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terça-feira, novembro 27, 2012

Quem sabe



quem sabe eu nem vos quero bem
quem sabe eu nem sou ninguém
quem sabe eu não sei quem

quem sabe eu sou quem queria ser
quem sabe eu nunca o vou saber
quem sabe eu sou bem melhor

quem sabe o medo é minha cruz
quem sabe o medo é meu motor
quem sabe o medo é luz

quem sabe eu não estou só a tentar
desesperadamente uma razão
para seguir ou para não parar
pois tudo se passa sem eu ver

sábado, novembro 24, 2012

Estou pronto



eu pressinto a presença
como vento em minha espinha
eles saber dos meus planos
sua casa é a minha
vou abrindo ao medo as minhas mãos
como abrindo ao medo as minhas mãos
eu desejo a sentença
como prova de uma prova
na saúde
na doença
numa crença
numa cova

vou abrindo ao medo as minhas mãos
como abrindo ao medo as minhas mãos

como vento em minha espinha
eles saber dos meus planos

terça-feira, outubro 30, 2012

Nunca parto inteiramente



Nunca parto inteiramente
Não me dou à despedida
As águas vão simplesmente
Presas à sua nascente
É do seu modo de vida

Fica sempre qualquer coisa
Qualquer coisa por fazer
Às vezes quase lamento
Mas são coisas que eu invento
Com medo de te perder

Deixei um livro marcado
E um vaso de alecrim
Abri o meu cortinado
Fiz a cama de lavado
Para te lembrares de mim

Nunca parto inteiramente
Vivo de duas vontades:
Uma que vai na corrente,
A outra presa à nascente
Fica para ter saudades

Tu não tens de mudar



Se o tens de ouvir tens de o fazer
E o mundo diz "tu tens de mudar"
Só não lavou as tuas mãos
Mas tens as mãos do mundo para lavar
Afasta-te um pouco mais
E dorme em paz que tu não tens de dar
O teu sorriso assim
Esgotando o teu juízo assim
Tu não tens de mudar
Quem te quer mudar não te quer
Conhecer
Tu não tens de o fazer

Eu não tenho nada meu
Pois tudo o que era bom foi na
Corrente do ter
E agora dei-me um dia para ser feliz
Para ver que eu nunca vou ter o mundo
Na minha mão
Não tenhas pena de mim agora
Meus dias já não são de ouro
Dantes sim existia um problema
Agora todos nós somos actores de cinema
E escondemo-nos bem dos olhos que o
mundo tem
Mas toda a gente nos vê
Só não nos ouve ninguém
Tu não tens de ver
Tu não tens sequer de amar
Tu só vais achar que vês
Quando ao sabor da tua lei
O amor fizer de ti seu rei para sempre

sexta-feira, outubro 01, 2010

Ninguém é quem queria ser

Letra: Manuel Cruz
in: Lado A - O Amor Dá-me Tesão / Foge Foge Bandido

somos a fachada
de uma coisa morta
e a vida como que a bater à nossa porta
quando formos velhos
se um dia formos velhos
quem irá querer saber quem tinha razão
de olhos na falésia
espera pelo vento
ele dá-te a direcção

ninguém é quem queria ser
eu queria ser ninguém

a idade é oca e não podia ser motivo
estás a ver o mundo feito um velho arquivo
eu caminho e canto pela estrada fora
e o que era mentira pode ser verdade agora
se o cifrão sustenta a química da vida
porque tens ainda medo de morrer
faltará dinheiro
faltará cultura
faltará procura dentro do teu ser

diz-me se ainda esperas encontrar o sentido
mesmo sendo avesso a vê-lo em ti vestido
não tens de olhar sem gosto
nem de gostar sem ver
ninguém é quem queria ser