sexta-feira, outubro 04, 2013

INTERVENÇÃO DE JOSÉ MÁRIO BRANCO - I CONF. JOVENS DO BE

Lisboa – Faculdade de Letras – 11 de Novembro de 2000

Companheiras e companheiros

Quando me foi pedido para vir aqui hoje falar-vos, naturalmente aceitei. Não é a primeira vez, como sabem, que sou levado a exprimir-me publicamente como homem de esquerda e como artista desta terra.

O convite foi feito há algumas semanas, e de então para cá a perspectiva desta intervenção foi-me levando, contrariamente ao que é costume, para um progressivo estado de aflição misturado com cansaço. Está bem. Eu vou lá falar, mas para dizer o quê? Os dias foram passando, até hoje, sem conseguir encontrar uma resposta cabal a essa pergunta: dizer o quê?

Quem me conhece sabe que eu não consigo exprimir-me sem a despesa interior de ser verdadeiro, orgânico, e isso é igualmente verdade na música ou na política. Quando intervenho em público, só sei mostrar o estado em que me encontro, falar do que sinto, contar o que me acontece, na certeza quase inconsciente de que não quero, não posso, não sei ocupar este lugar no palco sem vos olhar nos olhos, sem vos abrir o coração, num misto de respeito e amor que é o tributo do homem ao privilégio de ser criador artístico.

Dizer o quê? Passou-me pela cabeça inventar uma razão para não vir, muito trabalho, uma gripe, demasiado cansaço. Mas eu estive no Bloco de Esquerda desde a primeira hora, e então iria agora arranjar desculpas para desaparecer da circulação?

Veio também a tentação da facilidade. Trazer a viola, dizer-vos – o que até é verdade – que o que possa ter a dizer-vos será muito melhor dito com canções, e cantar. Não faltam temas no meu reportório que se possam enquadrar nos diversos campos da luta. Mas isto seria a facilidade porque, aí, eu usaria a música como meio de fuga, como uma espécie de mentira piedosa para me enganar e vos enganar, e eu não sei ser músico e cantor dessa maneira: chegaria aqui com ar de vendido, debitava umas cantigas, vocês se calhar até gostavam e eu ia para casa muito mal disposto comigo próprio.

Então, “dizer”, mas dizer o quê? Porquê isto? Não terei realmente nada para dizer às pessoas, e especialmente aos mais jovens? Que se passa comigo? Que se passa na minha relação com os outros? Que se passa no mundo à minha volta para o meu discurso e o meu élan se encontrarem assim acorrentados, presos num nevoeiro denso e pegajoso, que só me oferece a tentação de me fechar, a vontade de deixar de aparecer, de me ir embora para África ajudar num campo de refugiados qualquer?

Esta longa introdução na primeira pessoa era necessária porque eu tenho de arranjar maneira de vos explicar que estou num estado muito esquisito. Quimicamente falando, o meu estado é uma emulsão de 33% de cansaço (género “estou farto de aturar esta sociedade de merda”), com 33% de revolta (com o espectáculo do mundo bárbaro que o capitalismo global nos impõe), e com 33% de optimismo. Sim, é verdade, 33% de optimismo.

E quando cheguei a esta parte da receita, fiquei tão surpreendido comigo como alguns de vocês terão ficado agora. Então tanta lamúria, tanta vontade de não falar e… 33% de optimismo? Era preciso perceber o porquê.

Qual foi o alimento, no dia-a-dia de todos os dias, para conservar, despertar, ou não deixar morrer esse optimismo?

Por causa de um livro que alguém anda a escrever sobre mim, tenho andado nestes tempos a fazer uma coisa de que não gosto nada, que é falar sobre o meu passado, como foi a infância, a juventude, o exílio, as lutas, o despertar para a música, o teatro, as cooperativas – enfim, eu que nunca guardei fotografias, troféus de prémios ou recortes de jornal tenho sido obrigado a levantar a poeira do sótão da memória, e, como para toda a gente, o meu sótão também tem os seus fantasmas, o seu caruncho, os seus cadáveres nos armários. Mas o certo é que, por força das entrevistas, revivi, re-senti o que se passava comigo há quarenta ou há trinta anos, quando não tínhamos qualquer hipótese de sermos felizes.

Mas porque tinha de ser assim, se as coisas eram tão claras e definidas? Ou aceitas ou te insurges, ou vais ou não vais. A resposta à pergunta “onde está o inimigo?” era tão evidente, a ideologia era uma coisa tão certa e segura que as discussões, as rupturas, os programas eram questões quase técnicas, misto de engenharia civil e de geometria descritiva. Andávamos cheios de certezas, mas andávamos tristes. As certezas ideológicas atiravam para fora de nós, para os outros, aquelas perguntas inevitáveis que só os poetas sabem fazer bem. Mas que raio andamos aqui a fazer? Projecto não nos faltava: deitar abaixo a grande parede, abrir as comportas, pôr as turbinas a funcionar.

Era tudo tão obrigatoriamente evidente, que as ideias eram quase como picaretas, cada ideia uma ferramenta com uso próprio e utilidade inquestionável.

Deitámos abaixo a grande parede. E outras grandes paredes. E o mundo mudou tanto!

O capitalismo mundial percebeu, há muitos anos, e muito antes de nós, que a sua única saída era usar os novos meios tecnológicos para reconstruir essas paredes, só que, agora, dentro das nossas cabeças.

Companheiros, eu não vos vou dar lições sobre o estado em que está o mundo. Cada um olha à sua volta, e vê o que for capaz, ou o que quiser ver.

Mas quando se me agita esta revolta, este asco, este cansaço de alma que me provoca o universo capitalista, e faço a pergunta que tão cedo tive de aprender a fazer (“onde está o inimigo?”), eu concluo que as armas mais terríveis que a escória capitalista foi apurando para escravizar a humanidade são três: a imponderabilidade, a impotência e a mediocridade.

A imponderabilidade (que não é o mesmo que imaterialidade) corresponde à abstractização de todo o processo de dominação. O poder não aparece exercido por pessoas, com nome e com cara, mas por conceitos, conceitos consensuais, inapeláveis, fundadores da normalidade e da legitimidade. A democracia, a sociedade de mercado, o fim das ideologias, a política como discurso (e não como acção). E muitos outros conceitos, todos igualmente apresentados com o carimbo da evidência e da naturalidade das coisas. A cada um desses conceitos corresponde a sua respectiva e grande mentira. Onde se diz democracia pratica-se a opressão, o roubo e o incitamento permanente à não-intervenção social. Onde se diz sociedade de mercado pratica-se o mercado da sociedade, as pessoas como simples mercadoria descartável. Onde se diz o fim das ideologias pratica-se a ideologia única, dominadora e dissimulada, a unicidade cultural, a unicidade informativa, a unicidade educacional, a unicidade gastronómica, a unicidade vestimentar, etc. A política é um discurso, não uma acção, um discurso não sancionável pelos eleitores porque o que se apresenta como discurso alternativo é outro discurso, idêntico no essencial ao primeiro, e igualmente separado da acção. E a própria margem consentida aos contra-discursos, de que é exemplo o Bloco de Esquerda, é uma margem diariamente calculada e analizada ao milímetro sempre que haja risco real de esse contra-discurso se concretizar em acção.

Neste aspecto, os meus 33% de optimismo resultam de verificar que nos últimos anos se tem vindo a gerar um movimento de fundo, com tendência para se espalhar pelo planeta, que, sem gastar mais tempo do que é preciso a produzir o contra-discurso, vai compreendendo que ele só pode ser produzido pela acção, pela intervenção aberta, visível e evidente, na hora certa e no local certo. E é evidente que a globalização capitalista, aos poucos, irá tendo a resposta global que lhe poderá fazer frente. O primado da acção sobre a ditadura dos conceitos terá de ter como efeito e resultado, não só o renascimento dos conceitos e da ideologia revolucionária, mas também o acordar de milhões de oprimidos para a luta, agora que cada vez mais a pergunta “onde está o inimigo?” encontra uma resposta concreta e adequada em cada pessoa.

A segunda arma do capitalismo global selvagem, a que me referi, é a impotência. Para os senhores do mundo, cujas caras nunca vemos, ou que nunca identificamos como tais, é fundamental que as pessoas, à medida que são espoliadas, desvitalizadas e atiradas para o cemitério, tenham sempre o sentimento de que, por si próprias, nada podem mudar, que não há maneira, não há alternativa. O domínio capitalista também tomou conta da semântica. A palavra “caos”, por exemplo, ou a palavra “segurança, são usadas para transmitir a ideia exactamente inversa do seu conteúdo. O caos será, assim, o horror da desordem e da destruição, quando na realidade só do caos pode nascer a vida e a criação, do mesmo modo que só da água a ferver nasce o vapor e a cozedura dos alimentos. A segurança é-nos imposta como o conceito paralizador da mudança, quando sabemos que é preciso mudar a sociedade precisamente porque ela é insegura para toda a gente, quer no emprego, quer na rua, quer na gestão dos conflitos, quer na sustentabilidade da produção de bens e do meio ambiente.

A principal maneira de nos desarmar, de nos remeter à impotência, que tem o sistema capitalista global, é desarmar (e virar contra nós) as nossas palavras, a nossa semântica, os significados e os significantes da nossa ferramenta de comunicação. Só a resistência diamantina dos grandes poetas, ou a genial inconformidade de um João César Monteiro, conseguem resistir, abrir brechas, preservar tesouros que todos os dias nos são roubados.

Finalmente, a mediocridade. O nivelamento por baixo, a bestialização, o atafulhamento do tempo vital com toneladas de tralha para onde se possa transpôr o grosso das nossas energias. No princípio dos anos setenta, em Paris, o sociólogo Jacinto Rodrigues fez um inquérito junto dos emigrantes portugueses, e contou-me o seguinte. Um emigrante português, de meia-idade, que trabalhava doze horas por dia na Citroen, tinha por morada uma pequena barraca no extremo do bidonville de Saint-Denis, onde vivia sozinho porque a família tinha ficado toda em Portugal. Acontece que essa barraca, para seu azar, ficava junto do local onde todos os bairros circundantes daquela cidade vinham despejar o lixo diário. Assim, todos os dias, sempre que regressava extenuado do trabalho, já noite fechada, aquele homem, antes de poder entrar em casa, tinha de largar o saco, pegar numa pá que se habituara a deixar no local conveniente e, à pàzada, afastar centenas de quilos ou toneladas de lixo para poder, simplesmente, entrar em casa, comer e descansar umas horas.

O sistema faz isso connosco, camaradas, e nós temos, com a ajuda e no contexto da esquerda, de arranjar as nossas pás para afastar tanto lixo do caminho do nosso descanso, da nossa libertação. A mediocridade, o telelixo, a desinformação, a censura óbvia que nos oprimem são em tal quantidade que milhões de pessoas não conseguem entrar em casa, ocupar o seu espaço, ser alguém. Temos que ver isso como um aspecto decisivo da nossa luta pela libertação. Temos que criar e reforçar redes alternativas de circulação de ideias e de informações. Temos de resistir, sendo que ainda não estamos em condições de contra-atacar. Não ter medo de chamar mediocridade à mediocridade, não ter medo de usar o poder que ainda nos resta do botão de desligar, não ter medo de cortar conversas parvas e inócuas à nossa volta, não ter medo de resistir à mediocridade.

Todos temos as nossas mediocridades, é evidente, mas somos nós que as temos, não vem ninguém metê-las no nosso prato de sopa. Desculpe, com essas lido eu, caro senhor, não tenho nada é que aturar as suas. Estou farto. Quero oxigénio. Deixem-me respirar, estou-me nas tintas para as audiências. Ou, como anteontem dizia o João César Monteiro: “Olhe, minha senhora, que se foda !”.
Agora reparo que falei de 33% de cansaço e 33% de revolta. Sobra portanto 1%, o que deixa, na realidade, 34% de optimismo.

Até sempre.

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Coisas



Leva qualquer eu a meu dia
Dá-me paz eu só quero estar bem
Foi só mais um quarto uma cama
No meu sonho era tudo o que eu queria

Quando alguém deixar de viver aqui
Espera que ao voltar seja para ti
Nada vai ser fácil
Nunca foi
Quando alguém deixar de te dar amor
Pensa que há quem viva do teu calor
Hoje é só um dia
E vai voltar amanhã
E não foi assim que o tempo nos fez
E fez assim com todos nós
E não foi assim que a razão nos amou
E fez assim com todos nós
São coisas
São só coisas

Se uma voz nos diz que é viver em vão
Pra que raio fiz eu esta canção
E se o fim é certo
Eu quero estar cá amanhã
E não foi assim que o tempo nos fez
E fez assim com todos nós
E não foi assim que a razão nos amou
E fez assim com todos nós
São coisas
São só coisas

Eu estou bem
Quase tão bem
Vê como é bom voltar a dizer
Eu estou bem
Quase tão bem
Vê como é bom voltar a dizer
Eu estou bem
Quase tão bem
Vê como é bom voltar a dizer
Eu estou quase a viver

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

O fado não é mau



Ai tristeza!,
eu jurei
nunca mais cantar o fado.

Foi por amor
que o calei,
por amor ao meu namorado.

Que o fado é mau,
corrompe a alma com demónios,
manjericos, Santo Antónios
amores vagos e episódios
de faca e alguidar.
Ainda para mais é um negócio
de direita
que esta malta aproveita
para se vangloriar.

-"Fica aí no teu cantinho!"
- diz-me assim, com carinho,
meu amor, para não cantar.
-"Meu amor, mas o destino
não se roga." E fez ouvidos
moucos ao que eu fiz jurar.
-"Aqui me tens a confessar:
-foi apenas o destino
que é cruel e pequenino
e nos quis vir separar...

Ai tristeza!,
podem ir ver
quebrada aqui já a promessa.

E esta voz
canta a doer
sem fado nem amor. Que resta?

O fado não é mau,
não é um crime ou um defeito.
É um emaranhado de cordões
que nos entrelaça o peito
e precisa de ser solto.
Corre o risco de sufoco
quem prende o fado na voz
e anda ali com aqueles nós

a apertarem na garganta.
É mais rico quem o canta;
pobre, quem lhe dá prisões.
Tu e eu não somos dois...
Meu amor, tens de pensar
que isto é pegar ou largar,
são estas as condições:
tu e eu e as canções.
Um peito que canta o fado
tem sempre dois corações!

Seja agora



Nós havemos de nos ver os dois
ver no que isto dá
ficar um pouco mais a conversar
Ter a eternidade para nós
Quem sabe, jantar,
Se tu quiseres pode ser hoje

Tem de acontecer, porque tem de ser
e o que tem de ser tem muita força
E sei que vai ser, porque tem de ser
Se é pra acontecer, pois que seja agora

Nós havemos ambos de encontrar
um destino qualquer
ou um banquinho bom para sentar
Vai ser tão bonito descobrir
que no futuro só
quem decide é a vontade

Tem de acontecer, porque tem de ser
e o que tem de ser tem muita força
E sei que vai ser, porque tem de ser
Se é pra acontecer, pois que seja agora

Tem de acontecer, porque tem de ser
e o que tem de ser tem muita força
E sei que vai ser, porque tem de ser
Se é pra acontecer, pois que seja agora

Que seja agora
Que seja agora
Se é pra acontecer
Pois que seja agora

Que seja agora
Que seja agora
Se é pra acontecer
Pois que seja agora

Que seja agora
Que seja agora
Se é pra acontecer
Pois que seja agora

Que seja agora
Que seja a hora
Se é pra acontecer
Pois que seja agora!

quinta-feira, janeiro 24, 2013

Demagogia



E vens tu com um sorriso
Como se fosses um amigo
Mascarado no teu brilho
A tua alma não a sinto

Queres ter o dedo no gatilho
E matar o teu próprio filho
Roubar o teu povo rico
Tu queres viver sozinho

Queres levar a emoção
Manipular a sensação
Censurar a paixão é opressão

Não vai ser assim
Isso não serve pra mim
Eu hei-de resistir em pé na luta até cair

E vens tu com o teu discurso
Mais um esforço é preciso
Metes a mão no meu salário
Viras o mundo ao contrário

Crias pobreza pra teu proveito
Queres um povo enfraquecido
Distraído, preocupado
Alienado ao teu estado

Tudo o que temos vai pró teu bolso
Comes a carne, deixas o osso
Estás metido até ao pescoço
És o culpado

Não vai ser assim
Isso não serve pra mim
Eu hei-de resistir em pé na luta até cair

Fazes a demagogia
Eu faço a revolução

Devolve-me a nação

Queres levar a emoção
Devolve-me a nação
Queres levar a sensação
Devolve-me a nação
Mascarar a visão
Devolve-me a nação
Censurar a paixão
Devolve-me a nação

Tonto



Angra do Heroísmo, 22 de Junho de 2011

Charlatão



Para além das aventuras vocais nos Xutos & Pontapés, Kalú tinha-se já aventurado no projecto "Voz & Guitarra". Aqui, acompanhado por Nuno Rafael, a sua versão de "Charlatão", de autoria de Sérgio Godinho e José Mário Branco. A título de curiosidade informo que para cumprir os requisitos do projecto, apenas voz e guitarra, Kalú recorre ao uso de botões para fazer percussão.

Numa ruela de má fama
faz negócio um charlatão
vende perfumes de lama
anéis de ouro a um tostão
enriquece o charlatão

No beco mal afamado
as mulheres não têm marido
um está preso, outro é soldado
um está morto e outro f´rido
e outro em França anda perdido

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Na ruela de má fama
o charlatão vive à larga
chegam-lhe toda a semana
em camionetas de carga
rezas doces, paga amarga

No beco dos mal-fadados
os catraios passam fome
têm os dentes enterrados
no pão que ninguém mais come
os catraios passam fome

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Na travessa dos defuntos
charlatões e charlatonas
discutem dos seus assuntos
repartem-se em quatro zonas
instalados em poltronas

P´rá rua saem toupeiras
entra o frio nos buracos
dorme a gente nas soleiras
das casas feitas em cacos
em troca de alguns patacos

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Entre a rua e o país
vai o passo de um anão
vai o rei que ninguém quis
vai o tiro dum canhão
e o trono é do charlatão

Entre a rua e o país
vai o passo de um anão
vai o rei que ninguém quis
vai o tiro dum canhão
e o trono é do charlatão

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Comunicação



Já não sei

Que mais posso fazer

O que devo dizer pra entender


Já tentei

Esperar o amanhecer

Ver o sol nascer

Pra me conhecer


Baixo as armas, tiro o escudo e o mundo

Às vezes eu preferia ser surdo ou mudo

Os dois ou nenhum

Apenas ter o meu espaço

E o vento, e o meu traço, desembaraço


Que posso dar pra te chegar?

(já não sei, eu não sei)

O que hei-de falar pra te alcançar?

(já não sei, eu não sei)

Um dia eu vou encontrar

Nem que seja a cantar por ti

E nesse dia saberei como cheguei aqui

Depois do fim vem um início

Eu vou recomeçar


O espelho sorri pra mim

Vai ser hoje

Eu vou longe

Acredito que sim


Parece tão fácil

É um assunto frágil

Como a flor que dá vida ao jardim


Quero falar, não me sai a palavra

Eu quero expulsar a sensação amarga

Que mata e corrói!

Que agarra e que dói, só destrói

Gostava de ser um herói


Que posso dar pra te chegar?

(já não sei, eu não sei)

O que hei-de falar pra te alcançar?

(já não sei, eu não sei)

Um dia eu vou encontrar

Nem que seja a cantar por ti

E nesse dia saberei como cheguei aqui

Depois do fim vem um início

Eu vou recomeçar


Letra: Vasco Ferreira
Música: Kalú

Kalú: Voz, bateria percussão e coros
Nuno Lucas: baixo
Marco Nunes: Guitarras

quarta-feira, janeiro 23, 2013

Comércio Justo

A minha participação sobre Comércio Justo no programa Bypass do Rádio Clube Português, conduzido por Ana Sereno a 21 de Fevereiro de 2008.


sábado, janeiro 19, 2013

A lua partida ao meio



olha a lua partida ao meio
de tão baixinha que está
quase leva as copas das árvores
e o cabelo dos homens altos.

se eu fosse muito guloso
comia esta lua em forma de queijo.

olha a nuvem, a nuvem branca
quer tapar o nosso queijo
nuvem gorda e sem vergonha
invejosa da luz da lua.

tu já viu que esta noite não tem vento?

olha a lua partida ao meio
se eu pudesse sentava nela
e ficava espiando a terra
e me via olhando ela!

quinta-feira, janeiro 17, 2013

Passou por mim e sorriu



Ele passou por mim e sorriu,
e a chuva parou de cair,
o meu bairro feio tornou-se perfeito,
e o monte de entulho, um jardim.

O charco inquinado voltou a ser lago,
e o peixe ao contrário virou.
Do esgoto empestado saiu perfumado
um rio de nenúfares em flor.

Sou a mariposa bela e airosa,
que pinta o mundo de cor de rosa,
eu sou um delírio do amor.

Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,
que o amor é curto e deixa mossa,
mas quero voar, por favor!

No metro, enlatados, corpos apertados
suspiram ao ver-me entrar.
Sem pressas que há tempo,
dá gosto o momento,
e tudo mais pode esperar.

O puto do cão com seu acordeão,
põe toda a gente a dançar,
e baila o ladrão,
com o polícia p'la mão,
esvoaçam confetis no ar.

Sou a mariposa bela e airosa,
que pinta o mundo de cor de rosa,
eu sou um delírio do amor.

Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,
que o amor é curto e deixa mossa,
mas quero voar, por favor!

Há portas abertas e ruas cobertas
de enfeites de festas sem fim,
e por todo o lado, ouvido e dançado,
o fado é cantado a rir.

E aqueles que vejo, que abraço e que beijo,
falam já meio a sonhar,
se o mundo deu nisto e bastou um sorriso,
o que será se ele me falar.

Sou a mariposa bela e airosa,
que pinta o mundo de cor de rosa,
eu sou um delírio do amor.

Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,
que o amor é curto e deixa mossa,
mas quero voar, por favor!

Sou a mariposa bela e airosa,
que pinta o mundo de cor de rosa,
eu sou um delírio do amor.

Sei que a chuva é grossa, que entope a fossa,
que o amor é curto e deixa mossa,
mas quero voar, por favor!

sexta-feira, janeiro 11, 2013

Perto da paixão

Eu hoje acordei de todo
Estou que nem me posso ver
Sinto atear um fogo
Um ódio assim de morrer

Deixo a barba por cortar
E o cabelo em desalinho
Por favor não quero estar
Fechado em casa sozinho

Eu vou até onde os sonhos vão
Bem longe da razão
Eu vou até onde os sonhos vão
Bem perto da paixão

Dão-me ganas de partir
Fazer-me à estrada, eu sei lá
Mas não sei se quero ir
Ou se não quero é estar cá


sábado, dezembro 22, 2012

Natal dos Pequeninos

No Natal eu quero V.A. Troppers
Vi na televisão e adorei, passei-me e fiquei maluca
Isso é de bebés!
Eu quero uma espada maior do que a dos Imortais
Mas muito mais afiada
Cala-te seu grande anormal!
Moto-ratos, porque são muita radicais e vêm de Marte
Oh! Otária!
Vou ter uma pistola melhor que a do Walker
Para castigar os malfeitores
(Cara de Elefante!)
Cala-te seu grande cabeça de alho-choxo!
Power Rangers
Porque estão cheios de acção e vieram para te salvar
Bébézinha!
Vou ter uma faca maior que a do Tarzan
Muito maior
Deficiente mental!
Quero uma Barbie
Para entrar no concurso e ganhar muitos prémios
Grande coisa!
Vou ter uma espingarda
Maior que a do Exterminador Implacável
Ho! Ho! Ho! Feliz Natal
Eu quero o CD dos Bon Jovi
Porque ele é muita giro e espectacular
Cara de tangerina!
Vou ter uma metralhadora gigantesca
Muito maior que do Rambo
Cala-te cabeça de alho-choxo!
Eu quero os Take That
Porque têm músicas muita fixes e curtidas
Sua grande anormal!
Vou ter uma bazuca igual à do Action Man
Para rebentar com uma cidade inteira
Cala-te tromba de elefante!
Quero o Bryan Adams, porque é o maior e ponto final
Vou ter um laser maior do que o da Enterprise
Para desintegrar o mundo
Cala-te seu boi desdentado!
Quero o Michael Jackson
Porque dança muita bem
E tem telediscos muita loucos
Ah! Ah! Ah! Adeus e Feliz Natal!
Ho! Ho! Ho! Feliz Natal

domingo, dezembro 09, 2012

Insónia



Acordo ou deixo dormir
O meu monstro da noite
Era bom poder, sorrir...

Em escassas horas de sono
Assim sento e recolho
Ao frio da insónia
Que vi, em mim...

Faz-me revirar o tempo
O monstro não me deixa não...
Dessa mente que não quer sossego!
Dessa mente que não quer sossego!

Murmúrios ou medos
Há quem durma sem jeitos
Em cima de uma cama
A rir, de mim...

Faz-me revirar o tempo
O monstro não me deixa não!
Faz libertar ao escurecer a mente
Que amanha eu devo ir trabalhar!

Mais do mesmo se encontra...
Nestas horas de ponta
O corpo pede a alma pra dormir,
Em mim...

Faz-me revirar o tempo
O monstro não me deixa não!
Faz libertar ao escurecer a mente
Que amanha eu devo ir trabalhar!

Num sonho por sonho
Num monopólio de oiro
O vício da insónia
Não consegui...

quinta-feira, dezembro 06, 2012

Amanhã (talvez)



Faz com que eu olhe
O fim de nós.
E a pressa que o tempo tem...
Razão p'ra nos deixar tão sós.

Se não houver amanhã,
Acaba o teu ódio também.
Se não houver amanhã,
Guarda o teu ódio também.

Faz com que eu não olhe
A dor como cura em nós.
Em jeito de amor-perfeito,
Recorda a quem já deste a mão.

Se não houver amanhã (...)

Porque eu não vi outra forma.
Não conheci outra hora.
Eu fugi por ser o que tu não vês...

Em ódio tu lês,
Em ódio tu vês, um amanhã, um amanhã,
um amanhã, um amanhã talvez...

quarta-feira, dezembro 05, 2012

Eu esperei



Eu esperei
Mas o dia não se fez melhor
E o sujo não se quis limpar,
Inventou mais flores em meu redor
Como se eu não fosse olhar!
Enfeitou as ruas para cobrir
Terra seca de não semear
Deram-me água turva a beber
Dizem cura e força e solução
Como se eu não fosse olhar!

Eu esperei
Mas o fumo não saiu da estrada
Arde o sonho em troca de nada
Dizem festa, mas é solidão
Como se eu não fosse olhar!
A mentira não se fez verdade
E a justiça não se fez mulher
A revolta não se fez vontade
Braços novos sem educação
Sangue velho chora de saudade!

Eu esperei
Dizem luta mas não há destino
Dão-me luzes mas não é caminho
Dizem corre mas não é batalha
Como quem não quer mudar!
Esta corda não nos sai das mãos
Esta lama não nos sai do chão
Esta venda não deixa alcançar.
Cantam "armas" mas não é amor
Mão no peito mas não é amar
Fato justo mas sem lealdade
Cavaleiro mas já sem moral
Braços sujos que se vão esconder
Braços fracos não são de lutar
Braços baixos não se querem ver
Como se eu não fosse olhar!

Eu esperei
Pelo tempo transparente em nós
Pelo fruto puro de escolher
Pela força feita de alegria
Mas o povo dorme na ilusão!
E a tristeza é forma de sinal
Liberdade pode ser prisão...
Meu deus, livra-nos do mal
E acorda Portugal...

quinta-feira, novembro 29, 2012

Porque quero estar contigo



O dia já chegou ao fim
E a noite faz lembrar
Tudo o que há em ti
E que me faz sonhar
Teu beijo atrevido
Faz-me enlouquecer
Dizes "Quero ir contigo, onde tudo é prazer".

E tu não estás aqui
És uma alucinação
Não vou ficar sem ti
E perder a emoção

Porque quero estar contigo
Mergulhar no teu mar
Repousar no teu abrigo
Nunca mais acordar

Sem temer o perigo
De um dia te perder
Tudo faz sentido
Na ânsia de te ter

E tu não estás aqui
És uma alucinação
Não vou ficar sem ti
E perder a emoção

Porque quero estar contigo
Mergulhar no teu mar
Repousar no teu abrigo
Nunca mais acordar

terça-feira, novembro 27, 2012

Quem sabe



quem sabe eu nem vos quero bem
quem sabe eu nem sou ninguém
quem sabe eu não sei quem

quem sabe eu sou quem queria ser
quem sabe eu nunca o vou saber
quem sabe eu sou bem melhor

quem sabe o medo é minha cruz
quem sabe o medo é meu motor
quem sabe o medo é luz

quem sabe eu não estou só a tentar
desesperadamente uma razão
para seguir ou para não parar
pois tudo se passa sem eu ver

sábado, novembro 24, 2012

Estou pronto



eu pressinto a presença
como vento em minha espinha
eles saber dos meus planos
sua casa é a minha
vou abrindo ao medo as minhas mãos
como abrindo ao medo as minhas mãos
eu desejo a sentença
como prova de uma prova
na saúde
na doença
numa crença
numa cova

vou abrindo ao medo as minhas mãos
como abrindo ao medo as minhas mãos

como vento em minha espinha
eles saber dos meus planos

sexta-feira, novembro 09, 2012

Pangea


 
Material da Casa das Ciências, disponível para download aqui.

Chave de Vidro

Luar de Agosto
quem queimará
chave de vidro
em que porta partirá
luz de Setembro
quem cegará
comboio azul
em que estação parará

Longe da vista
longe do brinquedo
que o poeta chamou então
o coração

Pobre do coração
sempre aceso e sem sequer poder
carregar no botão
mudar de canal cortar o som
e olhar como quem quer olhar
enredos simples da paixão
tudo no seu lugar
e o coração, enfim, meu Deus
a bater e a descansar

Chuva de Inverno
quem banhará
chave de vidro
em que porta partirá
sol de Dezembro
quem secará
um de Janeiro
com que pé se entrará

Longe da vista
longe do brinquedo
que o poeta chamou então
o coração

Pobre do coração
sempre aceso e sem sequer poder
carregar no botão
mudar de canal cortar o som
e olhar como quem quer olhar
enredos simples da paixão
tudo no seu lugar
e o coração, enfim, meu Deus
a bater e a descansar

Luar de Agosto
quem lembrará
chave de vidro
em que porta partirá
praia deserta
quem esconderá
corpo dorido
que disfarce usará

Longe da vista
longe do brinquedo
que o poeta chamou então
o coração

segunda-feira, novembro 05, 2012

Algo teu



É só o nada a bater-nos à porta
E a mim importa-me que estejas a meu lado
Enquanto o medo vai dançando à nossa volta

É só uma imagem que sonhámos doce imagem
Nada que um dia após o outro reproduza
Mas meu amor estaremos sempre de passagem
Esquece o que eles dizem sobre um grande amor
Quem podia mais querer-te como eu
Nada que acredite conseguir mostrar pois é algo teu

terça-feira, outubro 30, 2012

Nunca parto inteiramente



Nunca parto inteiramente
Não me dou à despedida
As águas vão simplesmente
Presas à sua nascente
É do seu modo de vida

Fica sempre qualquer coisa
Qualquer coisa por fazer
Às vezes quase lamento
Mas são coisas que eu invento
Com medo de te perder

Deixei um livro marcado
E um vaso de alecrim
Abri o meu cortinado
Fiz a cama de lavado
Para te lembrares de mim

Nunca parto inteiramente
Vivo de duas vontades:
Uma que vai na corrente,
A outra presa à nascente
Fica para ter saudades

Tu não tens de mudar



Se o tens de ouvir tens de o fazer
E o mundo diz "tu tens de mudar"
Só não lavou as tuas mãos
Mas tens as mãos do mundo para lavar
Afasta-te um pouco mais
E dorme em paz que tu não tens de dar
O teu sorriso assim
Esgotando o teu juízo assim
Tu não tens de mudar
Quem te quer mudar não te quer
Conhecer
Tu não tens de o fazer

Eu não tenho nada meu
Pois tudo o que era bom foi na
Corrente do ter
E agora dei-me um dia para ser feliz
Para ver que eu nunca vou ter o mundo
Na minha mão
Não tenhas pena de mim agora
Meus dias já não são de ouro
Dantes sim existia um problema
Agora todos nós somos actores de cinema
E escondemo-nos bem dos olhos que o
mundo tem
Mas toda a gente nos vê
Só não nos ouve ninguém
Tu não tens de ver
Tu não tens sequer de amar
Tu só vais achar que vês
Quando ao sabor da tua lei
O amor fizer de ti seu rei para sempre

Para nunca mais mentir



Para ver
Para dar
Para estar
Para ter
Para ir
Pra ouvir
Pra sorrir e entrar
Para rir
Pra voltar
A tentar
Pra sentir
E mudar
Pra voltar a cair
Para me levantar
Para nunca mais tentar
Mentir
Pra crescer
Para amar
Para ser
O lugar
Pra viver
E gostar
De gostar
De viver
Pra fugir
Pra mostrar
Pra dizer
Pra ter paz
Pra dormir
Pra fingir acordar
Para ser
Derramar
Para nunca mais tentar
Mentir

Débil Mental



É que eu não sou um débil mental,
Eu posso estar errado ou ter agido mal,
Mas pago o preço que eu tiver de pagar,
Se for pra tal eu sofro só.
Se não te agrada a forma de eu falar,
Acorda e vê que eu cago pró teu não gostar.
Se as minhas calças,
Parecem de um pijama,
Da próxima vez eu saio como entrei na cama.
Só me agrada ser quem quero,
Longe de uma falsa situação.
Masturbação,
Não fica só pela palma da mão.
E é tão mau,
Se a dita v.i.p. fala caro e faz pensar que eu sou vulgar.
Eu sou,
Só não aguento,
É que ela diga tanta prosa e seja só ar,
E nem o ar é puro!
Hipocrisia é mal que eu não suporto,
Pior até que o não pensar.
Mas a verdade é que eu não sofro pelo mal,
Mas pelo meu bem.
Diz meu mal ou leva-me à razão.
Quero andar por fora do que eu sou,
Deixar o tempo ver,
Do que é capaz.
Sobre o que gira à volta já falei,
Contudo há certas coisas em que eu não pensei,
Se o meu destino é negro ou claro,
Quem vai dizer nada muda em nada tudo o que eu pensei fazer.
O mundo não é nada,
Nada à minha beira,
se tudo o que acredito já está preso à cadeira.
E tudo o que eu faço é pensado em mim,
No fundo eu sei que toda a gente acaba sendo assim.
Diz meu mal ou leva-me à razão.
Quero andar por fora do que eu sou,
Deixar o tempo ver,
Do que é capaz.
Não vejo nada contra o infalível,
Fala bem fala a minha língua,
Que eu não sou tu,
Homem de afetação,
Beija-me o cú,
Livra livra já não posso mais ouvir!
É tanta coisa fora do normal,
Procuras água no deserto.
Quem sabe até nos faz bem.
Eu sou mais eu sem nimguém.
A minha vida não tem nexo,
Dar-lhe um rumo é dar-lhe um fim.
Meu bem dói ou não,
Não eras tu contra a traição,
Quem evitou,
Por fim o mal,
Não foi a pura mas o débil mental!
Só me agrada ser quem quero,
Longe de uma falsa situação.
Só me agrada ser quem quero,
Longe de uma falsa situação.
(São) quem são e em nada são iguais,
Quem é mais?
Há que eu saiba um ponto igual em nós:
Sermos tão desiguais!

segunda-feira, outubro 29, 2012

Agora é que eu preciso

Agora é que eu preciso
Agora é que eu preciso
Agora é que eu preciso
É, agora é que eu preciso
Depois não vai valer a pena
Esse teu sorriso

Agora é que eu preciso
Agora é que eu preciso
Agora é que eu preciso
É, agora é que eu preciso
Depois vai dar-me pena
Esse teu sorriso

Sem aviso
Que é agora é que eu preciso
Sem aviso
Supostamente
Sem aviso
E não quando mais tarde eu vir falar
Daquilo que eu já consigo

Não venhas ter comigo
Ei, não venhas ter comigo
Ganhaste um inimigo
Perto de mim corres perigo
Corres o risco de vir a saber
A que sabe o sangue no sorriso

Eu pouco mudei
Pelo que sei, pelo que me conheço
Infelizmente errei
Remediado
Ando ocupado
Paguei esse preço
De ti já nem sei
Se estou curado
Ninguém me deu o teu novo endereço
Passou a passado
Já passa ao lado
Já só persigo
aquilo que eu mereço
E a ti
Nada te peço

sexta-feira, outubro 26, 2012

Vício de ti



Amigos como sempre
Dúvidas daqui pra frente
sobre os seus propósitos
é difícil não questionar.
Canto do telhado para toda a gente ouvir
os gatos dos vizinhos gostam de assistir.

Enquanto a musica não me acalmar
não vou descer, não vou enfrentar
o meu vício de ti não vai passar
e não percebo porque não esmorece
ao que parece o meu corpo não se esquece.

Não me esqueci, não antevi, não adormeci, o meu vício
de ti (2x)

Levei-te à cidade, mostrei-te ruas e pontes
Sem receios atrai-te as minhas fontes
Por inspiração passamos onde mais ninguém passou
Ali algures algo entre nós se revelou.

Enquanto a música não me acalmar
não vou descer, não vou enfrentar
o meu vício de ti não vai passar
não percebo porque não esmorece
será melhor deixar andar
Será melhor deixar andar

Não me esqueci, não antevi, não adormeci, o meu vício
de ti (3x)

Eu canto a sós pra cidade ouvir
e entre nós há promessas por cumprir
mas sei que nada vai mudar
o meu vício de ti não vai passar, não vai passar...

quinta-feira, outubro 25, 2012

Cedo o meu lugar



Eu não quero ser
Eu não quero pedir
Mas estou a perder
E não sei que fazer mais

O que eu era desapareceu
E quando falo parece, parece
Que não sou mais eu

Tento encontrar-me, desenrascar-me
Já faço a cama
Ando ocupada a tentar fugir de ti
Mas mais longe é mais perto
Mais difícil fazer o correto do que estar certo

Por isso…

Cedo o meu lugar a quem te mereça
Que decore os teus planos e que não se esqueça
Cedo o meu lugar a quem te mereça
Que te dê tudo e que nem pareça
Cedo o meu lugar a quem te mereça
Que fique do teu lado e que não esmoreça
Cedo o meu lugar…
Mas a seguir peço para voltar

Para mim nunca foi um jogo
Foi apenas um retrato
Onde ficávamos bem os dois
Onde as dúvidas são p'ra depois
Gosto mesmo de ti
Mas tu nunca estás...
Nunca estás aqui

Por isso…

Cedo o meu lugar a quem te mereça
Que decore os teus planos e que não se esqueça
Cedo o meu lugar a quem te mereça
Que te dê tudo e que nem pareça
Cedo o meu lugar a quem te mereça
Que fique do teu lado e que não esmoreça
Cedo o meu lugar…
Mas a seguir peço para voltar

( É que eu gosto mesmo de ti
Eu gosto mesmo de ti )

Tento encontrar-me, desenrascar-me
Mas quanto mais longe mais perto de ti
O que eu era desapareceu
A culpa percebe eu não sou mais eu

Cedo o meu lugar a quem te mereça
Que decore os teus planos e que não se esqueça
Cedo o meu lugar a quem te mereça
Que te dê tudo e que nem pareça
Cedo o meu lugar a quem te mereça
Que fique do teu lado e que não esmoreça
Cedo o meu lugar… (A culpa percebe eu não sou mais eu)
Cedo o meu lugar…

Cedo o meu lugar a quem te mereça
Que decore os teus planos e que não se esqueça
Cedo o meu lugar a quem te mereça
Que te dê tudo e que nem pareça
Cedo o meu lugar a quem te mereça
Que fique do teu lado e que não esmoreça
Cedo o meu lugar…
Mas a seguir peço para voltar

Cedo o meu lugar…

( É que eu gosto mesmo de ti
Eu gosto mesmo de ti )

quarta-feira, outubro 24, 2012

O fim de tudo



No começo era o fim
agora ai de mim, ai de mim
era bom, era a sós
agora ai de nós, ai de nós
como é que se sai
do eterno ai, terno ai
como é que se faz
pela paz
que é o nosso bem camuflado
dá-se aquela de emancipado
e some cada um p´ra seu lado

o perfeito casal
habitué da columa social
estrilhou, estrilhaçou
vá lá saber-se porquê
vá lá saber-se porquê

O fim de tudo
é um recomeço
e olha, eu bem que mereço
tratar bem do melhor em mim

No começo, a paixão
agora essa não, essa não
era tudo demais
agora é só ais, é só ais
que é do amor que aparecia
tão cru na fotografia
que é do amor que se faz
e talvez
não volte mais a ser feito
vai-se de coração ao peito
cortar pela vida a direito

coração trivial
a afundar em água doce, água e sal
estrilhou, estrilhaçou
vá lá saber-se porquê
vá lá saber-se porquê

O fim de tudo
é um recomeço
e olha, eu bem que mereço
tratar bem do melhor em mim

No começo é para sempre
agora há quem lembre, há quem lembre
a promessa a preceito
de peito ao ar, mão no peito
pelo geito da mão
ainda é talvez sim, talvez não
mas o fôlego falha-nos
valha-nos Deus, quem nos acode
a parte esquece do peito explode
e o coração que gire e que rode

O fim de tudo
é um recomeço
e olha, eu bem que mereço
tratar bem do melhor em mim

segunda-feira, outubro 22, 2012

Beirute

Quem recordará como foi
Duvido que ainda haja alguém de pé
Que tenha dançado ao som das noites quentes
De Beirute

Será que alguém chora um ausente
Já não há ninguém para ausentar
Já não há ninguém para soluçar
Em Beirute

Em Beirute
Nem o sol nasce
Em Beirute
Como merece
É mais quente que o ar do deserto
É mais escuro que um buraco aberto
Na memória de uma terra ainda morna
Que já não torna
A ser Beirute

Em Beirute há bares fantasma
Onde outrora o amor se acoitou
E a alegria andava lado a lado
Com Beirute

Na terra onde o calor é quem manda
Havia uma cidade que era assim
Dizia nessa altura mais para mim
Do que Beirute

Quando enfim a história virar
Num tempo de arqueólogos errantes
Veremos corpos e ruínas militantes
Por Beirute

Encontraremos gente tão velha
Que nem parece ser da nossa era
Beijaremos os filhos da guerra
E choraremos
Por Beirute

quarta-feira, outubro 10, 2012

Se A Manhã Chegar



Quando a lua passa nas janelas
tão devagar
abres as portas e deixas as velas
por apagar
até a manhã chegar

Vim com a lua de outras cidades
p'ra te tocar
Abre a porta que eu trago saudades
por apagar
até a manhã chegar

Trago a lua de outras cidades
p'ra te tocar
Tu tens as velas eu tenho as saudades
por apagar
até a manhã chegar

Se a manhã chegar...

Tango Do Exílio



Tenho canções de mil cidades
que a névoa apagou
Não há ninguém a quem contar...

Atravessei mil tempestades
que o tempo amainou
Hoje não sei a quem contar...

À noite lembro essas cidades
que me hão-de levar
Eu quero alguém a quem contar...

Navegar



Cantar,
como quem canta um fado,
um amor que passou
Traços de um vento apagado
um mundo que acabou
p'ra não ter de mudar...

Vou cantar
nas palavras de um fado,
as trovas que nos diz
um rei sem trono nem reinado
sem novas nem país
por ter de navegar
ter de navegar

Eu vou cantar por quanto passei
eu vou cantar porque te encontrei
Vem navegar p'ra longe no mar
Há um navio p'ra nos levar ao fim do mar...

Cantar
um temporal que se levanta
para nos alcançar
Mas a bandeira azul e branca
vai tornar o mar
da cor do teu olhar
azul no olhar

Eu vou cantar por quem passei
eu vou cantar porque te encontrei
Vem navegar p'ra longe no mar
Há um navio, vem navegar ao fim do mar...

Senhora Das Rosas



Senhora quem chamais
quando passo ao vosso lado?
Senhora quem olhais
pondo os olhos no passado?

Senhora é bom esquecer
esse triste amor ardente,
pois não sabeis viver
ao sabor do amor ausente...

Não há rosas p'ra vos dar
tenho alguém por quem esperar

Senhora quem chamais
quando passo ao vosso lado?
Senhora quem olhais
pondo os olhos no passado?

Senhora o meu amor
não vive num castelo
Senhora o meu amor
é doutro olhar mais belo...

Eis as rosas que lhe vou dar
Há mil rosas p'ra eu lhe dar...

Os Limites Do Mar



No regresso dos navios
tantas lendas que ouviu...
Quis um rei ir encontrar
os limites do seu mar

Mas sem fundo, a dormir
O fim do mundo há-de vir...
Rei não fiques, vais agitar
Os limites do teu mar

A Reconquista



Dos mares da Irlanda e das costas da Bretanha
vão partir velas ao sol
Há bandeiras desfraldadas, torres, lanças, brilham espadas
vão reconquistar o Sul
Os celtas que vão partir
quando o sol nascer...
Grinaldas nas ameias, ardem as fogueiras
que não nos podem queimar
Gaiteiros enfeitados, vão tocar cantos passados
por aqui vai começar
E vem dançar, vem dançar
até ao sol nascer...

Das ribeiras da Galiza, através da Ibéria antiga
em nome dos nossos Reis
Retomar as fortalezas, "Sant'iago e aos Mouros"
para impor as nossas leis
Os Celtas que vão partir
quando o mar crescer...
Ignorem-se os presságios que nos falam de naufrágios
vão partir velas ao sol
São guerreiros enfeitados que ao som de cantos passados
vão reconquistar o Sul
Mas vem dançar, vem dançar
até o sol nascer...

Dos mares da Irlanda
Gaiteiros Guerreiros
Bandeiras Fogueiras
Castelos Reconquista...

Sem perdão


Dedicado a Elizabeth Hayton

Eu sou quem não tem perdão   ando perdido   eu sou
Eu sou quem não tem razão   ando escondido   eu sei
Se hoje for tarde demais   fico sozinho   eu estou
O lugar p'ra onde vais   não adivinho   eu sei
         
Tu és quem traz   um breve instante    
Um sol de paz   o sol brilhou    
    Por mais que agora eu cante    
    Nunca voltou    
         
Estrela cadente   se a fé não mudar    
Que ninguém vê   e a noite acabar    
Fez-me diferente   vai nascer aqui    
Não sei porquê   o dia    
         
      Se a lua deixar  
      E o sol me guiar  
      Só quero de ti  
      Um dia  
         
Eu sou quem não tem perdão   em parte incerta   eu sou
Eu sou quem não tem razão   vida deserta   eu sei
Temo o anoitecer   fico sozinho   eu estou
Voltarei um dia a ver   não adivinho   eu sei
         
Vela por mim   desta tristeza    
Até ao fim   de não te ver    
    Fiz a maior certeza    
    De renascer    
         
Estrela cadente   se a fé não mudar    
À tua mercê   e a noite acabar    
Faz de mim crente   hei-de ver nascer    
Diz-me porquê   o dia    
         
      Se a lua deixar  
      E o sol me guiar  
      Hei-de renascer  
      Um dia  

Sem ter quem amar



Há mundos antigos
Que ele percorreu
Sem ter um abrigo
Doutras terras separado

Cercado de imagens
De quem já perdeu
Olhando as margens
Para sempre naufragado

Regressa, onde vais?
Sem ter quem amar...
Quem te há-de esperar
Quem te há-de contar
Quem te há-de lembrar
Onde vais...

Estranha demanda
Não há outra igual
Quando um homem anda
De levante a poente

E acende fogueiras
Para fazer sinal
São noites inteiras
Tão distante, tão ausente

Regressa, onde vais?
Onde vais...

Mil Maneiras de Amar

Tentações
Passam por mim
Trazem os tempos que hão-de vir
Sem me tocar

Tradições
Falam por mim
Dez mandamentos por cumprir
Nunca mudar

Em segredo,
Aprendo a inventar
Mil maneiras p'ra eu te amar
Desvendar
O segredo
De saber inventar
Mil maneiras p'ra eu te amar
P'ra te amar

Perdições
Por confessar
Quantos pecados cometi
Sem te tocar

Devoções
Por contemplar
Há longos anos decidi
Nunca mudar

Em segredo,
...

Girassol



Se o vento soprar
De feição
E esta luz brilhar
Por onde eu for
Recomeçar, partir
Tomar o sol de frente
Sonhar, perseguir
O amor

(Olhar a vida de feição
Seguir a voz do coração)
Olhar a vida de feição
É ver a luz na escuridão
É ouvir a voz do coração
Então
"Ai por baixo fica o restolho..."

Não deixar passar
A ilusão
Ter uma visão
Acreditar
Ter coragem de abraçar
Dar-te a mão
Bate um coração
Sem parar

(Olhar a vida de feição
Seguir a voz do coração)
Se o vento soprar de feição
E a luz brilhar na escuridão
Seguir a voz do coração
Então
"Ai por baixo fica o restolho..."

Em frente ao Sol
por onde eu for
acreditar
seguir o amor

Porta do Sol



Quando a dança acabar num altar
Quando a porta ficar por fechar

Desce um véu,
Arde a catedral
Anjo negro no céu,
Lá vem o vendaval

E este olhos que não quero ver
Mas à noite não posso esquecer

Desce um véu,
Arde a catedral
Anjo negro no céu,
Lá vem o vendaval

Tão só



Todas as manhãs do mundo são sem regresso
Pascal Quignard

Sempre foi meu defeito
Não saber reconhecer
Que o que foi feito está feito
E ficou tanto por fazer

As causas que eu levo peito
Hão-de acabar por se perder
E não recordo um feiro
Que os meus olhos possam ver

Eu só queria saber
Fechar os olhos p'ra não ver
Tão-só queria saber
Fechar os olhos p'ra não ver

Mas o meu maior defeito
Foi não te reconhecer
Há tanto qu'eu não aceito
Tanto qu'eu não soube ver

E ainda trago no peito
A vontade de saber
Mas o passado está feito
E não volta a acontecer

Eu só queria saber
Fechar os olhos p'ra não ver
Tão-só queria saber
Fechar os olhos p'ra te ver

Tão só
Tão só...

terça-feira, outubro 09, 2012

A promessa



Não digas nunca mais
Porque eu hei-de te dar
A vida inteira

Andarei por onde vais
P'ra um dia acabar
À tua beira

Mil promessas
Eu hei-de fazer
E vou cumprir
Mil promessas
Eu hei-de manter
E não partir

Eu hei-de te provar
Eu quero prometer
Não ir embora

Sei tão bem como é amar
Como hei-de ser
Vida fora

Mil promessas
Eu hei-de fazer
E vou cumprir
Mil promessas
Eu hei-de manter
E não partir

Glória

(Miguel Esteves Cardoso)



A morte não te há-de matar
Nem sorte haverá de eu viver
Sem amar, se te ter, sem saber se
Rezar...

Amor, oxalá seja amar
Ter prazer sem poder
Nem sequer te tocar...

Os deuses não te hão-de levar
Sem que eu dê a mão para ser par
Sermos dois a partir e depois a
Voltar...

Não vais me deixar sem o céu
Ser o chão onde se vão deitar os
Mortais...

A glória será não esquecer
Memória de tanto te querer
Sem razão, meu amor, com paixão,
Sem morrer...

Talvez ao luar possas ver o olhar
Que lembrar fez nascer português...

Longa se torna a espera

(Tim/Xutos & Pontapés)



E quando eu descobrir o segredo
Da neblina cinzenta
Que torna a água barrenta
E sem perdão me esmaga o peito

E quando se levanta de repente
A névoa que corre o rio
Que gela tudo de frio
E escurece a corrente

Longa se torna a espera
Na névoa que corre o rio
Lenta vem a galera
Na noite quieta de frio
E quando...

E quando eu apanhar finalmente
O barco para a outra margem
Outra que finde a viagem
Onde se espere por mim

Terei, terei mais uma vez força
Para enfrentar tudo de novo
Como a galinha e o ovo
Num repetir de desgraças

Longa se torna a espera
Na névoa que corre o rio
Lenta vem a galera
Na noite quieta de frio
E quando...

Além-Tejo



Nas terras do além-Tejo
Ao fim dos vales um monte
Quatro noites para um rio
Encontrei-te junto à ponte...

Do passado de um rio
Ficou por contar a primeira vez
O passado de um rio
Ficou de voltar outra vez
Passaste como um rio
Que eu cantei e me deixou aqui
Passaste como um rio
E eu não sei passar sem ti...

Soube o teu nome além Tejo
Talvez fosses quem perdi
Passaste como um rio
E hoje não passo sem ti

sexta-feira, setembro 07, 2012

A Voz do Deserto



Cinco partes tem o mundo
Por todas andei

Quatro cantos tem a terra
Quantos eu cantei

Quantas naus foram ao fundo
E eu fui mais além

Quantas noites tem a espera
Mil e uma tem

A voz falou no deserto
Contou que o rumo está certo

Terra prometida
Longa vai a minha viagem
A voz do deserto
Vai me dar a tua imagem

Quantas voltas deu a esfera
Quantas dei também

Quantas noites tem a espera
Mais nenhuma tem

Cheguei ao fim do deserto
E eu sei que andaste tão perto

Terra prometida
Acabou a minha viagem
Hoje no deserto
Eu toquei numa miragem

A voz do deserto...

quinta-feira, setembro 06, 2012

O tempo não passa por quem é bom

Em 1982, três amigos resolvem formar uma banda. Eram eles: Rodrigo Leão (Baixo), Pedro Oliveira (Voz e Guitarra) e Nuno Cruz (Bateria).

Começam a ensaiar e decidem chamar-se Sétima Legião (que era o nome da Legião romana que veio à Lusitânia).

Nesta altura a música da banda era muito influenciada pelos sons que vinham de Manchester, nomeadamente Echo & The Bunnymen e Joy Division. Concorrem à Grande Noite do Rock onde ficam em segundo lugar.

Susana Lopes (Violoncelo) e Paulo Marinho (Gaita de Foles) juntam-se ao colectivo, ao mesmo tempo que Francisco Menezes começa a escrever letras para as canções.

A banda chega a actuar com todos os elementos envergando gabardinas, como era usual nas bandas de Rock inglês, praticantes do som de Manchester.

A Fundação Atlântica (editora discográfica de Pedro Ayres Magalhães, Ricardo Camacho e Miguel Esteves Cardoso) contrata a banda, em 1983, ano em que gravam o single "Glória" com letra de Miguel Esteves Cardoso. Este disco recebe grandes elogios da crítica, mas não obtém grandes favores da rádio e passa quase despercebido.

Susana Lopes abandona o projecto, ao mesmo tempo que entram em estúdio para gravar o novo disco: um LP que sairá em Julho de 1984 e se intitulará "A Um Deus Desconhecido", considerado ainda hoje um marco da nova música portuguesa.

Como a Fundação Atlântica fechou, a EMI, que fazia a distribuição das suas edições, contrata a banda para o seu próprio catálogo.

Ricardo Camacho (futuro produtor de muitos discos e médico de profissão) junta-se à banda, ficando encarregado dos instrumentos de teclados, ao mesmo tempo que Rodrigo Leão começa a ensaiar com Pedro Ayres num novo projecto que ficaria conhecido como Madredeus.

O novo disco da banda só sairia em 1987 e intitulava-se "Mar D'Outubro" (1). Continha os temas "Sete Mares", "Reconquista" e "Além-Tejo". Este disco torna-se um grande sucesso, atingido o galardão de Disco de Prata e sendo o grande trampolim para a ribalta. À custa deste disco, a banda conseguiu fazer muitos concertos.

O colectivo já contava com novos elementos quando o disco foi gravado: Gabriel Gomes (Acordeão) e Paulo Abelho (Percussões).

Em Novembro de 1989 é editado um novo LP da banda "De Um Tempo Ausente" que conta com vários convidados, entre os quais Flak, Francis (ex-Xutos e Pontapés), Luís Represas, Pedro Ayres e Teresa Salgueiro. Contendo os temas "Por Quem Não Esqueci" e "Porto Santo", este disco é, outra vez, um sucesso de vendas e de crítica.

Apenas em 1992, a banda regressa às edições com o novo disco "O Fogo" que já não é muito bem recebido pela crítica e não obtém o desejado sucesso comercial.

Em 1993 actuam no Mega-Concerto "Portugal Ao Vivo" no Estádio de Alvalade, onde gravam a quase totalidade do disco ao vivo "Auto de Fé" que será editado em 1994, contando com a participação especial dos Gaiteiros de Lisboa (de que Paulo Marinho era, também, um dos fundadores).

Rodrigo Leão afasta-se da banda, por não poder continuar nos Madredeus e nos Sétima Legião . Em Julho de 1996, o baixista Lúcio Vieira entra para a banda, substituindo Rodrigo Leão, nos espectáculos ao vivo.(2)

Em 1999, após se pensar que a banda tinha terminado, é editado o CD "Sexto Sentido", um disco muito diferente dos anteriores, onde a electrónica é dominante e os "samplers" de temas recolhidos por Michel Giacometti e Ernesto Veiga de Oliveira têm um destaque até aí nunca lhes dado por uma banda Pop em Portugal. Este disco, apesar das boas críticas, revela-se um verdadeiro "flop" comercial.

Em 2000 é editado "A História da Sétima Legião", um disco que faz a retrospectiva da banda e contém ainda dois temas inéditos ("A Luz" e "A Promessa").

Em 2003 é lançada uma compilação dedicada aos intrumentais dos Sétima Legião. A compilação inclui os inéditos "Sétima Volta", "Ilha Perdida" e "Silêncio da Terra" e uma remistura de "Ascenção".

Monção



Não importa de onde vim
Quantas sombras persegui
O tempo não passa por mim
Quando tu estás aqui

O tempo não passa por quem
Se perder no mar, mar
És o meu mar
O tempo não conta p'ra quem
Se encontrar no mar, mar
Sempre no mar

Tantas vidas para viver
Quantas faltam eu não sei
Que o tempo deixou de correr
Quando eu te encontrei

O tempo não passa por quem
Se perder no mar, mar
És o meu mar
O tempo não conta p'ra quem
Se encontrar no mar, mar
És o meu par

quarta-feira, setembro 05, 2012

Manto Branco



Um encanto que acabou
Manto branco sobre a luz
Outro vento que mudou
Manto branco e uma cruz

E dizer, eu posso sorrir
E dizer, eu posso fugir
E mentir, eu posso sentir
Ao viver depois de ti...

Torre santa apelo em vão
Uma herança de mudar
Manto branco pelo chão
Já não te posso tocar

E dizer, eu posso sorrir
E dizer, eu posso fugir
E mentir, eu posso sentir
Ao viver depois de ti...

terça-feira, setembro 04, 2012

Por quem não esqueci



Há uma voz de sempre
Que chama por mim
Para que eu lembre
Que a noite tem fim

Ainda procuro
Por quem não esqueci
Em nome de um sonho
Em nome de ti

Procuro à noite
Um sinal de ti
Espero à noite
Por quem não esqueci
Eu peço à noite
Um sinal de ti
Quem eu não esqueci...

Por sinais perdidos
Espero em vão
Por tempos antigos
Por uma canção

Ainda procuro
Por quem não esqueci
Por quem já não volta
Por quem eu perdi

terça-feira, julho 17, 2012

Samba do Acordo Ortográfico




Cadê você, morena?
Onde é que estás miúda?
Nina eu quero te encontrar
Precisamos conversar
Pra gente se entender.
Cadê você, morena?
Onde é que estás chabala?
Nina eu quero te encontrar
Precisamos conversar
Sobre o modo de escrever.
Eu não sei como vou fazer!
Tiro o H e aonde é que o vou meter?
Será que isto tem algum nexo?
Vão matar o acento circunflexo!
(e o galego?)
(refrão)
Eu não sei onde é que tu tá!
O acento grave para onde irá?
Eu não sei onde é que tá tu!
E o hífen depois do prefixo co!
(e o galego?)
(refrão)

Cantigas do Maio




Eu fui ver a minha amada
Lá prós baixos dum jardim
Dei-lhe uma rosa encarnada
Para se lembrar de mim

Eu fui ver o meu bemzinho
Lá prós lados dum passal
Dei-lhe o meu lenço de linho
Que é do mais fino bragal

Eu fui ver uma donzela
Numa barquinha a dormir
Dei-lhe uma colcha de seda
Para nela se cobrir

Eu fui ver uma solteira
Numa salinha a fiar
Dei-lhe uma rosa vermelha
Para de mim se encantar

Eu fui ver a minha amada
Lá nos campos eu fui ver
Dei-lhe uma rosa encarnada
Para de mim se prender

Verdes prados, verdes campos
Onde está minha paixão?
As andorinhas não param
Umas voltam outras não

Refrão Popular:

Minha mãe quando eu morrer
Ai chore por quem muito amargou
Para então dizer ao mundo
Ai Deus mo deu ai Deus mo levou

segunda-feira, julho 16, 2012

A volta ao mundo




O amor imaginário
De um homem solitário
Sem lugar a compromisso
Até ao fim e depois disso

Tem a idade do Universo
E tão breve quanto um verso
Do tamanho deste mundo
E não passa de um segundo

Começar desde o princípio
No vazio no precipício
Sem temor e sem saudade
Enfrentar a liberdade

Quem conhece o Universo
A medalha o seu reverso
Quem não deu a volta ao mundo
Numa noite num segundo

Nem do céu nem desta terra
A razão que o amor encerra
O amor é um estandarte
Que flutua em toda a parte

Quem conhece o Universo
A medalha o seu reverso
Quem não deu a volta ao mundo
Numa noite num segundo

sexta-feira, julho 13, 2012

GNR contra o acordo ortográfico desde 1992


Rui Reininho, Toli



Ação ator ato
Ponta-pé traves-tu barato

Bem-me-quer o Pedralvares cordato
Que era súbito direto de fato

Ótimo ou caricato
É um acordo ou é um buraco

Quem no quer esse muro concreto
É político mas analfa beto

A corda bamba da cultura
A ponte pênsil no ar
Acorda muda de figura
..."O Petróleo não é só Jr.!!!"...
("oil ain't all, Jr!!!")
(Anónima acunpuntura)

quinta-feira, julho 12, 2012

O canto e o gelo




No seu olhar um rosto a arder
No seu olhar
Que eu não sei ver

Tão é cedo é tarde
O canto e o gelo
Tão cedo parte
Vem o degelo

E quando o frio passou
Só me ficou o canto do meu medo
E quando o frio passou
Só me ficou o encanto de um segredo

Tão cedo é tarde
No seu olhar
Tão cedo parte fica o cantar

Levou assim
O canto e o gelo
Deixou em mim
A noite e o medo

quinta-feira, julho 05, 2012

Bíblias de um Deus Ateu




No caule
da efémera flôr
cresce firme o amor
Meu Deus! Alá!
Há lá maior contradição?

Eram
dois estrantes
tipo flores brotantes
crescendo dentro da tenda
dos festivais de verão

Sucumbe-se aos
cheiros floridos do caos
sustendo as pétalas e a respiração

(É que) Em matérias do amor
rega-flor, pisa-flor
estamos sempre adolescendo
espesso livro vamos lendo
e coitados!
Somos sempre uns iletrados
estamos sempre adolescendo

Escreve o meu livro
e eu escrevo o teu
biblias de um deus ateu
flor seca às vezes já marcou
o que o mau olhado leu
Acreditou? Já descreu
artificial natural podes crer
que ao amor
vera flor vera flor
já cresceu podes crer
já cresceu
androceu gineceu

E tudo
o que o amor souber
é para desaprender
gatos
que sobre os tectos
noite fora miarão

Quando é
que o amor felino
ganha tento e ganha tino
e afasta as unhas
de perto do coração?

E fora do vaso
a pétala puxada ao acaso
um pouco not at all beaucoup
abre o seu Sésamo ou não?

Em matérias do amor
rega-flor, pisa-flor
estamos sempre adolescendo
espesso livro vamos lendo
e coitados!
Somos sempre uns iletrados
estamos sempre adolescendo

Escreve o meu livro
e eu escrevo o teu
biblias de um deus ateu
flor seca às vezes já marcou
o que o mau olhado leu
Acreditou? Já descreu
artificial natural podes crer
que ao amor
vera flor vera flor
já cresceu podes crer
já cresceu
androceu gineceu

E depois
regressa-se aos
moldes rombos de outro caos
ordem na sala
e junto à porta
a mala no chão

Enfim: metaforizando
a flor abre-se até quando?
e quando, depois de murchar
volta à lapela em botão?

(É que) Em matérias do amor
rega-flor, pisa-flor
estamos sempre adolescendo
espesso livro vamos lendo
e coitados!
Somos sempre uns iletrados
estamos sempre adolescendo

Escreve o meu livro
e eu escrevo o teu
biblias de um deus ateu
flor seca às vezes já marcou
o que o mau olhado leu
Acreditou? Já descreu
artificial natural podes crer
que ao amor
vera flor vera flor
já cresceu podes crer
já cresceu
androceu gineceu

quinta-feira, junho 28, 2012

Saudades




Das janelas da cidade
Amei-te como ninguém.
Foram tempos sem idade
Mas quem teve hoje não tem...

Saudades, triste fado
É tempo de te amar
Saudades, cantam fado
É tempo de voltar

Das janelas ao teu lado,
Tão antigas, que eu amei.
Vou cantar este meu fado
De viver o que sonhei...

Saudades, triste fado
É tempo de te amar
Saudades, cantam fado
É tempo de voltar

Saudades, triste fado
É tempo de te amar
Saudades, que serão fado
Se o tempo nos faltar...

sexta-feira, junho 22, 2012

É nosso, o S. João


Se houver um dia
em que a gente
vai de tudo num repente
não devia ser um dia de excepção
por isso o povo junto
pouco a pouco se faz muito
menos por mais igual a todo o S. João

Se ainda me socorro
do odor do alho porro
é p´ra não ver no martelo
só a plastificação
e verdade seja dita
o som que dele apita
é o eco da cabeça do meu S. João

É nosso, o S. João
isso, ninguém nos tira
tira todo o ar que houver
na tua respiração
Sopra a noite inteira
num balão de S. João
Atravessa a noite
É S. João!

Mas se houver um dia
em que a gente
negue tudo intimamente
e se preste à mais perdida confusão
que volte ao calendário
e, embora solitário
se junte à gente toda pelo S. João
É nosso, o S. João
isso, ninguém nos tira
tira todo o ar que houver
na tua respiração
Sopra a noite inteira
num balão de S. João
Atravessa a noite
É S. João!

Se houver um dia
em que a gente
sinta ao lado o seu parente
que se aperte nos seus laços a emoção
e carago!
contas à Porto, está tudo pago
quem desconta na factura é o nosso S. João

É nosso, o S. João
isso, ninguém nos tira
tira todo o ar que houver
na tua respiração
Sopra a noite inteira
num balão de S. João
Atravessa a noite
É S. João!

O São João







quinta-feira, junho 21, 2012

São João




Nas rusgas de Miragaia
vinham bruxas disfarçadas
traziam erva cidreira
e cantavam orvalhadas.

Bati os bailes da Sé
e acabei nas Fontainhas
mergulhado em vinho tinto
com pimentos e sardinhas

Percorri toda a cidade
de Ramalde a Campanhã
cheguei a casa tão tarde
era quase de manhã

Fiz depois o meu pedido
entre cravos e loureiros
pra que um dia fosses minha
e não perdesse o Salgueiros.

A minha sorte há-de vir
num vaso de manjerico
ainda não perdi a esperança
de um dia ficar rico.

Se a nossa vida não muda
e nos vai faltando o pão
vamos pedindo uma ajuda
ao brejeiro S. João

sexta-feira, junho 15, 2012

Noutro lugar




D'outra vez, noutro lugar
Ninguém espera junto ao cais
Sem razão, barcos que não voltam mais
Os dias vão sem te levar...

E tenho tanto a contar
Hey, tens tanto para ver
Tens ainda de aprender
Os nomes que te vou dar

Oh noutro lugar
Para todo o sempre
Oh há uma canção
Que faz partir
Oh noutro lugar
Para sempre, sempre
Oh há uma canção
Que está por descobrir
Vem...

D'outra vez, noutro lugar
Os anos passam sem pesar
Sem razão, vão em busca da canção
Que ficámos de cantar...

E tenho tanto por contar
Hey, tens tanto para ver
Tens ainda de aprender
Os nomes que dei ao mar

Oh noutro lugar...

quinta-feira, junho 14, 2012

Porto Santo




"Não temos leme nem existe porto"
D. H. Lawrence

Dum porto perdido
Um dia partiu
Meu amor perdido,
Quem será que o viu?

Eu conto a quem passa
Levou-te o mar...
Há festa na praça
Já não sei dançar...

Mas à noite há vozes aqui
São de longe, tão longe
E falam de ti

Um porto perdido
Um dia encontrou
Meu amor perdido
Que sempre voltou...

Eu conto a quem passa
A vida no mar
Já cantam na praça
E vamos dançar...

Mas à noite há vozes aqui
São de longe, tão longe
E chamam por ti

terça-feira, junho 12, 2012

Sete Mares




Tem mil anos uma história
De viver a navegar...
Há mil anos de memórias a contar...

Ai, cidade à beira-mar
Azul

Se os mares são só sete
Há mais terra do que mar...
Voltarei amor com a força da maré
Ai, cidade à beira-mar
Ao sul

Hoje
Num vento do norte
Fogo de outra sorte
Sigo para o sul
Sete mares

Foram tantas as tormentas
Que tivemos de enfrentar...
Chegarei amor na volta da maré
Ai, troquei-te por um mar
Azul

Hoje
Num vento do norte
Fogo de outra sorte
Sigo para o sul
Azul

12 de Junho - Dia Mundial contra o Trabalho Infantil




Acorda rapaz, o dia rompe
através do sono escuro
abriga o teu corpo de onze anos
tens que ir trabalhar no duro

No ano passado, neste tempo
ainda andavas tu na escola
mas a família cresce e tu és rijo
e aqui ninguém pede esmola

Hoje vais ser homem
por quase nove horas
sabes lá das horas ...
mas talvez amanhã seja domingo no mundo
e tudo bata certo nem que por um segundo
fogo de artifício se veria
se fosse assim p'ra sempre um dia

Cuidado
atenção
é proibido fazer lume
risco de explosão

Carregas canudos em caixotes
fazes fogos de artifício
misturas a pólvora às estrelas
e o arco íris ao bulício

Se chega o fiscal, faz-te de tolo
estás ali porque até gostas
deixa o patrão dar-lhe o envelope
e ficas logo grande, apostas?

Hoje vais crescer
p'ra lá do teu tamanho
o cansaço é tamanho ...
mas talvez amanhã seja domingo no mundo
e tudo bata certo nem que por um segundo
fogo de artifício explodiria
se fosse assim p'ra sempre algum dia

Cuidado
atenção
é proibido fazer lume
risco de explosão

Cuidado com o manuseamento
não te enganes tu também
olhas de soslaio o tipo ao lado
que três dedos a menos tem

Paras p'ro almoço e à sucapa
vês revistas de homens grandes
vais ter que acender o teu cigarro
nem que pelos ares te mandes

Ah, como é difícil
saber do amor
eu sei lá o que é o amor ...
mas talvez amanhã seja domingo no mundo
e tudo bata certo nem que por um segundo
fogo de artifício explodiria
se tu me amasses algum dia

Cuidado
atenção
é proibido fazer lume
risco de explosão

Na fábrica de fogo de artifício
houve, dizem, fogo posto
e um menino sonha a noite inteira
que perdeu no escuro o rosto

sexta-feira, maio 25, 2012

Demónios Interiores




Sentei à minha mesa
os meus demónios interiores
falei-lhes com franqueza
dos meus piores temores

tratei-os com carinho
pus jarra de flores
abri o melhor vinho
trouxe amêndoas e licores

chamei-os pelo nome
quebrei a etiqueta
matei-lhes a sede e a fome
dei-lhes cabo da dieta

conheci bem cada um
pus de lado toda a farsa
abri a minha alma
como se fosse um comparsa

E no fim, já bem bebidos
demos abraços fraternos
saíram de mansinho
aos primeiros alvores
de copos bem erguidos
brindámos aos infernos
fizeram-se ao caminho
sem mágoas nem rancores

Adeus, foi um prazer!
disseram a cantar
mantém a mesa posta
porque havemos de voltar

segunda-feira, maio 14, 2012

Menina dos meus olhos




Fosse a menina dos meus olhos puta
e fornicara com as televisões
as duas novas da greta e da gruta
e as duas velhas pelas mesmas razões

rectangular e omnipresente nesga
que tem pra tudo as melhores soluções
fosse a menina dos meus olhos vesga
logo lhe dera as suas atenções

ai fosses tu menina dos meus olhos
com teus lacinhos e caracóis
a inocência vai nos entrefolhos
e fica a pátria amada em maus lençóis

entram pelas casas sem ser convidados
tempos de antena e outros futebóis
ficaram todos mais bem informados
opinião pública dos o...rinóis

são cus e mamas a dançar de gatas
mailas gravatas dos seus figurões
as euforias ficam mais barata
se domesticam-se as excitações

pobre menina ficas à janela
depenicando as tuas distracções
lavas a loiça fazes a barrela
mas essa merda não cede às pressões

os antropófagos das nossas dores
tomaram conta da aldeia global
fazem milhões a converter horrores
em audiências de telejornal

o insuportável torna-se rotina
e a realidade já é virtual
a dor da gente é inesgotável mina
que lhes rentabiliza o capital

as reportagens e as telenovelas
juntam os trapos pezinhos de lã
com a verdade ali a olhar pra elas
histórias da civilização cristã

já não é sangue o líquido vermelho
que nos reserva o dia de amanhã
e tu menina vais-te vendo ao espelho
e sofres dos dois lados do ecrã

noventa e quatro chegou à cidade
noventa e oito está quase a chegar
fez vinte aninhos a nossa liberdade
já é bem tempo de a desvirginar

e se o dinheiro não dá felicidade
televisões bem a puderam dar
talvez que para manter a sanidade
eu chegue ao ponto de ter que cegar

e a menina dos meus olhos há-de
conseguir ver para além do meu olhar

«José Mário Branco, ao Vivo em 1997», CD2, faixa 3, 1997

segunda-feira, maio 07, 2012

Luz



Ano: 2000

Eu andei no escuro
E alguém aqui passou
P'ra me iluminar

Sou quem viu no futuro
Este amor que começou
Por quem me quis dar
A minha luz...

Ninguém viu no teu olhar
A luz que ilumina o meu andar
Ninguém viu este amor a começar
Mas alguém
Tem na voz o teu cantar

Foste quem partiu tão cedo
E eu sou quem tem um segredo
Quem te vai guardar

Foste quem me viu tão perto
E eu sou quem foi descoberto
Quem há-de cantar
A tua luz...

Ninguém viu no teu olhar
A luz que ilumina o meu andar
Ninguém viu este amor a começar
Eu sou quem
Tem na voz o teu cantar

Houve dias em que não quisemos ser felizes

Houve dias em que não quisemos ser felizes.
Impusemo-nos uma tristeza com estilo, uma melancolia importada de terras longínquas e cinzentas. Ouvíamos ecos de cidades industriais, cantados pelos novos mártires. “Here are the young men”, diziam. E estranhamente, éramos nós esses jovens, aparentemente com o peso do mundo às costas, vestidos de gabardinas que nos identificavam como pessoas esclarecidas. Eu sei. Eu estive lá.
Foi neste quadro que nasceu a Sétima Legião. Primeiro, um improvável power trio que conquistou um segundo lugar num anónimo concurso de música moderna.
Depois, pouco depois, um colectivo que rasgou as molduras em que os quiseram enclausurar e arrastaram consigo toda a novíssima música portuguesa.
Esta colecção de canções traz alguns dos sinais. Dos primeiros tempos ingénuos e generosos (mas nem por isso menos geniais) de “Glória” (1982) ou “O Canto e o Gelo” e “Manto Branco” (1984) a “Monção” (1988) foi longo o caminho percorrido por este grupo de amigos. E ainda há tempo para recordar os hinos (“Sete Mares”, “Por quem não esqueci”) e saborear os dois inéditos – curiosamente com um travo saudavelmente nostálgico.
No fim, o segredo da Sétima Legião ainda continua por desvendar. A única coisa que sabemos é que o tempo não irá roubar estas canções.

Nuno Miguel Guedes
2000
in A história da Sétima Legião – canções 1983-2000

quinta-feira, março 29, 2012

Vamos andando (só temo pelos outros)




Vamos levando, vamos aprendendo.
Vamos passando os dias sendo.
Vamos registando e esquecendo:
vamos perdoando, vamos crescendo.

Vamo-nos abraçando, vamos ficando
ternos irascíveis. Eu bem percebo.
Queremos o mesmo - não desfazendo.
Levamos avanço, ainda é cedo.

Só temo pelos que os outros vão sendo.

Vamos decifrando um pouco de tudo
do de tudo um pouco que nos vão dizendo,
porque cremos que todos temos bom fundo
e é isso que ainda nos vai entretendo.

Assumimos: estamos sempre um pouco àquem;
e, para conservarmos nossa sanidade,
constantemente incutimos a culpa a alguém…
Não vejo nisso motivos pra tanto alarde.

Só temo pelo que os outros vão sendo.

Somos patéticos quando simpáticos,
somos estúpidos e problemáticos.
Acabamos casmurros, e o que é fantástico
é que complicando tudo às vezes somos práticos.

Vamos andando, deixemo-nos ir.
Há futuro enquanto conseguirmos rir;
e tudo o que hoje fizermos de errado
incontornavelmente torna-se passado.

Só temo pelo que os outros vão ver.
Só temo pelo que os outros vão ter.

Europa




Ahhhhhh Europa, eu também quero uma oportunidade

Grito Sagrado



quarta-feira, março 28, 2012

Alegremente Cantando e Rindo Vamos




Vamos cantando e rindo, alegremente.
Constatamos: borramos o mindinho.
É insignificante o preço para que nos aprovem o caminho.

Vamos cantando e rindo. Alegremente
deixando que a merda nos chegue ao umbigo.
Não há perigo, não há perigo — estão aqui muitos comigo.

Vamos cantando e rindo, e eu acho isso lindo.
Vamos cantando e rindo, e eu acho isso tão lindo.

Vamos cantando e rindo. Alegremente
deixando que a merda nos chegue aos ouvidos.
E é impressionante… Como é que eu ainda respiro?

Vamos cantando e rindo. Alegremente
enterrados na merda que nos impingem.
É o nosso destino. Não se contraria o destino…

Vamos cantando e rindo, e eu acho isso lindo.
Vamos cantando e rindo, e eu acho isso tão lindo.

E ainda cantamos. E ainda cá estamos.
E ainda servimos por mais alguns anos.

E ainda cantamos. E ainda nos rimos.
E ainda ficamos por mais alguns anos.

segunda-feira, março 26, 2012

Anda comigo ver os aviões




Anda comigo ver os aviões levantar voo
A rasgar as nuvens
Rasgar o céu

Anda comigo ao porto de Leixões ver os navios
a levantar ferro
a rasgar o mar

Um dia eu ganho a lotaria
Ou faço uma magia
Mas que eu eu morra aqui
Mulher tu sabes o quanto eu te amo,
O quanto eu gosto de ti
e que eu morra aqui
Se um dia eu não te levo à América
Nem que eu leve a América até ti

Anda comigo ver os automóveis à Avenida
A rasgar as curvas
A queimar pneus

Um dia vamos ver os foguetões levantar voo
A rasgar as nuvens
A rasgar o céu...

Um dia eu ganho o totobola
Ou pego na pistola
Mas que eu morra aqui
Mulher tu sabes o quanto eu te amo
O quanto eu gosto de ti
E que eu morra aqui
Se um dia eu não te levo à Lua
Nem que eu roube a Lua
Só para ti


Um dia eu ganho o totobola
Ou pego na pistola
Mas que eu morra aqui
Mulher tu sabes o quanto eu te amo
O quanto eu gosto de ti
E que eu morra aqui
Se um dia eu não te levo à América
Nem que eu leve a América até ti

sexta-feira, março 16, 2012

Índios na Reserva




A poesia não se perde
ela apenas se converte
nestas paredes tão fechadas
que nada têm p'ra me dizer.
O que os muros sociais
têm guardado para contar
ninguém quer encarar.

Somos índios na reserva que visitas
obrigado pelo donativo... não aceito!

Mas a reserva não é mãe
e no meu gueto o medo abala
todos aqueles que ainda
se recusaram a desistir
de procurar na nossa sombra
uma razão para viver
com um pouco mais de dignidade.

Somos índios na reserva que visitas
obrigado pelo donativo... não aceito!

Porque aprendemos tão cedo
a escutar as histórias
como único socorro
promissor que nos resta.

quinta-feira, março 15, 2012

Zorro



João Monge e Jorge Prendas

Eu quero marcar o “Z” dentro do teu decote
Ser o teu Zorro de espada e capote
Para te salvar à beirinha do fim
Depois, num volte-face, vestir os calções
Acreditar de novo nos papões
E adormecer contigo ao pé de mim

Eu quero ser para ti a camisola 10
Ter o Porto todo nos meus pés
Marcar um ponto na tua atenção
Se assim, faltar a festa na tua bancada
Eu faço a minha última jogada
E marco um golo com a minha mão (mesmo à Benfica... ;-))

Eu quero passar contigo de braço dado
E a rua toda de olho arregalado
A perguntar: como é que conseguiu?
Eu puxo da humildade da minha pessoa
Digo da forma que menos magoa:
Foi fácil! Ela é que pediu.

Canção do bandido (o Zorro)


João Monge / João Gil


Quando me chamas bandido
Como se eu fosse um caso perdido
Que se dá sempre o golpe perfeito no teu coração
Já sei que vai haver assalto
Vou começar no teu salto alto
E acabar prisioneiro na cova-do-ladrão

Quando me chamas canalha
Por dá cá aquela palha
É o teu jeito matreiro de lançar as redes
Dizes asneiras baixinho
Para poupar o pobre do vizinho
De saber de nós dois pelas paredes

Quando me chamas pelo nome
Até fico com frio e com fome
Como aquele menino da rua que anda perdido
Então peço a todos os santos
Que devolvam os meus encantos
E que tu me voltes a chamar apenas bandido
 

Eu quero marcar o “Z” dentro do teu decote
Ser o teu Zorro de espada e capote
Para te salvar à beirinha do fim
Depois, num volte-face, vestir os calções
Acreditar de novo nos papões
E adormecer contigo ao pé de mim

Eu quero ser para ti a camisola 10
Ter o Porto todo nos meus pés
Marcar um ponto na tua atenção
Se assim, faltar a festa na tua bancada
Eu faço a minha última jogada
E marco um golo com a minha mão (mesmo à Benfica... ;-))

Eu quero passar contigo de braço dado
E a rua toda de olho arregalado
A perguntar: como é que conseguiu?
Eu puxo da humildade da minha pessoa
Digo da forma que menos magoa:
Foi fácil! Ela é que pediu.

segunda-feira, março 12, 2012

Canção da Fome




Letra: Georg Weerth*
Música: João Gil

* - in "Rosa do Mundo 2001 -- Poemas para o Futuro" (Assírio e Alvim)

Prezado senhor e rei,
Sabes a notícia grada?
Segunda comemos pouco,
Terça não comemos nada.
Quarta sofremos miséria,
E quinta passámos fome;
Na sexta quase nos fomos,
Não se aguenta quem não come!
Por isso vê se no sábado
Mandas cozer o pãozinho,
Senão no domingo, ó rei,
Vamos comer-te inteirinho.

quinta-feira, março 08, 2012

Amor é fogo que arde sem se ver


Luís de Camões / João Gil



Amor é fogo que arde sem ser ver.
É ferida que dói, e não se sente:
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

segunda-feira, março 05, 2012

Engrenagem




Do berço à cova sem parar
caminho fora sempre a andar
cá vou levando a minha vida

Um minutinho a descansar
a vida inteira a trabalhar
suor sem conta nem medida

Pra ter um companheiro nesta viagem
vou meter um pauzinho na engrenagem

Do berço à cova sem vagar
enxada à terra barco ao mar
a mão e a máquina a compasso

Os bois no campo a lidar
E o serventio a trabalhar
todos com o mesmo cangaço

Pra ter um companheiro nesta viagem
vou meter um pauzinho na engrenagem

Do berço à cova sol a sol
por pão, amor e futebol
dor no sapato e dor na espinha

Canta-se o fado em lá bemol
morde a sardinha no anzol
E o tubarão segura a linha

Pra ter um companheiro nesta viagem
vou meter um pauzinho na engrenagem

Do berço à cova sem parar
caminho fora sempre a andar
cá vou levando a minha vida

Um minutinho a descansar
a vida inteira a trabalhar
suor sem conta nem medida

Pra ter um companheiro nesta viagem
vou meter um pauzinho na engrenagem

sexta-feira, março 02, 2012

Ó meu quero pai natal




Letra: João Monge
Música: João Gil

Pai, ensina-me a pôr as letras a eito
Que eu quero escrever uma carta importante
A pedir umas coisas que davam jeito
E uma ou outra delirante

Pai, “Alice” é com cê ou com dois ésses?
E “pião” leva uma cobrinha no á?
Não te rias, dá-me ajuda, não comeces
Mais sério que isto não há

Ó meu querido Pai Natal
Vou-te dizer
As coisas que nunca disse
Não sou mau e nem sou duro de roer
Fala de mim à Alice
E se ela mandar dizer
Que não, que não
Não me deixes amuado
Tira da saca o mais bonito pião
E está tudo perdoado

Pai, achas que estou pedindo a mais?
O das barbas tem muito a quem atender
Se eu fiquei em branco nos outros natais
Ainda lhe peço uma flober

Já lá vem de porta em porta o carteiro
À recolha das cartinhas com pedidos
O meu é do mais sincero e verdadeiro
Haja quem me dê ouvidos

Ó meu querido Pai Natal
Vou-te dizer
As coisas que nunca disse
Não sou mau e nem sou duro de roer
Fala de mim à Alice
E se ela mandar dizer
Que não, que não
Não me deixes amuado
Tira da saca o mais bonito pião
E está tudo perdoado

quinta-feira, março 01, 2012

Ave rara de Xangai

João Monge/João Gil


Água que cai
Lá vai...
Lá vai...
Levai a flor daquela saia
Faz que ela saia dessa rua
Ou então faz que ela caia

Água que cai
Lá vai...
Lá vai...
Levai pra longe do meu poiso
Essa ave rara de Xangai
Ou então faz que ela coiso

Eu peço à núvem do céu
Que faça um truque de Merlim:
Que a sua chuva deixe ao léu
Essa mulher só para mim

terça-feira, fevereiro 07, 2012

Vida tão estranha




São de veludo as palavras
Daquele que finge que ama
Ao desengano levo a vida
A sorte a mim já não me chama

Vida tão só
Vida tão estranha
Meu coração tão maltratado
Já nem chorar
Me traz consolo
Resta-me só um triste fado

A gente vive na mentira
Já não dá conta do que sente
Antes sozinha toda a vida
Que ter um coração que mente

Vida tão só
Vida tão estranha
Meu coração tão maltratado
Já nem chorar
Me traz consolo
Resta-me só um triste fado