quinta-feira, abril 12, 2012
quarta-feira, abril 11, 2012
quinta-feira, março 29, 2012
Vamos andando (só temo pelos outros)
Vamos levando, vamos aprendendo.
Vamos passando os dias sendo.
Vamos registando e esquecendo:
vamos perdoando, vamos crescendo.
Vamo-nos abraçando, vamos ficando
ternos irascíveis. Eu bem percebo.
Queremos o mesmo - não desfazendo.
Levamos avanço, ainda é cedo.
Só temo pelos que os outros vão sendo.
Vamos decifrando um pouco de tudo
do de tudo um pouco que nos vão dizendo,
porque cremos que todos temos bom fundo
e é isso que ainda nos vai entretendo.
Assumimos: estamos sempre um pouco àquem;
e, para conservarmos nossa sanidade,
constantemente incutimos a culpa a alguém…
Não vejo nisso motivos pra tanto alarde.
Só temo pelo que os outros vão sendo.
Somos patéticos quando simpáticos,
somos estúpidos e problemáticos.
Acabamos casmurros, e o que é fantástico
é que complicando tudo às vezes somos práticos.
Vamos andando, deixemo-nos ir.
Há futuro enquanto conseguirmos rir;
e tudo o que hoje fizermos de errado
incontornavelmente torna-se passado.
Só temo pelo que os outros vão ver.
Só temo pelo que os outros vão ter.
quarta-feira, março 28, 2012
Alegremente Cantando e Rindo Vamos
Vamos cantando e rindo, alegremente.
Constatamos: borramos o mindinho.
É insignificante o preço para que nos aprovem o caminho.
Vamos cantando e rindo. Alegremente
deixando que a merda nos chegue ao umbigo.
Não há perigo, não há perigo — estão aqui muitos comigo.
Vamos cantando e rindo, e eu acho isso lindo.
Vamos cantando e rindo, e eu acho isso tão lindo.
Vamos cantando e rindo. Alegremente
deixando que a merda nos chegue aos ouvidos.
E é impressionante… Como é que eu ainda respiro?
Vamos cantando e rindo. Alegremente
enterrados na merda que nos impingem.
É o nosso destino. Não se contraria o destino…
Vamos cantando e rindo, e eu acho isso lindo.
Vamos cantando e rindo, e eu acho isso tão lindo.
E ainda cantamos. E ainda cá estamos.
E ainda servimos por mais alguns anos.
E ainda cantamos. E ainda nos rimos.
E ainda ficamos por mais alguns anos.
segunda-feira, março 26, 2012
Anda comigo ver os aviões
Anda comigo ver os aviões levantar voo
A rasgar as nuvens
Rasgar o céu
Anda comigo ao porto de Leixões ver os navios
a levantar ferro
a rasgar o mar
Um dia eu ganho a lotaria
Ou faço uma magia
Mas que eu eu morra aqui
Mulher tu sabes o quanto eu te amo,
O quanto eu gosto de ti
e que eu morra aqui
Se um dia eu não te levo à América
Nem que eu leve a América até ti
Anda comigo ver os automóveis à Avenida
A rasgar as curvas
A queimar pneus
Um dia vamos ver os foguetões levantar voo
A rasgar as nuvens
A rasgar o céu...
Um dia eu ganho o totobola
Ou pego na pistola
Mas que eu morra aqui
Mulher tu sabes o quanto eu te amo
O quanto eu gosto de ti
E que eu morra aqui
Se um dia eu não te levo à Lua
Nem que eu roube a Lua
Só para ti
Um dia eu ganho o totobola
Ou pego na pistola
Mas que eu morra aqui
Mulher tu sabes o quanto eu te amo
O quanto eu gosto de ti
E que eu morra aqui
Se um dia eu não te levo à América
Nem que eu leve a América até ti
sexta-feira, março 16, 2012
Índios na Reserva
A poesia não se perde
ela apenas se converte
nestas paredes tão fechadas
que nada têm p'ra me dizer.
O que os muros sociais
têm guardado para contar
ninguém quer encarar.
Somos índios na reserva que visitas
obrigado pelo donativo... não aceito!
Mas a reserva não é mãe
e no meu gueto o medo abala
todos aqueles que ainda
se recusaram a desistir
de procurar na nossa sombra
uma razão para viver
com um pouco mais de dignidade.
Somos índios na reserva que visitas
obrigado pelo donativo... não aceito!
Porque aprendemos tão cedo
a escutar as histórias
como único socorro
promissor que nos resta.
quinta-feira, março 15, 2012
Zorro
João Monge e Jorge Prendas
Eu quero marcar o “Z” dentro do teu decote
Ser o teu Zorro de espada e capote
Para te salvar à beirinha do fim
Depois, num volte-face, vestir os calções
Acreditar de novo nos papões
E adormecer contigo ao pé de mim
Eu quero ser para ti a camisola 10
Ter o Porto todo nos meus pés
Marcar um ponto na tua atenção
Se assim, faltar a festa na tua bancada
Eu faço a minha última jogada
E marco um golo com a minha mão (mesmo à Benfica... ;-))
Eu quero passar contigo de braço dado
E a rua toda de olho arregalado
A perguntar: como é que conseguiu?
Eu puxo da humildade da minha pessoa
Digo da forma que menos magoa:
Foi fácil! Ela é que pediu.
Canção do bandido (o Zorro)
João Monge / João Gil
Quando me chamas bandido Como se eu fosse um caso perdido Que se dá sempre o golpe perfeito no teu coração Já sei que vai haver assalto Vou começar no teu salto alto E acabar prisioneiro na cova-do-ladrão Quando me chamas canalha Por dá cá aquela palha É o teu jeito matreiro de lançar as redes Dizes asneiras baixinho Para poupar o pobre do vizinho De saber de nós dois pelas paredes Quando me chamas pelo nome Até fico com frio e com fome Como aquele menino da rua que anda perdido Então peço a todos os santos Que devolvam os meus encantos E que tu me voltes a chamar apenas bandido |
Eu quero marcar o “Z” dentro do teu decote Ser o teu Zorro de espada e capote Para te salvar à beirinha do fim Depois, num volte-face, vestir os calções Acreditar de novo nos papões E adormecer contigo ao pé de mim Eu quero ser para ti a camisola 10 Ter o Porto todo nos meus pés Marcar um ponto na tua atenção Se assim, faltar a festa na tua bancada Eu faço a minha última jogada E marco um golo com a minha mão (mesmo à Benfica... ;-)) Eu quero passar contigo de braço dado E a rua toda de olho arregalado A perguntar: como é que conseguiu? Eu puxo da humildade da minha pessoa Digo da forma que menos magoa: Foi fácil! Ela é que pediu. |
segunda-feira, março 12, 2012
Canção da Fome
Letra: Georg Weerth*
Música: João Gil
* - in "Rosa do Mundo 2001 -- Poemas para o Futuro" (Assírio e Alvim)
Prezado senhor e rei,
Sabes a notícia grada?
Segunda comemos pouco,
Terça não comemos nada.
Quarta sofremos miséria,
E quinta passámos fome;
Na sexta quase nos fomos,
Não se aguenta quem não come!
Por isso vê se no sábado
Mandas cozer o pãozinho,
Senão no domingo, ó rei,
Vamos comer-te inteirinho.
quinta-feira, março 08, 2012
Amor é fogo que arde sem se ver
Luís de Camões / João Gil
Amor é fogo que arde sem ser ver.
É ferida que dói, e não se sente:
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
segunda-feira, março 05, 2012
Engrenagem
Do berço à cova sem parar
caminho fora sempre a andar
cá vou levando a minha vida
Um minutinho a descansar
a vida inteira a trabalhar
suor sem conta nem medida
Pra ter um companheiro nesta viagem
vou meter um pauzinho na engrenagem
Do berço à cova sem vagar
enxada à terra barco ao mar
a mão e a máquina a compasso
Os bois no campo a lidar
E o serventio a trabalhar
todos com o mesmo cangaço
Pra ter um companheiro nesta viagem
vou meter um pauzinho na engrenagem
Do berço à cova sol a sol
por pão, amor e futebol
dor no sapato e dor na espinha
Canta-se o fado em lá bemol
morde a sardinha no anzol
E o tubarão segura a linha
Pra ter um companheiro nesta viagem
vou meter um pauzinho na engrenagem
Do berço à cova sem parar
caminho fora sempre a andar
cá vou levando a minha vida
Um minutinho a descansar
a vida inteira a trabalhar
suor sem conta nem medida
Pra ter um companheiro nesta viagem
vou meter um pauzinho na engrenagem
sexta-feira, março 02, 2012
Ó meu quero pai natal
Letra: João Monge
Música: João Gil
Pai, ensina-me a pôr as letras a eito
Que eu quero escrever uma carta importante
A pedir umas coisas que davam jeito
E uma ou outra delirante
Pai, “Alice” é com cê ou com dois ésses?
E “pião” leva uma cobrinha no á?
Não te rias, dá-me ajuda, não comeces
Mais sério que isto não há
Ó meu querido Pai Natal
Vou-te dizer
As coisas que nunca disse
Não sou mau e nem sou duro de roer
Fala de mim à Alice
E se ela mandar dizer
Que não, que não
Não me deixes amuado
Tira da saca o mais bonito pião
E está tudo perdoado
Pai, achas que estou pedindo a mais?
O das barbas tem muito a quem atender
Se eu fiquei em branco nos outros natais
Ainda lhe peço uma flober
Já lá vem de porta em porta o carteiro
À recolha das cartinhas com pedidos
O meu é do mais sincero e verdadeiro
Haja quem me dê ouvidos
Ó meu querido Pai Natal
Vou-te dizer
As coisas que nunca disse
Não sou mau e nem sou duro de roer
Fala de mim à Alice
E se ela mandar dizer
Que não, que não
Não me deixes amuado
Tira da saca o mais bonito pião
E está tudo perdoado
quinta-feira, março 01, 2012
Ave rara de Xangai
João Monge/João Gil
Água que cai
Lá vai...
Lá vai...
Levai a flor daquela saia
Faz que ela saia dessa rua
Ou então faz que ela caia
Água que cai
Lá vai...
Lá vai...
Levai pra longe do meu poiso
Essa ave rara de Xangai
Ou então faz que ela coiso
Eu peço à núvem do céu
Que faça um truque de Merlim:
Que a sua chuva deixe ao léu
Essa mulher só para mim
Água que cai
Lá vai...
Lá vai...
Levai a flor daquela saia
Faz que ela saia dessa rua
Ou então faz que ela caia
Água que cai
Lá vai...
Lá vai...
Levai pra longe do meu poiso
Essa ave rara de Xangai
Ou então faz que ela coiso
Eu peço à núvem do céu
Que faça um truque de Merlim:
Que a sua chuva deixe ao léu
Essa mulher só para mim
terça-feira, fevereiro 07, 2012
Vida tão estranha
São de veludo as palavras
Daquele que finge que ama
Ao desengano levo a vida
A sorte a mim já não me chama
Vida tão só
Vida tão estranha
Meu coração tão maltratado
Já nem chorar
Me traz consolo
Resta-me só um triste fado
A gente vive na mentira
Já não dá conta do que sente
Antes sozinha toda a vida
Que ter um coração que mente
Vida tão só
Vida tão estranha
Meu coração tão maltratado
Já nem chorar
Me traz consolo
Resta-me só um triste fado
quinta-feira, janeiro 26, 2012
O Essencial Invisível
O Essencial Invisível
Luís Represas / João Gil
Buscando a forma e o momento
esvai-se o tempo de mansinho...
já procurei uma razão
não decidi na decisão.
Choquei de frente olhei pra trás
descobri parte de um trovão
onde caiu o raio agora
nasce confusa a confusão
Deixei
de querer ver
o que a luz sendo luz
não me quer dizer
deixei
de tentar ver
o que o mundo que é mundo
não sabe ter
Se viro costas cai um ninho
o chão devora uma semente
se fecho os olhos a terra treme
se digo adeus perde-se um crente.
Se não respiro então respiro
o ar que afoga uma sereia
se me espreguiço fica uma cruz
no mastro da minha bandeira.
Quem está escondido
vê melhor
se voas baixo
sente o chão
não faças caso do acaso
viste como a verdade se
transformou?
terça-feira, janeiro 24, 2012
O Cheiro a Café
Letra: Luís Represas
Música: João Gil
não te encontro devagar
nem na pressa de te ver p'ra mim
bom dia
que seja eterno
ficarei por cá
o cabelo em desalinho
a camisa que ontem vesti
o teu cheiro ainda quente
a visão de ti
já cai a sombra
que pinta de azul o azul
o olhar que afunda
as velas nos mares do sul
já a luz te vai limpando
e apareces tu
conversamos ou silêncio?
por agora não me ocorre nada.
ainda tenho a cabeça ausente
dentro da almofada
entre o cheiro do café
e o conforto quente da torrada
descompassas se sorris
ainda maquilhada
por ti jurei
jurei por mim
se por azar
um
for embora
quem de nós por cá ficar
contará a história
segunda-feira, janeiro 23, 2012
Quando eu voltar a nascer
Quando eu voltar a nascer
João Monge / João Gil
quando eu voltar a nascer
quero ser bonito
ser um traço de rapaz
e se for preciso morrer
tanto faz
para voltar a nascer
quando eu voltar a nascer
quero ser a casa
onde vive o teu olhar
eu assim já posso entristecer
e chorar
para voltar a nascer
quando eu voltar a nascer
quero ser a valsinha
ter o dom da criatura
que dança com a Lua à cintura
tu vais ver
nunca mais danças sozinha
quando eu voltar para ti
quero ser a essência
de todos os teus sentimentos
mas enquanto eu andar por aqui
paciência
vou tirando apontamentos
quarta-feira, janeiro 18, 2012
O lenço e a flor
Luís Represas / João Gil
Vejo o nó da gravata
fecho o botão de punho
o lenço no bolso
a flor na lapela,
amantes
olharam-se os dois
Uma pétala cai
sobre o pano sem cor
ainda me trazes
o cheiro traidor
parece que o tens
ainda.
Velho
sem tempo,
um novo momento
descobre-me à esquina
do que eu sou capaz.
Se tremo é porque amo
se choro é por mim
se rio é só por ti.
Passo a mão no chapéu
sei que vai resultar
o relógio no pulso
já o deixei parar
amanhã talvez volte a rodar
O lenço a flor
saímos os três
galantes na rua
que vai pro jardim...
eu sei que ela espera por mim.
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