domingo, novembro 25, 2007

25 de Novembro de 1975


- Deixa cair o corpo sobre a cama, e concentra-te apenas na minha voz...

Viajo na voz de Ofélia, com a pressa de quem deixou algo por fazer. Voz de mel, língua de veludo que me percorre o corpo que se entrega à sua hipnose húmida. Quero regressar ao passado, a ver se ainda vou a tempo. Desta vez, não vamos falhar. Não sei se acerto na espira certa do tempo, estas coisas da hipnose não sei se acontecem à medida dos desejos. Ofélia, ajuda-me a regressar àquela noite do vinte e cinco de Novembro, onde estávamos todos reunidos numa cave. Tu não sabes, Ofélia, nunca poderás saber a força que nos unia, eu, o Gato, o Alegria, o Mau Tempo, o Quim Comandos, o Professor, a Adélia, o Cofres, o Tono da Viela, o Leonel, a Lisa, a Elsa, o Dílio Bailarino, o Hiroxima, o Vagamente, o Beto Doutor, o Poeta, espalhados em silêncio esperando pelas armas pesadas que vinham de Lisboa. Tu nunca poderás ter a noção de como foi dura a espera, como a nossa força se transformou em desespero, pela madrugada dentro, quando nos convencemos de que as armas não chegariam nunca.

- Concentra-te na minha voz, tu tens muito sono...

Sim, sinto uma vontade irresistível de adormecer, e acordar noutro tempo. Desta vez nada vai falhar, iremos a Maceda buscar os arsenais de reserva, não ficaremos eternamente à espera. Cortaremos a Ponte da Arrábida e o Viaduto de Santo Ovídeo na noite de vinte e quatro para vinte e cinco, abriremos caminho à bala e à granada, morreremos se preciso for, para que a noite não acabe. Para não voltarmos a acordar de manhã com os sonhos todos desfeitos. Revolução ou morte, será o nosso grito. Talvez ainda haja tempo para fazer com que não tenha acontecido o que aconteceu. Talvez possamos salvar a Revolução, repito vezes sem conta, enquanto escorrego na voz de Ofélia direito ao passado com a certeza de ter uma missão a cumprir. Como se caísse num poço sem fundo, sem certeza de regresso.

Desta vez, nada vai falhar.



Miguel Miranda in “O Estranho Caso do Cadáver Sorridente”



O Gato, o Alegria, o Mau Tempo, o Quim Comandos, o Professor, a Adélia, o Cofres, o Tono da Viela, o Leonel, a Lisa, a Elsa, o Dílio Bailarino, o Hiroxima, o Vagamente, o Beto Doutor, o Poeta, são companheiros do autor do tempo da Luar (Liga de União e Acção Revolucionária), onde os meus pais também militaram. E foi nesta fatídica noite que eles assustados com tudo o que se passava, resolveram trazer mais um para ajudar à luta. E cá estou eu, hoje aqui, 32 anos depois, com 31 anos, sentado em frente ao meu computador a pensar nisto tudo. Obrigado pais por me terem trazido para esta luta que é também minha. Eu ainda tenho sonhos e acredito que vocês também.



Beijos

Gui



“Fecho a fronteira p’ra lá de mim
olho-me em ti p’ra me ver
juro que a paz não faz parte de um sonho
espero por ti p’ra vencer”

Luís Represas in “A hora do Lobo”

(outro companheiro da Luar)


Não peço + nada
Só quero a solução,
Por isso diz-me em quanto tempo
Se faz a revolução.

Pedro Abrunhosa in “Silêncio”


estou-me a vir
e tu como é que te tens por dentro?
porquê não te vens também?

Caetano Veloso in "Cê"

3 comentários:

Anónimo disse...

oh, Guilherme,fiquei com a alma lavada depois de ler o que escreveste.
pelo "sonho é que caminhamos" já dizia o Poeta.
grande abraço,
maya

Ps: os teus pais estão de parabéns pelo filho maravilhoso que és e eles bem merecem-no, estou em crer.

Guilherme Monteiro disse...

Obrigado!

Abraço,
Gui

Mário Monteiro disse...

Entre esses personagens estou eu e a tua mãe, com pseudónimos claro, mas estamos por lá.