sábado, outubro 27, 2007

Sexto Andar

Letra: Carlos Tê / Música: Hélder Gonçalves
in Cintura, Clã










Uma canção passou no rádio
E quando o seu sentido
Se parecia apagar
Nos ponteiros do relógio
Encontrou num sexto andar
Alguém que julgou
Que era para si
Em particular
Que a canção estava a falar

E quando a canção morreu
Na frágil onda do ar
Ninguém soube o que ela deu
O que ninguém
estava lá para dar

Um sopro um calafrio
Raio de sol num refrão
Um nexo enchendo o vazio
Tudo isso veio
Numa simples canção

Uma canção passou no rádio
Habitou um sexto andar

segunda-feira, outubro 22, 2007

Amuo
Letra: Carlos Tê / Música: Hélder Gonçalves
in Cintura, Clã

Vejo que estás mais crescida
Já dobras a frustração
Bates com a porta ao mundo
Quando ele te diz não

Envolves o teu espaço
Na tua membrana ausente
Recuas atrás um passo
Para depois dar dois em frente

Amuar faz bem
Amuar faz bem

Ficas descalça em casa
A fazer a tua cura
Salva por um bom amuo
De fazer má figura

Amanhã o mundo inteiro
Vai perguntar onde foste
E tu dizes apenas
Que saíeste, viajaste

Amuar faz bem
Amuar faz bem

Nada como um bom amuo
Apenas um recuo quando nada sai bem

E depois voltar
Como se nada fosse
E reencontrar o lugar
Guardado por um bom amuo

terça-feira, outubro 16, 2007

Fábrica de Amores
Letra: Adolfo Luxúria Canibal / Música: Hélder Gonçalves
in Cintura, Clã

A garganta seca
Pelo fumo do acre
Sou Salomé no nó dos calores
Que faltal boneca
Revestida a lacre
Sou Salomé fábrica de amores
Passo com ar bombástico
Digo maviosamente
Levo o paraíso em mim!
Levo o paraíso!

Os olhares pousam
Sobre o meu corpete
No salivar glutão do desejo
Mas as mãos não ousam
Tão voraz joguete
Sou Salomé ébria de ensejo
Passo, passo com ar bombástico
E digo maviosamente
Tenho o paraíso em mim!
Tenho o paraíso em mim!
Levo o paraíso!
Levo o paraíso em mim!
Secreto jardim
A um passo de ti
Dourado e carmim
A um passo de ti
Tenho o paraíso em mim!
Tenho o paraíso em mim!
Levo o paraíso!
Tenho o paraíso em mim!
Levo o paraíso!
Levo o paraíso em mim!
Em mim...
A mim!
Tira a Teima
Letra: Carlos Tê / Música: Hélder Gonçalves
in Cintura, Clã



Se um dia me aproximar de ti
Não penses que é só um flirt
Não julgues que é um filme
Que já viste em qualquer parte

Pensa bem antes de agir
Evita ser imprudente
Faz a carta do meu signo
E vê à lupa o ascendente

Tem cuidado e tira a teima
Vê aquilo que sou
Tem cuidado e tira a teima

Tu não sonhas ao que venho
Não sabes do que sou capaz
Eu dou tudo quanto tenho
Não funciono a meio gás

Vem sentar-te à minha frente
E diz-me o que vês em mim
Não respondas já a quente
Pondera antes de dizer sim

Tem cuidado e tira a teima
Porque aquilo que sou
Fere, rasga e queima

Diz-me se vês o granito
Onde se gravam os grandes temas
Diz-me se vês o amor infinito
Ou somente um par de algemas

Tem cuidado e tira a teima
Porque aquilo que sou
Fere, rasga e queima

domingo, outubro 07, 2007

Adeus Amor
Letra: Carlos Tê Música: Hélder Gonçalves
in Cintura, Clã

Adeus amor que cresci
Já pouco me tens a dizer
Já bebi tudo de ti
Que de bom tinha a beber

Adeus amor, vou embora
Não me impeças por favor
Sabes que só vou agora
Porque dei tempo ao amor

Não suporto o teu modo
Carinhoso e paternal
No tom de quem sabe tudo
Sem saber o essencial

Adeus amor já me cansa
A canção do teu cinismo
Essa pose de quem dança
Sempre à beira do abismo

Adeus amor que cresci
Pouco me tens a dizer
Já bebi tudo de ti
E há mais mundo a beber

Não suporto o teu modo
Carinhoso e paternal
No tom de quem sabe tudo
Sem saber o essencial
Vamos esta noite
Letra:Arnaldo Antunes Música: Clã
in Cintura

Vamos
Para a montanha russa
Vamos
ao carrossel
Vamos
Subir o Pão de Açucar
Vamos juntos
Lamber o céu

Vamos
Dançar até cair, ir
Juntos vamos
Morrer de rir

Esta noite é só pra nós
Hoje não terá depois
Hoje não terá porquês
Esta noite é pra vocês
Virem comigo
Até ao fim
Para o fim do mundo

Vamos
Perder a hora certa
Vamos
Pisar no chão
Vamos
Deixar a porta aberta
Juntos vamos
Para Plutão

Hoje não terá amanhã
Hoje o mundo é nosso Clã
Hoje não terá talvez
Esta noite é pra vocês
Virem junto
Até ao fim do fim de tudo

quarta-feira, outubro 03, 2007

A Velhice
Samuel Beckett / João Lagarto / Jorge Palma in Voo Nocturno

A velhice é quando há um homem
agachado à lareira
com medo das bruxas
levar o bacio para a cama
e trazer o grog
ela vem nas cinzas
aquela que amou não pôde ser
vencida
ou vencida não pôde ser amada
ou qualquer outro pesadelo
vem nas cinzas
como nessa velha luz
a sua face nas cinzas
essa velha luz de estrelas
de novo na terra
Finalmente a Sós
Jorge Palma in Voo Nocturno

Antes de teres aberto o mar
antes de teres virado o rio
eu era alguém às costas de outro alguém

Trouxeste mais contradições
trouxeste mais opiniões
e agora eu sou mais outro Zé-Ninguém

Finalmente só
Finalmente a sós

Quando eu já estava a sossegar
quando já estava a adormecer
vi-te dançar e a minha paz morreu

Odeio a luz do teu olhar
quando não brilha só p'ra mim
pensei que fosses um brinquedo meu

Finalmente só
Finalmente a sós
Quarteto da corda
Jorge Palma in Voo Nocturno

justina e Baltazar encontraram-se à beira do rio
um estava sem calor e o outro mesmo cheio de frio
passou um cardume de lume que os engalfinhou
Justina e Baltazar encontraram-se à beira do rio

A Cleia e o Montolivo andavam por Avinhão
estavam ambos à espera do próximo avião
um ia para Alexandria, o outro não sabia
Cleia e Montolivo andavam por Avinhão

No Hemisfério do Sul, um mosquito deu à asa
e uma criança nasceu sem saber que não tem casa
um objecto voador bem identificado
leva cento e tal pessoas de volta ao lar,
há-de lá chegar, hum, há-de lá chegar!

Justina e Baltazar, a Cleia e o Montolivo
juntaram-se nas docas, beberam alguns digestivos
alguém tinha à disposição um belo apartemã
ninguém sabia com quem estava quando chegou a manhã
ninguém sabia quem era quando chegou a manhã...

segunda-feira, outubro 01, 2007

O Jogo de "Cintura" dos Clã

1 de Outubro de 2007! No dia mundial da música o mundo conhece o 5º álbum de originais daquela que considero ser a melhor banda do mundo, os Clã!
Manuela Azevedo, Pedro Biscaia, Miguel Ferreira, Fernando Gonçalves, Hélder Gonçalves, Pedro Rito, apresentam-nos Cintura!
Saiu hoje e já estou apaixonado por 2 canções. Uma delas já a conheci a 22 de Agosto no ensaio geral para um grupo de 50 previligiados, em que felizmente estive, e que é Sexto Andar (curiosamente o andar que habito), outra é Pra Continuar.
Nos Clã vejo competência! Não só musical, mas Competência para Amar. Amarem-se entre eles, amarem os seus fãs, amarem o mundo, amarem quem com eles faz também um novo disco, sendo correspondidos por isso como se vê em Vamos esta noite de Arnaldo Antunes (Hoje não terá amanhã / Hoje o mundo é o nosso Clã / Hoje não terá talvez / Esta noite é para vocês / Virem junto / Até ao fim do fim de tudo).
Outro aspecto que me agrada é partirem sempre do Ponto Zero, mas sempre Pra Continuar.
E mesmo quando o mundo nos parecer de tal maneira injusto, que nos apeteça um bom Amuo, há sempre um Sexto Andar onde (Uma canção passou no rádio / E quando o seu sentido / Se parecia apagar / nos ponteiros do relógio / encontrou num sexto andar / alguém que julgou / que era para si / em particular / que a canção estava a falar / E quando a canção morreu / na frágil onda do ar / ninguém soube que ela deu / o que ninguém / estava lá para dar / Um sopro, um calafrio / raio de sol num refrão / um nexo enchendo o vazio / tudo isso veio / numa simples canção).
Obrigado e parabéns, Clã!

sábado, setembro 22, 2007

Vermelho Redundante
Letra: Carlos Tê
Música: Jorge Palma
in: Voo Nocturno

Eu só quero ver o instante
em que chegas à manif
no teu Armani flamejante
qual vermelha passadeira
em vermelho redundante
que empalidece a bandeira

Vou ficar a ver-te mudo
gritanto slogans na rua
pela divisão da riqueza, enquanto
nos gabinetes de veludo
o poder treme e recua
com medo da tua beleza

Então dou-te uma toilette
soneto de alta-costura
a mais chique maravilha
para me sentir perdoado
por não poder estar ao teu lado
quando tomares a Bastilha

segunda-feira, setembro 17, 2007

Vozes da Rádio presentes no 1º aniversário da loja de Comércio Justo de Cedofeita

As Vozes da Rádio estiveram presentes no 1º aniversário da loja de Comércio Justo de Cedofeita. Podes ver o que acharam em: http://vozesdaradio.blogspot.com/2007/09/reviravolta.html

sábado, setembro 15, 2007

COMBATER O AQUECIMENTO GLOBAL UM DESAFIO SOCIAL E POLÍTICO ESSENCIAL


NO PIOR DOS CENÁRIOS, 150 MILHÕES DE PESSOAS PODERÃO SER OBRIGADAS A DEIXAR AS SUAS CASAS ATÉ AO ANO 2050, DEVIDO À SUBIDA DO NÍVEL DAS ÁGUAS NOS OCEANOS EM RESULTADO DO AQUECIMENTO GLOBAL1. AO MESMO TEMPO, AS MORTES CAUSADAS PELA FALTA DE ÁGUA, MALÁRIA E FOME PODEM AUMENTAR EM 3 MIL MILHÕES, 300 MILHÕES E DE 50 A 100 MILHÕES, RESPECTIVAMENTE.

EMBORA já seja mais que preocupante esta previsão dos efeitos das alterações climáticas, outros dois elementos podem ser acrescentados, de cuja importância todos devemos estar alerta:

— as repercussões na agricultura. Um aumento da temperatura que vá para além dos 3ºC muito provavelmente vai provocar alterações no conjunto da produtividade nos ecossistemas ligados ao cultivo. Abaixo daquele valor, os impactos negativos sentir-se-ão (e já se sentem hoje) nas regiões tropicais e sub-tropicais, sobretudo em África e na América do Sul.

— os efeitos nos ecossistemas. As consequências do aquecimento são hoje claramente observáveis e algumas delas vão ter implicações graves nalgumas populações: uma quebra acentuada na biodiversidade (menos 25%, segundo um estudo publicado na revista "Nature"), o desaparecimento de recifes de coral e a crescente fragilidade das grandes áreas florestais como a da Amazónia.

Como irá o sistema capitalista lidar com estas situações? A questão continua a ser preocupante se repararmos que as políticas já implementadas em certos casos, como nas ilhas do Pacífico, ou em Nova Orleães a seguir ao furacão Katrina, ou ainda quando vemos os cenários estratégicos propostos por certos "especialistas".

NAS ILHAS DO PACÍFICO

Nalguns pequenos estados nas ilhas do Pacífico, a ameaça do aquecimento já é vivida dolorosamente como um problema do dia-a-dia. No início de Dezembro de 2005, a população de Lateu, uma pequena aldeia de 100 habitantes na ilha de Tegua, no estado polinésio de Vanuatu, foi deslocada para fugir às cheias frequentes2: a barreira de corais já não protege suficientemente as ilhas no que respeita aos furacões, com a erosão da costa a avançar ao ritmo de 2 a 3 metros por ano. Lateu foi o primeiro caso de realojamento colectivo após a subida do nível dos oceanos. Mas Tuvalu, outro estado do Pacífico, já tem três mil refugiados climáticos. Situado 3400 kms a nordeste da Austrália, este país (26km2 de terra mais ou menos firme) é feito de oito atóis elevando-se a 4,5 metros acima do nível do mar. Pode ficar mergulhado na

História como o primeiro país a ser completamente evacuado por causa das alterações do clima.

Ciente desta situação, o governo de Tuvalu pediu em 2000 à Austrália e à Nova Zelândia para acolherem os 11.636 residentes caso fosse necessário. Camberra recusou, alegando que um acordo deste tipo seria "discriminatório" para os outros candidatos a asilo de refugiados. Quanto à Nova Zelândia, apenas aceitou acolher 74 pessoas por ano, desde que tenham entre 18 e 45 anos e uma boa oferta de emprego no país, e ainda que provem conhecer bem o inglês, tenham boa saúde e posses suficientes caso tenham pessoas a cargo na família3. Para termos um retrato completo desta política, lembremo-nos que a Austrália, por exemplo, tem três habitantes por km2, e o seu PIB por habitante é de 29.632 dólares/ano4, e que recusou ratificar o Protocolo de Quioto enquanto continua a ser um dos maiores utilizadores de carbono no planeta.


KATRINA, NOVA ORLEÃES


"Os pobres vão ser as principais vítimas das alterações climáticas", avisa o IPCC. O caso Katrina mostra que este aviso também serve para os países desenvolvidos. Não há uma base sólida para afirmar que o furacão que devastou Nova Orleães em Agosto de 2005 se deveu ao aumento da concentração na atmosfera de gases de efeito de estufa. Mas a violência dos furacões do Atlântico Norte duplicou nos últimos 30 anos, provavelmente devido ao aquecimento5. Acima de tudo, a resposta a esta crise foi muito esclarecedora. Antes, durante e depois.

Antes? Embora a ameaça pendente sobre a capital do jazz fosse conhecida há muito tempo, o estado federal resolveu, para financiar as suas aventuras belicosas, cortar desde 2001 no orçamento destinado às equipas de prevenção de cheias, a SELA (Southeast Louisiana Urban Flood Control Project)), cuja administração estava entregue à Divisão de Engenharia do Exército. No início de 2004, o governo disponibilizou cerca de 20% das verbas pedidas para fortalecer os diques do Lago Pontchartrain. No fim desse ano, e apesar da inédita actividade dos ciclónica, a SELA só recebeu um sexto do que tinha pedido: 10 milhões de dólares.

Entretanto, em Julho, a Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA) tinha desenhado um plano de emergência baseado na hipótese cínica de que os pobres (30% da população, 67% dos quais são negros) ficariam na cidade em caso de cheias - já que não teriam os recursos financeiros suficientes para se porem a salvo. "Os residentes têm que saber que estarão por sua conta durante vários dias", disse Michael Brown, chefe da FEMA. Em Julho de 2005, as autoridades municipais avisaram os habitantes que eles seriam "em grande medida os responsáveis pela sua própria segurança"6.

Durante? 138 mil dos 480 mil habitantes sem ajuda durante cinco dias, mais de 1000 mortos, repressão brutal de iniciativas visando a sobrevivência (sistematicamente caracterizadas de "pilhagem")... Estes factos foram amplamente divulgados pelos media. É evidente que não podem ser explicados unicamente pela negligência ou pela confusão instalada, mas sim por uma lógica que era contra os pobres, baseada numa perspectiva de classe, arrogante e racista, e onde as sórdidas especulações imobiliárias tiveram um papel nada negligenciável. As declarações de George W. Bush e dos seus próximos fornecem bastantes confirmações disso mesmo7.

Depois? Menos conhecidas publicamente, algumas medidas tomadas no contexto da reconstrução também se revestem de grande significado: salário mínimo suprimido, contratos públicos entregues a amigalhaços (Halliburton!) sem concurso, obstáculos ao regresso da população pobre para permitir a remodelação da cidade, entre outras8. Em resumo, foi um bom exemplo da forma como o capital pode usar a crise ecológica para melhorar as condições da sua valorização.


AMEAÇA DA BARBÁRIE


As ilhas do Pacífico e o Katrina trouxeram à ribalta aquilo a que os neoliberais chamam de "gerir as consequências do aquecimento". Se projectarmos estes exemplos à escala global, não se pode fugir a esta conclusão: dentro de algumas décadas, as alterações climáticas podem servir como suporte a cenários de barbárie duma dimensão tão inédita como as próprias alterações do clima provocadas pela actividade humana.

Alguns "thinks tanks" não fazem segredo dos seus projectos nesta área. Num estudo sobre as consequências de alterações graves no clima para a segurança nacional dos EUA, dois "especialistas" escreveram friamente que os "países com recursos suficientes para o efeito", como os EUA e a Austrália, "poderão construir fortalezas virtuais em volta do seu território, preservando os recursos para si próprios". Do lado de fora dessas fortalezas, "as mortes por guerras, bem como a fome e a doença (devido ao aquecimento) diminuirão o número da população, que, com o tempo, regressará a um equilíbrio com a "capacidade de carga"9. Muito poucos comentadores prestaram atenção ao facto do valor científico deste auto-intitulado "estudo"

simplesmente não existir (até porque, inspirado pelo filme de catástrofe "The Day After", põe o cenário duma ameaça dual de uma nova glaciação e da subida do nível dos oceanos, o que é um disparate). Mas mais preocupante é a falta de protestos nos meios científicos contra a utilização do conceito ecológico de "capacidade de carga" dos ecossistemas, aqui usada para apoiar um projecto sócio-político abjecto: a exteminação em massa dos pobres.

Infelizmente, este relatório não é uma excepção. A lista de erupções reaccionárias levantadas pelo aquecimento é de facto muito longa. Outros "especialistas" já procuram aperfeiçoar o mercado das licenças de emissão de gás de efeito de estufa, abrindo o mercado de "licenças para procriar", com o pretexto da "demografia galopante" dos países em vias de desenvolvimento serem a maior causa desestabilização climática. Sobre estas questões decorrem sérias batalhas ideológicas e sociais. Já o tínhamos visto na tentativa falhada de infiltração da mais importante associação de protecção da natureza dos EUA, o Sierra Club, por elementos da extrema-direita, propondo o fim da imigração como uma medida "ecológica" prioritária10. A gestão neo-liberal das alterações climáticas pode tornar-se ainda mais perigosa do que as próprias alterações.

A URGÊNCIA DE UMA ALTERNATIVA

Muitos sinais indicam que a luta pelo clima será cada vez mais um dos principais assuntos políticos e sociais. Para além do Protocolo de Quioto (um primeiro passo muito insuficiente), a resposta do sistema capitalista está a ser redesenhada e refinada mesmo debaixo dos nossos olhos. Ela consistirá por exemplo em usar a séria ameaça do aquecimento para acelerar a implementação das políticas neo-liberais geradoras de exclusão, dominação, desigualdade e degradação do ambiente. É necessaria então outra política climática. Uma política que possa salvar o clima num quadro de justiça social, democracia e respeito pelos ecossistemas, à escala mundial. Uma política que redistribui a riqueza radicalmente e põe um ponto final no produtivismo. A imposição desta política necessita da mobilização mais ampla, à escala mundial.

*Daniel Tanuro é um ambientalista belga e correspondente da revista "International Viewpoint", editada pela IV Internacional. Tradução de Luís Branco.

NOTAS:

1- 30 milhões na China, 30 milhões na Índia, 15-20 milhões no Bangladesh, 14 milhões no Egipto [Meyers 1994, citado por Friends of the Earth Australia, "Citizen’s Guide to Climate Refugees", 2005]

2- Environment News Service,12 Janeiro 2006

3 - Friends of the Earth Australia, 2005, op. cit.

4 - PIB por habitante corrigido pelas variações do poder de compra

5 - Revista "Nature", 31 Julho 2005

6 - Jessica Azulay, "FEMA planned to Leave New Orleans Poor Behind", http://newstandardnews.net

7 - Inquirido sobre as condições extremamente precárias em que os refugiados foram deixados no Texas, a mãe de Bush declarou: "Sabe que muitas das pessoas que se encontram neste pavilhão já viviam em muito más condições. Isto para eles é muito bom." "Editor & Publisher", September 5, 2005

8 - Patrick Le Tréhondat and Patrick Silberstein, "L’ouragan Katrina, le désastre annoncé", Syllepse, 2005

9 - An abrupt Climate Change Scenario and its Implications for US National Security", P. Schwartz and D. Randall, Outubro 2003. Este texto foi publicado em vários sites, nomeadamente no da Greenpeace.

10 - Bitter Division for Sierra Club on Immigration", The New York Times, 16 Março 2004

CLIMA E AUTO-SUFICIÊNCIA ALIMENTAR

De acordo com um relatório da Organização para a Agricultura e Alimentação da ONU, "Em cerca de 40 países pobres e em vias de desenvolvimento, com uma população total de 2 mil milhões, incluindo 450 milhões de pessoas sub-alimentadas, as quebras de produção devido às alterações climáticas podem aumentar drasticamente o número de sub-alimentados e obstaculizar os progressos no combate à pobreza e insegurança alimentar. Os países da África sub-sahariana iriam arcar com as consequências piores. Há cerca de 1.1 biliões de hectares de terra árida onde o período de crescimento das culturas é menor que 120 dias. Entre hoje e 2080, esta superfície pode aumentar entre 5 e 8%. Para lá de África, todas as regiões tropicais e sub-tropicais serão afectadas. A produção de cereais de 65 países que contêm mais de metade da população dos países em desenvolvimento poderia cair 280 milhões de toneladas (ou 16% do PIB agrícola destes países.)

FONTE: http://www.fao.org/newsroom/FR/news/2005/102623/index.html

segunda-feira, setembro 03, 2007

Gaivota dos Alteirinhos
Jorge Palma in Voo Nocturno

Dança sobre as ondas do mar
gaivota dos Alteirinhos
desperta dia após dia
a vida da praia ainda fria

Plana a seu bel-prazer
sobre o caranguejo e o sargo
entre as malandrices do Verão
e o sorriso terno do chão

Gaivota dos Alteirinhos
é tão bom ver-te voar
gaivota dos Alteirinhos
nunca deixes de acordar
nunca deixes de acordar

Entre o chill-out e o transe
a sinfonia dos grilos
um pouco de rock' n' roll
e uma valsinha ao pôr-do-sol

E finalmente ao luar
adormece satisfeita
essa gaivota sereia
nos braços do homem-areia

Gaivota dos Alteirinhos
é tão bom ver-te voar
gaivota dos Alteirinhos
nunca deixes de acordar
nunca deixes de acordar

sábado, setembro 01, 2007

Rui Rio - O bebé borrão

Rui Rio, é um autêntico bebé mimado! Depois das corridas dos popós no circuito da Boavista, o Porto teve este fim-de-semana o "espectáculo" dos aviõezinhos. Ah, que maravilha... Ainda bem que o bebé acabou com a Culturporto, para assim podermos ter muito lazer!!! Mal posso esperar pelo Natal para ver a maior árvore de Natal na minha cidade. Que grande alegria!!
Entre os popós e as avionetes, Rui Rio ainda teve tempo esta semana para se borrar todo! Andando, literalmente, à caça de contentores do lixo por esvaziar (e não encontrando nem um único), anunciou que tanto desleixo não pode continuar e que portanto irá atribuir a recolha de lixo a privados. Mesmo a haver culpas no cartório aos profissionais da recolha do lixo, Rui Rio como figura patronal deveria arranjar soluções. Ao demitir-se do problema, só revela a sua incompetência para resolver um problema, que segundo ele existe.
O bebé brinque! Brinque muito! Com popós, com aviõezinhos, com carrinhos de lixo! Nós, em 2009 pomo-lo de castigo no quarto escuro!!! E aí, quando a cultura voltar à cidade, o bebé vai ter muito tempo para lazer, mas certamente não encontrará no Porto popós e aviões.

sexta-feira, agosto 31, 2007

Abrir o sinal
Jorge Palma in Voo Nocurno

Eu disse "vamos partir, o espaço é seco, vazio e banal, vamos fugir!"
andámos de lugar em lugar
talvez a deixa fosse má, afinal a marca ainda cá está
a conspirar nalgum patamar

Não é o momento de te aconchegar
e não posso ver-te mal
acho que chegou o tempo de abrir o sinal
não sou suposto ver onde vais
nem saber com quem tu sais
neste canto meu
tens um mundo que é só teu

Olha que os nossos pés, mesmo que às vezes estejam de revés, são de proteger
respondem à voz do coração
com erva, vento, pedra e frio, na montanha ou no rio
merecem ternura e atenção

Não é o momento de te aconchegar...

quinta-feira, agosto 30, 2007

Nuno Prata

Há cerca de um ano, Nuno Prata (baixista dos extintos Ornatos Violeta, lançou o seu primeiro disco a solo intitulado Todos os dias fossem estes/outros. Podes ver e ouvir aqui o primeiro videoclip, Hoje quem?, ilustrado por Daniel Neves.


Olá (cá estamos nós outra vez)
Jorge Palma in Voo Nocturno

Olá! Sempre apanhaste o tal comboio?
Eu já perdi dois ou três
entre o ócio e as esquinas
ganhei o vício da estrada
nesta outra encruzilhada
talvez agora a coisa dê
o passado foi à história
cá estamos nós outra vez

Conheço a tua cara, mas não sei o teu nome
eu escrevo já aqui, não sei o quê, arroba-ponte-come
vou-te reencontrar noutro bar de estação
ou talvez quando perder mais um avião
o barco vai de saída, tu estás tão bronzeada
é tão bom ver-te assim, ardente,
tão queimada

Eu quero reencontrar-te noutra esquina qualquer
sem saber o teu nome ou se ainda és mulher
quero reconhecer-te e beber um café
dizer-te de onde venho e perguntar-te porquê
sorrir-te cá do fundo, subir os degraus
eu quero dar-te um beijo
a cinquenta e tal graus

Quero reencontrar-te noutra esquina qualquer
sem saber o teu nome ou se ainda és mulher
quero reconhecer-te e beber um café
dizer-te de onde venho e perguntar-te porquê
sorrir-te cá do fundo, subir os degraus
eu quero dar-te um beijo a cinquenta e tal graus

Sempre apanhaste o tal comboio?
Já perdi dois ou três
entre o ócio e as esquinas
ganhei o vício da estrada,
nesta outra encruzilhada
talvez agora a coisa dê
o passado foi história
cá estamos nós outra vez
cá estamos nós outra vez

segunda-feira, agosto 20, 2007

O Centro Comercial fechou
Jorge Palma in Voo Nocturno

O centro comercial fechou
a Maria vai viver a vida mais longe
longe das ilusões
em cima das situações perigosas

O Tóino não morreu no mar
acabou de adquirir um castelo na Escócia (enfim)
não é bem na Escócia
é uma cave sombria em Gaia

O passado já lá está, raio duma sorte cinzenta
e o presente é uma réstia de esperança enquanto houver saúde
há que cuidar do aspecto, fazê-lo parecer natural
por mais que seja cruel, não há ninguém que ajude

Ninguém nos ensinou a usar
nada do que recolhemos pelo caminho
perto das ilusões
entre o amor e as razões perversas

O passado já lá está, raio duma sorte cinzenta
e o presente é uma réstia de esperança enquanto houver saúde
há que cuidar do aspecto, fazê-lo parecer natural
por mais que seja cruel, não há ninguém que ajude

O centro comercial fechou
Manu Chao apoia indígena Maia à presidência da Guatemala



Manu Chao gravou uma mensagem de apoio a Rigoberta Menchú, que se candidata a presidente da Guatemala, nas eleições que vão decorrer em 9 de Setembro próximo.

Rigoberta Menchú recebeu em 1992 o prémio Nobel da Paz pelo seu trabalho em defesa dos direitos dos indígenas. No discurso, que fez quando recebeu o prémio, reivindicou os direitos históricos negados aos povos indígenas e denunciou a perseguição por eles sofrida desde a chegada dos europeus ao continente americano.
Rigoberta Menchú, que nasceu em 1958 e é indígena maia, destacou-se como lutadora pelos direitos sociais, em particular dos indígenas, e pelo combate à ditadura militar na Guatemala.

Rigoberta Menchú candidata-se a presidente da República da Guatemala nas próximas eleições, que decorrerão a 9 de Setembro. É apoiada pelo partido Encuentro por Guatemala.