segunda-feira, setembro 22, 2008

Badochas

Texto de Jorge Prendas in Blog das Vozes da Rádio


A Organização Mundial de Saúde há muito que vem alertando para o problema da obesidade. Confesso a minha distracção, pois nunca tinha visto, apesar de volumoso, a dimensão do problema. Tenho alunos tipo-bola, convivo com gente bem anafada e até quando o Vilhas se distrai mais, todos reparamos, fazemos comentários e acabamos por despoletar uma dieta no baixo africano.
Mas nada disto se compara com as dezenas, talvez centenas ,de obesos que vi estas férias. Gente gorda mesmo. Falo-vos de massas enormes que se moviam com dificuldade pela areia, ou que mergulhavam no oceano provocando ondulação suplementar, bem distinta daquela que é regida pelas forças magnéticas do planeta. Falo-vos de badochas: crianças e adolescentes em corpos de baleias, orcas ou até de bovinos, que muito me deixaram assustado!
Problemas hormonais de lado e tento arranjar explicação para tanta gordura. Estética? De todo! Os corpos bem fornecidos de substância gorda há muito deixaram de estar na moda. Ficam bem nos quadros do Velazquez, ou até, séculos depois, nos filmes a preto e branco dos anos 10 e 20 do século passado. Mesmo nestes casos, a gordura é aceitável e pode até ser formosura (o Jony aqui poderia dar ajuda, com argumentação muito própria). No que eu vi, não era de certeza. Não há formusura possível numa área tão alargada de ser humano. Encitamento à robustez? Não. Criança bem nutrida, também há muito que deixou de ser sinónimo de saúde. E aquilo que eu vi não eram seres bem nutridos. Eram postas volumosas de carne.
Segui, num passeio pela praia, um grupo de três adolescentes, badocha-style, e aos poucos fui encontrando a justificação para a existência de tanta gordura. Levavam pela mão uns sacos onde alojavam toneladas de comida. Pãozinho caseiro? Fruta? Nada disso! Primeiro, quais debulhadoras, limparam pacotes de batatas fritas e snacks. Vários. A seguir comeram alarvemente uns nacos de pão recheados com carne de porco (consegui sentir o cheiro atrás...). A acompanhar refrigerantes. Cada um, mais de uma lata. Para terminar um bolicao e um chocolate!
Estou a descrever-vos aquela refeiçãozinha frugal do meio da manhã, aquela que no meu tempo (obrigado mãezinha) era um pãozinho, uma peça de fruta e água ou leite.
Não me estranharia nada que depois daquilo tudo, os três porcões se tivessem dirigido ao McDonalds mais próximo para continuarem a encher o bandulho. Mais filosofo e conjecturo, provavelmente os pais até lhes teriam dado o dinheiro para eles continuarem a enxofrar o corpo de comida enlatada.
Pois é, hoje em dia acabou o saquinho de pano, a visita à padaria logo pela manhã, a lancheira escolar. O Kinder delice, o bolicao, o panrico com nutella, as bolachas do Ruca e tantos outros produtos vão-nos poupando tempo precioso, agradam muito aos meninos e ao mesmo tempo vão criando panzers humanos. Pessoas (e pensar isto choca-me muito) que deixam de ver os seus genitais! Isto não abona em nada! E pior, prejudica até a higiene!
Por isso amigos, cuidado com o que comem e com o que dão a comer. Não queiram ter as visões gigantescas que eu tive estas férias... e só por causa disso os meus potenciais badochas cá de casa passaram a um regime de água e pouco mais..

sexta-feira, setembro 19, 2008

Vozes na Rádio


Os Vozes da Rádio, passaram a ter um programa de humor segunda à sexta, às 8h20 da manhã no Rádio Clube Português.
Como nem sempre o horário é cumprido ou no caso de perderes algum, podes sempre ouvir aqui.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Comércio Justo, de parabéns!


A loja de Comércio Justo de Cedofeita, no Porto, celebrou ontem o seu 2º aniversário.

Neste endereço Amar o Porto, podem ver a reportagem efectuada pelo Blog Amar o Porto.

segunda-feira, setembro 15, 2008

Croquetes

Texto de Jorge Prendas, publicado no blog das Vozes da Rádio

Já agora não percam de segunda a sexta às 8h20, no Rádio Clube Português o programa "Vozes na Rádio", animado pelos Vozes da Rádio. Uns autênticos Gato Fedorento Radiofónicos! :-)


Volto às minhas observações. Volto aos meus passeios de verão e à minha passagem pela praia. Para início devo dizer que gosto tanto de praia, como o Vítor Baía gosta do Scolari. Uma esplanada, com boa comida, bebida e boa companhia, sim. Agora o desperdício das horas estendido na areia é algo que não me entra na cabeça desde muito novo. Por isso o tempo em que sou obrigado, por motivos que não medem mais de um metro e vinte, a pôr os meus pés na areia, passo-o de antenas ligadas e sentidos bem apurados.
Já sei, está toda a gente a pensar que vou para lá como voyeur, tentando sempre encontrar toplesses que comprovadamente passam com distinção no teste do lápis. Mas não. Observar é muito mais do que isso, ou melhor, é isso e muito mais.
Assim, e num dos dias de tormento no areal, olhei um pouco para cima e avistei a poucos metros uma senhora nos seus tardios 50 (aquilo a que eu há poucos anos atrás chamaria de velha, mas que agora, com o passar do anos, tendo a ser mais cuidadoso no uso desta palavra), com um borrifador, daqueles com aerosol, que de 5 em 5 minutos esguichava água para cima do seu corpo. O seu corpo seco e quase preto fez-me recordar os mais reles croquetes que volta e meia eram servidos na cantina do ciclo preparatório. Eram croquetes claramente feitos de restos, mirrados, sem carne e esturricados, passados por óleo que já tinha visto mais de cem espécies do mundo animal e vegetal. O paladar é impossível de pôr em palavras, mas para avaliarem, os ditos croquetes só eram comidos porque a fome àquela hora, tal como os croquetes, era negra.
Saltou-me à memória uma viagem das Vozes. Não sei em que ano, mas seguramente com tempo quente. Nesse dia, o Vilhas estava particularmente empertigado com o movimento de veraneantes que entupia a estrada. Tudo gente que, como a dita senhora, buscava a condição do croquete. Vociferou nessa altura o nosso baixo: “Durante 400 anos deram-nos porrada e chamaram-nos atrasados. Agora vai a carneirada toda para a praia tentar ficar preta como nós. Afinal quem são os atrasados?”. Sábias palavras! Afinal que raio de gente atrasada é esta que busca a condição dérmica de um Obikwelu ou de um Samakuva? O que é que estas últimas gerações buscam ao fritarem ao sol, além da óbvia futilidade? Ou, pior ainda, depois do sol já não convidar a prolongadas horas de inutilidade, que quer esta gente ao tentar perpetuar a cor debaixo de lâmpadas? Não é isto tão ridículo como o Michael Jackson branco?
O meu sentido mais altruísta e os bichos-carpinteiros quase me levaram a levantar e a dirigir-me àquele corpo em pior estado que o Tutankamon e a dizer-lhe: “tu eres asquerosa, tía. Tu piel es peor que las croquetas de mi escuela. No hay hombre, mujer o perro, hasta lo mas ciego, que te pueda querer así, coño! Piensa blanco, joder!”.
Infelizmente nem sempre o meu filantropismo e misericórdia falam mais alto. Foi o que aconteceu neste caso. Deixei-me estar, procurei sombra e continuei a brincar com as forminhas.

Fachada



sexta-feira, setembro 12, 2008

A foder o país!


A Ryanair desiste de criar uma base no Aeroporto de Pedras Rubras.
Há cerca de um ano, a Ryanair propôs à ANA, a instalação de uma base no Porto, prometendo a atracção de quatro milhões de passageiros, ao longo de sete anos.
A proposta não mereceu resposta positiva, tendo a ANA sugerido a criação da dita base em Lisboa, tendo respondido a Ryanair e bem, que ou seria no Porto, ou iriam para Espanha. Infelizmente para o país, e não só para o Porto ou o Norte, a Ryanair anunciou ontem, que irá para Barcelona. O país irmão, ao que parece, não se importa de ter uma base em Barcelona, em vez de a ter em Madrid. São maiores do que nós em termos geográficos, e pelos vistos em intelecto também!
Por este andar, em breve nem sequer voos da Ryanair aterrarão no Porto, sendo trocado por aeroportos galegos. Perde o país, e perdem os portugueses, que deixam de ter voos baratos para se ausentarem desta merda de país!

Quem nos governa, anda a gastar dinheiro na construção de um novo aeroporto de Lisboa, que nem a região, nem o país necessitam, impossibilitando outras regiões do país, de crescerem, de se afirmarem, de se dinamizarem.
Comem tudo e não deixam nada!
Já no dia seguinte à Red Bull Air Race, podia-se ler nos jornais "Apesar do interesse de Lisboa, corrida manter-se-á no Porto." Eu até sou crítico desse evento. Quanto mais não fosse por questões ambientais, mas c'os diabos... Deixem-nos em paz, porra!

Andam a foder o país! E nós todos, o que é que podemos fazer?!
Já dizia o Abrunhosa: Talvez fodê-los, talvez fodê-los!
2009 está à porta, por isso meu amigo, escuta o Pedro Barroso quando ele diz:

Vota Vermelho bem Vivo
Não votes alaranjado
Não votes verde
Nem azul
Que para aqui não é chamado

Vota por ti nesta luta
Porque sem ti a nação
Entregue aos filhos da puta
É que não avança não

Guilherme Rietsch Monteiro

11 de Setembro

Terrorismo Pictures, Images and Photos

quinta-feira, setembro 11, 2008

Reviravolta no «Biosfera» da RTP2


No âmbito do projecto «Consumo Responsável em Rede» a Reviravolta realizou sessões de cinema em Junho onde lançou as seguintes questões:

Uma camisola, uma toalha sobre a mesa, umas calças de ganga: algodão, linho ou outras fibras cultivadas, trabalhadas, vendidas, adquiridas …Fazem parte do nosso dia a dia.
Mas como funciona este mundo? Um outro mundo é possível?

Jornalistas do programa «Biosfera» estiveram lá.
Desse contacto, resultou o nosso contributo para o programa.
Assim, a Reviravolta esteve dia 10.09.08 no «Biosfera».

Ora vejam!
Clica aqui!

Rio das Flores


[...]
Há decisões que se tomam e que se lamentam a vida toda e há decisões que se amarga o resto da vida não ter tomado. E há ainda ocasiões em que uma decisão menor, quase banal, acaba por se transformar, por força do destino, numa decisão imensa, que não se buscava mas que vem ter connosco, mudando para sempre os dias que se imaginava ter pela frente. Às vezes, são até estes golpes do destino que se substituem à nossa vontade paralisada, forçando a ruptura que temíamos, quebrando a segurança morta em que habitávamos e abrindo as portas do desconhecido de que fugíamos.
[...]

Miguel Sousa Tavares, Rio das Flores

quarta-feira, setembro 10, 2008

Antes que o diabo saiba que morreste


Fui ver ontem a ante-estreia do filme "Antes que o diabo saiba que morreste".
É um filme que vale a pena ver. Deixo de seguida a crítica do JN, com a qual concordo, mas antes queria partilhar uma frase que me ficou na memória, proferida pelo actor Philip Seymour Hoffman, que interpreta o papel de Andy:
"A soma de todas as minhas partes, não fazem aquilo que eu sou!"

Eis a crítica:

Regresso de Sidney Lumet

"Antes que o diabo saiba que morreste" marca reaparecimento do realizador, aos 84 anos

JOÃO ANTUNES

"Antes que o diabo saiba que morreste". Com um título assim, espera-se que nada de bom aconteça na tela. Aliás, o que se vê é muito mau. Ou melhor, é muito bom, porque Sidney Lumet regressa à forma que o celebrizou. Estreia esta quinta-feira.

O realizador mostra com tremendo realismo e intensidade uma história familiar que começa com o que deveria ser um pequeno delito e termina em tons de tragédia, digna de Shakespeare.

Explica-se desde logo que o título refere-se àquele momento em que se morre, mas em que o diabo ainda não sabe que morremos. As referências místicas casam bem com uma trama em que o racional vai perdendo terreno, cena a cena. No final, raras serão as personagens sem culpa. Pergunta-se é se a sua vida não estará desde logo no purgatório…

A história assinala a estreia no cinema de Kelly Masterson, que, no entanto, estará longe de ser um novato na escrita. A sua peça "Touch" levou-o já a encenar em Nova Iorque, há cerca de duas décadas. E, apesar de manter durante muitos anos um emprego num banco, nunca deixou de se dedicar à escrita de peças de teatro, encenadas um pouco por todo o país. Mas o fundamental a dizer é que Kelly Masterson é um antigo padre franciscano, que abandonou as vestes mesmo antes da ordenação, para se dedicar à escrita. Vendo "Antes que o diabo saiba que morreste" percebe-se que o autor do texto conhece bem os meandros do inferno.

Percebe-se também o que interessou Sidney Lumet. A história é a de dois irmãos que precisam de dinheiro: um para alimentar o vício da droga, o outro para pagar a pensão de alimentos à ex-mulher. O estratagema para resolver o problema é simples - assaltar a joalharia dos pais, num dia em que apenas lá está a empregada. Como o seguro paga, ninguém fica a perder. Mas a intriga complica-se. E ainda há o caso da mulher de um dos irmãos compensar a impotência do marido com o fulgor sexual do cunhado…

Sidney Lumet encontrou na estrutura narrativa da obra um meio de dar azo à vertigem cinematográfica que no passado deu origem a alguns dos seus melhores filmes, de "Serpico" a "Vida de cão". E o seu enorme "vício" em trabalhar com grandes actores é aqui plenamente satisfeito. Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Marisa Tomei e Albert Finney mostram talento e, sobretudo, coragem para se desnudarem, tanto carnal como espiritualmente, mostrando do que é capaz o ser humano, em especial quando é acometido pelo desespero.

terça-feira, setembro 09, 2008

A MINHOCA E A MAÇÃ

Ricardo Araújo Pereira in Blog do Gato Fedorento


Durante a discussão sobre a natureza do salazarismo, e depois de assinalar, com o fastio do costume, a ignorância grotesca do adversário, Vasco Pulido Valente recomendou-lhe esta reflexão: “Vítor Dias que puxe pela cabeça: existe em Portugal alguém ou alguma coisa a que o PCP já não chamou ‘fascista’?” Bom argumento. De facto, a repetição exaustiva da mesma acusação desacredita o acusador. Proponho, por isso, outra reflexão. Vasco Pulido Valente que puxe pela cabeça: existe em Portugal alguém ou alguma coisa a que Vasco Pulido Valente já não tenha chamado "ignorante"?

Antes que o diabo saiba que morreste



Volto já

Letra: Rui Reininho
para: Johnny Johnny

Vivo atrás da porta
Sem me mexer
Lá fora o frio aperta
E eu sou o último a saber

Vais ver pendurado na porta
Para ti o "Volto já"
Ficas assim, a saber
Que para ti já não estou cá
Não estou cá!

Volto, volto já!

FMI



Parte 1/2


Parte 1/2

Prima da Chula



125 Azul



Fizeram os dias assim

Letra: Luís Represas
Música: Manuel Faria
in: Sepes

Por mais que larguem os braços
Por mais que soltem amarras
E que se tapem as covas

Por mais que rasguem os quadros
Por mais que queimem as leis
E que os costumes esmoreçam

Por mais que arrasem as feras
E que os papões arrefeçam
E que as bruxas se convertam

Por mais que riam as caras
E que ternura se esqueça
Por mais que o amor prevaleça
Vocês
Fizeram os dias assim!

Não nos venham pedir contas
Não venham pôr-nos regras
Sabemos que os nossos dias
Não vão ser gastos assim!

Para não esquecer

Texto de João Coelho

Regresso das férias que incluíram uma semana na Polónia: Cracóvia, um pouquinho de Varsóvia e Auschwitz. Auschwitz-Birkenau.

Às 8 da manhã de 17 de Agosto já estou na Estação de Camionagem de Cracóvia, aguardando a saída do autocarro, num percurso de 1h e 20m para cerca de 60 km. A viatura já conheceu melhores dias, a estrada faz lembrar as de S. Miguel há 40 anos, estreita, com mau piso, os passageiros, que enchem o autocarro, são quase todos jovens (ainda bem) e fala-se italiano, francês, espanhol e inglês; há uma freira, polaca, uma miúda, trajada a rigor, que se embrenha na leitura do breviário… muita freira e muito padre há neste país, sempre trajando a rigor!
A lentidão da viagem ajuda-me a uma preparação psicológica de que sinto necessidade, apesar do que aprendi em muitos livros, documentários e filmes sobre aquilo a que Jorge Semprun, prisioneiro em Mauthausen, chamou o "mal definitivo"... Eu sei ao que vou, mas tenho dificuldade em interiorizar que, depois de pensar por tanto tempo em vir aqui, esteja agora tão próximo do lugar da Besta.
A ronceirice da viagem é quebrada pelos sinais de chegada a uma localidade - Oswiecim, Auschwitz em polaco - e vejo um cartaz, à beira da estrada onde se lê "Auschwitz, terra de paz".
Pouco depois, chegámos a um parque de estacionamento, há muitos autocarros, automóveis, caravanas, muita gente e um edifício com a cor típica do campo, a do tijolo; entro, há alguma confusão, uma livraria, uma pequena exposição, uma sala de projecção de filmes, balcões para visitas guiadas - eu dispenso os grupos, quero estar sozinho. Saio do casarão, há uma zona de terra, árvores e dou comigo em frente ao célebre portão com a inscrição "Arbeit macht frei"… Preciso de parar, a transição foi demasiado rápida, deixar que os meus olhos absorvam tudo. Passo o portão, e vou seguindo ao acaso por entre os numerosos barracões - aqui, tocava a orquestra, formada por prisioneiros, mais além está o terreiro onde se faziam as terríveis contagens de detidos, durante horas e horas - uma delas prolongou-se por 19 horas, todos em formatura, às vezes nus, os mortos da noite colocados no chão… Mais à frente, o muro das execuções, onde se assassinavam, a tiro, os desgraçados que a Gestapo e as SS entendiam matar… Ainda aqui estão também os cadafalsos onde os nazis enforcavam outros prisioneiros, aqueles a quem queriam provocar maior sofrimento… Entro nalguns barracões, circulando pelo emaranhado de corredores balizados pelos postes de sustentação do arame farpado, que era electrificado… o edifício da Gestapo, com as celas na cave, as salas, noutros edifícios, onde estão expostos os cabelos cortados às mulheres, os sapatos, as roupas, de adultos e de crianças, os óculos, os objectos pessoais, as malas - há fotos, muitas fotos, de prisioneiros, e muitos expositores com documentação dos alemães, sempre meticulosos na burocracia… E ali está o barracão das experiências pseudo-científicas dos médicos de Auschwitz… e quase à saída, a primeira câmara de gás e crematório que os nazis instalaram aqui, e onde ensaiaram a forma mais expedita de matar um milhão e meio de pessoas…
No total, estão neste sector, 28 barracões, que chegaram a alojar, em 1942, 20 mil pessoas, trabalhadores forçados nas fábricas que funcionavam em Auschwitz e que vinham aproveitar-se da mão-de-obra escrava.
É altura de passar ao campo da morte, Birkenau, a cerca de 3 km, feitos num autocarro gratuito; circula-se por uma estrada prazenteira, em plena planície, e, minutos depois, cá estamos, junto à linha de caminho-de-ferro que entra no campo passando por debaixo de uma torre onde estava o controlo geral de Birkenau. Não fazia ideia de que isto fosse tão grande, o terreno é plano, estende-se até lá ao fundo, ao bosque… e o tempo está, como por vezes acontece nos Açores, marcado por uma "calma tranquila" - expressão que procurei durante anos para caracterizar alguns dias de S. Miguel, aquela leveza dos ares, o sossego… -
Sigo a linha do comboio, até à "rampa dos Judeus", onde se fazia a selecção dos recém-chegados de todos os países ocupados pelos alemães, o chão é de gravilha, ladeado por relva dos dois lados, tenho, por companhia, o som dos meus passos, o canto dos pássaros e a cor dos trevos, amarela, animando o verde circundante. Aqui estava o poder absoluto, a decisão final: desembarcados dos vagões de gado, os médicos SS escolhiam… para a esquerda, a morte imediata, para a direita, a morte adiada…
Mengele, o "Anjo da Morte", reinava aqui, sempre impecavelmente fardado, botas luzindo, jovem, alto e loiro, cheirando a água de colónia, formado em Filosofia e Medicina. Dizem sobreviventes que gostava de assobiar trechos de obras de Wagner, e que tinha movimentos vivos e delicados nas mãos com que indicava as suas decisões… Mengele que era obcecado por gémeos e por indivíduos com deformações físicas, que apreciava "estudar" depois de mortos… Mengele que sobreviveu à guerra e acabou por morrer no Brasil, já velho, com um ataque de coração enquanto nadava…
Saio da rampa e dou comigo na estrada, à esquerda da linha, que era a que percorriam os que tinham sido escolhidos para a morte imediata - idosos, e mulheres com filhos abaixo dos 14 anos… Lá ao fundo estão as câmaras de gás e os crematórios, destruídos pelos nazis quando perceberam que os russos estavam perto (um deles foi demolido na sequência da única revolta registada em Birkenau, desencadeada por um grupo de prisioneiros que trabalhava nas câmaras de gás); os degraus que se desciam para a morte têm latinhas com velas e flores que os visitantes deixam aqui, há grupos de jovens israelitas que circulam pelo campo, acompanhados por adultos e percebo que alguns dos miúdos estão como que bloqueados mentalmente, sentam-se com um ar vazio, há outros que choram, em silêncio. Vejo que a linha de comboio vem até junto das câmaras, sei depois que a prolongaram até aqui quando, entre Maio e Julho de 44, cerca de 440 mil judeus húngaros vieram para Birkenau, levando as SS a acelerar o processo de extermínio… Há um casal jovem com um bebé, mesmo no fim da linha, acendem uma vela, a jovem senta-se nos carris e chora convulsivamente, afasto-me e sigo para o bosque que rodeia as câmaras de gás - passo pelo terreiro onde se queimaram corpos (porque os crematórios, nesses meses de 44 não conseguiam cremar todos os mortos) e vou parar a um dos lagos onde os nazis depositavam as cinzas dos assassinados… Caem alguns pingos de chuva, há uma garça real pousada à borda d'água, imóvel, parece estar de guarda, algumas plantas, com um aspecto muito viçoso, saem da água, firmes, à vertical… a chuva apagou as velas que estão por aqui, mas, entretanto, deixou de cair, e aproveito para acender uma delas… continuo e passo pelo pequeno bosque onde judeus aguardavam a entrada nas câmaras de gás, a minha memória visual recupera as imagens das fotos (que vi em tempos) das mulheres e crianças aqui sentadas, com um ar despreocupado, não sabem ao que vão, falaram-lhes em duche... sinto necessidade de tocar nas árvores… volto atrás e vou até ao Monumento internacional de homenagem às vítimas de Auschwitz-Birkenau… e está a decorrer uma cerimónia promovida por gente que já não é nova; há uma bandeira de uma organização de veteranos de Israel, do grupo destacam-se três pessoas, uma senhora e dois homens. Dos homens, um segura uma fotografia ampliada, que se percebe ser ele, ainda adolescente, prisioneiro, com um número, o seu número de preso - 157.615; acendem velas, depositam uma coroa de flores e há um senhor que vem para a frente do conjunto e que, voltado para o monumento, faz o que me parece ser uma oração, percebo que diz "Adonai, Adonai"… mas é uma reza imprecativa, interrogativa, quase que grita, chora… a cerimónia termina e vejo que senhora do trio de ex-prisioneiros está acompanhada por um jovem, a quem digo que gostava de a cumprimentar… o rapaz diz-me que esteja à vontade, a senhora é judia francesa, esteve presa 1 ano e 4 meses, e fez parte da "marcha da morte" para outro campo, Bergen-Belsen, quando os nazis, sabendo da chegada dos russos, deslocaram para outros campos, no interior da Alemanha, os sobreviventes de Auschwitz. A senhora é uma "madame" na melhor acepção da palavra, diz-se encantada por encontrar um português, desejo-lhe muita saúde e faço uma coisa que nunca tinha feito na vida - beijo-lhe a mão… E só depois lamento já não ter mais fotos no rolo (ainda não uso digital…) Vou saindo de Birkenau lentamente, ainda passo pelos barracões das mulheres, pelas latrinas, e por um barracão onde estiveram 148 crianças húngaras, antes de serem mortas - está lá um cartãozinho, que diz, em inglês, "Em memória de Hulinéck, morto, aos 3 anos, em Birkenau", com uma tira com as cores nacionais da Hungria, vermelho, branco e verde…
Subo à torre de entrada e lanço um olhar, lá de cima, ao longo do campo, enorme, e penso, mataram tanta gente, tão impiedosamente, tão fria e cruelmente… e as últimas vitimas foram assassinadas poucos meses antes de eu nascer… os judeus húngaros, depois os do gueto de Lodz e ainda os da Grécia, de Corfu…
Volto a Cracóvia, de novo com o autocarro cheio, de novo gente nova… Agora reina o silêncio, e eu também venho a pensar no que vou dizer à Joana, minha filha de 9 anos, quando ela me perguntar porque é que fui a Auzchwitz-Birkenau…

PS - Em Auschwitz-Birkenau, não foram assassinados só judeus; também mataram ciganos, testemunhas de Jeová, homossexuais, prisioneiros de guerra russos, resistentes polacos, embora em menor número.

A Paixão (Segundo Nicolau da Viola)

Letra: Carlos Tê
Música: Rui Veloso
in: Mingos e os Samurais

Tu eras aquela que eu mais queria
Para me dar algum conforto e companhia
Era só contigo que eu sonhava andar
Para todo o lado e até quem sabe? talvez casar

Ai o que eu passei só por te amar
A saliva que eu gastei para te mudar
Mas esse teu mundo era mais forte do que eu
E nem com a força da música ele se moveu

Mesmo sabendo que não gostavas
Empenhei o meu anel de rubi
Para te levar ao concerto
Que havia no Rivoli

Era só a ti que eu mais queria
Ao meu lado no concerto nesse dia
Juntos no escuro de mão dada a ouvir
Aquela música maluca sempre a subir

Mas tu não ficaste nem meia hora
Não fizeste um esforço para gostar e foste embora
Contigo aprendi uma grande lição
Não se ama alguém que não ouve a mesma canção

Mesmo sabendo que não gostavas
Empenhei o meu anel de rubi
Para te levar ao concerto
Que havia no Rivoli

Foi nesse dia que percebi
Nada mais por nós havia a fazer
A minha paixão por ti era um lume
Que não tinha mais lenha por onde arder

segunda-feira, setembro 08, 2008

Lembrar uma amiga


Catarina Lacerda

Nasci em Massarelos, na Maternidade Júlio Dinis, como grande parte da população nascida no Porto. Vivi até aos 19 anos numa casa amarela com jardim, cão e quintal, pais e avós, junto ao rio e perto do mar. Quando terminei o secundário senti a necessidade de perceber melhor o bichinho da representação. Ter estudado economia fez-me perceber que o caminho dos números, que até dominava, não seria o meu. Andava um pouco indecisa e fui fazer terapias vocacionais de grupo na Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto. Tornou-se aí evidente que tinha que avançar com isto do teatro. Ser actriz é um jogo de risco e prazer, um abismo feliz. Quanto mais arriscas, mais prazer podes ter. É isso que me move. Serei actriz enquanto me preencher, mas imagino-me a fazer muitas outras coisas desde que haja vontade, tempo e conjunturas favoráveis. A ordem não é aleatória. O cinema é um território novo para mim. Tudo começou no final de 2006. Um amigo reencaminhou-me um «e-mail» para um «casting». Alguns meses depois estava em pleno Coentral, aldeia da serra da Lousã, nas filmagens de «Deus Não Quis». O argumento é baseado na canção tradicional portuguesa «Laurindinha». Conta-nos a história quase feliz de um jovem casal separado pela guerra. A Laurindinha, personagem que interpreto, é uma mulher que vê o seu grande amor partir para a guerra e oscila entre um misto de cheio e vazio. O cheio daquilo que a une ao seu amor, o vazio perante a inevitabilidade dessa separação. É um sentimento profundamente humano, creio. Receber um prémio no Chipre, um país onde se pressente a tensão política e militar, foi especial. Nicósia é atravessada por um muro. De um lado cipriotas turcos, do outro cipriotas gregos. Ao fugir da guerra, as famílias turcas e gregas deixaram para trás casas devolutas. Essas casas, e as suas histórias, foram ocupadas por outras famílias turcas e gregas. Ver as pessoas saírem da projecção emocionadas e agradecerem o filme, torna-o duplamente especial. Há registo do surgimento das primeiras sardas pelos meus três anos. Fazem parte do carimbo que é o meu rosto e variam de estação para estação: são imensas no Verão, mais raras no Inverno.

A actriz é a protagonista de «Deus Não Quis», produzido pela ZED Filmes, e a vencedora do Prémio de Melhor Actriz no Festival Internacional de Curtas-Metragens do Chipre


Texto de Nelson Marques in Expresso


Parabéns, Catarina!

Beijinhos,
Gui