em todo o mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde.
Os cidadãos que queiram entregar os óleos alimentares usados, poderão fazê-lo a partir de agora. Para tal, poderão fazer a entrega numa garrafa fechada, dirigindo-se a um dos restaurantes aderentes, que se encontram identificados e cuja listagem poderá ser consultada no site www.ami.org.pt.
Os estabelecimentos que pretendam aderir, recebendo recipientes próprios para a deposição dos óleos alimentares usados, deverão telefonar gratuitamente para o número 800 299 300.
Este novo projecto ambiental da AMI permitirá evitar a contaminação das águas residuais, que acontece quando o resíduo é despejado na rede pública de esgotos, e a deposição do óleo em aterro. Os óleos alimentares usados poderão assim ser transformados em biodiesel, fornecendo uma alternativa ecológica aos combustíveis fósseis, e contribuindo desta forma para reduzir as emissões de Gases de Efeito de Estufa (GEE). Ao contrário do que por vezes acontece com o biodiesel de produção agrícola, esta forma de produção não implica a desflorestação nem a afectação de terrenos, nem concorre com o mercado da alimentação.
São produzidos todos os anos em Portugal, 120 milhões de litros de óleos alimentares usados, quantidade suficiente para fabricar 170 milhões de litros de biodiesel. Este valor corresponde ao gasóleo produzido com 60 milhões de litros de petróleo, ou seja, o equivalente a cerca de 0,5% do total das importações anuais portuguesas deste combustível fóssil. A AMI dá assim a sua contribuição para favorecer a independência energética do país, conseguindo atingir este objectivo de forma sustentável e com uma visão de longo prazo, não comprometendo outros recursos igualmente fundamentais para o desenvolvimento da sociedade e para o bem-estar da população.
Segundo a União Europeia, o futuro do sector energético deverá passar pela redução de 20% das emissões de GEE até 2020, assim como por uma meta de 20% para a utilização de energias renováveis. Refere ainda uma aposta clara na utilização dos biocombustíveis, que deverão representar no mínimo 10% dos combustíveis utilizados.
A UE determina ainda que os Estados-Membros deverão assegurar a incorporação de 5,75% de biocombustíveis em toda a gasolina e gasóleo utilizados nos transportes até final de 2010 e o Governo anunciou, em Janeiro de 2007, uma meta de 10% de incorporação de biocombustíveis na gasolina e gasóleo, para 2010.
As receitas angariadas pela AMI com a valorização dos óleos alimentares usados serão aplicadas no financiamento das Equipas de Rua que fazem acompanhamento social e psicológico aos sem-abrigo, visando a melhoria da sua qualidade de vida.

Fundação AMI
Rua José do Patrocínio, 49 | 1949-008 Lisboa | Tel. 218 362 100 | Fax 218 362 199
E-Mail: reciclagem@ami.org.pt | Internet: www.ami.org.pt

terça-feira, julho 15, 2008

Vida Diet

John Ulhoa
in, Toda cura para todo o mal, Pato Fu

A gente se acostuma com tudo
A tudo a gente se habitua
E até não ter um lugar
Dormir na rua
A tudo a gente se habitua

Me habituei ao pão light
À vida sem gás
O meu café tomo sem açúcar
E até ficar sem comer
Sem te ver
A gente custa mas se habitua

Sem giz, sem água
Sem paz, sem nada

Não vai ser diferente
Se eu me for de repente
Se o céu cai sobre o mundo
E o mar se abrir
Em um inferno profundo

Se acostumou sem querer
Ao salto alto
Salário baixo, à vida dura
E até ficar sem tv
É bom pra você
Televisão ninguém mais atura

Tudo

John Ulhoa
in, Toda a cura para todo o mal, Pato Fu

Tudo que se acende apaga
Tudo que está dentro sai
Tudo que sobe desce
E tudo se encaixa

Tudo que se perde ganha
Tudo que levanta cai
Tudo que bate apanha
E tudo se encaixa

Tudo que se lembra esquece
Tudo que volta vai
Tudo que é triste alegre
E tudo se encaixa

Tudo que é feio é belo
Tudo que é filho é pai
Tudo martelo e prego
E tudo se encaixa

Sorte e Azar

John Ulhoa/Ricardo Koctus
in, Toda a cura para todo o mal, Pato Fu

Tudo está
Fora de seu lugar

Já notei
O mundo não foi
Feito pra mim

Vivo só
Pra me arrepender
De eu não ser
Do tipo que diz
Sem querer

O que está fora
De seu lugar
Que você venha pra modificar

Sorte e azar
Vão me disputar

E eu não fui
Capaz de me mover
Daqui até ali

Estudar pra quê?

John Ulhoa
in, Toda a cura para todo o mal, Pato Fu

Quem mexe com internet
Fica bom em quase tudo
Quem tem computador
Nem precisa de estudo
Estudar pra quê?
Estudar pra quê?
Estudar pra quê?
Estudar pra quê?

Quem mexe com internet
Fica rico sem sair de casa
Quem tem computador
Não de precisa de mais nada
Estudar pra quê?
Estudar pra quê?
Estudar pra quê?
Estudar pra quê?

Boa noite Brasil

John Ulhoa
in, Toda a cura para todo o mal, Pato Fu

Essa noite o locutor
Errou mais uma vez
E um satélite no céu
Contou pra todo mundo
O que ele fez

Eu não gosto muito dele
Perfeito até demais
Nunca fala palavrão
E nem pediu perdão
Pra recomeçar
De onde parou
Sem mesmo piscar

No intervalo comercial
Reuniu seu pessoal
Disse que assim não dava
Pra continuar
Demitiu seu assistente
Que foi quem o distraiu
E mandou toda sua gente
Descobrir quem foi que riu
E recomeçou de onde parou
Sem mesmo piscar

Quando intervalo acabou
Eu não sei se o senhor notou
O seu rosto estava cheio de uma fúria
Os seus olhos cheios de uma dor
E ao se despedir do telespectador
Disse:
Boa noite Brasil,
Vai pra puta que o pariu!

Amendoim

John Ulhoa
in, Toda a cura para todo o mal, Pato Fu

Acho que sou um cachorro sim
Acho que sou um cachorrim
Minha vida vai
Um ano contam sete
Rumo ao fim
Acho que ninguém tem dó de mim

Quase não me sobra tempo algum
Não conheço bem lugar nenhum
Fora do trabalho
Eu acho essa cidade
Tão ruim
Acho que ninguém tem dó de mim

Todo dia nasce um bebê
Pra dividir a vida com você
Todos os dias vão nascer
Bebês com meia vida pra viver
Todos os dias vão nascer
Ié ié ié!

Sou tão dedicado a ser comum
Anos vão passando um a um
E o tempo pela frente
Comigo é diferente
Conto assim:
Sete, catorze, vinte e um

Boas notícias?!

Manuel António Pina
in, JN

Os últimos dias foram férteis em boas notícias. Enquanto Sócrates prometia uma redução de 30% num imposto que não existe (o IA sobre automóveis eléctricos), a ministra da Educação anunciava que os alunos portugueses se tornaram, de um ano para o outro, génios matemáticos graças ao ovo de Colombo saído da mente imaginosa do seu Ministério: só lhes perguntar o que sabem, ou ainda menos, assegurando-lhes assim, mesmo aos mais ignorantes, aquilo que a directora de Educação do Norte classifica como o seu "direito ao sucesso".

Por sua vez, Vieira da Silva louvava no fim-de-semana efusivamente no "Expresso" as esquisitas virtudes do "seu" Código do Trabalho. Parece que o BE vai fazer suas, na AR, as propostas de alteração que o mesmo Vieira da Silva em tempos fez ao Código Bagão Félix.

O país está suspenso do modo como votará o PS as medidas que preconizava quando era Oposição, e que voltará a preconizar quando for Oposição outra vez, assim como a ministra da Educação passará então a ser a mais acrisolada crítica do facilitismo. Pensando bem, deveria ser sempre a Oposição a formar Governo.

Agridoce

John Ulhoa
in, Toda a cura para todo o mal, Pato Fu

Por que você às vezes
Se faz de ruim?
Tenta me convencer
Que não mereço viver
Que não presto, enfim

Saio em segredo
Você nem vai notar
E assim sem despedida
Saio de sua vida
Tão espetacular

E ao chegar lá fora
Direi que fui embora
E que o mundo já pode se acabar
Pois tudo mais que existe
Só faz lembrar que o triste
Está em todo lugar

E quando acordo cedo
De uma noite sem sal
Sinto o gosto azedo
De uma vida doce
E amarga no final

Saio sem alarde
Sei que já vou tarde
Não tenho pressa
Nada a me esperar
Nenhuma novidade
As ruas da cidade
O mesmo velho mar

Ops!


Manuel Alegre, lança a revista "Ops!" Visita o site aqui.

Depois


Os Clã, presentearam os Maiatos na passada sexta-feira, com mais um brilhante concerto.
Este meninos não sabem fazer as coisas por menos. Depois de começarem a digressão de Cintura, com uma nova versão de O meu estilo, prepararam para a Aula Magna e a Casa da Música, uma versão de Sopro do Coração apenas com a Manuela e o Hélder em palco. Mas, não ficaram por aqui... Na Maia, podémos ainda assistir a um final diferente de Fahrenheit.
Ficámos ainda, todos animados com o "Guaraná", dos Pato Fu.
O concerto valeu também pelo convívio com a banda, no final.
Deixo-vos então, Depois, dos Pato Fu.


Depois
John Ulhoa

Não foi dessa vez
Mas pode ter certeza
Mal posso esperar
Pra fugir da tristeza
Amanhã talvez
Vai ser um carnaval
Vão falar de mim
Pro bem ou pro mal

Tomo um café e um guaraná pra me animar
Mas ficou tão tarde
Que é melhor deixar pra lá...

Quando penso em nós dois
Deixo tudo pra depois
Quando penso em nós três
Fica pra outra vez

Juntei passos, palavras
Não era bem o momento
Fingi não querer nada
Tem horas que não me aguento...
Prometo, juro, garanto
Vou resolver tudo isso
Assim que tiver coragem
E mais nenhum compromisso

O Estado da Nação



Sultans of Swing

Dire Straits

You get a shiver in the dark
Its been raining in the park but meantime
South of the river you stop and you hold everything
A band is blowing dixie double four time
You feel all right when you hear that music ring

You step inside but you dont see too many faces
Coming in out of the rain to hear the jazz go down
Too much competition too many other places
But not too many horns can make that sound
Way on downsouth way on downsouth london town

You check out guitar george he knows all the chords
Mind hes strictly rhythm he doesnt want to make it cry or sing
And an old guitar is all he can afford
When he gets up under the lights to play his thing

And harry doesnt mind if he doesnt make the scene
Hes got a daytime job hes doing alright
He can play honky tonk just like anything
Saving it up for friday night
With the sultans with the sultans of swing

And a crowd of young boys theyre fooling around in the corner
Drunk and dressed in their best brown baggies and their platform soles
They dont give a damn about any trumpet playing band
It aint what they call rock and roll
And the sultans played creole

And then the man he steps right up to the microphone
And says at last just as the time bell rings
thank you goodnight now its time to go home
And he makes it fast with one more thing
we are the sultans of swing

Stairway to Heaven

Led Zeppelin


There's a lady who's sure all that glitters is gold
And she's buying a stairway to heaven
And when she gets there she knows if the stores are closed
With a word she can get what she came for

Woe oh oh oh oh oh
And she's buying a stairway to heaven

There's a sign on the wall but she wants to be sure
And you know sometimes words have two meanings
In a tree by the brook there's a songbird who sings
Sometimes all of our thoughts are misgiven

Woe oh oh oh oh oh
And she's buying a stairway to heaven

There's a feeling I get when I look to the west
And my spirit is crying for leaving
In my thoughts I have seen rings of smoke through the trees
And the voices of those who stand looking

Woe oh oh oh oh oh
And she's buying a stairway to heaven

And it's whispered that soon, if we all call the tune
Then the piper will lead us to reason
And a new day will dawn for those who stand long
And the forest will echo with laughter

And it makes me wonder

If there's a bustle in your hedgerow
Don't be alarmed now
It's just a spring clean for the May Queen

Yes there are two paths you can go by
but in the long run
There's still time to change the road you're on

Your head is humming and it won't go in case you don't know
The piper's calling you to join him
Dear lady can't you hear the wind blow and did you know
Your stairway lies on the whispering wind

And as we wind on down the road
Our shadows taller than our soul
There walks a lady we all know
Who shines white light and wants to show
How everything still turns to gold
And if you listen very hard
The tune will come to you at last
When all are one and one is all
To be a rock and not to roll
Woe oh oh oh oh oh
And she's buying a stairway to heaven

There's a lady who's sure all that glitters is gold
And she's buying a stairway to heaven
And when she gets there she knows if the stores are closed
With a word she can get what she came for

And she's buying a stairway to heaven, uh uh uh

sexta-feira, julho 11, 2008

O CUzinho da SIC

Sérgio Castro
in, Trabalhadores do Comércio - Iblussom

Algumas pessoas continuam a insistir, principalmente da cintura (do país) para baixo, que não têm CU. Não os censuro por quererem ter "rabo". Aqui na Galiza, onde vivo, todos os machos o temos, só que do lado oposto.
Quando eu era pequenino, a minha mãe deixou-me bem explícito que o conjunto formado pelas duas nádegas e pelo ânus (vulgo "olho do cu") constituía um órgão vital para a sobrevivência de todo o ser humano, pois para além de almofada de protecção do osso ilíaco -- sei bem do que falo, pois ainda recordo os bancos de pau das carruagens de 3ª classe da CP, tão bem quanto as carteiras da escola primária, do liceu ou até da UP -- este órgão é o responsável pela expulsão de tudo, ou quase tudo, o que sobra no nosso organismo. No seu propósito de me educar convenientemente, a mãe Casais (que nunca aceitou adoptar o apelido Castro, já podeis imaginar de que "marca" é) ensinou-me a referir-me a ele (ao órgão) como TUTU. Convenhamos que era uma razoável aproximação e, afinal, uma garantia, que o Serviço Nacional de Censura, a PIDE ou simplesmente um exacerbado brigadeiro de bons costumes não me viria incomodar. Assim cresci, convencido que tanto eu como o gato tínhamos um tutu cada um, só que o dele ornamentado por um nervoso e irrequieto RABO. Rabo eu não tinha não, nem ninguém na família.
Passaram todos estes anos, com câmbios notáveis na nossa sociedade, revolução de Abril incluída, e chego agora à conclusão que fui um grande atrevido, quando tive a ousadia de escrever, musicar e propor aos meus companheiros que a integrassem num CD e no repertório dos Trabalhadores, uma canção intitulada "Cu ó léu". Pelos vistos, esta palavra (Cu), que figura no lugar que lhe pertence no dicionário da Porto-Editora, da mesma forma que na Tabela Periódica da Química, não é apropriada para consumo, entre outras, das "boas famílias" que contribuem para os picos de audiência do programa "Chamar a Música" da SIC, no qual participamos há umas semanas e que, ironia das ironias, é apresentado pelo nosso amigo Herman, todo um especialista em liberdades verbais. A produção do programa, depois de tentar demover-nos de interpretar a canção por inapropriada para o horário "nobre" e tipo de audiência (crianças, disseram?!?), aceitou, mas apesar do trabalho que me deram a preparar as legendas em Português académico (como de resto se pôde observar na interpretação do "Chamem a pulíssia" - ver post) não as emitiram e trataram a canção e os intérpretes como produto do orifício em discussão. Reparem bem no resultado. Foi tal qual como se pode apreciar.

Para cúmulo, em nenhum momento indicam que as vozes são em directo em ambas as canções. Coisas da TV.

Silly Season

Jorge Prendas
in, Vozes da Rádio

Não sei bem o que é isso da silly season, porque vivo uma constante silly life, rodeado por colegas de grupo completamente sillies. No entanto ontem, ao estrebuchar da manhã, comecei a perceber melhor este conceito associado ao Verão e ao tempo quente.
Ainda me mentalizava que tinha de me levantar, quando leio no rodapé da SIC notícias: “Delfins deverão anunciar para a semana o fim do grupo”. Virei-me mais uma vez na cama e pensei nisto. Porque se anuncia um anúncio, quando já se sabe o que vai ser dito? Qual é o interesse em saber que para a semana o grupo vai dizer que já morreu? Se agora nos aparecesse na pantalha (adoro este estrangeirismo) o Churchill a dizer que ia morrer, alguém duvidava? Não estamos perante um anúncio do anúncio do cadáver a anunciar que vai morrer? Fui moendo estas ideias, enquanto pelo canto do olho ia lendo mais notícias em rodapé. Ainda esperei ver mais anúncios destes mas dos Pólo Norte, nada… apenas o desprendimento de umas placas de gelo na Patagónia, que fica no lado B do mundo.
No banho fiz a associação que me abriu o entendimento do que é a silly season. A canção “não sejas silly/ não sejas silly/ não sejas silicone/ como a Sharon Stone” dos Delfins faz-me entender o anúncio do anúncio. É a silly season a despertar! Lembro-me bem de ouvir a explicação para o pouco sucesso do disco onde estava esta pérola. “Um disco maduro, que o público não percebeu”. Só já não me lembro se na altura houve anúncio para anunciar que somos uma cambada de burros.
O dia continuou, e eu já precavido, fui olhando para a vida com olhos bem mais silly que habitualmente. A meio da tarde entro num café (se não me engano de nome “Paulinha”, o que só por si é silly) e vejo que na TVI estava a ser transmitido em directo um concurso. Não sei do que se trata, mas vi uma jovem concorrente e ao lado dela o seu perfil. Sonho: ser proprietária de uma cresce. Ainda vacilei e olhei de novo. Cresce, sim estava escrito cresce. Se pensarmos de forma silly, está bem escrito. Uma creche é um aviário humano, onde se depositam pequenos seres e de onde saem crianças, muitas delas bem badochas, já com voz de gente. É um local de crescimento. A Academia das Letras devia desde já aceitar este novo grafismo para creche e até enquadrá-lo etimologicamente.
Novo concorrente. Moço nos seus vintes, perfil físico de cortador de carnes verdes e pelas informações dadas desempregado. Sonho: Passar férias nas ilhas do Pacífico. Outro sinal bem silly! O homem devia sonhar com trabalho, com formas mais decentes de ganhar a vida do que participar nos concursos da tarde… mas não, quer logo vida de lord, de preferência com um séquito de gajas boas ao lado! Triste sina a dele, que a pensar assim ainda acaba com o rendimento social de inserção…Muito silly!
Hoje, novo dia, e já imbuído do espírito universal da silly season, li mais sobre os nossos colegas músicos. Afinal o anúncio da próxima semana, foi ontem mesmo anunciado e é um fim ao estilo morte lenta. Ficou já marcado o concerto final para 2009! Mesmo para o último dia do ano. Daqui até lá, ficarão com certeza como o protagonista da Crónica de uma Morte Anunciada (que já li há mais de 20 anos, por isso não sei o nome do infeliz): toda a gente sabe que ele já está morto e só ele insiste em julgar que não.

quarta-feira, julho 09, 2008

A Borla


Saíu o jornal "A Borla". Conheça as novidades na selecção nacional.

Descarregar!

PSD: Uma evolução na continuidade

Mário Tomé
in, Vírus, Revista Virtual do Bloco de Esquerda

A SOCIAL DEMOCRACIA À PSD TEM UMA GÉNESE PRÓPRIA. ELA RADICA NUM MARCELLISMO EVOLUTIVO E NUNCA DE LÁ SAIU. NÃO SOFRE DO PECADO ORIGINAL DA SOCIAL-DEMOCRACIA EUROPEIA. ELA NÃO FOI CONDICIONADA POR MOVIMENTOS DE MASSAS, PORQUE O 25 DE ABRIL NUNCA EXISTIU OU NÃO PASSOU DA EVOLUÇÃO NA CONTINUIDADE!

AS RECENTES ELEIÇÕES NO PSD PROVOCARAM uma avalanche de interpretações e comentários sobre o estado a que teria chegado o partido e de previsões mais ou menos preocupadas sobre o seu futuro.
Ponderou-se mesmo a hipótese de, sem bússula nem rédea, poder vir a desaparecer por evidente desnecessidade face ao papel que o PS representa hoje na prática da política reservada pelo neoliberalismo aos Estados modernos; a saber, a privatização de tudo o que possa ser mercadejado e a organização sistemática e democrática da repressão até à integração na estratégia global da guerra infinita contra os povos.
A mais favorável das previsões terá sido a de Paulo Rangel que considera a actual situação não um sinal de desastre para o PSD mas, pelo contrário, uma premonição de que algo de novo vem aí: a recomposição do sistema político partidário. Rangel deu voz ao secreto desejo “social democrata” de que o bloco central de interesses encontre uma plataforma comum que, explorando a fundo as virtualidaes do neoliberalismo, permita aos negócios livrarem-se de contradições secundárias. Por mais que se reafirme que nunca mais haverá bloco central. Claro, será mais plausível assistir-se a uma recomposição do espectro partidário...
No que ao PSD interessa, dum lado o social-liberalismo aglutinando os sectores mais desinibidos e que não precisam do cristianismo como fundador da Europa e portanto mais abertos à luxúria cosmopolita; do outro lado a direita pura e dura, cabeças juntas e patas para fora reclamando-se da defesa dos valores de Deus, Pátria e Família acima de todas as coisas. A Pátria dos mortos, porque a dos vivos está sempre em construção.

O PÂNTANO ALEGROU-SE COM O COAXAR DAS RÃS
Sendo significativo que pouco mais de seis meses depois de Luís Filipe Meneses ter sido eleito por muito confortável maioria, o PSD já tenha sentido necessidade de mudar de chefe, é ainda mais significativo que se achasse estranho a acesa e por veses pouco delicada luta travada entre os vários pretendentes a... derrotar o PS de Sócrates em 2009. Cada qual mais destituído que o outro de alternativa coerente .Saiu afinal o que tinha de sair: a solução mais próxima do poder, a cavaquista Manuela Ferreira Leite.
O coaxar das rãs no pântano reflectiu a luta entre os interesses instalados de grupos vorazes e parasitários do erário público, mesmo quando se proclamam paladinos da iniciativa privada.
Já no início dos anos noventa Cavaco Silva, sem nenhuma originalidade mas com o peso da sua maioria absoluta, proclamava que só o mercado livre garante a democracia.. Ouvindo o hoje o presidente da República preocupado exactamente com a violência das consequências do que considera a condição sine qua non da democracia – a liberdade do mercado -, e a sua mais fiel discípula, a vencedora das eleições directas no PSD, colocar no centro do discurso a preocupação face à situação de “emergência social”, temos razões para não desanimar: é o PSD no seu melhor.
O PSD nunca foi mais do que isto que nos mostrou nestas eleições internas: a disputa entre interesses pouco claros mas estreitos e cristalizados em torno de figuras que nada mais têm para oferecer que a garantia de que são ganhadoras! Ao ponto de o troglodita das ilhas ter sido apontado, por gente credenciada, como o melhor candidato a Primeiro Ministro porque... “é um ganhador”.
Programa? poder. Ideologia? dinheiro.
O PSD desde muito cedo se habituou ao pragmatismo mais rasteiro, aliás o mais apropriado para assegurar a satisfação dos grupos de interesses instalados ou emergentes nas várias conjunturas, na parasitagem institucionalizada que tem caracterizado os governos em Portugal desde o 25 de Novembro com maior notoriedade desde os dois Governos da AD (PSD,CDS,PPM), culminando com os dez anos de consulado cavaquista.

MEUS FILHOS, O VINHO TAMBÉM SE PODE FAZER COM UVAS
Sá Carneiro não legou verdadeiramente um programa ao PSD. Legou-lhe um guia prático de conquista do poder.
Sá Carneiro quando não tinha a certeza de ganhar, desertava e depois voltava para secar as lágrimas dos abandonados. Quando conseguiu a vitória da AD por maioria absoluta em eleições intercalares em 1979, de imediato preparou o seu grande golpe: um plebiscito para substituir a Constituição de 1976 por uma que permitisse o “reencontro com a nossa história”, interrompida, como já vimos, pelo 25 de Abril.
Assim, tendo mantido a maioria da AD em 1980, recusou apresentar na AR, estando a isso constitucionalmente obrigado, o programa de governo para só o vir a fazer com a vitória desejada e esperada do General Soares Carneiro candidato da AD à presidência da República.
Preparando o golpe, a AD lançou um forte ataque à liberdade de informação, impedindo os Conselhos de Redacção de funcionar, chegando-se ao ponto de os seus testas de ferro na RDP chamarem a polícia para impedir o Conselho de Redacção de reunir.
Grande parte dos melhores jornalistas da RDP e da RTP foram irradiados ou colocados na prateleira sendo substituídos por comissariozinhos políticos e analfabetos.
O próprio Marcelo Rebelo de Sousa dizia no Expresso em Outubro de 1980: “temos, deste modo, à frente da gestão das instituições informativas controladas pelo Estado pessoas escolhidas de acordo com um critério político e que obviamente actuarão de acordo com esse critério”.
A RTP e a RDP, ao serviço da eleição de Soares Carneiro, chamavam ao campo de concentração de S. Nicolau, de que aquele fora responsável, “granja de recuperação de indígenas”.
A trágica morte de Sá Carneiro, dois dias antes das eleições, haveria de poupá-lo ao desgosto de ver derrotado o seu projecto estratégico de uma maioria, um governo, um presidente; por enquanto...

A SOCIAL-DEMOCRACIA SEM DOR
Curiosamente o PSD só teve um papel minimamente progressista quando ainda não existia.
Era apenas um embrião improvável no tempo da “ala liberal” do marcelismo... Sá Carneiro, Magalhães Mota, Miller Guerra, Pinto Balsemão, entre outros, ensaiam uma oposição colaborante com a ANP (a União Nacional renomeada, como a PIDE o foi por DGS). E foi num projecto jornalístico liberal que o grupo investiu no último ano do marcelismo, depois de terem saído da Assembleia Nacional desgostados com a má aceitação das medidas que propunham. Em 1970 viram chumbado um projecto de constituição subscrito por Sá Carneiro e Mota Amaral que preconizava “a abolição da censura e a proclamação da liberdade de Imprensa; a eliminação dos entraves administrativos à liberdade de associação; a extinção dos tribunais plenários, o fim das medidas de segurança sem termo certo que podiam equivaler na prática à prisão perpétua; a limitação da prisão preventiva sem culpa formada a um prazo máximo de setenta e duas horas; a inclusão do direito ao trabalho e do direito à emigração na lista dos direitos fundamentais” entre outras estranhezas para o regime fascista.
A “ala liberal” do marcelismo, manteve-se à espera da evolução na continuidade. Era o tempo de, sob a doce e monótona sonoridade das “Conversas em Família”, Marcello Caetano ir brutalizando ainda mais o regime apagando as ténues esperanças que levantara em 1968 nos sectores da burguesia liberalizadora, ansiosa por poder fazer negócios livremente como quaisquer capitalistas que se prezam. A luta operária e, fundamentalmente, a contestação global à guerra colonial, não permitiam veleidades liberalizantes.
A Europa esperava por “nós” embora já tivesse acolhido o Portugal fascista na NATO há mais de vinte anos. O capital precisava de propagandear as suas virtudes e libertar-se dos condicionamentos que limitavam a sua expansão e restringiam os lucros a meia dúzia de famílias que exploravam barbaramente a mão de obra semi-escrava das colónias.
Ao abandonar a Assembleia Nacional fascista, em 1973, com o famoso “é o fim”, Sá Carneiro dava sinal aos seus companheiros liberais que a luta ia continuar lá fora. O Expresso, acabado de nascer, passou a ser o quartel general do grupo como centro da denúncia e da desmoralização do regime face à elite liberal, tendo cumprido um importante papel.
No entanto a visão da “ala liberal” não a leva até ao ponto, nuclear como se viu, de condenar a guerra em África, que era a corda que segurava o regime fascista nela enforcado.
A guerra colonial definia a linha de ruptura fundamental e de demarcação essencial. Qualquer programa social-democrata mínimo teria que colocar o reconhecimento do direito à autodeterminação das colónias no centro da sua política quando a onda contestatária, com centro na universidade, radicalizava a luta contra a guerra colonial, o eixo principal da luta anti fascista desde as greves académicas de 1962 e que iriam culminar nas de 1969, réplica nacional do Maio de 68.
Sá Carneiro e os seus passaram de liberais marcelistas a social-democratas como quem bebe uma imperial com tremoços.Elaboram um programa vagamente social-democrata para conservadores, sem raizes, nem tradição nem ideias consolidadas. Uma alta burguesia com ímpetos modernizadores – diferenciada do fascismo já podre – disposta a aguentar-se nas vagas da revolução, certa de que ela não duraria muito, criou o PPD conservador, social democrata no verniz, populista, caciquista e golpista na essência. Escreveram o programa, em Novembro de 1974, com as banalidades aprendidas nos manuais de ciência política das faculdades de Direito de Lisboa, Porto e Coimbra e depois num pragmatismo avassalador praticaram a política do marcelismo sem Marcello logo que o 25 de Novembro os libertou da pressão social revolucionária que os constrangera ao ponto de proclamarem o socialismo como o pai de todas as coisas boas.
Magalhães Mota, Jorge Miranda, Vilhena de Carvalho, Cunha Leal, entre outros intelectuais de relevo, 37 ao todo, que haviam aderido ao PPD na convicção de estarem a dar corpo a um projecto social-democrata, viram-se obrigados a sair, em protesto contra o pragmatismo e o manobrismo de Sá Carneiro, e a formarem um Agrupamento Parlamentar, a Associação Social Democrata Independente (ASDI).

O 25 DE ABRIL NUNCA EXISTIU?
Os sucessores de “ala liberal” organizados no PPD nunca conseguiram ir além da teoria de que o 25 de Abril não teria sido necessário.E, perante a ostensiva evidência dos factos históricos, tentaram escamotear aquilo mesmo de que vinham a queixar-se: a revolução do 25 deAbril, da qual nem o cravo quiseram resgatar. Sem receio de contradizerem o slogan dos dois Carneiros, de “reencontro com a história”. Para tal elaboraram a subtil explicação de que tudo não passara de uma evolução (na continuidade?...)
Em 1996, Marcello Rebelo de Sousa confessava-se “fascinado pelo papel de Spínola na transição”. A evolução vai passar a ser para o PPD/PSD a bandeira comemorativa do 25 de Abril como se encarregou de teorizar e servir na propaganda do governo de Durão Barroso, o historiador António Costa Pinto.
A evolução na continuidade estava (e está) de tal forma entranhada nas hostes do PPD que em Abril de 1992, Cavaco, depois de a ter negado a Salgueiro Maia, concedeu a Pides uma pensão por “altos serviços prestados à Pátria”.
Francisco Sousa Tavares, que fora deputado do PSD, reagiu na Capital, o jornal de que era director,: «Este escarro em tudo o que representou a Revolução de Abril ressoará muito tempo em todos os que sofreram, em todos os que foram perseguidos pela PIDE, em todos os que prestaram à Pátria o excelso serviço de luta pela liberdade, com sacrifício da sua vida, do bem-estar, da carreira e da sua própria segurança» Com o mesmo sentido de Estado tal distinção já tinha sido concedida por Cavaco em 1987, ao capitão Maltez Soares da Polícia de Choque fascista e, em 1988, a outro agente da PIDE, Fernando Ferreira Alves.
Não podemos, pois, admirar-nos por, no passado 10 de Junho, o PR ter afirmado com tanto vigor querer “sublinhar acima de tudo a raça, o dia da raça, o dia de Portugal, de Camões e das Comunidades”.
Ideologicamente o PPD esteve, desde o primeiro dia, pronto para abraçar de alma e coração o neoliberalismo de Reagan e Thatcher que aí havia de chegar.
Exactamente no auge da investida neoliberal, o PPD crisma-se, sob a orientação de Cavaco: Partido Social Democrata. A social democracia à PSD tem uma génese própria. Ela radica num marcellismo evolutivo e nunca de lá saiu. Não sofre do pecado original da social-democracia europeia. Ela não foi condicionada por movimentos de massas, porque o 25 de Abril nunca existiu ou não passou da evolução na continuidade!:
“Na evolução verificada ao longo dos últimos quinze anos é patente a diferença na génese e na afirmação da social-democracia portuguesa relativamente às suas congéneres europeias.
Estas, de um modo geral, e por terem surgido e se terem afirmado quer no final do Séc. XIX ou no início do século XX, quer em períodos subsequentes à queda de totalitarismos de direita, assumiram a defesa de opções claramente influenciadas por esse condicionalismo envolvente.
Tal condicionalismo foi marcado pelos movimentos de massas e por contradições aparentemente irredutíveis entre classes e grupos sociais, bem como pela influência do marxismo, revestindo muitas vezes cariz anticapitalista, antiliberal e antiparlamentar e postulando uma acentuada intervenção do Estado na vida económica e social”.1

Os legítimos herdeiros da “ala liberal” marcelista puderam enfim retornar às suas raízes . “Reencontram-se com a sua própria história”, como queria Sá Carneiro quando apoiava o ex-responsável pelo Tarrafal angolano a presidente da República em 1980.
A história mais recente do PSD, desde o apoio empenhado ao crime contra a humanidade que é a guerra com que Bush arrasou o Iraque, à fuga de Durão Barroso para Bruxelas, à tomada de posse de Santana Lopes como primeiro ministro por sucessão dinástica sem escrutíneo do próprio PSD, até Meneses capaz de tudo e do seu contrário e agora Manuela Ferreira Leite obrigada a lembrar-se dos pobrezinhos por não ter qualquer saída face a quem faz melhor que ela o que ela própria defende, tem sido a história do pragmatismo, da ganância mais rasteira. Desde as autarquias ao poder central. Mas sempre sob a bandeira libertadora dos EUA. A defesa de Portugal como protectorado dos EUA (Quadratura do Círculo, 13/6/08) foi a mais recente demonstração de fidelidade aos princípios por parte do inspirador e teórico de Manuela Ferreira Leite, senão mesmo de Cavaco, José Pacheco Pereira.

PAS DE DEUX
Depois da AD lançar as bases para as privatizações sustentadas, o Bloco Central formaliza na política o que já vinha sendo desde o 25 de Novembro a afirmação mais ou menos conturbada da preponderância dos grandes interesses financeiros assente nos dois grandes pilares da comunidade, o PS e o ainda PPD.
A consolidação do projecto precisava de uma solução política firme que não se compatibilizava com as hesitações inerentes a uma governação bicéfala: Mário Soares e Mota Pinto.
A história é conhecida, carro novo, rodagem, Cavaco ganha o congresso do PPD para ir explorar a sementeira deixada pelo Bloco Central.
O seu consulado de 10 anos é de arrebenta a bexiga:
a revisão constitucional de 1989 com o PS, abre as portas à privatização e liberalização total da economia e lançamento das bases do casino nacional pela reconstituição (melhor dizendo reforço) do poder das grandes fortunas (vindas quase todas do fascismo) que passam da indústria para a finança, indemnizações chorudas e iníquas aos novos pobres que o 25 de Abril tinha criado: Quina, Champallimaud, Roquete, Espírito Santo, etc. Liquidação das pescas, da rede interior dos caminhos de ferro, lançamento das bases do negócio do ensino superior privado (para encher a mula a professores da dita ruça) com 350 milhões de contos retirados ao ensino público, lançamento do ataque em forma ao SNS, liquidação da marinha mercante e das pescas, da indústria naval, etc.
Os reinadinhos de Durão Barroso e de Santana Lopes, são brincadeira de crianças comparados com a campanha mortífera ensaiada com o Bloco Central e conduzida com mão de ferro por Cavaco Silva, o mesmo que hoje se preocupa com a pobreza. Que bom criar pobres para podermos ajudá-los!
Passaram trinta anos de alternância em que PS e PSD se acusam mutuamente de fazerem coisas bem piores quando estão no governo!...
A grande vitória do PSD coincide exactamente com o seu canto do cisne: quando finalmente a vida lhe dá razão - a “ala liberal” hoje faria boa figura - é quando o PS no governo o torna irrelevante. O PS ganha perdendo os socialistas; o PSD ganha perdendo quase a razão de existir. De qualquer forma esteve certo mais cedo.
Agora é uma questão de saber fazer. E Sócrates sabe fazer melhor.
Vencidas as eleições com um terço dos militantes, Manuela Ferreira Leite vai andar por aí a proferir banalidades com perfume social.
O grande aglutinador do PSD actual só poderia ser Sócrates pois é ele quem detém o poder executivo e cumpre o programa da finança. Quem sabe? Na prática, tem sido com ele que se cumpre o projecto estratégico com que sonhou Sá Carneiro e o próprio Cavaco: uma maioria, um governo, um presidente.
E vamos a ver quais serão as hostes apoiantes de Cavaco em 2011.

NOTA:
1: Programa do PSD aprovado no XVI Congresso, 13-14-15 de Novembro de 1992

Internacionalização da Amazónia


Durante um debate numa universidade dos Estados Unidos o ex-Ministro da Educação Brasileiro, CRISTOVAM BUARQUE foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazónia (ideia que surge com alguma insistência nalguns sectores da sociedade americana e que muito incomoda os brasileiros).

Um jovem americano fez a pergunta dizendo que esperava a resposta de um Humanista e não de um Brasileiro. Esta foi a resposta de Cristovam Buarque :



'De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazónia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse património, ele é nosso.

Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazónia, posso imaginar a sua internacionalização, como também a de tudo o mais que tem importância para a humanidade.

Se a Amazónia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro... O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazónia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extracção de petróleo e subir ou não seu preço.

Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazónia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono ou de um país.

Queimar a Amazónia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.

Antes mesmo da Amazónia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França.

Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo génio humano. Não se pode deixar esse património cultural, como o património natural Amazónico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país.

Não faz muito tempo, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele, um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado. Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milénio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhattan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do
mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.

Se os EUA querem internacionalizar a Amazónia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos também todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.

Nos seus debates, os actuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida.

Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de COMER e de ir à escola.

Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como património que merece cuidados do mundo inteiro.

Ainda mais do que merece a Amazónia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um património da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver.

Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo.

Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazónia seja nossa.

Só nossa!'

Ver também, o seguinte artigo

terça-feira, julho 08, 2008

Carta abierta de Evo Morales a propósito de la "directiva retorno" de la UE

Carta abierta de Evo Morales a propósito de la "directiva retorno" de la UE,
in http://www.rebelion.org/noticia.php?id=68717

Evo Morales Ayma
Bolpress


Hasta finales de la Segunda guerra mundial, Europa fue un continente de emigrantes. Decenas de millones de Europeos partieron a las Américas para colonizar, escapar de las hambrunas, las crisis financieras, las guerras o de los totalitarismos europeos y de la persecución a minorías étnicas. Hoy, estoy siguiendo con preocupación el proceso de la llamada "directiva retorno". El texto, validado el pasado 5 de junio por los ministros del Interior de los 27 países de la Unión Europea, tiene que ser votado el 18 de junio en el Parlamento Europeo. Siento que endurece de manera drástica las condiciones de detención y expulsión a los migrantes indocumentados, cualquiera sea su tiempo de permanencia en los países europeos, su situación laboral, sus lazos familiares, su voluntad y sus logros de integración.

A los países de América Latina y Norteamérica llegaron los europeos, masivamente, sin visas ni condiciones impuestas por las autoridades. Fueron siempre bienvenidos, Y. lo siguen siendo, en nuestros países del continente americano, que absorbieron entonces la miseria económica europea y sus crisis políticas. Vinieron a nuestro continente a explotar riquezas y a transferirlas s Europa, con un altísimo costo para las poblaciones originales de América. Como en el caso de nuestro Cerro Rico de Potosí y sus fabulosas minas de plata que permitieron dar masa monetaria al continente europeo desde el siglo XVI hasta el XIX. Las personas, los bienes y los derechos de los migrantes europeos siempre fueron respetados.

Hoy, la Unión Europea es el principal destino de los migrantes del mundo lo cual es consecuencia de su positiva imagen de espacio de prosperidad y de libertades públicas. La inmensa mayoría de los migrantes viene a la UE para contribuir a esta prosperidad, no para aprovecharse de ella. Ocupan los empleos de obras públicas, construcción, en los servicios a la persona y hospitales, que no pueden o no quieren ocupar los europeos. Contribuyen al dinamismo demográfico del continente europeo, a mantener la relación entre activos e inactivos que vuelve posible sus generosos sistemas de seguridad social y dinamizan el mercado interno y la cohesión social. Los migrantes ofrecen una solución a los problemas demográficos y financieros de la UE.

Para nosotros, nuestros migrantes representan la ayuda al desarrollo que los Europeos no nos dan - ya que pocos países alcanzan realmente el mínimo objetivo del 0,7% de su PIB en la ayuda al desarrollo. América Latina recibió, en 2006, 68.000 millones de dólares de remesas, o sea más que el total de las inversiones extranjeras en nuestros países. A nivel mundial alcanzan 300.000 millones de dólares, que superan a los 104.000 millones otorgados por concepto de ayuda al desarrollo. Mi propio país, Bolivia, recibió mas del 10% del PIB en remesas (1.100 millones de dólares) o un tercio de nuestras exportaciones anuales de gas natural.

Es decir que los flujos de migración son benéficos tanto para los Europeos y de manera marginal para nosotros del Tercer Mundo ya que también perdemos a contingentes que suman millones de nuestra mano de obra calificada, en la que de una manera u otra nuestros Estados, aunque pobres, han invertido recursos humanos y financieros.

Lamentablemente, el proyecto de "directiva retorno" complica terriblemente esta realidad. Si concebimos que cada Estado o grupo de Estados puede definir sus políticas migratorias en toda soberanía, no podemos aceptar que los derechos fundamentales de las personas sean denegados a nuestros compatriotas y hermanos latinoamericanos. La "directiva retorno" prevé la posibilidad de un encarcelamiento de los migrantes indocumentados hasta 18 meses antes de su expulsión -o "alejamiento", según el término de la directiva. ¡18 meses! ¡Sin juicio ni justicia! Tal como esta hoy el proyecto de texto de la directiva viola claramente los artículos 2, 3, 5, 6, 7, 8 y 9 de la Declaración Universal de los Derechos Humanos de 1948. En particular el artículo 13 de la Declaración reza:

"1. Toda persona tiene derecho a circular libremente y a elegir su residencia en el territorio de un Estado.

2. Toda persona tiene derecho a salir de cualquier país, incluso del propio, y a regresar a su país".

Y, lo peor de todo, existe la posibilidad de encarcelar a madres de familia y menores de edad, sin tomar en cuenta su situación familiar o escolar, en estos centros de internamientos donde sabemos ocurren depresiones, huelgas de hambre, suicidios. ¿Cómo podemos aceptar sin reaccionar que sean concentrados en campos compatriotas y hermanos latinoamericanos indocumentados, de los cuales la inmensa mayoría lleva años trabajando e integrándose? ¿De qué lado esta hoy el deber de ingerencia humanitaria? ¿Dónde está la "libertad de circular", la protección contra encarcelamientos arbitrarios?

Paralelamente, la Unión Europea trata de convencer a la Comunidad Andina de Naciones (Bolivia, Colombia, Ecuador y Perú) de firmar un "Acuerdo de Asociación" que incluye en su tercer pilar un Tratado de Libre Comercio, de misma naturaleza y contenido que los que imponen los Estados Unidos. Estamos bajo intensa presión de la Comisión Europea para aceptar condiciones de profunda liberalización para el comercio, los servicios financieros, propiedad intelectual o nuestros servicios públicos. Además a título de la protección jurídica se nos presiona por el proceso de nacionalización del agua, el gas y telecomunicaciones realizados en el Día Mundial de los Trabajadores. Pregunto, en ese caso ¿dónde está la "seguridad jurídica" para nuestras mujeres, adolescentes, niños y trabajadores que buscan mejores horizontes en Europa?

Promover la libertad de circulación de mercancías y finanzas, mientras en frente vemos encarcelamiento sin juicio para nuestros hermanos que trataron de circular libremente. Eso es negar los fundamentos de la libertad y de los derechos democráticos.

Bajo estas condiciones, de aprobarse esta "directiva retorno", estaríamos en la imposibilidad ética de profundizar las negociaciones con la Unión Europea, y nos reservamos del derecho de normar con los ciudadanos europeos las mismas obligaciones de visa que nos imponen a los Bolivianos desde el primero de abril de 2007, según el principio diplomático de reciprocidad. No lo hemos ejercido hasta ahora, justamente por esperar buenas señales de la UE.

El mundo, sus continentes, sus océanos y sus polos conocen importantes dificultades globales: el calentamiento global, la contaminación, la desaparición lenta pero segura de recursos energéticos y biodiversidad mientras aumenta el hambre y la pobreza en todos los países, fragilizando nuestras sociedades. Hacer de los migrantes, que sean documentados o no, los chivos expiatorios de estos problemas globales, no es ninguna solución. No corresponde a ninguna realidad. Los problemas de cohesión social que sufre Europa no son culpa de los migrantes, sino el resultado del modelo de desarrollo impuesto por el Norte, que destruye el planeta y desmiembra las sociedades de los hombres.

A nombre del pueblo de Bolivia, de todos mis hermanos del continente regiones del mundo como el Maghreb, Asia y los países de Africa, hago un llamado a la conciencia de los líderes y diputados europeos, de los pueblos, ciudadanos y activistas de Europa, para que no se apruebe e1 texto de la "directiva retorno".

Tal cual la conocemos hoy, es una directiva de la vergüenza. Llamo también a la Unión Europea a elaborar, en los próximos meses, una política migratoria respetuosa de los derechos humanos, que permita mantener este dinamismo provechoso para ambos continentes y que repare de una vez por todas la tremenda deuda histórica, económica y ecológica que tienen los países de Europa con gran parte del Tercer Mundo, que cierre de una vez las venas todavía abiertas de América Latina. No pueden fallar hoy en sus "políticas de integración" como han fracasado con su supuesta "misión civilizatoria" del tiempo de las colonias.

Reciban todos ustedes, autoridades, europarlamentarios, compañeras y compañeros saludos fraternales desde Bolivia. Y en particular nuestra solidaridad a todos los "clandestinos".

Evo Morales Ayma

Presidente de la República de Bolivia

_______________________
Esta carta del Presidente Evo Morales está siendo traducida a diversas lenguas por los traductores de Tlaxcala. Se ruega difundir.

Italiano (Manuela Vittorelli): http://www.tlaxcala.es/pp.asp?reference=5315&lg=it
Inglés (Machetera): http://www.tlaxcala.es/pp.asp?reference=5316&lg=en

segunda-feira, julho 07, 2008

Ah grande, Chávez!

Chávez admite retaliar contra a União Europeia
in, JN

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, admitiu a hipótese de expulsar do país os bancos e empresas petrolíferas europeias caso a União Europeia decida aplicar a lei da extradição aprovada no mês passado.

"Saiba a Europa que estamos alinhados contra esse atropelo e que não ficaremos de braços cruzados", disse Chavéz, citado pela agência EFE, referindo-se à directiva de retorno de imigrantes ilegais aprovada a 18 de Junho pelo Parlamento Europeu e que deverá afectar milhões de latino-americanos. Numa intervenção na Assembleia Nacional, Chaves lembrou que existem "bancos europeus e empresas petrolíferas que podem ter que abandonar o país" caso os venezuelanos não se sintam respeitados.

"Se a Europa começar a atropelar os nossos povos, nós, e agora falo em nome próprio, podemos considerar a criação de uma lei de retorno dos capitais europeus", disse Hugo Chávez, depois do discurso do presidente da Bolívia, Evo Morales, convidado pelo Governo no âmbito do aniversário dos 197 anos da Independência da Venezuela.


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Mais nada!!! Assim mesmo, Chávez! Força, estou contigo!

Guilherme Rietsch Monteiro

sexta-feira, julho 04, 2008

Você é linda

Caetano Veloso

FONTE DE MEL
NUNS OLHOS DE GUEIXA
KABUKI, MÁSCARA
CHOQUE ENTRE O AZUL
E O CACHO DE ACÁCIAS
LUZ DAS ACÁCIAS
VOCÊ É MÃE DO SOL
A SUA COISA É TODA TÃO CERTA
BELEZA ESPERTA
VOCÊ ME DEIXA A RUA DESERTA
QUANDO ATRAVESSA
E NÃO OLHA PRA TRÁS

LINDA
E SABE VIVER
VOCÊ ME FAZ FELIZ
ESTA CANÇÃO É SÓ PRA DIZER
E DIZ
VOCÊ É LINDA
MAIS QUE DEMAIS
VOCÉ É LINDA SIM
ONDA DO MAR DO AMOR
QUE BATEU EM MIM

VOCÊ É FORTE
DENTES E MÚSCULOS
PEITOS E LÁBIOS
VOCÊ É FORTE
LETRAS E MÚSICAS
TODAS AS MÚSICAS
QUE AINDA HEI DE OUVIR
NO ABAETÉ
AREIAS E ESTRELAS
NÃO SÃO MAIS BELAS
DO QUE VOCÊ
MULHER DAS ESTRELAS
MINA DE ESTRELAS
DIGA O QUE VOCÊ QUER

VOCÊ É LINDA
E SABE VIVER
VOCÊ ME FAZ FELIZ
ESTA CANÇÃO É SÓ PRA DIZER
E DIZ
VOCÊ É LINDA
MAIS QUE DEMAIS
VOCÉ É LINDA SIM
ONDA DO MAR DO AMOR
QUE BATEU EM MIM

GOSTO DE VER
VOCÊ NO SEU RITMO
DONA DO CARNAVAL
GOSTO DE TER
SENTIR SEU ESTILO
IR NO SEU ÍNTIMO
NUNCA ME FAÇA MAL

LINDA
MAIS QUE DEMAIS
VOCÉ É LINDA SIM
ONDA DO MAR DO AMOR
QUE BATEU EM MIM
VOCÊ É LINDA
E SABE VIVER
VOCÊ ME FAZ FELIZ
ESTA CANÇÃO É SÓ PRA DIZER
E DIZ

Sozinho

Peninha

Às vezes no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado
Juntando o antes, o agora e o depois

Por que você me deixa tão solto?
Por que você não cola em mim?
Tô me sentindo muito sozinho

Não sou nem quero ser o seu dono
É que um carinho às vezes cai bem
Eu tenho os meus segredos e planos secretos
Só abro pra você mais ninguém

Porque você me esquece e some?
E se eu me interessar por alguém?
E se ela de repente me ganha?

Quando a gente gosta
É claro que a gente cuida
Fala que me ama
Só que é da boca pra fora

Ou você me engana
Ou não está madura
Onde está você agora?

Sou sua

Adriana Calcanhoto

Sou sua luz
Sou sua cruz
Sou sua flor
Sou sua jura
Sou sua cura
Pro mal do amor
Sou sua meia
Sou sua sereia
Cheia de sol
Sou sua lua
Sua carne crua
Sobre o lençol
Sou sua Amélia
Sou sua Ofélia
Sou sua foz
Sou sua fonte
Sou sua ponte
pro além de nós
Sou sua chita
Sua criptonita
Sou sua Lois
Sou sua Jóia
Sou sua Nóia
Sua outra voz
Sou sua
Sou sua
Sou sua
Plenamente
Simplesmente

Terror

José Pacheco Pereira
in, Abrupto

Há uns filmes de terror em que alguém está numa sala que vai começando a ser invadida por água. A água vai subindo e a pessoa vai lutando para manter a cabeça à tona. Até que o tecto da sala se aproxima inexoravelmente e fica apenas aquele movimento desesperado de encontrar a última película de ar que sobra. Umas vezes há salvação, aparece o herói, outras, se o filme de terror é a sério, a imagem seguinte é o corpo a boiar sem vida.

Os portugueses começam a perceber que estão num filme deste género. Qualquer noticiário lhes diz aquilo que verificaram no supermercado, na bomba de gasolina, no transporte, na conta do fim do mês, na prestação da casa: os preços estão a subir como a água do filme de terror. Com eles, as dívidas, porque a facilidade traiçoeira do crédito do consumo está presente na sala, como se acrescentássemos ao perigo do afundamento, o de um tubarão qualquer que dá voltas, ao lado. É overkill, mas é mesmo.

Crónica descosida porque me comovi

António Lobo Antunes
in, Visão


Se ao menos a gente pudesse viver com as coisas mais simples em vez de recordar as complicadas. Voltar à pobreza do elementar: luz, água, pedra. O avô de alguém que me é querido dizia de uma pessoa boa É bom como o pão e ao lado disto que maior elogio se pode fazer? A nossa língua torna-se maravilhosa com palavras como estas É bom como o pão e lembro-me das mulheres que beijavam o pão duro antes de o deitar fora, da minha avó que se horrorizava ao ver um pão ao contrário: punha-o logo direito a pedir desculpa em silêncio, movendo a boca. Sempre me senti bem nas padarias: o cheiro, o lume, os padeiros enfarinhados que eu achava, acho ainda, serem anjos que se transviaram, de braços cobertos por uma poeira celeste. Tudo neles era branco até as sobrancelhas, as pestanas. O olhar branco também. Os gestos. Não olhos cegos, olhos brancos. E eu à porta a espantar-me. O eco das vozes nos tijolos, dos passos, da lenha no forno. Bom como o pão: ora toma, António. Aprende a escrever à maneira. O facto é que me interessa muito mais um padeiro que um economista. Ou um gestor.

Criaturas que, não sei porquê, me dão pena: economistas, gestores, administradores, directores, banqueiros. Deve ser triste ganhar dinheiro assim. O que sonhará um economista, a que brincava um gestor em criança? Ou nasceram já crescidos? Imagino-os debaixo do chuveiro, de gravata, a falar ao telemóvel. E sabe-se que são velhos não pelo aspecto mas porque quando contam que arranjaram uma secretária boa se referem a um móvel. O que sonhará um economista posso imaginar mais ou menos, agora o que sonha a mulher de um economista é que me preocupa. Se eu fosse mulher de um economista sonhava com canalizadores ou mecânicos de automóvel, homens que usam as mãos e não lêem revistas de golfe nos domingos de chuva. Estou a brincar. Não conheço nenhum economista, aliás. Se conhecesse abria-lhe logo a tampa a fim de espiar o que traz na barriga: cartões de crédito, canetas caras, camisas por medida? Sempre andei mal enjorcado, eu, para desespero da minha mãe:

Andas tão mal enjorcado, filho.

Todos os anos a minha companhia lá da guerra faz um almoço com os que sobejam da miséria em que andámos. Não neste último almoço, no penúltimo, o furriel Firmino Alves começou a anotar os telemóveis dos nossos camaradas para os contactos da refeição seguinte, até que chegou ao Pontinha. Pontinha é a alcunha do ordenança da messe de oficiais, que morava na Pontinha. Como a cabeça dele era grande (continua a ser grande) chamavam-lhe também Porta-aviões porque dava para os aviões aterrarem.

O Pontinha, como muitos dos soldados, vive com dificuldades. Ao fim-de-semana engraxa sapatos na mira de equilibrar o orçamento. Gosto muito do Pontinha a quem obrigava a cortar a carne em bocados de dois por três centímetros, por haver decidido ser a capacidade da minha boca. Media aquilo e exigia Quatro milímetros a mais, Pontinha, corta outra vez e o Pontinha, que remédio, cortava. Ainda hoje, nesses almoços, me quer cortar a carne. Falar nos meus camaradas comove-me: a expressão irmãos de armas é tão verdade. Enquanto nos aguentarmos por cá. Mesmo depois. Zé Jorge: continuamos irmãos de armas. Cabo Sota: admiro a tua coragem até ao fundo da alma. Sozinho com a Breda, uma metralhadorazeca, aguentou um ataque.

E vive mal, percebem? Como se deixa viver mal um herói? Ao acompanhá-lo ao táxi em que voltava, doente, ao Alentejo, avisei o condutor:

Você leva aí um grande homem, sabia, um dos maiores homens que conheço e, como todos os grandes homens da guerra, de uma infinita modéstia, bondoso e sereno. Não lhe chego aos calcanhares. Cabo Sota, tu mereces a continência de um general. O Zé Luís, oficial de operações especiais, que em matéria de coragem não necessitava de aprender com ninguém:

Eram duros

expressão que constitui para nós o supremo elogio. Adiante. Contava eu que o furriel Firmino Alves anotava os telemóveis até que chegou ao Pontinha e como fizera com os outros perguntou:

Tens um telemóvel, Pontinha?

e o Pontinha logo, a mostrar serviço:

Não, mas a minha mulher tem um microondas não fosse a gente pensar que ele era um badameco qualquer. Pode parecer esquisito ou parvo ou o que quiserem, mas quem cortava a minha carne era um magnata cuja mulher tem um microondas, e aí está o melhor título de nobreza (aliás o único) que possuo. Este ano o Pontinha, depois de me desdobrar o guardanapo (se eu o desdobrasse ele ofendia-se) olhou-me bem nos olhos e declarou:

Se quiser vou para sua casa, faço-lhe o comer, dou-lho e não levo um tostão por isso e eu todo arrepiadinho de ternura. Boaventura, Nini, Licínio, vocês todos caramba como a gente somos irmãos. Unamuno, que muito respeito, tem páginas admiráveis acerca da valentia dos portugueses. Tens razão, Zé Luís: eram duros. Ganas de explicar às mulheres deles, aos filhos deles, o orgulho que tenho em ser amigo dos pais, em que os pais sejam meus amigos. Não: irmãos de armas. Não: irmãos. E bons como o pão. Ao lado disto que maior elogio se pode fazer? Ao menos que o País os beije antes de os deitar fora e lhes peça desculpa. E há mais anjos para além dos padeiros, de arma nas unhas mata fora. Nenhum deles é banqueiro, claro. Nem administrador. Nenhum deles joga golfe. Jogaram golfe num campo de um só buraco onde não é a bola que cai.

É um rapaz de vinte anos. E acabo aqui, antes que seja tarde para marcar o número de um microondas.

quinta-feira, julho 03, 2008

Seu interesse

Arnaldo Antunes / Paulo Miklos

Seu interesse repentino por mim agora
Não é tão difícil perceber.

Agora que eu faço sucesso
Você não me dá mais sossego
Quer dizer que agora eu presto pra você brincar.

Pra se construir alguma coisa
É preciso respirar
Longe desse seu ar de raposa
Que não dá pra perdoar
A sinceridade de intenção
Só pra quem se pode dar.

Seu interesse repentino por mim agora
Não é tão difícil perceber.

Sentimental

Arnaldo Antunes / Lenine / Lula Queiroga

Quem liberta o furacão?
Desamarra o mar da praia?
Desarruma o rumo, entorta o prumo,
Erra sem destino, amor?
Quem desata o céu da terra.
Desfere a flecha, rasga o ar?
Tira a luz da treva, razão aterra,
Erra, desatina, amor?
Quem move o mundo apenas sendo

Sentimental

Quem me tira o chão dos pés?
E movimenta as marés, quem
Semeia o pé de vento do pensamento,
Erra sem destino, amor?
Desintegra o grão na terra,
Desagrega o coração,
Tira o véu dos olhos,
Desperta os poros,
Erra, desatina, amor?
Quem move o mundo apenas sendo

Sentimental

Quem desarrazoa, quem
Abraça o raio, arrasta o rio, quem
Avassala o medo, repete o erro,
Erra sem destino, amor?
Faz qualquer coisa de mim.
Quebra a pedra com o seu sim,
Arrepia o pêlo,
Derrete o gelo,
Erra, desatina, amor?
Quem move o mundo todo sendo

Sentimental

Senhora e senhor

Arnaldo Antunes / Paulo Miklos / Marcelo Fromer

Veja só o que restou do nosso caso de amor
Uma casa com varanda e um jardim que não dá flor
Uma geladeira cheia de comida sem sabor
Um programa interminável diante do televisor
Uma lâmpada queimada no lustre do corredor
O pensamento distante para evitar a dor
O olhar tão desbotado que já não distingue cor
Velhas rugas escondidas debaixo do cobertor
Saudades, indiferença, decadência e mau-humor
Tratamento respeitável de senhora e senhor

Sem você

Arnaldo Antunes / Carlinhos Brown

pra onde eu vou agora livre mas sem você?
pra onde ir o que fazer como eu vou viver?
eu gosto de ficar só
mas gosto mais de você
eu gosto da luz do sol
mas chove sempre agora
sem você
sem você
sem você
sem você

às vezes acredito em mim mas às vezes não
às vezes tiro o meu destino da minha mão
talvez eu corte o cabelo
talvez eu fique feliz
talvez eu perca a cabeça
talvez esqueça e cresça
sem você
sem você
sem você
sem você

talvez precise de colchão, talvez baste o chão
talvez no vigésimo andar, talvez no porão
talvez eu mate o que fui
talvez imite o que sou
talvez eu tema o que vem
talvez te ame ainda
sem você
sem você
sem você
sem você

Sem amor

Arnaldo Antunes / Paulo Miklos

Foi você me encontrar assim
Pra ver em mim a dor
Deve ser tão fácil perceber
Que nada em mim restou

Vou sofrer até o fim
Sem amor até o fim

Você vê, mas não pode entender
Porque não aceito
Você diz que eu posso ser feliz
Mas sei que não tem jeito

Seja como for

Arnaldo Antunes / Hélder Gonçalves
in, Rosa Carne, Clã

Faça o que quiser
Viva o que vier
Seja onde estiver
Faça o que puder
Viva como der
Sinta o que vier
Seja o que quiser
Faça o que fizer
Pegue o que puder
Viva onde estiver
Seja como for, amor

Volte para o seu lar

Arnaldo Antunes
in, Um Som

Aqui nessa casa ninguém quer a sua boa educação
Nos dias que tem comida comemos comida com a mão
E quando a polícia a doença a distância ou alguma discussão
Nos separam de um irmão
Sentimos que nunca acaba de caber mais dor num coração
Mas não choramos à-toa
Não choramos à-toa

Aqui nessa tribo ninguém quer a sua catequização
Falamos a sua língua mas não entendemos seu sermão
Nós rimos alto bebemos e falamos palavrão
Mas não sorrimos à-toa
não sorrimos à-toa

Volte para o seu lar
Volte para lá
Volte para o seu lar
Volte para lá

Aqui nesse barco ninguém quer a sua orientação
Não temos perspectiva mas o vento nos dá direção
A vida que vai à deriva é a nossa condução
Mas não seguimos à-toa
Não seguimos à-toa

Volte para o seu lar
Volte para lá
Volte para o seu lar
Volte para lá

Velhos e jovens

Arnaldo Antunes / Péricles Cavalcanti

Antes de mim vieram os velhos
Os jovens vieram depois de mim
E estamos todos aqui
No meio do caminho dessa vida
Vinda antes de nós
E estamos todos a sós
No meio do caminho dessa vida
E estamos todos no meio
Quem chegou e quem faz tempo que veio
Ninguém no início ou no fim
Antes de mim
Vieram os velhos
Os jovens vieram depois de mim
E estamos todos aí

Um som

Arnaldo Antunes / Paulo Tatit

é só
um som
do fim do mundo vem
até o fim de mim
aqui
assim
do fundo de um vulcão
a voz
carvão
o ar em convulsão

é só
um som
a dor de ser alguém
de longe longe vem
maré
trovão
de além de além de além
até
aqui
na voz de quem também
é só
um som
no meio da multidão

Um branco, um xis, um zero

Arnaldo Antunes / Marisa Monte / Pepeu Gomes

você partiu e me deixou
sem lamentar o que passou
sem me apegar ao que apagou
acabou

não me lembro bem da sua cara qual a cor dos olhos já nem sei

só o cheiro do seu cheiro
não quer me deixar mais em paz
nos ares dos lugares
onde passo e onde nunca estás

você partiu e não voltou
eu já esqueci o que me falou
se prometeu ou se jurou
seu amor

já não me recordo mais seu nome quais os outros nomes que te dei

só o cheiro do seu cheiro
não consegue ser tão fugaz
nas pessoas peles colos
sexos bocas onde nunca estás

você partiu e foi melhor
e eu já me esqueci de cor
do som do ar do tom da voz
e de nós

já passei um pano um branco um zero um xis um traço um tempo já passei

só o cheiro do seu cheiro
não consigo deixar para trás
impregnado o dia inteiro
nessa roupa que não tiro mais

Um a um

Arnaldo Antunes / Marisa Monte / Carlinhos Brown
in, Tribalistas

Não, não quero ganhar
Só quero chegar junto
Sem perder
Eu quero um a um
Com você
No fundo
Não vê
Que eu só quero dar prazer
Me ensina a fazer
Canção com você
Em dois
Corpo a corpo
Me perder
Ganhar você

Muito além do tempo regulamentar

Esse jogo não vai acabar
É bom de se jogar
Nós dois
Um a um
Nós dois
Um a um
Nós dois
Um a um
Pouco a pouco
Me perder
Ganhar você

Tudo em dia

Arnaldo Antunes / Branco Mello / Sérgio Britto

Vou comprar uma casa, vou ganhar dinheiro
Vou pensar no futuro, vou fazer um seguro
Vou ganhar o pão nosso de cada dia
Vou por tudo o que tenho na garantia
Vou ter conta no banco, vou trabalhar no escritório
Vou tomar um chope, vou tomar sorvete
Vou tomar remédio, que maravilha
Vou casar e constituir família

Vou andar de táxi, vou deixar o troco
Vou pagar os impostos, vou por os filhos na escola
Vou ser respeitado, vou engraxar o sapato
Vou botar o chinelo, vou sentar na poltrona
Vou jantar na melhor churrascaria
Vou pedalar domingo na ciclovia
Vou ter conta na mercearia
Vou gozar a aposentadoria

Vou ter CIC, eleitor, reservistas, RG
Automóvel, TV
Crediário, poupança, carnê

Tudo em dia, tudo em dia
Tudo em dia, tudo em dia

Tudo chato tudo errado

Arnaldo Antunes

Tem dias que eu acho tudo chato
tudo corta o meu barato
as pedras entram no meu sapato
tem dia que eu acho tudo um saco

Tem dias que tudo dá errado
se chove eu pego um resfriado
se faz calor fico desidratado
tem dias que tudo dá errado

Um dia desses me mato

Tem dias que acho tudo chato
pessoas chatas ficam do meu lado
querendo puxar papo furado
tem dias que eu acho tudo um saco

Tem dias que tudo dá errado
tudo faço, não me satisfaço
eu tento tanto e só fracasso
tem dias que tudo dá errado

Um dia eu fujo pro mato

Tribalistas

Arnaldo Antunes / Marisa Monte / Carlinhos Brown
in, Tribalistas

Os tribalistas já não querem ter razão
Não querem ter certeza, não querem ter juízo nem religião

Os tribalistas já não entram em questão
Não entram em doutrina, em fofoca ou discussão

Chegou o tribalismo no pilar da construção

Pé em Deus
E fé na Taba

Pé em Deus
E fé na Taba

Um dia já fui chipanzé
Agora eu ando só com o pé
Dois homens e uma mulher
Arnaldo, Carlinhos e Zé

Os tribalistas saudosistas do futuro
Abusam do colírio e dos óculos escuros
Os tribalistas, eu você e todo mundo
Dentro da placenta do planeta azul e bruto

Pé em Deus
E fé na Taba
Pé em Deus
E fé na Taba

Um dia já fui chipanzé
Agora eu ando só com o pé
Dois homens e uma mulher
Arnaldo, Carlinhos e Zé

Dois homens e uma mulher
Arnaldo, Carlinhos e Zé
Um dia já fui chipanzé
Agora eu ando só com o pé

Pé em Deus
E fé na Taba
Pé em Deus
E fé na Taba

O tribalismo é um anti-movimento
Que vai se desintegrar no próximo momento

O tribalismo é o que você quiser
Não tem que fazer nada, basta ser o que se é
Chegou o tribalismo no pisar do pé no chão

Pé em Deus
E fé na Taba

Pé em Deus
E fé na Taba

Velha infância

Arnaldo Antunes / Marisa Monte / Carlinhos Brown / Davi Moraes / Pedro Baby
in, Tribalistas

Você é assim,
um sonho pra mim
e quando eu não te vejo

eu penso em você
desde o amanhecer
até quando eu me deito

eu gosto de você
e gosto de ficar com você
meu riso é tão feliz contigo
o meu melhor amigo é o meu amor

e a gente cantar
e a gente dançar
e a gente não se cansa

de ser criança
da gente brincar
da nossa velha infância

seus olhos meu clarão
me guiam dentro da escuridão
seus pés me abrem o caminho
eu sigo e nunca me sinto só

Você é assim,
um sonho pra mim
quero te encher de beijos

eu penso em você
desde o amanhecer
até quando eu me deito

eu gosto de você
e gosto de ficar com você
meu riso é tão feliz contigo
o meu melhor amigo é o meu amor

e a gente cantar
e a gente dançar
e a gente não se cansa

de ser criança
da gente brincar
da nossa velha infância

Saiba

Arnaldo Antunes
in, Saiba

Saiba: todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Sadam Hussein
Quem tem grana e quem não tem

Saiba: todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu

Saiba: todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar

Saiba: todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano

Saiba: todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao Tsé Moisés Ramsés Pelé
Ghandi, Mike Tyson, Salomé

Saiba: todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você

segunda-feira, junho 30, 2008

Ja sei namorar

Arnaldo Antunes / Marisa Monte / Carlinhos Brown
in, Tribalistas

Já sei namorar
Já sei beijar de língua
Agora só me resta sonhar

Já sei onde ir
Já sei onde ficar
Agora só me falta sair

Não tenho paciência pra televisão
Eu não sou audiência para a solidão

Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo me quer bem

Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo é meu também

Já sei namorar
Já sei chutar a bola
Agora só me falta ganhar
Não tenho juiz

Se você quer a vida em jogo
Eu quero é ser feliz
Não tenho paciência pra televisão
Eu não sou audiência para a solidão

Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo me quer bem

Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo é meu também

Tô te querendo como ninguém
Tô te querendo com Deus quiser
Tô te querendo como eu te quero
Tô te querendo como se quer

Tô te querendo como ninguém
Tô te querendo como Deus quiser
Tô te querendo como eu te quero
Tô te querendo como se quer

H2omem

Letra: Arnaldo Antunes
Música: Hélder Gonçalves
in: Lustro

A gota caiu na poça
A poça caiu na lagoa
A lagoa caiu no mar
e aqui se fez
a pessoa

a pessoa caiu na outra
a outra caiu na outra
a gota caiu na gota
e o mar se fez
da garoa

Agá dois homem
pra dentro da boca da boca da boca do rio
correndo escorrendo pra dentro do copo vazio
e do copo cheio transbordando, embalando o navio
chovendo, jorrando, enxurrando, enchendo o cantil

Agá dois homem
pra beber e tomar banho
Agá dois homem
pra nadar e fazer sopa
Agá dois homem
pra molhar a plantação

contra a cabeça pedra
contra a cabeça ferro
contra a certeza inquestionável

Agá dois homem
pra lavar a roupa suja
Agá dois homem
pra furar a pedra dura
Agá dois homem
pra chover sobre o sertão

Eu ninguém

Letra: Arnaldo Antunes
Música: Hélder Gonçalves
in: Rosa Carne

Eu ninguém
Eu ninguém comigo só
Posso ser
Travesti de quem quiser
Manequim de bazar
Ou rainha do lar
Madame Butterfly
Barbie Suzie Dollu Polly Pocket

Tudo bem
Mas eu posso ser também
Emanuelle
Lady Miss Mademoiselle
Num harém meretriz
Ou apenas atriz
O espelho me diz
Gueixa Vênus Eva Dama Virgem Mãe

É que eu sei
O que eu sou e o que eu não sou
Mas é claro
O que eu for eu sou
Sem ninguém
Só o que eu tenho a saber
É quem de nós cem
Hoje eu vou ser

Pó de arroz
Rímel óculos baton
Sutiã
Armadilha de satã
Salomé Rapunzel
Ou beata de véu
Um anjo cruel
Fada vaca gata dona do bordel

É que eu sei
O que eu sou e o que eu não sou
Mas é claro
O que eu for eu sou
Sem ninguém
Só o que eu tenho a saber
É quem de nós cem
Hoje eu vou ser

Sei lá sei lá sei lá sei lá
Sei lá sei lá sei lá

Consumado

Arnaldo Antunes / Marisa Monte / Carlinhos Brown

Tô louco pra fazer
Um rock pra você
Tô punk de gritar
Seu nome sem parar

Primeiro eu fiz um blues
Não era tão feliz
E de um samba-canção
Até baião eu fiz

Tentei o tchá tchá tchá
Tentei um yê yê yê
Tô louco pra fazer
Um funk pra você

E tá consumado
Tá consumado
Tá consumado
Tá consumado

Fiz uma chanson d'amour
Fiz um love song for you
Fiz una canzone per te
Para impressionar você

Pra todo mundo usar
Pra todo mundo ouvir
Pra quem quiser chorar
Pra quem quiser sorrir

Na rádio e sem jabá
Na pista e sem cair
Um samba pra você
Um rock and roll to me

E tá consumido
Tá consumido
Tá consumido
Tá consumido

Fiz uma chanson d'amour
Fiz um love song for you
Fiz una canzone per te
Para impressionar você

As coisas

Arnaldo Antunes / Gilberto Gil

As coisas têm peso,
massa, volume, tamanho,
tempo, forma, cor,
posição, textura, du¬ração,
densidade, cheiro, valor.
Consistência, profundidade,
contorno, temperatura,
função, aparência, preço,
destino, idade, sentido.
As coisas não têm paz.

Era uma vez um pensamento teu

Mafalda Veiga
in, Chão

era uma vez um pensamento teu
quase podia ser segredo meu
e teu
era quem sabe um tempo de inventar
subir o teu corpo
cair do teu sonho
e ficar em nós

era uma vez um medo que voou
que se fez asa, sopro, ar
nunca mais voltou
e eu sem saber porquê fui atrás
e ainda o vi
esconder-se de ti
era talvez um tempo de te amar
era talvez um tempo de sentir

era uma vez um pensamento meu
quase podia ser segredo teu
e meu
era quem sabe um tempo de inventar
subires o meu corpo
caíres do meu sonho
e ficares em nós

era um vez um sonho que não sei
que se fez asa, sopro, ar
quase lhe toquei
e a pressentir porquê fui atrás
e ainda o vi
a esconder-se em mim
era talvez um tempo pra te dar
era talvez um tempo de te amar

o tempo que não foi tempo não passou
o sonho que se fez pele e se guardou
aqui ficou
como se fosse sopro, asa, ar
escondeu-se em nós
e no teu olhar
fica pra sempre um tempo de te amar
fica pra sempre tanto do que sou

Estrada

Mafalda Veiga
in, Chão

meu amor
não quero mais palavras rasgadas
nem o tempo
cheio de pedaços de nada
não me dês
sentidos para chegar ao fim
meu amor
só quero ser feliz

meu amor
não quero mais razões para apagar
o que nasce
e renasce e nos faz acordar
a loucura
faz medo se for medo o teu chão
mas é ar e é terra
dentro do coração
é ar e é terra dentro do coração

meu amor
não quero mais silêncio escondido
nem a dor
do que cai em cada gesto ferido
quero janelas abertas
e o sol a entrar
quero o meu mundo inteiro
dentro do teu olhar
eu quero o meu mundo inteiro
dentro do teu olhar

e hoje, vê
a estrada é feita pra seguir
e hoje, sente
a vida é feita de sentir
e hoje vira do avesso o mundo
e vê melhor
deste lado é mais puro
é teu
é tão maior
deste lado é mais puro
é meu
é tão maior

sexta-feira, junho 27, 2008

Arrogância europeia

Miguel Portas
in, Sol de Esquerda

«Não entregarás a seu senhor o escravo que se tiver refugiado junto de ti, fugindo dele. Ficará contigo, entre os teus, no lugar que escolher numa das tuas cidades, onde lhe parecer bem» (1).
Lembram-se? Não? Então aqui vai outra: «Quando um forasteiro residir junto de ti, não o oprimas. Considerarás o forasteiro como um do teu povo e o amarás como a ti mesmo, pois forasteiros fostes na terra do Egipto» (2).
Estas citações do Velho Testamento deviam ter sido inscritas a ouro na cabecinha de cada um de nós. Para que quem estivesse em frente nunca esquecesse. Escrevo com amargura, porque amargo foi aquele fim de manhã em Estrasburgo, onde uma maioria de deputados, na sua quase totalidade cristãos esquecidos, votaram a mais vergonhosa directiva de que me lembro desde que me sento naquele Parlamento.
Vergonha, sem tirar nem pôr. Quando uma lei admite a detenção de um ser humano até 18 meses, sem ter sido condenado ou ter cometido qualquer crime, senão o de procurar melhorar a sua vida e a dos seus, é porque algo de muito grave apodreceu nesta Europa e nas nossas cabeças.
Quando essa mesma lei admite idêntico tratamento para menores, acompanhados ou não, já nem de vergonha, mas de pura desonra se trata. Acusem-me de moralista à vontade. Porque se houve momento em que política e moral se dissociaram sem apelo nem agravo – este foi um deles.
Por isso, tomem lá com outra citação: «Porque tive fome e vós não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber. Fui forasteiro e não me recolhestes. Estive nu e não me vestistes, doente e preso e não me visitastes. Então… eles responderão: ‘Senhor, quando é que te vimos com fome ou com sede, forasteiro ou nu, doente ou preso e não Te servimos?’ E Ele responderá: ‘…todas as vezes que o deixastes de fazer a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer» (3).

(1) Deuterónimo 23. 16,17;(2) Levítico 19,33; (3) Mateus 25. 42-45

Não sou cristão, e sei que peco, porque lanço sobre os responsáveis da directiva com o que mais os pode incomodar, se é que ainda algo os incomoda, para lá da sua vidinha e das mordomias do poder.
Para que se saiba – e não sou de queixas – os responsáveis por esta regressão em matéria de valores fundamentais têm nome. Foram os governos da União, todos sem excepção; a comissão Barroso; e uma maioria de deputados onde se encontraram a extrema-direita, a direita, os liberais e ainda 49 socialistas em cega obediência aos respectivos governos.
Esta gente decide sobre a vida dos outros como se estivesse no Olimpo. Esta semana trouxe outro exemplo desta arrogância fatal: ao contrário do que fizeram com o Tratado Constitucional, após o chumbo francês e holandês, os governos decidiram prosseguir com as ratificações em resposta ao ‘Não’ irlandês. E ainda dizem que não há filhos e enteados. Melhor ainda, querem que a Irlanda faça novo referendo. Eles, que tudo fizeram para os impedir nos seus países. Falta-lhes em vergonha o que lhes sobra em descaramento.

Clã e Pato Fu no Rock in Rio Lisboa 2008





Mama Papa


Clã & Pato Fu na Antena 3


A luta deles



quinta-feira, junho 26, 2008

Sou um gajo do Porto

Trabalhadores do Comércio

Sou um gajo do Porto
Olha a grande nobidade
Represento bibo ou morto
O mau jeito da cidade

Um mau jeito com seus ques
ou bice-bersa é claro
Trocar os Bs pelos Bs
Tem muita graça e é raro

Curaçon, telebison
É como pronunciamos
Mas tem sempre som e tom
Aquilo de que falamos

Sim, sou um gaijo do Porto
Sim, sou um gaijo do Porto

Tripas som manjar só nosso
Feitas à moda do Porto
E sabemos dar no osso
Se a coisa dá pró torto.

Cunfeitaria ou café
num suplantam um bom tasco
Ondo balcom semprimpé
Bai do maduro ou do berdasco

Curaçon, telebison
É como pronunciamos
Mas tem sempre som e tom
Aquilo de que falamos

Sim, sou um gaijo do Porto
Sim, sou um gaijo do Porto

A importância de ser Alegre

Ricardo Araújo Pereira
in, Visão


Neste momento é seguro afirmar que todo o País está contra o PS até o PS. Uma coisa é a esquerda gritar e a direita ranger os dentes, outra coisa é gente do próprio PS organizar comícios contra o Governo. Sócrates conseguiu maioria absoluta em Portugal, mas parece ter dificuldade em obter maioria relativa no PS. Significa isso que os socialistas têm mais juízo que a generalidade dos portugueses? Aí está uma hipótese que, a verificar- -se, seria surpreendente.

Que a crise existe, pelo menos, ninguém nega. De um modo geral, todos estão preocupados com o fosso que se aprofunda, em Portugal, entre os ricos e os pobres.

A esquerda preocupa-se porque o fosso é cada vez maior; a direita indigna-se porque ainda ninguém se lembrou de pôr crocodilos no fosso. Os pobres, com algum esforço, continuam a conseguir passar. Entre a esquerda e a direita está o PS, que acaba por não ser uma coisa nem outra. Que sorte.

Os cidadãos têm algum medo das ideologias, e por isso preferem votar em quem não tem ideologia nenhuma.

A menos que todos estes tumultos e confrontações internas não passem de uma estratégia genial do PS (mas todos sabemos como é raro o PS delinear uma estratégia, quanto mais uma que seja genial). Pense o leitor comigo: Manuel Alegre e Sócrates podem ter-se conluiado para fazer a vida negra ao PSD. O que, em princípio, não seria mau: enquanto o PS se entretém a fazer a vida negra ao PSD, pode ser que se distraia da tarefa de fazer a vida negra aos portugueses. Mas o certo é que, tendo o PS maioria absoluta e, além ou apesar disso, uma oposição interna acirrada, Manuela Ferreira Leite tem um problema grave. A senhora ainda agora foi eleita e já se encontra perante uma tarefa duplamente difícil: por um lado, deve demonstrar que governa melhor que Sócrates; por outro, tem de provar que faz oposição melhor que Alegre. O PS não brinca.

Manuel Alegre pode ser, por isso, para Sócrates, um cavalo de Tróia que, estando dentro do PS, consegue, no entanto, minar o PSD. O primeiro-ministro bem disse que ia criar empregos, mas devia ter avisado que seriam todos para os socialistas. Neste momento, o partido socialista tem militantes a ocupar o lugar de líder do Governo e o de líder da oposição. Que o partido do poder arranje tachos na governação aos seus militantes ainda se aceita, mas que agora também lhes ofereça lugares na oposição, já parece eticamente duvidoso.

Caos é sempre que um camionista quiser

Ricardo Araújo Pereira
in, Visão


Talvez um dos sinais mais importantes para perceber o nosso tempo (isto supondo, claro, que é possível perceber o nosso tempo) seja o facto de o Oráculo de Delfos ter perdido toda a sua popularidade para o Oráculo de Bellini. A diferença essencial entre os dois é que o segundo leva 75 euros à hora. De resto, o primeiro recomendava «Conhece-te a ti mesmo», o que, pelo menos no meu caso, constitui um péssimo conselho. Conheço-me apenas de vista, e já é bom. Um conhecimento profundo obrigaria a uma convivência mais intensa, e eu não me dou com gente desta. Sei apenas que dificilmente mereço fazer parte daquilo a que se chama Humanidade. Enquanto grupo, percorremos um longo caminho, desde o macaco até àquilo que somos hoje, mas eu não há maneira de o esconder continuo inquietantemente próximo do macaco.

A Humanidade foi à Lua, é certo, mas eu não sei como. Às vezes tenho dificuldade em ir à Brandoa sem parar para pedir indicações. Parece que fizemos a fusão do átomo, mas eu, pessoalmente, nem sei reconhecer um átomo se o vir na rua, quanto mais fundi-lo. Em contraponto, descasco maravilhosamente amendoins. Sou competente a catar piolhos. Aprecio uma banana de vez em quando. Não me digam que não continuo mais próximo do macaco do que do homem moderno.

A minha sorte é que o mundo não é do homem moderno. O mundo, percebemo- -lo esta semana, está nas mãos dos camionistas. A mesma sociedade que coloca uma sonda em Marte paralisa se os camionistas se chateiam. A era da tecnologia, da Internet, dos arranha-céus e da conquista do espaço não pode nada contra os profissionais da camionagem. A Humanidade descobriu vacinas para quase todas as doenças, mas os camionistas conduzem veículos que são mesmo muito pesados. A Humanidade inventa máquinas, constrói pontes e escreve poesia, mas os camionistas atiram pedras e aquilo aleija. A Humanidade não tem hipótese nenhuma contra os camionistas.

Parece claro que o homem mais poderoso de Portugal não é José Sócrates, nem Belmiro de Azevedo, nem Manuel Luís Goucha (embora eu não seja daqueles que negligenciam o poder do programa Você na TV). O homem mais poderoso de Portugal é o Cajó, que conduz um Scania de 12 rodados. Se ele convencer os amigos a não trabalharem durante 15 dias, acaba a comida, a água e a gasolina. A nossa civilização está a uma semana de distância do estado de sítio. Se o Cajó acordar maldisposto, isto descamba.

O novo seleccionador



quarta-feira, junho 18, 2008

Quando as fotos mentem

Manuel António Pina
in, JN


Embora desaconselhada a pessoas sensíveis - principalmente às que, nas sondagens, põem o jornalismo no topo das profissões a que dão maior crédito - deveria ser obrigatória na formação para os media do Ensino Secundário (se é que isso existe) uma passagem pelo sítio www.zombietime.com/reuters_photo_fraud/.

Aí se fica a saber do crédito que merece certo jornalismo, no caso o jornalismo fotográfico da Reuters, uma das principais agências internacionais de informação. Talvez o leitor tenha visto em mais do que um jornal imagens chocantes do bombardeamento de Beirute pela Força Aérea israelita, há dois anos. Talvez fique ainda mais chocado descobrindo (eu só o descobri agora) que muitas dessas fotos terão sido digitalmente manipuladas ou pura e simplesmente forjadas pelos fotógrafos e editores da Reuters, de modo justamente a chocá-lo e aparentemente em consonância com os serviços de propaganda do Hezbollah. Sim, até as fotografias mentem. Basta haver um mentiroso atrás da câmara fotográfica. E uma mentira jornalística, no Líbano como por cá, pode ser mais letal que um bombardeamento.