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quinta-feira, abril 03, 2014

Um dia não são dias não



Como que morto para o mundo
Expiro num sono profundo
Enterrado no colchão

Quando a minha mulher me chama
E me faz saltar da cama
Pergunta "sabes que horas são?
É que eu já estou atrasada
E a bebé está acordada
A precisar de atenção".

Mudo a fralda à bebé ainda a dormir a pé
A tactear na escuridão
Tento combinar-lhe a roupa
Antes de lhe dar a sopa - é essa a indicação

Entrego a bebé à avó
Para conseguir ficar só
Enquanto elas vão dar a volta ao quarteirão

Aproveito assim que posso
Para aquecer o meu almoço
Um resto de arroz de feijão
Que vou comer para o sofá
A amaldiçoar a manhã e o amanhã
Deitado em frente à televisão

Diz-se um dia não são dias,
Mas às vezes é esta a frustração:
A de saber que quando são,
um dia não são dias não.

Passo o dia em pijama
Pronto para voltar para a cama,
A curtir a depressão

Tenho um emprego precário,
Um part-time temporário,
Um biscate que arranjei no fim do verão

Mas hoje é o meu dia de folga:
É o dia que mais me empolga,
É uma verdadeira vocação.
Também já fui avisado
QUe no fim do mês vou ser dispensado - a crise é a justificação.

Então, em vez de proletário a fingir
Volto a ser o que sempre fui:
Um burguês falido.
Volto a ser o meu próprio patrão,
A magicar o dia inteiro
Mil maneiras de conseguir ter dinheiro
Sem cravar a mulher, a mãe e o irmão.

Diz-se um dia não são dias,
Mas às vezes é esta a frustração:
A de saber que quando são,
um dia não são dias não.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Como foi


Nuno Prata - " Como Foi " com Nico Tricot e António Serginho from Tiago Pereira on Vimeo.


Como foi, como acabou - afinal o que é que o medo não deixou?
Do que fiz o que sobrou? (O tempo mostra-me só o que matou.)
Quem me fez, quem me enganou, ao menos que me explique agora o que sou.
Quem me fez, quem me mudou, ao menos que me diga agora onde estou.
Como foi, como acabou? (Haja alguém que me explique agora onde estou.)

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Aconteceres-te




Vês o que vejo?
(ainda respiro)
Por onde andei,
por onde sigo?
Pus meus pés em chão que não sentia
e hoje nem me lembro mais o que queria.

Vês o que tenho
(E porque vivo)?
Leva uma vida,
mas eu consigo: Andar, andar e nunca parar.
Parar é duvidar e eu já não duvido.
Já sinto o peito, já me distingo.
Já sou um homem, já estou comigo.
E rir como antes como quando ria,
é só o que falta,
mas agora já vai de mim.

Tu não tens nada a ver,
já não tens nada a ver.
Tu escolheste e não foi por aqui que vieste,
sobrei muito mais que aquilo que me quiseste.

Se acabou, acabou

Nuno Prata - " Se acabou, acabou" com Nico Tricot e António Serginho from Tiago Pereira on Vimeo.



Se é isso que precisas,
então está decidido.
Não vou mentir.
Mentira não sara um coração ferido
e eu não consigo dar mais do que sou.
Talvez que com o tempo isto ganhasse algum sentido.
Não vou mentir.
Carinho não é amor garantido,
mas é exactamente aquilo que sobrou.

Se é isso que persegues,
então está resolvido.
Só não me peças que fique hoje aqui a dormir contigo.
Não me parece que haja algum motivo.
Se queres ter as certezas que te traz a despedida,
então adeus,
eu já me considero despedido.
Não foi hoje que isto acabou.

Se acabou, acabou.
Eu já cá não estou.
Se acabou, acabou.
Eu não posso ficar cá agarrado àquilo que outra vez falhou.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Um dia não são dias não


"No fim do mês vou ser dispensado - a crise é a justificação
Então, em vez de proletário a fingir volto a ser o que sempre fui: um burguês falido
Volto a ser o meu próprio patrão, a magicar o dia inteiro mil maneiras de conseguir ter dinheiro sem cravar a mulher, a mãe e o irmão"


segunda-feira, dezembro 06, 2010

Cala-te e come (Expiação do derrotado)


Cala-te e come, tu não precisas de indagar a direcção.
Cala-te e come, tu não tens necessidade de reter tanta informação.
Cala-te e come, já não és novo, vê se prestas atenção.
Mas acalma-te e come que não tens ainda idade para morrer do coração.
Cala-te e come, passaste ao largo da tua revolução.
Cala-te e come, há muito que chegaste a essa conclusão - ou não.
Cala-te e come, e limpa-te ao guardanapo que é essa velha frustração.
Mas acalma-te e come, foste capaz de tomar a tua própria indecisão.
(Cala-te e come, come-te e cala, cala-te e come.)
Cala-te e come, senta-te, e entretanto liga a televisão.
Cala-te e come, corre os canais à procura de distracção.
Cala-te e come, que a angústia vem sempre que persegues acção.
Mas acalma-te e come, assim prostrado nem dás conta dessa estúpida aflição.
Cala-te e come: comer e calar é mais que uma obrigação.
Cala-te e come, esse menu é a derradeira refeição.
Cala-te e come, agradece, será que não te deram nenhuma educação?
Homem, acalma-te e come, não te canses, guarda para ti a tua inútil opinião.
(Cala-te e come, come-te e cala, cala-te e come.)
Cala-te e come, tu não precisas de indagar a direcção.
Cala-te e come, tu não tens necessidade de reter tanta informação.
Cala-te e come, tu não precisas de passar fome.
Cala-te e come, deita-te e dorme.