sexta-feira, julho 04, 2008

Terror

José Pacheco Pereira
in, Abrupto

Há uns filmes de terror em que alguém está numa sala que vai começando a ser invadida por água. A água vai subindo e a pessoa vai lutando para manter a cabeça à tona. Até que o tecto da sala se aproxima inexoravelmente e fica apenas aquele movimento desesperado de encontrar a última película de ar que sobra. Umas vezes há salvação, aparece o herói, outras, se o filme de terror é a sério, a imagem seguinte é o corpo a boiar sem vida.

Os portugueses começam a perceber que estão num filme deste género. Qualquer noticiário lhes diz aquilo que verificaram no supermercado, na bomba de gasolina, no transporte, na conta do fim do mês, na prestação da casa: os preços estão a subir como a água do filme de terror. Com eles, as dívidas, porque a facilidade traiçoeira do crédito do consumo está presente na sala, como se acrescentássemos ao perigo do afundamento, o de um tubarão qualquer que dá voltas, ao lado. É overkill, mas é mesmo.

Crónica descosida porque me comovi

António Lobo Antunes
in, Visão


Se ao menos a gente pudesse viver com as coisas mais simples em vez de recordar as complicadas. Voltar à pobreza do elementar: luz, água, pedra. O avô de alguém que me é querido dizia de uma pessoa boa É bom como o pão e ao lado disto que maior elogio se pode fazer? A nossa língua torna-se maravilhosa com palavras como estas É bom como o pão e lembro-me das mulheres que beijavam o pão duro antes de o deitar fora, da minha avó que se horrorizava ao ver um pão ao contrário: punha-o logo direito a pedir desculpa em silêncio, movendo a boca. Sempre me senti bem nas padarias: o cheiro, o lume, os padeiros enfarinhados que eu achava, acho ainda, serem anjos que se transviaram, de braços cobertos por uma poeira celeste. Tudo neles era branco até as sobrancelhas, as pestanas. O olhar branco também. Os gestos. Não olhos cegos, olhos brancos. E eu à porta a espantar-me. O eco das vozes nos tijolos, dos passos, da lenha no forno. Bom como o pão: ora toma, António. Aprende a escrever à maneira. O facto é que me interessa muito mais um padeiro que um economista. Ou um gestor.

Criaturas que, não sei porquê, me dão pena: economistas, gestores, administradores, directores, banqueiros. Deve ser triste ganhar dinheiro assim. O que sonhará um economista, a que brincava um gestor em criança? Ou nasceram já crescidos? Imagino-os debaixo do chuveiro, de gravata, a falar ao telemóvel. E sabe-se que são velhos não pelo aspecto mas porque quando contam que arranjaram uma secretária boa se referem a um móvel. O que sonhará um economista posso imaginar mais ou menos, agora o que sonha a mulher de um economista é que me preocupa. Se eu fosse mulher de um economista sonhava com canalizadores ou mecânicos de automóvel, homens que usam as mãos e não lêem revistas de golfe nos domingos de chuva. Estou a brincar. Não conheço nenhum economista, aliás. Se conhecesse abria-lhe logo a tampa a fim de espiar o que traz na barriga: cartões de crédito, canetas caras, camisas por medida? Sempre andei mal enjorcado, eu, para desespero da minha mãe:

Andas tão mal enjorcado, filho.

Todos os anos a minha companhia lá da guerra faz um almoço com os que sobejam da miséria em que andámos. Não neste último almoço, no penúltimo, o furriel Firmino Alves começou a anotar os telemóveis dos nossos camaradas para os contactos da refeição seguinte, até que chegou ao Pontinha. Pontinha é a alcunha do ordenança da messe de oficiais, que morava na Pontinha. Como a cabeça dele era grande (continua a ser grande) chamavam-lhe também Porta-aviões porque dava para os aviões aterrarem.

O Pontinha, como muitos dos soldados, vive com dificuldades. Ao fim-de-semana engraxa sapatos na mira de equilibrar o orçamento. Gosto muito do Pontinha a quem obrigava a cortar a carne em bocados de dois por três centímetros, por haver decidido ser a capacidade da minha boca. Media aquilo e exigia Quatro milímetros a mais, Pontinha, corta outra vez e o Pontinha, que remédio, cortava. Ainda hoje, nesses almoços, me quer cortar a carne. Falar nos meus camaradas comove-me: a expressão irmãos de armas é tão verdade. Enquanto nos aguentarmos por cá. Mesmo depois. Zé Jorge: continuamos irmãos de armas. Cabo Sota: admiro a tua coragem até ao fundo da alma. Sozinho com a Breda, uma metralhadorazeca, aguentou um ataque.

E vive mal, percebem? Como se deixa viver mal um herói? Ao acompanhá-lo ao táxi em que voltava, doente, ao Alentejo, avisei o condutor:

Você leva aí um grande homem, sabia, um dos maiores homens que conheço e, como todos os grandes homens da guerra, de uma infinita modéstia, bondoso e sereno. Não lhe chego aos calcanhares. Cabo Sota, tu mereces a continência de um general. O Zé Luís, oficial de operações especiais, que em matéria de coragem não necessitava de aprender com ninguém:

Eram duros

expressão que constitui para nós o supremo elogio. Adiante. Contava eu que o furriel Firmino Alves anotava os telemóveis até que chegou ao Pontinha e como fizera com os outros perguntou:

Tens um telemóvel, Pontinha?

e o Pontinha logo, a mostrar serviço:

Não, mas a minha mulher tem um microondas não fosse a gente pensar que ele era um badameco qualquer. Pode parecer esquisito ou parvo ou o que quiserem, mas quem cortava a minha carne era um magnata cuja mulher tem um microondas, e aí está o melhor título de nobreza (aliás o único) que possuo. Este ano o Pontinha, depois de me desdobrar o guardanapo (se eu o desdobrasse ele ofendia-se) olhou-me bem nos olhos e declarou:

Se quiser vou para sua casa, faço-lhe o comer, dou-lho e não levo um tostão por isso e eu todo arrepiadinho de ternura. Boaventura, Nini, Licínio, vocês todos caramba como a gente somos irmãos. Unamuno, que muito respeito, tem páginas admiráveis acerca da valentia dos portugueses. Tens razão, Zé Luís: eram duros. Ganas de explicar às mulheres deles, aos filhos deles, o orgulho que tenho em ser amigo dos pais, em que os pais sejam meus amigos. Não: irmãos de armas. Não: irmãos. E bons como o pão. Ao lado disto que maior elogio se pode fazer? Ao menos que o País os beije antes de os deitar fora e lhes peça desculpa. E há mais anjos para além dos padeiros, de arma nas unhas mata fora. Nenhum deles é banqueiro, claro. Nem administrador. Nenhum deles joga golfe. Jogaram golfe num campo de um só buraco onde não é a bola que cai.

É um rapaz de vinte anos. E acabo aqui, antes que seja tarde para marcar o número de um microondas.

quinta-feira, julho 03, 2008

Seu interesse

Arnaldo Antunes / Paulo Miklos

Seu interesse repentino por mim agora
Não é tão difícil perceber.

Agora que eu faço sucesso
Você não me dá mais sossego
Quer dizer que agora eu presto pra você brincar.

Pra se construir alguma coisa
É preciso respirar
Longe desse seu ar de raposa
Que não dá pra perdoar
A sinceridade de intenção
Só pra quem se pode dar.

Seu interesse repentino por mim agora
Não é tão difícil perceber.

Sentimental

Arnaldo Antunes / Lenine / Lula Queiroga

Quem liberta o furacão?
Desamarra o mar da praia?
Desarruma o rumo, entorta o prumo,
Erra sem destino, amor?
Quem desata o céu da terra.
Desfere a flecha, rasga o ar?
Tira a luz da treva, razão aterra,
Erra, desatina, amor?
Quem move o mundo apenas sendo

Sentimental

Quem me tira o chão dos pés?
E movimenta as marés, quem
Semeia o pé de vento do pensamento,
Erra sem destino, amor?
Desintegra o grão na terra,
Desagrega o coração,
Tira o véu dos olhos,
Desperta os poros,
Erra, desatina, amor?
Quem move o mundo apenas sendo

Sentimental

Quem desarrazoa, quem
Abraça o raio, arrasta o rio, quem
Avassala o medo, repete o erro,
Erra sem destino, amor?
Faz qualquer coisa de mim.
Quebra a pedra com o seu sim,
Arrepia o pêlo,
Derrete o gelo,
Erra, desatina, amor?
Quem move o mundo todo sendo

Sentimental

Senhora e senhor

Arnaldo Antunes / Paulo Miklos / Marcelo Fromer

Veja só o que restou do nosso caso de amor
Uma casa com varanda e um jardim que não dá flor
Uma geladeira cheia de comida sem sabor
Um programa interminável diante do televisor
Uma lâmpada queimada no lustre do corredor
O pensamento distante para evitar a dor
O olhar tão desbotado que já não distingue cor
Velhas rugas escondidas debaixo do cobertor
Saudades, indiferença, decadência e mau-humor
Tratamento respeitável de senhora e senhor

Sem você

Arnaldo Antunes / Carlinhos Brown

pra onde eu vou agora livre mas sem você?
pra onde ir o que fazer como eu vou viver?
eu gosto de ficar só
mas gosto mais de você
eu gosto da luz do sol
mas chove sempre agora
sem você
sem você
sem você
sem você

às vezes acredito em mim mas às vezes não
às vezes tiro o meu destino da minha mão
talvez eu corte o cabelo
talvez eu fique feliz
talvez eu perca a cabeça
talvez esqueça e cresça
sem você
sem você
sem você
sem você

talvez precise de colchão, talvez baste o chão
talvez no vigésimo andar, talvez no porão
talvez eu mate o que fui
talvez imite o que sou
talvez eu tema o que vem
talvez te ame ainda
sem você
sem você
sem você
sem você

Sem amor

Arnaldo Antunes / Paulo Miklos

Foi você me encontrar assim
Pra ver em mim a dor
Deve ser tão fácil perceber
Que nada em mim restou

Vou sofrer até o fim
Sem amor até o fim

Você vê, mas não pode entender
Porque não aceito
Você diz que eu posso ser feliz
Mas sei que não tem jeito

Seja como for

Arnaldo Antunes / Hélder Gonçalves
in, Rosa Carne, Clã

Faça o que quiser
Viva o que vier
Seja onde estiver
Faça o que puder
Viva como der
Sinta o que vier
Seja o que quiser
Faça o que fizer
Pegue o que puder
Viva onde estiver
Seja como for, amor

Volte para o seu lar

Arnaldo Antunes
in, Um Som

Aqui nessa casa ninguém quer a sua boa educação
Nos dias que tem comida comemos comida com a mão
E quando a polícia a doença a distância ou alguma discussão
Nos separam de um irmão
Sentimos que nunca acaba de caber mais dor num coração
Mas não choramos à-toa
Não choramos à-toa

Aqui nessa tribo ninguém quer a sua catequização
Falamos a sua língua mas não entendemos seu sermão
Nós rimos alto bebemos e falamos palavrão
Mas não sorrimos à-toa
não sorrimos à-toa

Volte para o seu lar
Volte para lá
Volte para o seu lar
Volte para lá

Aqui nesse barco ninguém quer a sua orientação
Não temos perspectiva mas o vento nos dá direção
A vida que vai à deriva é a nossa condução
Mas não seguimos à-toa
Não seguimos à-toa

Volte para o seu lar
Volte para lá
Volte para o seu lar
Volte para lá

Velhos e jovens

Arnaldo Antunes / Péricles Cavalcanti

Antes de mim vieram os velhos
Os jovens vieram depois de mim
E estamos todos aqui
No meio do caminho dessa vida
Vinda antes de nós
E estamos todos a sós
No meio do caminho dessa vida
E estamos todos no meio
Quem chegou e quem faz tempo que veio
Ninguém no início ou no fim
Antes de mim
Vieram os velhos
Os jovens vieram depois de mim
E estamos todos aí

Um som

Arnaldo Antunes / Paulo Tatit

é só
um som
do fim do mundo vem
até o fim de mim
aqui
assim
do fundo de um vulcão
a voz
carvão
o ar em convulsão

é só
um som
a dor de ser alguém
de longe longe vem
maré
trovão
de além de além de além
até
aqui
na voz de quem também
é só
um som
no meio da multidão

Um branco, um xis, um zero

Arnaldo Antunes / Marisa Monte / Pepeu Gomes

você partiu e me deixou
sem lamentar o que passou
sem me apegar ao que apagou
acabou

não me lembro bem da sua cara qual a cor dos olhos já nem sei

só o cheiro do seu cheiro
não quer me deixar mais em paz
nos ares dos lugares
onde passo e onde nunca estás

você partiu e não voltou
eu já esqueci o que me falou
se prometeu ou se jurou
seu amor

já não me recordo mais seu nome quais os outros nomes que te dei

só o cheiro do seu cheiro
não consegue ser tão fugaz
nas pessoas peles colos
sexos bocas onde nunca estás

você partiu e foi melhor
e eu já me esqueci de cor
do som do ar do tom da voz
e de nós

já passei um pano um branco um zero um xis um traço um tempo já passei

só o cheiro do seu cheiro
não consigo deixar para trás
impregnado o dia inteiro
nessa roupa que não tiro mais

Um a um

Arnaldo Antunes / Marisa Monte / Carlinhos Brown
in, Tribalistas

Não, não quero ganhar
Só quero chegar junto
Sem perder
Eu quero um a um
Com você
No fundo
Não vê
Que eu só quero dar prazer
Me ensina a fazer
Canção com você
Em dois
Corpo a corpo
Me perder
Ganhar você

Muito além do tempo regulamentar

Esse jogo não vai acabar
É bom de se jogar
Nós dois
Um a um
Nós dois
Um a um
Nós dois
Um a um
Pouco a pouco
Me perder
Ganhar você

Tudo em dia

Arnaldo Antunes / Branco Mello / Sérgio Britto

Vou comprar uma casa, vou ganhar dinheiro
Vou pensar no futuro, vou fazer um seguro
Vou ganhar o pão nosso de cada dia
Vou por tudo o que tenho na garantia
Vou ter conta no banco, vou trabalhar no escritório
Vou tomar um chope, vou tomar sorvete
Vou tomar remédio, que maravilha
Vou casar e constituir família

Vou andar de táxi, vou deixar o troco
Vou pagar os impostos, vou por os filhos na escola
Vou ser respeitado, vou engraxar o sapato
Vou botar o chinelo, vou sentar na poltrona
Vou jantar na melhor churrascaria
Vou pedalar domingo na ciclovia
Vou ter conta na mercearia
Vou gozar a aposentadoria

Vou ter CIC, eleitor, reservistas, RG
Automóvel, TV
Crediário, poupança, carnê

Tudo em dia, tudo em dia
Tudo em dia, tudo em dia

Tudo chato tudo errado

Arnaldo Antunes

Tem dias que eu acho tudo chato
tudo corta o meu barato
as pedras entram no meu sapato
tem dia que eu acho tudo um saco

Tem dias que tudo dá errado
se chove eu pego um resfriado
se faz calor fico desidratado
tem dias que tudo dá errado

Um dia desses me mato

Tem dias que acho tudo chato
pessoas chatas ficam do meu lado
querendo puxar papo furado
tem dias que eu acho tudo um saco

Tem dias que tudo dá errado
tudo faço, não me satisfaço
eu tento tanto e só fracasso
tem dias que tudo dá errado

Um dia eu fujo pro mato

Tribalistas

Arnaldo Antunes / Marisa Monte / Carlinhos Brown
in, Tribalistas

Os tribalistas já não querem ter razão
Não querem ter certeza, não querem ter juízo nem religião

Os tribalistas já não entram em questão
Não entram em doutrina, em fofoca ou discussão

Chegou o tribalismo no pilar da construção

Pé em Deus
E fé na Taba

Pé em Deus
E fé na Taba

Um dia já fui chipanzé
Agora eu ando só com o pé
Dois homens e uma mulher
Arnaldo, Carlinhos e Zé

Os tribalistas saudosistas do futuro
Abusam do colírio e dos óculos escuros
Os tribalistas, eu você e todo mundo
Dentro da placenta do planeta azul e bruto

Pé em Deus
E fé na Taba
Pé em Deus
E fé na Taba

Um dia já fui chipanzé
Agora eu ando só com o pé
Dois homens e uma mulher
Arnaldo, Carlinhos e Zé

Dois homens e uma mulher
Arnaldo, Carlinhos e Zé
Um dia já fui chipanzé
Agora eu ando só com o pé

Pé em Deus
E fé na Taba
Pé em Deus
E fé na Taba

O tribalismo é um anti-movimento
Que vai se desintegrar no próximo momento

O tribalismo é o que você quiser
Não tem que fazer nada, basta ser o que se é
Chegou o tribalismo no pisar do pé no chão

Pé em Deus
E fé na Taba

Pé em Deus
E fé na Taba

Velha infância

Arnaldo Antunes / Marisa Monte / Carlinhos Brown / Davi Moraes / Pedro Baby
in, Tribalistas

Você é assim,
um sonho pra mim
e quando eu não te vejo

eu penso em você
desde o amanhecer
até quando eu me deito

eu gosto de você
e gosto de ficar com você
meu riso é tão feliz contigo
o meu melhor amigo é o meu amor

e a gente cantar
e a gente dançar
e a gente não se cansa

de ser criança
da gente brincar
da nossa velha infância

seus olhos meu clarão
me guiam dentro da escuridão
seus pés me abrem o caminho
eu sigo e nunca me sinto só

Você é assim,
um sonho pra mim
quero te encher de beijos

eu penso em você
desde o amanhecer
até quando eu me deito

eu gosto de você
e gosto de ficar com você
meu riso é tão feliz contigo
o meu melhor amigo é o meu amor

e a gente cantar
e a gente dançar
e a gente não se cansa

de ser criança
da gente brincar
da nossa velha infância

Saiba

Arnaldo Antunes
in, Saiba

Saiba: todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Sadam Hussein
Quem tem grana e quem não tem

Saiba: todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu

Saiba: todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar

Saiba: todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano

Saiba: todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao Tsé Moisés Ramsés Pelé
Ghandi, Mike Tyson, Salomé

Saiba: todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você

segunda-feira, junho 30, 2008

Ja sei namorar

Arnaldo Antunes / Marisa Monte / Carlinhos Brown
in, Tribalistas

Já sei namorar
Já sei beijar de língua
Agora só me resta sonhar

Já sei onde ir
Já sei onde ficar
Agora só me falta sair

Não tenho paciência pra televisão
Eu não sou audiência para a solidão

Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo me quer bem

Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo é meu também

Já sei namorar
Já sei chutar a bola
Agora só me falta ganhar
Não tenho juiz

Se você quer a vida em jogo
Eu quero é ser feliz
Não tenho paciência pra televisão
Eu não sou audiência para a solidão

Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo me quer bem

Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo é meu também

Tô te querendo como ninguém
Tô te querendo com Deus quiser
Tô te querendo como eu te quero
Tô te querendo como se quer

Tô te querendo como ninguém
Tô te querendo como Deus quiser
Tô te querendo como eu te quero
Tô te querendo como se quer

H2omem

Letra: Arnaldo Antunes
Música: Hélder Gonçalves
in: Lustro

A gota caiu na poça
A poça caiu na lagoa
A lagoa caiu no mar
e aqui se fez
a pessoa

a pessoa caiu na outra
a outra caiu na outra
a gota caiu na gota
e o mar se fez
da garoa

Agá dois homem
pra dentro da boca da boca da boca do rio
correndo escorrendo pra dentro do copo vazio
e do copo cheio transbordando, embalando o navio
chovendo, jorrando, enxurrando, enchendo o cantil

Agá dois homem
pra beber e tomar banho
Agá dois homem
pra nadar e fazer sopa
Agá dois homem
pra molhar a plantação

contra a cabeça pedra
contra a cabeça ferro
contra a certeza inquestionável

Agá dois homem
pra lavar a roupa suja
Agá dois homem
pra furar a pedra dura
Agá dois homem
pra chover sobre o sertão

Eu ninguém

Letra: Arnaldo Antunes
Música: Hélder Gonçalves
in: Rosa Carne

Eu ninguém
Eu ninguém comigo só
Posso ser
Travesti de quem quiser
Manequim de bazar
Ou rainha do lar
Madame Butterfly
Barbie Suzie Dollu Polly Pocket

Tudo bem
Mas eu posso ser também
Emanuelle
Lady Miss Mademoiselle
Num harém meretriz
Ou apenas atriz
O espelho me diz
Gueixa Vênus Eva Dama Virgem Mãe

É que eu sei
O que eu sou e o que eu não sou
Mas é claro
O que eu for eu sou
Sem ninguém
Só o que eu tenho a saber
É quem de nós cem
Hoje eu vou ser

Pó de arroz
Rímel óculos baton
Sutiã
Armadilha de satã
Salomé Rapunzel
Ou beata de véu
Um anjo cruel
Fada vaca gata dona do bordel

É que eu sei
O que eu sou e o que eu não sou
Mas é claro
O que eu for eu sou
Sem ninguém
Só o que eu tenho a saber
É quem de nós cem
Hoje eu vou ser

Sei lá sei lá sei lá sei lá
Sei lá sei lá sei lá

Consumado

Arnaldo Antunes / Marisa Monte / Carlinhos Brown

Tô louco pra fazer
Um rock pra você
Tô punk de gritar
Seu nome sem parar

Primeiro eu fiz um blues
Não era tão feliz
E de um samba-canção
Até baião eu fiz

Tentei o tchá tchá tchá
Tentei um yê yê yê
Tô louco pra fazer
Um funk pra você

E tá consumado
Tá consumado
Tá consumado
Tá consumado

Fiz uma chanson d'amour
Fiz um love song for you
Fiz una canzone per te
Para impressionar você

Pra todo mundo usar
Pra todo mundo ouvir
Pra quem quiser chorar
Pra quem quiser sorrir

Na rádio e sem jabá
Na pista e sem cair
Um samba pra você
Um rock and roll to me

E tá consumido
Tá consumido
Tá consumido
Tá consumido

Fiz uma chanson d'amour
Fiz um love song for you
Fiz una canzone per te
Para impressionar você

As coisas

Arnaldo Antunes / Gilberto Gil

As coisas têm peso,
massa, volume, tamanho,
tempo, forma, cor,
posição, textura, du¬ração,
densidade, cheiro, valor.
Consistência, profundidade,
contorno, temperatura,
função, aparência, preço,
destino, idade, sentido.
As coisas não têm paz.

Era uma vez um pensamento teu

Mafalda Veiga
in, Chão

era uma vez um pensamento teu
quase podia ser segredo meu
e teu
era quem sabe um tempo de inventar
subir o teu corpo
cair do teu sonho
e ficar em nós

era uma vez um medo que voou
que se fez asa, sopro, ar
nunca mais voltou
e eu sem saber porquê fui atrás
e ainda o vi
esconder-se de ti
era talvez um tempo de te amar
era talvez um tempo de sentir

era uma vez um pensamento meu
quase podia ser segredo teu
e meu
era quem sabe um tempo de inventar
subires o meu corpo
caíres do meu sonho
e ficares em nós

era um vez um sonho que não sei
que se fez asa, sopro, ar
quase lhe toquei
e a pressentir porquê fui atrás
e ainda o vi
a esconder-se em mim
era talvez um tempo pra te dar
era talvez um tempo de te amar

o tempo que não foi tempo não passou
o sonho que se fez pele e se guardou
aqui ficou
como se fosse sopro, asa, ar
escondeu-se em nós
e no teu olhar
fica pra sempre um tempo de te amar
fica pra sempre tanto do que sou

Estrada

Mafalda Veiga
in, Chão

meu amor
não quero mais palavras rasgadas
nem o tempo
cheio de pedaços de nada
não me dês
sentidos para chegar ao fim
meu amor
só quero ser feliz

meu amor
não quero mais razões para apagar
o que nasce
e renasce e nos faz acordar
a loucura
faz medo se for medo o teu chão
mas é ar e é terra
dentro do coração
é ar e é terra dentro do coração

meu amor
não quero mais silêncio escondido
nem a dor
do que cai em cada gesto ferido
quero janelas abertas
e o sol a entrar
quero o meu mundo inteiro
dentro do teu olhar
eu quero o meu mundo inteiro
dentro do teu olhar

e hoje, vê
a estrada é feita pra seguir
e hoje, sente
a vida é feita de sentir
e hoje vira do avesso o mundo
e vê melhor
deste lado é mais puro
é teu
é tão maior
deste lado é mais puro
é meu
é tão maior

sexta-feira, junho 27, 2008

Arrogância europeia

Miguel Portas
in, Sol de Esquerda

«Não entregarás a seu senhor o escravo que se tiver refugiado junto de ti, fugindo dele. Ficará contigo, entre os teus, no lugar que escolher numa das tuas cidades, onde lhe parecer bem» (1).
Lembram-se? Não? Então aqui vai outra: «Quando um forasteiro residir junto de ti, não o oprimas. Considerarás o forasteiro como um do teu povo e o amarás como a ti mesmo, pois forasteiros fostes na terra do Egipto» (2).
Estas citações do Velho Testamento deviam ter sido inscritas a ouro na cabecinha de cada um de nós. Para que quem estivesse em frente nunca esquecesse. Escrevo com amargura, porque amargo foi aquele fim de manhã em Estrasburgo, onde uma maioria de deputados, na sua quase totalidade cristãos esquecidos, votaram a mais vergonhosa directiva de que me lembro desde que me sento naquele Parlamento.
Vergonha, sem tirar nem pôr. Quando uma lei admite a detenção de um ser humano até 18 meses, sem ter sido condenado ou ter cometido qualquer crime, senão o de procurar melhorar a sua vida e a dos seus, é porque algo de muito grave apodreceu nesta Europa e nas nossas cabeças.
Quando essa mesma lei admite idêntico tratamento para menores, acompanhados ou não, já nem de vergonha, mas de pura desonra se trata. Acusem-me de moralista à vontade. Porque se houve momento em que política e moral se dissociaram sem apelo nem agravo – este foi um deles.
Por isso, tomem lá com outra citação: «Porque tive fome e vós não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber. Fui forasteiro e não me recolhestes. Estive nu e não me vestistes, doente e preso e não me visitastes. Então… eles responderão: ‘Senhor, quando é que te vimos com fome ou com sede, forasteiro ou nu, doente ou preso e não Te servimos?’ E Ele responderá: ‘…todas as vezes que o deixastes de fazer a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer» (3).

(1) Deuterónimo 23. 16,17;(2) Levítico 19,33; (3) Mateus 25. 42-45

Não sou cristão, e sei que peco, porque lanço sobre os responsáveis da directiva com o que mais os pode incomodar, se é que ainda algo os incomoda, para lá da sua vidinha e das mordomias do poder.
Para que se saiba – e não sou de queixas – os responsáveis por esta regressão em matéria de valores fundamentais têm nome. Foram os governos da União, todos sem excepção; a comissão Barroso; e uma maioria de deputados onde se encontraram a extrema-direita, a direita, os liberais e ainda 49 socialistas em cega obediência aos respectivos governos.
Esta gente decide sobre a vida dos outros como se estivesse no Olimpo. Esta semana trouxe outro exemplo desta arrogância fatal: ao contrário do que fizeram com o Tratado Constitucional, após o chumbo francês e holandês, os governos decidiram prosseguir com as ratificações em resposta ao ‘Não’ irlandês. E ainda dizem que não há filhos e enteados. Melhor ainda, querem que a Irlanda faça novo referendo. Eles, que tudo fizeram para os impedir nos seus países. Falta-lhes em vergonha o que lhes sobra em descaramento.

Clã e Pato Fu no Rock in Rio Lisboa 2008





Mama Papa


Clã & Pato Fu na Antena 3


A luta deles



quinta-feira, junho 26, 2008

Sou um gajo do Porto

Trabalhadores do Comércio

Sou um gajo do Porto
Olha a grande nobidade
Represento bibo ou morto
O mau jeito da cidade

Um mau jeito com seus ques
ou bice-bersa é claro
Trocar os Bs pelos Bs
Tem muita graça e é raro

Curaçon, telebison
É como pronunciamos
Mas tem sempre som e tom
Aquilo de que falamos

Sim, sou um gaijo do Porto
Sim, sou um gaijo do Porto

Tripas som manjar só nosso
Feitas à moda do Porto
E sabemos dar no osso
Se a coisa dá pró torto.

Cunfeitaria ou café
num suplantam um bom tasco
Ondo balcom semprimpé
Bai do maduro ou do berdasco

Curaçon, telebison
É como pronunciamos
Mas tem sempre som e tom
Aquilo de que falamos

Sim, sou um gaijo do Porto
Sim, sou um gaijo do Porto

A importância de ser Alegre

Ricardo Araújo Pereira
in, Visão


Neste momento é seguro afirmar que todo o País está contra o PS até o PS. Uma coisa é a esquerda gritar e a direita ranger os dentes, outra coisa é gente do próprio PS organizar comícios contra o Governo. Sócrates conseguiu maioria absoluta em Portugal, mas parece ter dificuldade em obter maioria relativa no PS. Significa isso que os socialistas têm mais juízo que a generalidade dos portugueses? Aí está uma hipótese que, a verificar- -se, seria surpreendente.

Que a crise existe, pelo menos, ninguém nega. De um modo geral, todos estão preocupados com o fosso que se aprofunda, em Portugal, entre os ricos e os pobres.

A esquerda preocupa-se porque o fosso é cada vez maior; a direita indigna-se porque ainda ninguém se lembrou de pôr crocodilos no fosso. Os pobres, com algum esforço, continuam a conseguir passar. Entre a esquerda e a direita está o PS, que acaba por não ser uma coisa nem outra. Que sorte.

Os cidadãos têm algum medo das ideologias, e por isso preferem votar em quem não tem ideologia nenhuma.

A menos que todos estes tumultos e confrontações internas não passem de uma estratégia genial do PS (mas todos sabemos como é raro o PS delinear uma estratégia, quanto mais uma que seja genial). Pense o leitor comigo: Manuel Alegre e Sócrates podem ter-se conluiado para fazer a vida negra ao PSD. O que, em princípio, não seria mau: enquanto o PS se entretém a fazer a vida negra ao PSD, pode ser que se distraia da tarefa de fazer a vida negra aos portugueses. Mas o certo é que, tendo o PS maioria absoluta e, além ou apesar disso, uma oposição interna acirrada, Manuela Ferreira Leite tem um problema grave. A senhora ainda agora foi eleita e já se encontra perante uma tarefa duplamente difícil: por um lado, deve demonstrar que governa melhor que Sócrates; por outro, tem de provar que faz oposição melhor que Alegre. O PS não brinca.

Manuel Alegre pode ser, por isso, para Sócrates, um cavalo de Tróia que, estando dentro do PS, consegue, no entanto, minar o PSD. O primeiro-ministro bem disse que ia criar empregos, mas devia ter avisado que seriam todos para os socialistas. Neste momento, o partido socialista tem militantes a ocupar o lugar de líder do Governo e o de líder da oposição. Que o partido do poder arranje tachos na governação aos seus militantes ainda se aceita, mas que agora também lhes ofereça lugares na oposição, já parece eticamente duvidoso.

Caos é sempre que um camionista quiser

Ricardo Araújo Pereira
in, Visão


Talvez um dos sinais mais importantes para perceber o nosso tempo (isto supondo, claro, que é possível perceber o nosso tempo) seja o facto de o Oráculo de Delfos ter perdido toda a sua popularidade para o Oráculo de Bellini. A diferença essencial entre os dois é que o segundo leva 75 euros à hora. De resto, o primeiro recomendava «Conhece-te a ti mesmo», o que, pelo menos no meu caso, constitui um péssimo conselho. Conheço-me apenas de vista, e já é bom. Um conhecimento profundo obrigaria a uma convivência mais intensa, e eu não me dou com gente desta. Sei apenas que dificilmente mereço fazer parte daquilo a que se chama Humanidade. Enquanto grupo, percorremos um longo caminho, desde o macaco até àquilo que somos hoje, mas eu não há maneira de o esconder continuo inquietantemente próximo do macaco.

A Humanidade foi à Lua, é certo, mas eu não sei como. Às vezes tenho dificuldade em ir à Brandoa sem parar para pedir indicações. Parece que fizemos a fusão do átomo, mas eu, pessoalmente, nem sei reconhecer um átomo se o vir na rua, quanto mais fundi-lo. Em contraponto, descasco maravilhosamente amendoins. Sou competente a catar piolhos. Aprecio uma banana de vez em quando. Não me digam que não continuo mais próximo do macaco do que do homem moderno.

A minha sorte é que o mundo não é do homem moderno. O mundo, percebemo- -lo esta semana, está nas mãos dos camionistas. A mesma sociedade que coloca uma sonda em Marte paralisa se os camionistas se chateiam. A era da tecnologia, da Internet, dos arranha-céus e da conquista do espaço não pode nada contra os profissionais da camionagem. A Humanidade descobriu vacinas para quase todas as doenças, mas os camionistas conduzem veículos que são mesmo muito pesados. A Humanidade inventa máquinas, constrói pontes e escreve poesia, mas os camionistas atiram pedras e aquilo aleija. A Humanidade não tem hipótese nenhuma contra os camionistas.

Parece claro que o homem mais poderoso de Portugal não é José Sócrates, nem Belmiro de Azevedo, nem Manuel Luís Goucha (embora eu não seja daqueles que negligenciam o poder do programa Você na TV). O homem mais poderoso de Portugal é o Cajó, que conduz um Scania de 12 rodados. Se ele convencer os amigos a não trabalharem durante 15 dias, acaba a comida, a água e a gasolina. A nossa civilização está a uma semana de distância do estado de sítio. Se o Cajó acordar maldisposto, isto descamba.

O novo seleccionador



quarta-feira, junho 18, 2008

Quando as fotos mentem

Manuel António Pina
in, JN


Embora desaconselhada a pessoas sensíveis - principalmente às que, nas sondagens, põem o jornalismo no topo das profissões a que dão maior crédito - deveria ser obrigatória na formação para os media do Ensino Secundário (se é que isso existe) uma passagem pelo sítio www.zombietime.com/reuters_photo_fraud/.

Aí se fica a saber do crédito que merece certo jornalismo, no caso o jornalismo fotográfico da Reuters, uma das principais agências internacionais de informação. Talvez o leitor tenha visto em mais do que um jornal imagens chocantes do bombardeamento de Beirute pela Força Aérea israelita, há dois anos. Talvez fique ainda mais chocado descobrindo (eu só o descobri agora) que muitas dessas fotos terão sido digitalmente manipuladas ou pura e simplesmente forjadas pelos fotógrafos e editores da Reuters, de modo justamente a chocá-lo e aparentemente em consonância com os serviços de propaganda do Hezbollah. Sim, até as fotografias mentem. Basta haver um mentiroso atrás da câmara fotográfica. E uma mentira jornalística, no Líbano como por cá, pode ser mais letal que um bombardeamento.

Não te borrifes!


A União Europeia prepara-se para discutir a possibilidade de as chamadas de telemóvel serem pagas também por quem as recebe.
Dizem que isso já acontece nos EUA e que a médio prazo, com esta medida, as operadoras reduzirão o valor das chamadas.
Viu-se o que verdades absolutas como estas fizeram ao preço dos combustíveis.
As operadoras não vão abdicar da hipótese que lhes querem dar de facturar, facturar, facturar,...

A Entidade Reguladora do Sector Energético, propõe que as facturas incobráveis sejam pagas por tod@s! Pergunto-me então, porque hei-de continuar a pagar a minha factura! Deixo de pagar e depois alguém pagará a sua e a minha! Parece-me justo! Não vos parece? Mas há mais... A Deco, ao invés de recusar liminarmente tal proposta, propõe-se discuti-la, dizendo que poderá ser a forma de tornar as coisas mais transparentes, uma vez podemos estar já a pagar essas facturar de forma subliminar. Ou seja, a Deco, desconfia e aceitou até agora, que nos tenha sido cobrado valores indevidos, e aceita discutir uma proposta, em que esses valores nos continuam a ser cobrados (mas em que obviamente se reflectirá num aumento da factura), mas de uma forma transparente! Brilhante, não acham?!

Cientistas, descobriram através de experiências em ratos que o cheiro do café tem as mesmas propriedades que a sua ingestão. Como medidas práticas de tal descoberta, sugerem o borrifamento de aroma de café em locais como obras, evitando o adormecimento dos trabalhadores e reduzindo assim o número de acidentes de trabalho. Apresentando-nos uma medida, que parece ser em nosso benefício, o que nos estão a querer "vender" é a possiblidade de podermos trabalhar 24 horas por dia, sem precisar de dormir, pois borrifam-nos com café e voilá! Já nos estou a ver a todos, meio drogados, sempre que entrarmos num táxi, os camionistas que forarem piquetes de greve, não vão levar apenas uma pessoa à frente (com infelizmente aconteceu recentemente), mas todo o piquete, pois de tão excitados que estarão não conseguem tirar o pé do acelerador, os hospitais vão transformar-se em autênticos manicómios em que ninguém dorme e todos berram uns com os outros, and so on, and so on.

Com tanto disparate, não podes deixar não te borrifem, nem podes borrifar-te para isto tudo!
Revolta-te!

Como diz Salgueiro Maia no filme Capitães de Abril de Maria de Medeiros: "Há momentos em que o único caminho é desobedecer!"

Atreve-te! Desobedece!

Guilherme Rietsch Monteiro

segunda-feira, junho 16, 2008

A fome infame

Boaventura Sousa Santos
in, Visão

O escândalo, finalmente, estalou na opinião pública: a substituição da agricultura familiar, camponesa, orientada para a auto-
-suficiência alimentar e os mercados locais, pela grande agro-indústria, orientada para a monocultura de produtos de exportação (flores ou tomates), longe de resolver o problema alimentar do mundo, agravou-o. Cerca de um sexto da humanidade passa fome; segundo o Banco Mundial, 33 países estão à beira de uma crise alimentar grave; mesmo nos países mais desenvolvidos, os bancos alimentares estão a perder as suas reservas; e voltaram as revoltas da fome.
A opinião pública está a ser desinformada sobre esta matéria, para que se não dê conta do que se está a passar. Porque é explosivo: a fome do mundo é a nova grande fonte de lucros do grande capital financeiro e os lucros aumentam na mesma proporção que a fome. A fome no mundo não é um fenómeno novo. Ficaram famosas na Europa as revoltas da fome, desde a Idade Média até ao século XIX. O que é novo são as suas causas e o modo como as principais são ocultadas.

A opinião pública tem sido informada de que o surto da fome está ligado à escassez de produtos agrícolas (e que esta se deve às más colheitas provocadas pelas alterações climáticas); ao aumento de consumo de cereais na Índia e na China; ao aumento dos custos dos transportes devido à subida do petróleo; à crescente reserva de terra agrícola para produção dos agro-combustíveis. Todas estas causas têm contribuído para o problema, mas não são suficientes para explicar que o preço da tonelada do arroz tenha triplicado desde o início de 2007. Estes aumentos especulativos, tal como os do preço do petróleo, resultam de o capital financeiro (fundos de pensões, fundos hedge, de alto risco e rendimento) ter começado a investir fortemente nos mercados internacionais de produtos agrícolas, depois da crise do investimento no sector imobiliário.

Em articulação com as grandes empresas que controlam o mercado mundial de sementes e de cereais, o capital financeiro investe no mercado de futuros na expectativa de que os preços continuarão a subir, e, ao fazê-lo, reforça essa expectativa. Quanto mais altos forem os preços, mais fome haverá no mundo, maiores serão os lucros das empresas e os retornos dos investimentos financeiros. Nos últimos meses, os meses do aumento da fome, os lucros da maior empresa de sementes de cereais aumentaram 83 por cento. Ou seja, a fome de lucros da Cargill alimenta-se da fome de milhões de seres humanos.

O escândalo do enriquecimento de alguns à custa da fome e subnutrição de milhões já não pode ser disfarçado com as «generosas» ajudas alimentares. Tais ajudas são uma fraude que encobre outra maior: as políticas económicas neoliberais que há 30 anos têm vindo a forçar os países do Terceiro Mundo a deixar de produzir os produtos agrícolas necessários para alimentar as suas próprias populações e a concentrar-se em produtos de exportação, com os quais ganharão divisas que lhes permitirão importar produtos agrícolas... dos países mais desenvolvidos. Quem tenha dúvidas sobre esta fraude que compare a recente «generosidade» dos EUA na ajuda alimentar com o seu consistente voto na ONU contra o direito à alimentação, votado por todos os outros países.

A revolta contra a fome é mais um aviso contra as consequências da destruição do bem-estar dos povos para benefício exclusivo de um pequeno grupo de países. Para lhes responder eficazmente será preciso pôr termo à globalização neoliberal. O capitalismo global tem de voltar a sujeitar-se a regras que não as que ele próprio estabelece para seu benefício. Os cidadãos têm de começar a privilegiar os mercados locais, recusar nos supermercados os produtos que vêm de longe, exigir do Estado e dos municípios que criem incentivos à produção agrícola local, exigir da UE e das agências nacionais para a segurança alimentar que entendam que a agricultura e a alimentação industriais não são o remédio contra a insegurança alimentar. Bem pelo contrário.

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Apenas acrescentaria que os cidadãos, em vez de cairem no "nacionalismo" e começarem a cultivar chá nos seus quintais, podem também privilegiar quem pratique outras regras de mercado, nomeadamente o Comércio Justo!

Guilherme Rietsch Monteiro

Em louvor de Amy Winehouse(e Vodkahouse e Whiskyhouse)

Ricardo Araújo Pereira
in, Visão

Começou, na passada sexta-feira, o Rock in Rio, o popular festival de música que se caracteriza por não ser de rock nem decorrer no Rio. Sob o lema Por um Mundo Melhor, dezenas de artistas lutam, ao longo de dois fins-de-semana, para proporcionar um Mundo realmente melhor a todos os habitantes do resto do Planeta e meia dúzia de dias infernais a quem reside em Chelas. Uma coisa são tiroteios entre os vizinhos e a polícia, violência entre gangs na rua e tráfico de droga à descarada. Mas, porém, ao virar da esquina, o Rod Stewart a uivar à uma da manhã é um castigo que aquela gente não merece.
Nesta edição do festival, acompanhei, com especial interesse, o concerto de Amy Winehouse. Devo dizer que qualquer expectativa que eu pudesse ter foi superada. Além de lutar por um Mundo melhor, Winehouse lutou, e muito, para se manter de pé. São dois combates em vez de um. Nem sempre conseguiu, é certo, mas fez um esforço heróico. À primeira vista, dir-se-
-ia que Amy Winehouse entrou em palco sob a influência de mais que uma substância, sendo que o álcool talvez tomasse a dianteira. Tratando-se de um festival familiar, a actuação de Amy proporcionou divertimento para toda a família. «Eu acho que ela está bêbada. E tu, papá?» «Creio que não, filho. Repara como ela cambaleia. Isto é chinesa, e da boa.»

Acima de tudo, foi um concerto que sublinhou, uma vez mais, a diferença que existe entre um bêbado deprimente e um grande artista. Ambos balbuciam coisas sem sentido e cantam, mas o que está à frente de um baterista e dois guitarristas é o grande artista.

Não quero com isto sugerir que Amy Winehouse não contribuiu para que o Mundo fosse melhor. Por um lado, toda a gente que já se entregou aos prazeres do álcool percebeu que, ao segundo ou terceiro copo, o Mundo parece, de facto, começar a melhorar. Agora imaginem quão bom é o Mundo de Amy Winehouse. É possível que a artista estivesse convencida de que se encontrava, de facto, no Rio de Janeiro.
É possível até que estivesse convencida de que aquilo que estava a fazer era cantar. Por outro lado, deve destacar-
-se a mensagem que Amy passou aos jovens. Os jovens, aparentemente, precisam muito de receber mensagens, e a generalidade das pessoas espera que sejam os cantores e as estrelas da televisão a enviá-las. Pois bem, a mensagem de Winehouse era clara e edificante: não consumam álcool nem drogas, pois receio que não sobrem para mim.

Há quem diga que estes concertos podem fazer muito para resolver a pobreza no Mundo. Mas são artistas como Amy Winehouse que vão além da caridade
e têm, de facto, uma intervenção macroeconómica séria. A economia da Colômbia, por exemplo, está toda às costas da rapariga.

Estrume na Cabeça

Gabriel, o Pensador

Estrume na cabeça
É bom que fertiliza
Eu tenho até demais
Tem gente que precisa.

A merda aduba a mente
E nasce alguma idéia
Plantando outra semente
Pensando em diarréia.

Mudemos de Assunto

Sérgio Godinho

Andas aí a partir corações
como quem parte um baralho de cartas
cartas de amor
escrevi-te eu tantas
às tantas, aos poucos
eu fui percebendo
às tantas eu lá fui tacteando
às cegas eu lá fui conseguindo
às cegas eu lá fui abrindo os olhos

E nos teus olhos como espelhos partidos
quis inventar uma outra narrativa
até que um ai me chegou aos ouvidos
e era só eu a vogar à deriva
e um animal sempre foge do fogo
e mal eu gritei: fogo!
mal eu gritei: água!
que morro de sede
achei-me encostado à parede
gritando: Livrai-me da sede!
e o mar inteiro entrou na minha casa

E nos teus olhos inundados do mar
eu naveguei contra minha vontade
mas deixa lá, que este barco a viajar
há-de chegar à gare da sua cidade
e ao desembarque a terra será mais firme
há quem afirme
há quem assegure
que é depois da vida
que a gente encontra a paz prometida
por mim marquei-lhe encontro na vida
marquei-lhe encontro ao fim da tempestade

Da tempestade, o que se teve em comum
é aquilo que nos separa depois
e os barcos passam a ser um e um
onde uma vez quiseram quase ser dois
e a tempestade deixa o mar encrespado
por isso cuidado
mesmo muito cuidado
que é frágil o pano
que enfuna as velas do desengano
que nos empurra em novo oceano
frágil e resistente ao mesmo tempo

Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?

sexta-feira, junho 13, 2008

Acabou o Euro!


Pois é! Acabou o Euro 2008!
A vencedora da competição é a Irlanda!

Esta sexta-feira 13, foi tudo menos de azares. O F.C. Porto, vai dispostar (e conquistar!!!) a Liga dos Campeões 2008/09 e a Irlanda chumbou o Tratado de Lisboa!

Assim, os portugueses colocam bandeiras portuguesas na janela, orgulhosos por a Irlanda ter chumbado um Tratado que por azar até tem o nome da nossa capital. Estamos orgulhosos deles, assim como estariamos de nós próprios, se o mentiroso do Sócrates cumprisse as suas próprias promessas!

Terminou o Euro! Irlanda: Sim, Lisboa: Não!

terça-feira, junho 10, 2008

A Raça de Cavaco Silva


Cavaco Silva referiu-se ao dia de hoje como o dia da Raça!
Quem fala assim, de certeza que não é de boa raça!
Viva a raça do Deco e do Pepe!

Fascismo e Racismo, Nunca mais!
Racismo é burrice!

segunda-feira, junho 09, 2008

A gente vai continuar

Letra e Música: Jorge Palma

Tira a mão do queixo, não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou, ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega aonde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém, não
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

As praxes

terça-feira, junho 03, 2008

Interrompemos este blog...


...Para mais um momento de reportagem sobre a nossa selecção.

5 mililitros de gasolina a seguir às refeições

Ricardo Araújo Pereira
in, Visão

A gatunagem apanhou-me, amigo leitor. Assaltaram-me o carro. E eram profissionais, os bandidos: deixaram o auto-rádio onde estava, desdenharam a minha carteira, mal escondida no porta-luvas, e não tocaram no GPS.
Levaram-me só os sete litros e meio de gasóleo que tinha no depósito. Espertalhões. Isto da carestia dos combustíveis também tinha de ter os seus inconvenientes.
Felizmente, as vantagens são inúmeras: há menos engarrafamentos, menos acidentes na estrada e menos carjacking. Com a gasolina a este preço, nenhum bandido no seu juízo perfeito rouba um carro. É meter-se em despesas. Por cada três Multibancos que assalta, dois são para pagar a gasolina necessária para as deslocações. É evidente que não compensa.

Mesmo assim, não faz sentido dizer que a vida está difícil, porque a verdade é que a morte está ainda pior. O Governo tem tudo previsto. Se o primeiro-ministro nos faz a vida negra, façamos-lhe a justiça de reconhecer que também nos torna a morte quase impossível. O suicídio, hoje em dia, está praticamente fora de hipótese. A imolação pelo fogo, tão popular no Médio Oriente, é-nos vedada pelo preço da gasolina. A escassez de sobreiros faz do enforcamento uma impossibilidade técnica. Comprimidos, nem pensar: as farmacêuticas vão-nos ao bolso. Apostar no cancro do pulmão é arriscado, porque quase não se pode fumar em lado nenhum. E as intoxicações alimentares são cada vez mais custosas, que a ASAE não dorme. A única hipótese é morrer de tédio, na fila para abastecer o carro nas bombas que vendem gasolina dois ou três cêntimos mais barata.

O que eu lamento, sobretudo, é a sorte daquela gente que tem o hábito de meter um valor de gasolina, e não uma quantidade. O leitor sabe como é: em vez de meterem 10 litros de combustível, estão habituados a ir à bomba meter 10 euros. Coitados. De há dois ou três anos a esta parte, tiveram uma surpresa. Em 2005, metiam 10 litros, e hoje metem uma colher de sopa. Dantes, enchiam o depósito com a mangueira, e agora abastecem com a colherzinha dos medicamentos.

Actualmente, é possível começar a encher o depósito e o preço do combustível aumentar duas ou três vezes enquanto se abastece. Uma pessoa pensa que tem dinheiro para atestar e no fim verifica que afinal tem de vender o carro para pagar a conta da gasolina. É possível, aliás, que o barril de crude tenha batido sete novos recordes desde que o leitor começou a ler isto. O melhor é ir encher o depósito antes que as estações de serviço comecem a vender gasolina em frasquinhos de perfume. Não deve faltar muito.

segunda-feira, junho 02, 2008

Estado do Ensino

Vejam-me esta ficha:

http://escv.drealentejo.pt/documentos/aulas_tic/Ficha%20formativa_xls1.doc


Como é que é possível uma das opções de resposta ser: "Não sei"?!!!
Eu acho que assim, as outras três deveriam ser:
- Nem quero saber!
- Tenho raiva de quem sabe!
- Esta não é de certeza!

E voilá ficávamos apenas com a resposta correcta.

Contudo, estou convicto de quem nem assim, haveria 100% de nota 20. É que raciocinar dá muito trabalho, e nem com a papinha toda, se vai lá, quando não se quer mesmo ir. Quando a escola é uma brincadeira, não há volta a dar-lhe...

Normal ou super?

Rui Reininho
2008-05-31,in JN

Quando os carros andavam a Normal, os dos remediados cujos pais se deslocavam a pé ou de carroça no sentido de dar estudos e educação aos filhos, o gasóleo era para quem trabalhava e se tinha que fazer à estrada; os do normal tiravam o coberto ao carro, limpavam-lhe pó e iam ali até à praia ou à ribeira mais próxima ouvir o relato enquanto se fazia um croché e as crianças suspiravam pela sumol e pelos bolos de coco.


Nesse Mesozóico, também houve uma gravíssima crise de combustíveis por causa dos ayatollas que contestavam as modernices do xá da Pérsia. As viaturas tinham só um depósito com que se haver aos fins-de- semana, de matrículas par ou ímpar para circular e o Júlio Isidro aproveitou para inventar a Música na TV, como o Bernstein cá do burgo.

Mais avisados, os do Norte da Europa desataram a andar de bicicleta e a descobrir o charme de compartilhar odores e sabores a próximo nos transportes públicos.

Agora, a ritmo de Super, com a luz na reserva a ameaçar-nos a ida ao "shop" com os wufas ao máximo a fazer untz untz untz, vai ser mais politicamente incorrecto desbaratar gota do que usar peles de animais, mortos.

Faça-se luz e ponha-se os olhos no maior exemplo de patriotismo triunfal que é a nossa menina Vanessa: começa-se por umas braçadas, passa-se para a bicicleta e dá-se uma corrida até casa; pelo meio pode aproveitar-se para dar uns tiritos. Eu vou!

É que isso de nos vendermos aos espanhóis não é para todas...

Desmistificar as fezes

Manuel António Pina
2008-05-29, in JN

No caso, a "praxe" incluiu, além de humilhações sexuais, insultos e violências de toda a ordem, cobrir a caloira com fezes e, depois, esfregar-lhas no peito, costas, barriga e cabelo. A seguir, a jovem foi ainda forçada a mergulhar a cabeça numa bacia com excrementos de vaca. Selvajarias do género repetem-se impunemente todos os anos por esta altura, com a cumplicidade dos responsáveis de algumas universidades e escolas superiores. De facto, se hoje floresce nas universidades uma "geração rasca" cuja noção de festa e divertimento passa pela boçalidade à rédea solta e pelo coma alcoólico, é porque boa parte do Ensino Superior está entregue a uma geração não menos rasca. No tribunal de Santarém, em defesa do bando dos "praxistas", o então director da escola considerou "normal a praxe com bosta" e um professor terá chegado a declarar que "é preciso desmistificar as fezes". "Desmistificar as fezes" é um bom programa para a reforma de algum do Ensino Superior que temos.

Somar esquerda à Esquerda

A nova etapa começa já amanhã! Quando Alegre, Camilo Mortágua, companheir@s da Pintassilgo e o Bloco de Esquerda, se juntarem em Lisboa para celebrar Abril e Maio!
Sim, porque há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não e que não sai à rua de cravo na mão a horas certas e por isso celebra em Junho e no resto do ano, tanto Abril como Maio.
Tenho um orgulho enorme de ter sido um dos que pouco mais de uma centena, que deram o sim para a constituição do Bloco de Esquerda.
Tudo farei para continuar a somar Esquerda à Esquerda e a atirar pedras para o charco!

Caiu uma pedra no charco,
Caiu um penedo no rio,
Caiu mais um barco da boa esperança no mar,
P'ra gente se agarrar.

Deixamos de ver as nuvens
Que nos tapavam o céu
Pudemos sentir de perto
A meiguice do tempo
Onde a gente se escondeu

É que hoje
Nasceu mais um dia.
É que hoje
Nasceu mais alguém.
É que hoje
Nasceu um poeta na serra
Com a estrela da manhã.

Foi quando os lobos uivaram,
Foi quando o lince miou,
As ovelhas não tinham fome
E a alcateia repousou.

E entre os uivos e os miados
O poeta abriu o choro.
E entre os vales e o cabeço,
Cavalgando uma alcateia
O poema deslizou.

Luís Represas
in Cais das Colinas, Trovante

sexta-feira, maio 30, 2008

Ricardo Araújo Pereira a Presidente em 2016!

Ricardo Araújo Pereira, in Visão


Agora que terminou o campeonato nacional de futebol, o povo português pode enfim concentrar-se naquilo que verdadeiramente importa: o campeonato europeu de futebol. O facto de a competição se disputar, desta vez, no estrangeiro, não nos isenta do dever de, num acto prenhe de patriotismo, voltarmos a engalanar as nossas janelas com as melhores bandeiras portuguesas que se fabricam em território chinês. Em 2004, o professor Marcelo incentivou os portugueses a desfraldarem bandeiras nacionais por essas vidraças afora, de modo a mostrar a toda a gente o orgulho que nós, enquanto povo, temos em fazer compras nas lojas dos trezentos. Desta vez, se me permitem, gostaria de me adiantar ao professor Marcelo numa proposta de elevado valor patriótico. Saliente-se que o faço por simples amor ao País, e não por querer ser Presidente em 2016. A minha sugestão é a seguinte: além da bandeira nacional, ornamentemos os nossos parapeitos com um busto da República e uma fotografia do Cavaco. Nada contra a bandeira, que é bonita e ondula ao vento como ninguém (melhor do que o busto, por exemplo), mas desbota depressa e tem tendência para esfiapar ao fim de uma semana ou duas.

Já o busto, que é de gesso, resiste melhor à intempérie. Além disso, como a República tem um seio de fora, entusiasma um pouco mais (com todo o respeito para com a esfera armilar, também ela muito sensual, à sua maneira). A fotografia do Presidente, além de completar este ramalhete patriótico, contribui para espantar os pombos, inibindo a passarada de debicar a bandeira e de se empoleirar no busto.

Confesso que ficarei muito triste se o povo português, que aderiu tão maciçamente à proposta do professor Marcelo, não fizer caso da minha só porque é um pouco mais onerosa e, em certa medida, parva. Mas a desilusão será mitigada pelo facto de o País já estar completamente empenhado no Euro, e com razão.

O Público de segunda-feira trazia uma interessante reportagem que juntava especialistas em futebol, como Humberto Coelho ou Bruno Prata, e completos leigos que pouco ou nada sabem sobre bola, como José Diogo Quintela ou Artur Jorge. Afinal de contas, já só faltam 23 dias para o jogo de abertura. Não temos muitos dias para iniciar a nossa preparação, enquanto adeptos. Em meados de Junho, teremos de estar com os níveis de patriotismo no ponto certo para apoiar os jogadores da selecção nacional e suportar com denodo a desilusão que eles vão proporcionar-nos desta vez. Todo o tempo é pouco.

Onde há fumo há Sócrates

Ricardo Araújo Pereira, in Visão

Quando, há quinze dias, foi publicado um documento segundo o qual a ASAE tinha como objectivo efectuar 410 detenções só este ano, confesso que achei a meta muito ambiciosa. Mas agora que José Sócrates e Manuel Pinho foram apanhados a fumar num avião, suponho que já só faltem 408. Mais três ou quatro visitas oficiais e a ASAE pode meter férias em Junho. Sortudos. Além de saberem quais são os restaurantes menos badalhocos, ainda têm férias grandes. Quem me dera um emprego desses.
Como é evidente, a história do cigarro no avião deu polémica. Não era caso para menos: Sócrates foi visitar um dirigente sul-americano meio maluco, que manda fechar as estações de televisão que o criticam e chama Hitler a toda a gente, incluindo a pessoas com quem o primeiro-ministro tem boas relações. Até aqui, tudo bem. Mas põe-se a fumar a bordo? Realmente, é um escândalo. Para resolver o problema, Sócrates anunciou uma medida de grande alcance político: disse que ia deixar de fumar. Chamem-me cínico, mas parece-me que estamos na presença de mais uma promessa não cumprida. Se ele pretende cumprir as promessas por ordem, só deixará de fumar depois de criar os tais 150 mil empregos.
A Tabaqueira bem pode continuar a enrolar cigarros, que não fica sem este cliente. Por outro lado, tendo em conta que, deixando de fumar, Sócrates viverá mais tempo, não sei se a medida será benéfica para o País. Nesse sentido, é possível que não seja uma promessa, mas sim uma ameaça.

Não se pense, contudo, que o caso é desprovido de significado político. Ser apanhado a fumar dentro de um avião foi das atitudes mais populares que José Sócrates já tomou. Conhecendo o povo português, será difícil encontrar alguém que não tenha passado a simpatizar mais com ele.
O homem violou uma lei que ele mesmo inventou. O Sócrates, esse malandro, aprovou uma lei chata para os fumadores, mas o Sócrates, esse companheiro, transgrediu-a logo que pôde. O Sócrates, o nosso Sócrates, mostrou-lhes como é. Passou-lhes a perna. Se eles julgam que nos controlam, estão muito enganados. Bem podem fazer leis a proibir a malta: enquanto nós tivermos uma cortina para fumar à socapa, ninguém nos apanha. O primeiro-ministro José Sócrates é, no fundo, um tuga. Sabe-a toda, o bandido.

Algarve

Letra e Música: Pedro Abrunhosa
in, Silêncio

Já são 5 da manhã
Ainda há tempo esta noite
Para quem começa a viver,
A rádio sussurra "Manhatã"
Em acordes distorcidos
Que nos enchem de prazer

Voam pássaros morcegos
Assustando o pára-brisas
E a paisagem que amanhece.
Queres parar, mas não aqui
Que essa luz parte de ti
E o desejo que acontece.

Da chuva faço mil estradas de vidro
E o meu carro a rolar.
No ar o cheiro do destino,
No chão a pele quente
Do Algarve a acordar

Uuu! Uuu!

Já passamos Castro Verde,
E escreveste na planície
Como se esta fosse um papel,
Dizes: "o mundo não compreende
+ do que está à superfície"
"Ne me quitte pas", pede Brell

Entre néons e Nirvana
Vais mudando de estação
Como se a próxima
Fosse a melhor.
E os sons que a serra esconde
Entre o asfalto e o monte,
São + que a pressa do motor.

Da chuva faço mil estradas de vidro
E o meu carro a rolar.
No ar o cheiro do destino,
No chão a pele quente
Do Algarve a acordar

Refrão

Um dia de silêncio
É um dia de amargura
Igual a outro dia qualquer
Trazes nos olhos o desejo
Onde vejo a aventura
Que ainda vamos viver.

Da chuva faço mil estradas de vidro
E o meu carro a rolar.
No ar o cheiro do destino,
No chão a pele quente
Do Algarve a acordar

Refrão

Moções de Censura

Será que é desta que alguém acerta nos motivos certos para uma moção de censura ao Governo, que o próprio Sócrates, diz haver vários?!
Até agora ainda ninguém acertou...
Está na hora de o próprio PS, dar mais uma lição ao país e apresentar a sua própria moção e fazer a verdadeira homenagem a Humberto Delgado. Já estou a ver o Sócrates na Assembleia da República: "Perante esta tão boa moção de censura apresentada pelo PS, óbviamente demito-me!" :-)



quinta-feira, maio 29, 2008

Sopro do Coração

Letra: Sérgio Godinho
Música: Hélder Gonçalves
in, Lustro, Clã

Sim, o amor é vão
É certo e sabido
Mas então (Porque não)
Porque sopra ao ouvido
O sopro do coração
Se o amor é vão
Mera dor mero gozo
Sorvedouro caprichoso
No sopro do coração
No sopro do coração

Mas nisto o vento sopra doido
E o que foi do
Corpo no turbilhão

Sopra doido
E o que foi do
Corpo alado
Nas asas do turbilhão
Nisto já nem de ar precisas
Só meras brisas
Raras

Corto em dois limão
Chego o ouvido
Ao frescor
Ao barulho
À acidez do mergulho
No sangue do coração
Pulsar em vão
É bem dele É bem isso
E apesar disso eriça a pele
O sopro do coração
O sopro do coração

Mas nisto o vento sopra doido
E o que foi do
Corpo no turbilhão

Sopra doido
E o que foi do
Corpo alado
Nas asas do turbilhão
Nisto já nem de ar precisas
Só meras brisas
Raras

Pensar pequenino


É mesmo pensar pequenino...
Querem extender a linha do Metro do ISMAI à Trofa, em linha única!!!
Motivo? Mais barato...
Entretanto, a população que há anos se viu privada do Comboio, por causa do Metro, é "premiada" com uma solução mais demorada...
Mais barato hoje, para ficar muito mais caro, amanhã! Jorge Coelho e a Mota-Engil, agradecem...
Entretanto, gastam-se milhões num aeroporto e TGV que o país claramente, não precisa...
Quem paga tudo isto? O não utilizador destas obras! Aquele que continua a consumir combustível... Por isso é que o Governo não reduz a carga fiscal! Para realizar projectos megalómanos em vez de servir as populações!

Guilherme Rietsch Monteiro

Metro até à Trofa será em via única
Carla Sofia Luz, in JN

A linha do metro entre o ISMAI (Maia) e a Trofa deverá ser construída em via simples. O JN apurou que o Governo se inclina para essa opção, reservando um canal para que, no futuro, possa ser executada a segunda via. Se tal suceder, fará aumentar o tempo de deslocação até à Paradela, tornando a ligação mais demorada e menos atractiva para a população (que ficou sem comboio há vários anos). A obra será, no entanto, mais barata. Em Outubro de 2007, a Metro lançou um concurso para a elaboração do projecto de execução que contemplava as duas possibilidades.

A vinda do ministro das Obras Públicas, Mário Lino, e da secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino, ao Porto serviu para que os governantes reunissem, na passada segunda-feira e ontem, com a nova Comissão Executiva da Metro, liderada por Ricardo Fonseca. Tirando a extensão da Linha Verde à Trofa (que está definido que irá avançar na segunda fase de expansão do projecto do metro), não há ainda definição sobre as ligações que integrarão o concurso público global de construção, de exploração e de manutenção da rede, apesar de, como admitiu o governante Mário Lino, não estarem a ser cumpridos os prazos previstos no memorando de entendimento, celebrado entre a Junta Metropolitana do Porto e o Governo.

Após a inauguração do novo troço da Linha Amarela, em Gaia, Mário Lino reconheceu os atrasos e deixou a ideia de que dificilmente será possível lançar o concurso global no próximo mês. Isso não deverá implicar, contudo, o lançamento da execução do troço entre a Maia e a Trofa e da Linha da Boavista em concursos separados, como determina o memorando de entendimento. O ministro entende que, se essa data também não for respeitada, terá de avaliar-se se vale a pena ou não realizar concursos separados para as referidas linhas.

Reunião na Junta

Neste momento, o novo Conselho de Administração decidiu solicitar um aprofundamento dos estudos sobre a segunda fase de desenvolvimento do projecto, elaborados pelas equipas de Paulo Pinho e de Álvaro Costa, docentes na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.

No caso da Linha da Boavista, trabalha-se na definição pormenorizada do traçado e também na elaboração de estudos de tráfego, antes de fechar o dossiê. A expectativa é que, no próximo mês, já seja possível indicar quais as linhas que avançarão no concurso global da segunda fase de expansão da rede e se haverá alguma adiada para outra fase.

Certa apenas é o arranque da construção da linha de Gondomar, entre o Estádio do Dragão e a Venda Nova, em Rio Tinto. A intervenção será adjudicada no próximo mês. Em Junho, será lançado, também, o concurso público para a construção de mais um pequeno troço da Linha Amarela. Chegará, finalmente, à rotunda de Santo Ovídio, que é uma obra complexa de engenharia.

É neste cenário de indefinição que os 14 autarcas reúnem, amanhã, na Junta Metropolitana. O balanço da evolução do projecto do metro um ano depois da assinatura do memorando será o ponto mais quente. Falta saber se, no final do encontro, sairá uma posição conjunta sobre os atrasos na concretização do acordo.

Luso-Qualquer-Coisa



Ser Português
in, LusoQualquerCoisa, Clã
Letra e Música: Hélder Gonçalves

Se pensas que é agora a tua vez, e não vês que és
100 % português, 100% impossível de vencer
o tão dotado, infalível, o mercado estrangeiro
vem de fora - "É verdadeiro!?"
Até o velho 1, 2, 3, 4 passa a ser
one, two, three, four
E depois, não há tempo p'ra aprender
que nem sempre (sem saber) o movimento vem de fora
vem de toda a volta, fura a toda a volta
vem de barco, avião, comboio, imitação
entretanto vai andando, costumado
o povo português, vai perdendo a sua vez

Sê português, encontra a tua vez
Ser português, ser contra a tua vez

E pensas que é agora que a historia vai mudar
o artista Luso-Qualquer Coisa vai dançar
mas mesmo que não caia, vai ser sempre comparado
ainda bem não está parado é um valor acrescentado
Ainda há muito a fazer por esta causa a rever
rever independentemente como pode ser
como pode ser expressa essa nova novidade
de ser português e ter a sua vez

Sê português, encontra a tua vez
Ser português, ser contra a tua vez

Vai haver um sol nascente na Nação, vai haver, vai haver

Se pensas que é agora a tua vez, e não vês que és
100% português, 100% impossível de vencer
o cobiçado infalível, o produto importado
chega e já tem mercado
Até o velho 1, 2, 3, 4 passa a ser, quer ser
one, two, three, four
E depois, ninguém quer saber
que nem sempre o movimento vem de fora

Vai haver um sol nascente na Nação, vai haver, vai haver

Procura de diálogo à esquerda junta socialista Manuel Alegre e Bloco

29.05.2008 - 09h00 São José Almeida, in Público

O deputado do PS Manuel Alegre, o do BE José Soeiro e a professora catedrática e ex-secretária-geral do Graal Isabel Allegro de Magalhães serão oradores da Festa por Abril e Maio que se realiza a 3 de Junho, no Teatro da Trindade, em Lisboa. Às intervenções seguem-se concertos dos Rádio Macau, de António Manuel Ribeiro e o conjunto Terrakota.

Em declarações ao PÚBLICO, Manuel Alegre salientou a importância da sessão, mas afastou que ela significasse o lançamento de um movimento político. "A ideia é juntar o que está disperso, juntar pessoas de esquerda sem alimentar ilusões", afirmou Alegre, concluindo: "É um acto novo que pode trazer confiança e é um sinal de que há outras coisas, outros mundos, que há esquerda".

Este encontro está a ser promovido por um abaixo-assinado que reúne já a subscrição de várias personalidades de esquerda e onde "é tempo de buscar os diálogos abertos e o sentido de responsabilidade democrática que têm de se impor contra o pensamento único, a injustiça e a desigualdade".

O texto é subscrito por individualidades tão diversas como a escritora Ana Luísa Amaral, o professor universitário António Nóvoa, Elísio Estanque e José Manuel Pureza, o ex-dirigente do PCP Carlos Brito, o arqueólogo Cláudio Torres, a responsável da Cuidar o Futuro Fátima Grácio, o líder do BE, Francisco Louçã, o fundador do PS José Neves, o editor Nélson Matos, o músico Francisco Fanhais e o sindicalista Ulisses Garrido. Os subscritores traçam um quadro negro do país: "Novas e gritantes desigualdades, cerca de dois milhões de portugueses em risco de pobreza, aumento do desemprego e da precariedade, deficiências em serviços públicos essenciais, como na saúde e na educação. Os rendimentos dos 20 por cento que têm mais são sete vezes superiores aos dos 20 por cento que têm menos".

E prossegue: "A corrupção e a promiscuidade entre diferentes poderes criaram no país um clima de suspeição que mina a confiança no Estado". Defendendo que, "numa democracia moderna, os direitos políticos são inseparáveis dos direitos sociais", pelo que, "se estes recuam, a democracia fica diminuída".

domingo, maio 25, 2008

5 de Junho - Dia Mundial do Ambiente


A 5 de Junho comemora-se o Dia Mundial do Ambiente. Este ano o slogan é «kick the habit! Low carbon economy!».
Sendo, a “protecção e promoção de um desenvolvimento sustentável”, o 10º princípio orientador do Comércio Justo, é altura de falarmos um pouco daquilo que as alterações do clima estão a fazer ao planeta e na forma como o Comércio Justo contribui, verdadeiramente, para a sustentabilidade do planeta.
Tem-se falado muito nos “biocombustíveis”. Aquilo que, à partida, parecia ser uma boa ideia (adoptar outras formas de combustível, mais ecológicas, sem emissão de GEE (Gases de Efeito de Estufa), vai (a continuar o ritmo), provocar a fome a biliões de pessoas e, consequentemente, aumentar o número de refugiados que deixarão as suas casas, não por causa de uma guerra ou de um qualquer regime totalitário, mas por não terem que comer. Como é que se passa para aqui? Como é que uma boa ideia, vira uma coisa horrenda? Tal acontece por causa da lógica de mercado que temos. De repente, começa-se a falar em “biocombustíveis”, não porque se tenha ganho consciência política, cívica, social ou ambiental, mas porque se viu a hipótese de mais um negócio. O “velho” lucro! Por isso é que o Comércio Justo, ao colocar as pessoas e o ambiente acima do lucro, está a contribuir para que as coisas sejam diferentes. No passado, o Comércio Justo já se recusou a produzir certos alimentos, que estavam a ter um procura elevadíssima, porque o mercado internacional estava a produzir de tal maneira, que os solos já não aguentavam mais produção. Assim, o Comércio Justo, ao invés de pensar no seu próprio lucro, decidiu não o fazer. Já diziam os “índios” que a terra é nossa irmã. E é isso mesmo. A espécie humana não pode usufruir dos recursos como se estes lhes pertencessem de pleno direito.
Por isso, o Comércio Justo não só quer mudar a consciência do consumidor final, apelando a um consumo responsável, mas desde o princípio que tem outro tipo de preocupações que visam, também, a protecção do ambiente e a sustentabilidade do planeta. Tenta construir, diariamente, um mundo melhor.

Guilherme Rietsch Monteiro

sexta-feira, maio 23, 2008

O Analfabeto Político


"Não há pior analfabeto que o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. O analfabeto político é tão burro que se orgulha de o ser e, de peito feito, diz que detesta a política. Não sabe, o imbecil, que da sua ignorância política é que nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, desonesto, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo."

Bertolt Brecht (1898-1956)

quinta-feira, maio 15, 2008

Unidos contra o iogurte

Ricardo Araújo Pereira
in, Visão


Aqui há dois ou três anos, prometeram-me que iam ser criados 150 000 novos empregos e até agora nada, mas a malta da União Europeia está preocupada é com as promessas que os iogurtes não cumprem. São prioridades lá deles

A União Europeia quer pôr ordem no mundo dos lacticínios. Ora até que enfim. Alguém tinha que deitar a mão ao badanal que se vivia nos iogurtes. A partir de agora, os anúncios a iogurte só podem afirmar que o produto faz bem à saúde se as marcas conseguirem prová-lo cientificamente. Significa isto que a publicidade vai passar a ter de dizer a verdade. Não sei se aguento o choque civilizacional. Se vamos impedir os publicitários de mentir, há fortes probabilidades de os intervalos dos programas televisivos passarem a ser preenchidos com dez minutos de silêncio.

Aqui há dois ou três anos, prometeram--me que iam ser criados 150 000 novos empregos e até agora nada, mas a malta da União Europeia está preocupada é com as promessas que os iogurtes não cumprem. São prioridades lá deles. Parece que aquele iogurte que garante criar uma bolha amarela de protecção à volta das pessoas para as proteger das bactérias vai mesmo ter de provar que cria a bolha amarela. Era bem feita que conseguisse. Acredito mais nisso do que nos 150 000 empregos – apesar de nunca ter visto nem a bolha nem os empregos.

Acima de tudo, eu levo a mal que os burocratas de Bruxelas queiram acabar com os anúncios, logo a minha parte favorita da programação. Quem é o génio residente na Bélgica que pretende impedir-me de contemplar a protagonista do anúncio dos Corpos Danone, mas não levanta qualquer objecção a que eu assista às Chiquititas?
É a isto que eles chamam proteger o cidadão?

Bom, eu sei que os anúncios aos chamados alimentos saudáveis andavam a pedi-
-las. Há para ali muita promessa de salvação e melhoramento do meu organismo que nunca me convenceu – e é sobretudo por isso que eu continuo a fazer uma dieta à base de fritos e gorduras, produtos que nunca tentaram persuadir-me de que me fariam viver mais um dia que fosse. Aprecio a honestidade nos víveres, e a entremeada nunca me tentou enganar.

Em todo o caso, sinto algum desconforto pelo facto de a União Europeia considerar que eu preciso de ser defendido das patranhas do bifidus activo. Quem é que eles julgam que o bifidus activo engana? Ele que me tente convencer de que regula os meus intestinos, a ver se eu caio nessa. Seres humanos, alguns dos quais dotados de entendimento, nunca me apanharam com a história do time sharing, e ia agora cair na esparrela do aloé vera, que nem ao reino animal pertence? Tenham juízo.

Nobody expects the portuguese winter

Ricardo Araújo Pereira
in, Visão


As calamidades ajudam-nos a organizar a vida. São pontos de referência. «Quando é que mudámos de casa? Foi depois dos incêndios de 91, porque eu já tinha o Citroën que foi levado pelas cheias de 94, mas ainda não tinha ficado sem a perna esquerda...»

Todos os anos, Portugal é surpreendido duas vezes: uma vez pelo Verão e outra pelo Inverno. Nunca estamos à espera deles. Para o resto do mundo, a natureza é cíclica, monótona e repetitiva. Para nós, é uma caixinha de surpresas. «Olha, lá vem o Verão outra vez. E não é que traz novamente muito calor, este bandido? Se calhar devíamos ter feito uma limpeza às matas.

Ops!, tarde de mais, já está tudo a arder.» No Inverno, a mesma coisa.

«Olha, lá vem o Inverno outra vez. E não é que traz novamente muita chuva, este bandido? Se calhar devíamos ter feito uma limpeza às sarjetas. Ops!, tarde de mais, já está tudo alagado.» E assim sucessivamente.

Nunca cansa. E, no entanto, imagino que os jornalistas usem sempre a mesma notícia. Há dois ou três pormenores que mudam, como a marca dos helicópteros que combatem o fogo ou o número de viaturas que são arrastadas pela enxurrada, mas o resto é igual: «Violento incêndio ali», «Fortes chuvas acolá». Até os adjectivos que qualificam as catástrofes são previsíveis: os incêndios são quase todos violentos e é raro as chuvas serem outra coisa que não fortes. Não há memória de fortes incêndios e violentas chuvas, por exemplo. Mas não é por isso que deixamos de receber as notícias com renovada surpresa. Temos dificuldade em acreditar que ainda não foi desta que a chuva deixou de causar os estragos próprios da chuva. É verdade que, este ano, a chuva deu novamente cabo das estradas e voltou a fazer vítimas, mas pode ser que, para o ano, chova mais civilizadamente. Todos os anos damos uma oportunidade à chuva. E, por um lado, ainda bem.

Não sei se consigo imaginar Portugal sem as calamidades. As calamidades ajudam-nos a organizar a vida. São pontos de referência. «Quando é que mudámos de casa? Foi depois dos incêndios de 91, porque eu já tinha o Citroën que foi levado pelas cheias de 94, mas ainda não tinha ficado sem a perna esquerda, que foi ao ar nos incêndios de 92.» Se as autoridades competentes começam a varrer as matas e a limpar as sarjetas, deixamos de ter a noção da passagem do tempo. Ainda vamos ter de comprar uma agenda. Com as calamidades, é dinheiro que se poupa.

E não só. Há gente cuja vida tem sido salva pelas calamidades. Gente que sobreviveu às cheias de 87 porque ainda estava no hospital a recuperar dos incêndios de 86. Gente que se salvou dos incêndios de 99 porque ainda tinha a casa alagada pelas cheias de 98 e usou a água para combater as chamas.

Enfim, gosto da esfera armilar, na nossa bandeira. Mas uma sarjeta entupida, entre o vermelho e o verde, também não ficava mal.

No meu tempo não era assim

Ricardo Araújo Pereira
in, Visão


O filme da escola Carolina Michaëlis tem essa virtude: mostra a idiotice em toda a sua nudez. Um regalo para os meus olhos, que aprecio muito idiotice – e nudez ainda mais

Quando este texto for publicado, o leitor já viu várias vezes o vídeo em que uma aluna da escola Carolina Michaëlis dá início a um motim porque a professora de Francês teve a ousadia de lhe confiscar o telemóvel. (Se não viu o filme, digo-lhe que impressiona. Sobretudo porque, enquanto a generalidade dos cidadãos é assaltada na rua, a esta senhora o gang apareceu-lhe no local de trabalho.) Também calculo que já terá tido oportunidade de ouvir várias pessoas a garantirem-lhe que isto, no tempo delas, não era assim. Eu nunca perco uma oportunidade de me juntar a um coro de moralistas (que, normalmente, têm uma afinação irrepreensível), e por isso estou aqui para dizer o mesmo: isto, no meu tempo, não era assim.

Era pior. Sobretudo porque não havia telemóveis. Privados da possibilidade de filmar os seus actos de indisciplina, os alunos do meu tempo tinham muito mais dificuldade em tomar consciência da sua própria idiotia. O filme da escola Carolina Michaëlis tem essa virtude: mostra a idiotice em toda a sua nudez. Um regalo para os meus olhos, que aprecio muito idiotice – e nudez ainda mais. Acredito sinceramente que, depois de verem a figura que fizeram, tanto a protagonista do filme como o magnífico cineasta que captou a acção, lançando a todo o passo estupendas indicações de cena, não voltarão a comportar-se assim. No meu tempo, teríamos continuado. Um alarve que toma consciência de ser alarve insiste na alarvidade? Não creio. E se um alarve cair no meio de uma floresta e não estiver lá ninguém para ouvir, faz barulho? Julgo que sim, e confesso que até espero que se aleije com alguma gravidade na queda.

A verdade é que, se há coisa que nunca muda em toda a História da Humanidade é esta: os adolescentes são parvos em todo o lado. Todos os senhores respeitáveis já foram, numa altura ou noutra, adolescentes parvos. Jorge de Sena começa um livro autobiográfico dando conta da «indisciplina ruidosa» que eram as suas aulas de Filosofi a. Que, notem, decorreram no tempo dele. Tempo esse que é bem anterior ao tempo dos que agora dizem que no seu tempo isto não era assim. Está baralhado com isto dos tempos? Siga para o próximo parágrafo, que é já o penúltimo.

É por isso que a culpa do que sucedeu na escola Carolina Michaëlis, a ser de alguém, é da professora. Ser professor de liceu é das actividades mais insolentemente arrogantes a que alguém se pode dedicar: trata-se de pretender ensinar coisas a quem já sabe tudo. Eu, pelo menos, sabia tudo aos 15 anos. A própria Carolina Michaëlis, que era tão boa senhora, sabia com certeza muito mais aos 15 anos do que quando foi ensinar para a Universidade de Coimbra. Toda a gente sabe tudo aos 15 anos. Só com o passar do tempo se vai descobrindo, com razoável sobressalto, que não se sabe quase nada. Mas há duas ou três pessoas que nunca aprendem o seguinte: o tempo delas, apesar de contar com a sua inestimável presença, não é especial em nada. No meu tempo, aliás, toda a gente sabia isto.

Nota: Não conheço bem as recentes propostas do Ministério da Educação e por isso não sei se, actualmente, posso pronunciar-me acerca de um professor sem o avaliar. Aqui fica, então, a minha avaliação da professora de Francês da escola Carolina Michaëlis, baseando-me apenas nas imagens do vídeo:

Resistência: 17

Capacidade de sofrimento: 19

Equilíbrio: 16

Persistência: 18

1% é melhor que nada (muito ligeiramente, mas é)

Ricardo Araújo Pereira
in, Visão


As minhas ideias para explorar o povo português são ainda mais pérfidas do que as de José Sócrates, o que é ao mesmo tempo difícil e assustador

Se uma pessoa não anda com atenção, deixa-se enganar com facilidade. Segundo a comunicação social, o Governo anunciou uma descida de 1% no IVA. Não é verdade. O que o Governo fez foi anunciar um aumento de 1% no IVA. Vamos lá pensar bem nisto: há uns meses, aumentaram o IVA em 2%. Agora, tiraram 1%. O resultado é que, desde que este governo foi eleito, o IVA aumentou 1%. É uma excelente ideia, mas podia ser melhor. Realmente bem pensado seria José Sócrates anunciar, no primeiro mês de governação, um aumento do IVA de 250%. Depois, todos os meses anunciava uma substancial descida de 5%. No fim do mandato ainda teria saldo positivo e, quando a comunicação social fizesse um balanço da legislatura, contabilizaria apenas uma medida impopular contra 48 medidas populares. Daqui se conclui que as minhas ideias para explorar o povo português são ainda mais pérfidas do que as de José Sócrates, o que é ao mesmo tempo difícil e assustador.
Não estou a dizer que a ideia do Governo é má, antes pelo contrário. O facto de ser mais sonsa que a minha só lhe fica bem. O conceito é, aliás, tão bom que não ficaria surpreendido se Sócrates o aplicasse a várias outras áreas. Escolher duas ou três medidas impopulares que foram tomadas até meio do mandato e suavizá-las na metade que sobra até às eleições. Por exemplo, abrir meio centro de saúde em cada concelho. Ou avaliar só metade dos professores, e com teste de consulta. Ou ir tirar meia licenciatura. Bom, isso, ao que dizem, já ele fez, e deu sarilho. Esqueçam a última. Mas as outras têm potencial.

Quanto ao impacto que a medida vai ter na economia, permitam-me que manifeste algum receio. Todos sabemos que o povo fazer poupanças de IVA a menos no bolso, assim de um dia para o outro, pode começar a desbaratar. Eu, que não sou excepção, já estou de olho num iate, que vou adquirir só com o que passo a poupar na mercearia.

O ideal seria que a medida fosse acompanhada de, adivinharam, uma acção de sensibilização. Por princípio, apoio todas as acções de sensibilização. Julgo que uma pessoa sensibilizada é uma pessoa melhor. E, se os cidadãos forem sensibilizados no sentido de amealhar todos os cêntimos que pouparão no IVA que deixam de pagar, quando chegarem à idade da reforma aqueles 10 ou 15 euros vão-lhes saber bem. Hoje parece pouco, mas no futuro, com a inflação, parecerá menos ainda.

Sobre um pequeno pormenor chamado liberdade

Ricardo Araújo Pereira
in, Visão


Para quem aprecia a liberdade, o 25 de Abril foi agradável; para os que não gostam, foi uma oportunidade para fazerem aquela viagem ao Brasil

Eu não gosto de militares. Não gosto da ética militar, nem da brutalidade, nem daquele fanatismo patriótico que é, com muita frequência, trágico.
E também não gosto do povo. Não gosto da irresponsabilidade da multidão, nem daqueles que parecem ser os dois principais factores de interesse da massa popular: aglomerar-se em torno de acidentes rodoviários e insultar as camionetas que levam os arguidos para o tribunal. Tinha um amigo da UDP (notem que é possível fazer amizade com gente da UDP) que gritava com gosto a palavra de ordem do partido: «UDP, sempre ao lado do povo!» E depois acrescentava, mais baixinho: «Mas nunca no meio dele.» O escritor Mário de Carvalho costuma advertir para a necessidade de distinguir o povo do populacho, porque o primeiro é um conceito nobre e até mítico, e o segundo é uma massa infame. O problema é que é difícil encontrar o povo, mas é muito fácil dar de caras com o populacho.

E, no entanto, foram os militares e o povo que fizeram o 25 de Abril. Às vezes dá-se o caso de um casal muito feio ter um filho muito bonito. Parece-me que foi o que aconteceu, embora nem toda a gente esteja convencida da beleza da criança. Para mim, o mais divertido nas comemorações do 25 de Abril têm sido as tentativas para tornar a data «mais consensual». O Dia da Liberdade não reúne consenso, o que me deixa verdadeiramente surpreendido. Percebo que a liberdade não seja consensual, mas do meu ponto de vista ninguém teve razões de queixa: para quem aprecia a liberdade, o 25 de Abril foi agradável; para os que não gostam, foi uma oportunidade para fazerem aquela viagem ao Brasil que tinham andado tanto tempo a adiar. Sempre pensei que a data agradasse a todos.

Na verdade, porém, o 25 de Abril parece agradar a cada vez menos gente. Há autores para quem o Salazarismo não foi um fascismo, e outros para quem o 25 de Abril não foi exactamente uma revolução. O que faz com que, aparentemente, na frase «25 de Abril sempre, fascismo nunca mais», não haja nada que se aproveite. Nem o 25 de Abril foi 25 de Abril, nem o fascismo foi fascismo.

E por isso, amanhã, numa data que, pelos vistos, não chegou a ocorrer, comemora-se a nossa libertação de um opressor que, ao que me dizem agora, nunca existiu. Até parece mais bonito assim, não parece? Parece. Resumindo e concluindo: 25 de Abril sempre, fascismo nunca mais.

A rotatividade é o melhor de todos os sistemas

Ricardo Araújo Pereira
in, Visão


Neste momento, há cinco candidatos a presidente do partido, sendo que entre estes se incluem alguns que todos sabemos não terem a mais pequena hipótese de ganhar umas eleições nacionais, como um Neto da Silva ou, imagine o leitor, um Santana Lopes

Toda a gente concorda que o PSD faz falta ao país. Ninguém sabe bem para quê, mas é consensual que faz falta. Pessoalmente, não tenho nada contra os sociais-democratas. Do ponto de vista ideológico, nada me afasta do PSD.

É muito difícil divergir ideologicamente de um partido que não tem ideologia nenhuma. Recordo que o presidente mais bem sucedido de sempre do PSD ficou conhecido, não pelo programa político que apresentou num congresso, mas por ter lá ido fazer a rodagem de um carro. Só por embirração eu poderia arranjar divergências ideológicas com aquela gente, e é por isso que o facto de PS e PSD continuarem a descobrir matéria para discordar entre si me deixa sempre surpreendido. Deve ser um esforço tremendo.

Bom, nada de exageros. É evidente que há dois ou três traços ideológicos no partido. O PSD tem muito apreço pela iniciativa privada, e talvez isso explique a razão pela qual nenhum dos militantes tenha especial vontade de gerir a coisa pública. O problema é que se torna muito mais fácil termos êxito nas nossas iniciativas privadas se tivermos um companheiro a organizar as coisas públicas. Normalmente, o PSD (e o PS) põe em prática um inteligente sistema de rotatividade em que alguns militantes vão suportando o aborrecimento de olhar pelo bem comum enquanto os outros vão tratar da vida, e depois troca. E assim sucessivamente. Mas, ultimamente, o PS tem gerido a coisa pública de modo agradável para os militantes do PSD que estão a tratar da vida, pelo que nenhum deles está suficientemente aborrecido para precisar de dar uns retoques na coisa pública.

Luís Filipe Menezes, entretanto, foi tão inofensivo para o Governo como Marques Mendes havia sido, mas Marques Mendes foi inofensivo de um modo muito mais respeitável. Como os militantes do PSD apreciam a compostura e a discrição, inquietaram-se. Neste momento, o PSD está de tal forma confuso que se torna difícil de compreender. Os militantes que fizeram excelente oposição a Luís Filipe Menezes não parecem interessados em fazer oposição a José Sócrates. E, na altura em que escrevo, há cinco candidatos a presidente do partido, sendo que entre estes se incluem alguns que todos sabemos não terem a mais pequena hipótese de ganhar umas eleições nacionais, como um Neto da Silva ou, imagine o leitor, um Santana Lopes. Ou o PSD recupera a credibilidade, ou não conseguirá voltar a ser alternativa a José Sócrates, para ir para o Governo fazer mais ou menos o mesmo que ele. É todo o nosso conceito de democracia que está em perigo.

A violação de Sócrates



O aumento dos combustíveis...

...Causa diminuição de fertilidade.

Veja porquê!



Porreiro Pá!