Letra e Música: Pedro Abrunhosa
in, Silêncio
Já são 5 da manhã
Ainda há tempo esta noite
Para quem começa a viver,
A rádio sussurra "Manhatã"
Em acordes distorcidos
Que nos enchem de prazer
Voam pássaros morcegos
Assustando o pára-brisas
E a paisagem que amanhece.
Queres parar, mas não aqui
Que essa luz parte de ti
E o desejo que acontece.
Da chuva faço mil estradas de vidro
E o meu carro a rolar.
No ar o cheiro do destino,
No chão a pele quente
Do Algarve a acordar
Uuu! Uuu!
Já passamos Castro Verde,
E escreveste na planície
Como se esta fosse um papel,
Dizes: "o mundo não compreende
+ do que está à superfície"
"Ne me quitte pas", pede Brell
Entre néons e Nirvana
Vais mudando de estação
Como se a próxima
Fosse a melhor.
E os sons que a serra esconde
Entre o asfalto e o monte,
São + que a pressa do motor.
Da chuva faço mil estradas de vidro
E o meu carro a rolar.
No ar o cheiro do destino,
No chão a pele quente
Do Algarve a acordar
Refrão
Um dia de silêncio
É um dia de amargura
Igual a outro dia qualquer
Trazes nos olhos o desejo
Onde vejo a aventura
Que ainda vamos viver.
Da chuva faço mil estradas de vidro
E o meu carro a rolar.
No ar o cheiro do destino,
No chão a pele quente
Do Algarve a acordar
Refrão
sexta-feira, maio 30, 2008
Moções de Censura
Será que é desta que alguém acerta nos motivos certos para uma moção de censura ao Governo, que o próprio Sócrates, diz haver vários?!
Até agora ainda ninguém acertou...
Está na hora de o próprio PS, dar mais uma lição ao país e apresentar a sua própria moção e fazer a verdadeira homenagem a Humberto Delgado. Já estou a ver o Sócrates na Assembleia da República: "Perante esta tão boa moção de censura apresentada pelo PS, óbviamente demito-me!" :-)
Até agora ainda ninguém acertou...
Está na hora de o próprio PS, dar mais uma lição ao país e apresentar a sua própria moção e fazer a verdadeira homenagem a Humberto Delgado. Já estou a ver o Sócrates na Assembleia da República: "Perante esta tão boa moção de censura apresentada pelo PS, óbviamente demito-me!" :-)
quinta-feira, maio 29, 2008
Sopro do Coração
Letra: Sérgio Godinho
Música: Hélder Gonçalves
in, Lustro, Clã
Sim, o amor é vão
É certo e sabido
Mas então (Porque não)
Porque sopra ao ouvido
O sopro do coração
Se o amor é vão
Mera dor mero gozo
Sorvedouro caprichoso
No sopro do coração
No sopro do coração
Mas nisto o vento sopra doido
E o que foi do
Corpo no turbilhão
Sopra doido
E o que foi do
Corpo alado
Nas asas do turbilhão
Nisto já nem de ar precisas
Só meras brisas
Raras
Corto em dois limão
Chego o ouvido
Ao frescor
Ao barulho
À acidez do mergulho
No sangue do coração
Pulsar em vão
É bem dele É bem isso
E apesar disso eriça a pele
O sopro do coração
O sopro do coração
Mas nisto o vento sopra doido
E o que foi do
Corpo no turbilhão
Sopra doido
E o que foi do
Corpo alado
Nas asas do turbilhão
Nisto já nem de ar precisas
Só meras brisas
Raras
Música: Hélder Gonçalves
in, Lustro, Clã
Sim, o amor é vão
É certo e sabido
Mas então (Porque não)
Porque sopra ao ouvido
O sopro do coração
Se o amor é vão
Mera dor mero gozo
Sorvedouro caprichoso
No sopro do coração
No sopro do coração
Mas nisto o vento sopra doido
E o que foi do
Corpo no turbilhão
Sopra doido
E o que foi do
Corpo alado
Nas asas do turbilhão
Nisto já nem de ar precisas
Só meras brisas
Raras
Corto em dois limão
Chego o ouvido
Ao frescor
Ao barulho
À acidez do mergulho
No sangue do coração
Pulsar em vão
É bem dele É bem isso
E apesar disso eriça a pele
O sopro do coração
O sopro do coração
Mas nisto o vento sopra doido
E o que foi do
Corpo no turbilhão
Sopra doido
E o que foi do
Corpo alado
Nas asas do turbilhão
Nisto já nem de ar precisas
Só meras brisas
Raras
Pensar pequenino
É mesmo pensar pequenino...
Querem extender a linha do Metro do ISMAI à Trofa, em linha única!!!
Motivo? Mais barato...
Entretanto, a população que há anos se viu privada do Comboio, por causa do Metro, é "premiada" com uma solução mais demorada...
Mais barato hoje, para ficar muito mais caro, amanhã! Jorge Coelho e a Mota-Engil, agradecem...
Entretanto, gastam-se milhões num aeroporto e TGV que o país claramente, não precisa...
Quem paga tudo isto? O não utilizador destas obras! Aquele que continua a consumir combustível... Por isso é que o Governo não reduz a carga fiscal! Para realizar projectos megalómanos em vez de servir as populações!
Guilherme Rietsch Monteiro
Metro até à Trofa será em via única
Carla Sofia Luz, in JN
A linha do metro entre o ISMAI (Maia) e a Trofa deverá ser construída em via simples. O JN apurou que o Governo se inclina para essa opção, reservando um canal para que, no futuro, possa ser executada a segunda via. Se tal suceder, fará aumentar o tempo de deslocação até à Paradela, tornando a ligação mais demorada e menos atractiva para a população (que ficou sem comboio há vários anos). A obra será, no entanto, mais barata. Em Outubro de 2007, a Metro lançou um concurso para a elaboração do projecto de execução que contemplava as duas possibilidades.
A vinda do ministro das Obras Públicas, Mário Lino, e da secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino, ao Porto serviu para que os governantes reunissem, na passada segunda-feira e ontem, com a nova Comissão Executiva da Metro, liderada por Ricardo Fonseca. Tirando a extensão da Linha Verde à Trofa (que está definido que irá avançar na segunda fase de expansão do projecto do metro), não há ainda definição sobre as ligações que integrarão o concurso público global de construção, de exploração e de manutenção da rede, apesar de, como admitiu o governante Mário Lino, não estarem a ser cumpridos os prazos previstos no memorando de entendimento, celebrado entre a Junta Metropolitana do Porto e o Governo.
Após a inauguração do novo troço da Linha Amarela, em Gaia, Mário Lino reconheceu os atrasos e deixou a ideia de que dificilmente será possível lançar o concurso global no próximo mês. Isso não deverá implicar, contudo, o lançamento da execução do troço entre a Maia e a Trofa e da Linha da Boavista em concursos separados, como determina o memorando de entendimento. O ministro entende que, se essa data também não for respeitada, terá de avaliar-se se vale a pena ou não realizar concursos separados para as referidas linhas.
Reunião na Junta
Neste momento, o novo Conselho de Administração decidiu solicitar um aprofundamento dos estudos sobre a segunda fase de desenvolvimento do projecto, elaborados pelas equipas de Paulo Pinho e de Álvaro Costa, docentes na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.
No caso da Linha da Boavista, trabalha-se na definição pormenorizada do traçado e também na elaboração de estudos de tráfego, antes de fechar o dossiê. A expectativa é que, no próximo mês, já seja possível indicar quais as linhas que avançarão no concurso global da segunda fase de expansão da rede e se haverá alguma adiada para outra fase.
Certa apenas é o arranque da construção da linha de Gondomar, entre o Estádio do Dragão e a Venda Nova, em Rio Tinto. A intervenção será adjudicada no próximo mês. Em Junho, será lançado, também, o concurso público para a construção de mais um pequeno troço da Linha Amarela. Chegará, finalmente, à rotunda de Santo Ovídio, que é uma obra complexa de engenharia.
É neste cenário de indefinição que os 14 autarcas reúnem, amanhã, na Junta Metropolitana. O balanço da evolução do projecto do metro um ano depois da assinatura do memorando será o ponto mais quente. Falta saber se, no final do encontro, sairá uma posição conjunta sobre os atrasos na concretização do acordo.
Luso-Qualquer-Coisa
Ser Português
in, LusoQualquerCoisa, Clã
Letra e Música: Hélder Gonçalves
Se pensas que é agora a tua vez, e não vês que és
100 % português, 100% impossível de vencer
o tão dotado, infalível, o mercado estrangeiro
vem de fora - "É verdadeiro!?"
Até o velho 1, 2, 3, 4 passa a ser
one, two, three, four
E depois, não há tempo p'ra aprender
que nem sempre (sem saber) o movimento vem de fora
vem de toda a volta, fura a toda a volta
vem de barco, avião, comboio, imitação
entretanto vai andando, costumado
o povo português, vai perdendo a sua vez
Sê português, encontra a tua vez
Ser português, ser contra a tua vez
E pensas que é agora que a historia vai mudar
o artista Luso-Qualquer Coisa vai dançar
mas mesmo que não caia, vai ser sempre comparado
ainda bem não está parado é um valor acrescentado
Ainda há muito a fazer por esta causa a rever
rever independentemente como pode ser
como pode ser expressa essa nova novidade
de ser português e ter a sua vez
Sê português, encontra a tua vez
Ser português, ser contra a tua vez
Vai haver um sol nascente na Nação, vai haver, vai haver
Se pensas que é agora a tua vez, e não vês que és
100% português, 100% impossível de vencer
o cobiçado infalível, o produto importado
chega e já tem mercado
Até o velho 1, 2, 3, 4 passa a ser, quer ser
one, two, three, four
E depois, ninguém quer saber
que nem sempre o movimento vem de fora
Vai haver um sol nascente na Nação, vai haver, vai haver
Procura de diálogo à esquerda junta socialista Manuel Alegre e Bloco
29.05.2008 - 09h00 São José Almeida, in Público
O deputado do PS Manuel Alegre, o do BE José Soeiro e a professora catedrática e ex-secretária-geral do Graal Isabel Allegro de Magalhães serão oradores da Festa por Abril e Maio que se realiza a 3 de Junho, no Teatro da Trindade, em Lisboa. Às intervenções seguem-se concertos dos Rádio Macau, de António Manuel Ribeiro e o conjunto Terrakota.
Em declarações ao PÚBLICO, Manuel Alegre salientou a importância da sessão, mas afastou que ela significasse o lançamento de um movimento político. "A ideia é juntar o que está disperso, juntar pessoas de esquerda sem alimentar ilusões", afirmou Alegre, concluindo: "É um acto novo que pode trazer confiança e é um sinal de que há outras coisas, outros mundos, que há esquerda".
Este encontro está a ser promovido por um abaixo-assinado que reúne já a subscrição de várias personalidades de esquerda e onde "é tempo de buscar os diálogos abertos e o sentido de responsabilidade democrática que têm de se impor contra o pensamento único, a injustiça e a desigualdade".
O texto é subscrito por individualidades tão diversas como a escritora Ana Luísa Amaral, o professor universitário António Nóvoa, Elísio Estanque e José Manuel Pureza, o ex-dirigente do PCP Carlos Brito, o arqueólogo Cláudio Torres, a responsável da Cuidar o Futuro Fátima Grácio, o líder do BE, Francisco Louçã, o fundador do PS José Neves, o editor Nélson Matos, o músico Francisco Fanhais e o sindicalista Ulisses Garrido. Os subscritores traçam um quadro negro do país: "Novas e gritantes desigualdades, cerca de dois milhões de portugueses em risco de pobreza, aumento do desemprego e da precariedade, deficiências em serviços públicos essenciais, como na saúde e na educação. Os rendimentos dos 20 por cento que têm mais são sete vezes superiores aos dos 20 por cento que têm menos".
E prossegue: "A corrupção e a promiscuidade entre diferentes poderes criaram no país um clima de suspeição que mina a confiança no Estado". Defendendo que, "numa democracia moderna, os direitos políticos são inseparáveis dos direitos sociais", pelo que, "se estes recuam, a democracia fica diminuída".
O deputado do PS Manuel Alegre, o do BE José Soeiro e a professora catedrática e ex-secretária-geral do Graal Isabel Allegro de Magalhães serão oradores da Festa por Abril e Maio que se realiza a 3 de Junho, no Teatro da Trindade, em Lisboa. Às intervenções seguem-se concertos dos Rádio Macau, de António Manuel Ribeiro e o conjunto Terrakota.
Em declarações ao PÚBLICO, Manuel Alegre salientou a importância da sessão, mas afastou que ela significasse o lançamento de um movimento político. "A ideia é juntar o que está disperso, juntar pessoas de esquerda sem alimentar ilusões", afirmou Alegre, concluindo: "É um acto novo que pode trazer confiança e é um sinal de que há outras coisas, outros mundos, que há esquerda".
Este encontro está a ser promovido por um abaixo-assinado que reúne já a subscrição de várias personalidades de esquerda e onde "é tempo de buscar os diálogos abertos e o sentido de responsabilidade democrática que têm de se impor contra o pensamento único, a injustiça e a desigualdade".
O texto é subscrito por individualidades tão diversas como a escritora Ana Luísa Amaral, o professor universitário António Nóvoa, Elísio Estanque e José Manuel Pureza, o ex-dirigente do PCP Carlos Brito, o arqueólogo Cláudio Torres, a responsável da Cuidar o Futuro Fátima Grácio, o líder do BE, Francisco Louçã, o fundador do PS José Neves, o editor Nélson Matos, o músico Francisco Fanhais e o sindicalista Ulisses Garrido. Os subscritores traçam um quadro negro do país: "Novas e gritantes desigualdades, cerca de dois milhões de portugueses em risco de pobreza, aumento do desemprego e da precariedade, deficiências em serviços públicos essenciais, como na saúde e na educação. Os rendimentos dos 20 por cento que têm mais são sete vezes superiores aos dos 20 por cento que têm menos".
E prossegue: "A corrupção e a promiscuidade entre diferentes poderes criaram no país um clima de suspeição que mina a confiança no Estado". Defendendo que, "numa democracia moderna, os direitos políticos são inseparáveis dos direitos sociais", pelo que, "se estes recuam, a democracia fica diminuída".
domingo, maio 25, 2008
5 de Junho - Dia Mundial do Ambiente
A 5 de Junho comemora-se o Dia Mundial do Ambiente. Este ano o slogan é «kick the habit! Low carbon economy!».
Sendo, a “protecção e promoção de um desenvolvimento sustentável”, o 10º princípio orientador do Comércio Justo, é altura de falarmos um pouco daquilo que as alterações do clima estão a fazer ao planeta e na forma como o Comércio Justo contribui, verdadeiramente, para a sustentabilidade do planeta.
Tem-se falado muito nos “biocombustíveis”. Aquilo que, à partida, parecia ser uma boa ideia (adoptar outras formas de combustível, mais ecológicas, sem emissão de GEE (Gases de Efeito de Estufa), vai (a continuar o ritmo), provocar a fome a biliões de pessoas e, consequentemente, aumentar o número de refugiados que deixarão as suas casas, não por causa de uma guerra ou de um qualquer regime totalitário, mas por não terem que comer. Como é que se passa para aqui? Como é que uma boa ideia, vira uma coisa horrenda? Tal acontece por causa da lógica de mercado que temos. De repente, começa-se a falar em “biocombustíveis”, não porque se tenha ganho consciência política, cívica, social ou ambiental, mas porque se viu a hipótese de mais um negócio. O “velho” lucro! Por isso é que o Comércio Justo, ao colocar as pessoas e o ambiente acima do lucro, está a contribuir para que as coisas sejam diferentes. No passado, o Comércio Justo já se recusou a produzir certos alimentos, que estavam a ter um procura elevadíssima, porque o mercado internacional estava a produzir de tal maneira, que os solos já não aguentavam mais produção. Assim, o Comércio Justo, ao invés de pensar no seu próprio lucro, decidiu não o fazer. Já diziam os “índios” que a terra é nossa irmã. E é isso mesmo. A espécie humana não pode usufruir dos recursos como se estes lhes pertencessem de pleno direito.
Por isso, o Comércio Justo não só quer mudar a consciência do consumidor final, apelando a um consumo responsável, mas desde o princípio que tem outro tipo de preocupações que visam, também, a protecção do ambiente e a sustentabilidade do planeta. Tenta construir, diariamente, um mundo melhor.
Guilherme Rietsch Monteiro
sexta-feira, maio 23, 2008
O Analfabeto Político
"Não há pior analfabeto que o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. O analfabeto político é tão burro que se orgulha de o ser e, de peito feito, diz que detesta a política. Não sabe, o imbecil, que da sua ignorância política é que nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, desonesto, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo."
Bertolt Brecht (1898-1956)
quinta-feira, maio 15, 2008
Unidos contra o iogurte
Ricardo Araújo Pereira
in, Visão
Aqui há dois ou três anos, prometeram-me que iam ser criados 150 000 novos empregos e até agora nada, mas a malta da União Europeia está preocupada é com as promessas que os iogurtes não cumprem. São prioridades lá deles
A União Europeia quer pôr ordem no mundo dos lacticínios. Ora até que enfim. Alguém tinha que deitar a mão ao badanal que se vivia nos iogurtes. A partir de agora, os anúncios a iogurte só podem afirmar que o produto faz bem à saúde se as marcas conseguirem prová-lo cientificamente. Significa isto que a publicidade vai passar a ter de dizer a verdade. Não sei se aguento o choque civilizacional. Se vamos impedir os publicitários de mentir, há fortes probabilidades de os intervalos dos programas televisivos passarem a ser preenchidos com dez minutos de silêncio.
Aqui há dois ou três anos, prometeram--me que iam ser criados 150 000 novos empregos e até agora nada, mas a malta da União Europeia está preocupada é com as promessas que os iogurtes não cumprem. São prioridades lá deles. Parece que aquele iogurte que garante criar uma bolha amarela de protecção à volta das pessoas para as proteger das bactérias vai mesmo ter de provar que cria a bolha amarela. Era bem feita que conseguisse. Acredito mais nisso do que nos 150 000 empregos – apesar de nunca ter visto nem a bolha nem os empregos.
Acima de tudo, eu levo a mal que os burocratas de Bruxelas queiram acabar com os anúncios, logo a minha parte favorita da programação. Quem é o génio residente na Bélgica que pretende impedir-me de contemplar a protagonista do anúncio dos Corpos Danone, mas não levanta qualquer objecção a que eu assista às Chiquititas?
É a isto que eles chamam proteger o cidadão?
Bom, eu sei que os anúncios aos chamados alimentos saudáveis andavam a pedi-
-las. Há para ali muita promessa de salvação e melhoramento do meu organismo que nunca me convenceu – e é sobretudo por isso que eu continuo a fazer uma dieta à base de fritos e gorduras, produtos que nunca tentaram persuadir-me de que me fariam viver mais um dia que fosse. Aprecio a honestidade nos víveres, e a entremeada nunca me tentou enganar.
Em todo o caso, sinto algum desconforto pelo facto de a União Europeia considerar que eu preciso de ser defendido das patranhas do bifidus activo. Quem é que eles julgam que o bifidus activo engana? Ele que me tente convencer de que regula os meus intestinos, a ver se eu caio nessa. Seres humanos, alguns dos quais dotados de entendimento, nunca me apanharam com a história do time sharing, e ia agora cair na esparrela do aloé vera, que nem ao reino animal pertence? Tenham juízo.
in, Visão
Aqui há dois ou três anos, prometeram-me que iam ser criados 150 000 novos empregos e até agora nada, mas a malta da União Europeia está preocupada é com as promessas que os iogurtes não cumprem. São prioridades lá deles
A União Europeia quer pôr ordem no mundo dos lacticínios. Ora até que enfim. Alguém tinha que deitar a mão ao badanal que se vivia nos iogurtes. A partir de agora, os anúncios a iogurte só podem afirmar que o produto faz bem à saúde se as marcas conseguirem prová-lo cientificamente. Significa isto que a publicidade vai passar a ter de dizer a verdade. Não sei se aguento o choque civilizacional. Se vamos impedir os publicitários de mentir, há fortes probabilidades de os intervalos dos programas televisivos passarem a ser preenchidos com dez minutos de silêncio.
Aqui há dois ou três anos, prometeram--me que iam ser criados 150 000 novos empregos e até agora nada, mas a malta da União Europeia está preocupada é com as promessas que os iogurtes não cumprem. São prioridades lá deles. Parece que aquele iogurte que garante criar uma bolha amarela de protecção à volta das pessoas para as proteger das bactérias vai mesmo ter de provar que cria a bolha amarela. Era bem feita que conseguisse. Acredito mais nisso do que nos 150 000 empregos – apesar de nunca ter visto nem a bolha nem os empregos.
Acima de tudo, eu levo a mal que os burocratas de Bruxelas queiram acabar com os anúncios, logo a minha parte favorita da programação. Quem é o génio residente na Bélgica que pretende impedir-me de contemplar a protagonista do anúncio dos Corpos Danone, mas não levanta qualquer objecção a que eu assista às Chiquititas?
É a isto que eles chamam proteger o cidadão?
Bom, eu sei que os anúncios aos chamados alimentos saudáveis andavam a pedi-
-las. Há para ali muita promessa de salvação e melhoramento do meu organismo que nunca me convenceu – e é sobretudo por isso que eu continuo a fazer uma dieta à base de fritos e gorduras, produtos que nunca tentaram persuadir-me de que me fariam viver mais um dia que fosse. Aprecio a honestidade nos víveres, e a entremeada nunca me tentou enganar.
Em todo o caso, sinto algum desconforto pelo facto de a União Europeia considerar que eu preciso de ser defendido das patranhas do bifidus activo. Quem é que eles julgam que o bifidus activo engana? Ele que me tente convencer de que regula os meus intestinos, a ver se eu caio nessa. Seres humanos, alguns dos quais dotados de entendimento, nunca me apanharam com a história do time sharing, e ia agora cair na esparrela do aloé vera, que nem ao reino animal pertence? Tenham juízo.
Nobody expects the portuguese winter
Ricardo Araújo Pereira
in, Visão
As calamidades ajudam-nos a organizar a vida. São pontos de referência. «Quando é que mudámos de casa? Foi depois dos incêndios de 91, porque eu já tinha o Citroën que foi levado pelas cheias de 94, mas ainda não tinha ficado sem a perna esquerda...»
Todos os anos, Portugal é surpreendido duas vezes: uma vez pelo Verão e outra pelo Inverno. Nunca estamos à espera deles. Para o resto do mundo, a natureza é cíclica, monótona e repetitiva. Para nós, é uma caixinha de surpresas. «Olha, lá vem o Verão outra vez. E não é que traz novamente muito calor, este bandido? Se calhar devíamos ter feito uma limpeza às matas.
Ops!, tarde de mais, já está tudo a arder.» No Inverno, a mesma coisa.
«Olha, lá vem o Inverno outra vez. E não é que traz novamente muita chuva, este bandido? Se calhar devíamos ter feito uma limpeza às sarjetas. Ops!, tarde de mais, já está tudo alagado.» E assim sucessivamente.
Nunca cansa. E, no entanto, imagino que os jornalistas usem sempre a mesma notícia. Há dois ou três pormenores que mudam, como a marca dos helicópteros que combatem o fogo ou o número de viaturas que são arrastadas pela enxurrada, mas o resto é igual: «Violento incêndio ali», «Fortes chuvas acolá». Até os adjectivos que qualificam as catástrofes são previsíveis: os incêndios são quase todos violentos e é raro as chuvas serem outra coisa que não fortes. Não há memória de fortes incêndios e violentas chuvas, por exemplo. Mas não é por isso que deixamos de receber as notícias com renovada surpresa. Temos dificuldade em acreditar que ainda não foi desta que a chuva deixou de causar os estragos próprios da chuva. É verdade que, este ano, a chuva deu novamente cabo das estradas e voltou a fazer vítimas, mas pode ser que, para o ano, chova mais civilizadamente. Todos os anos damos uma oportunidade à chuva. E, por um lado, ainda bem.
Não sei se consigo imaginar Portugal sem as calamidades. As calamidades ajudam-nos a organizar a vida. São pontos de referência. «Quando é que mudámos de casa? Foi depois dos incêndios de 91, porque eu já tinha o Citroën que foi levado pelas cheias de 94, mas ainda não tinha ficado sem a perna esquerda, que foi ao ar nos incêndios de 92.» Se as autoridades competentes começam a varrer as matas e a limpar as sarjetas, deixamos de ter a noção da passagem do tempo. Ainda vamos ter de comprar uma agenda. Com as calamidades, é dinheiro que se poupa.
E não só. Há gente cuja vida tem sido salva pelas calamidades. Gente que sobreviveu às cheias de 87 porque ainda estava no hospital a recuperar dos incêndios de 86. Gente que se salvou dos incêndios de 99 porque ainda tinha a casa alagada pelas cheias de 98 e usou a água para combater as chamas.
Enfim, gosto da esfera armilar, na nossa bandeira. Mas uma sarjeta entupida, entre o vermelho e o verde, também não ficava mal.
in, Visão
As calamidades ajudam-nos a organizar a vida. São pontos de referência. «Quando é que mudámos de casa? Foi depois dos incêndios de 91, porque eu já tinha o Citroën que foi levado pelas cheias de 94, mas ainda não tinha ficado sem a perna esquerda...»
Todos os anos, Portugal é surpreendido duas vezes: uma vez pelo Verão e outra pelo Inverno. Nunca estamos à espera deles. Para o resto do mundo, a natureza é cíclica, monótona e repetitiva. Para nós, é uma caixinha de surpresas. «Olha, lá vem o Verão outra vez. E não é que traz novamente muito calor, este bandido? Se calhar devíamos ter feito uma limpeza às matas.
Ops!, tarde de mais, já está tudo a arder.» No Inverno, a mesma coisa.
«Olha, lá vem o Inverno outra vez. E não é que traz novamente muita chuva, este bandido? Se calhar devíamos ter feito uma limpeza às sarjetas. Ops!, tarde de mais, já está tudo alagado.» E assim sucessivamente.
Nunca cansa. E, no entanto, imagino que os jornalistas usem sempre a mesma notícia. Há dois ou três pormenores que mudam, como a marca dos helicópteros que combatem o fogo ou o número de viaturas que são arrastadas pela enxurrada, mas o resto é igual: «Violento incêndio ali», «Fortes chuvas acolá». Até os adjectivos que qualificam as catástrofes são previsíveis: os incêndios são quase todos violentos e é raro as chuvas serem outra coisa que não fortes. Não há memória de fortes incêndios e violentas chuvas, por exemplo. Mas não é por isso que deixamos de receber as notícias com renovada surpresa. Temos dificuldade em acreditar que ainda não foi desta que a chuva deixou de causar os estragos próprios da chuva. É verdade que, este ano, a chuva deu novamente cabo das estradas e voltou a fazer vítimas, mas pode ser que, para o ano, chova mais civilizadamente. Todos os anos damos uma oportunidade à chuva. E, por um lado, ainda bem.
Não sei se consigo imaginar Portugal sem as calamidades. As calamidades ajudam-nos a organizar a vida. São pontos de referência. «Quando é que mudámos de casa? Foi depois dos incêndios de 91, porque eu já tinha o Citroën que foi levado pelas cheias de 94, mas ainda não tinha ficado sem a perna esquerda, que foi ao ar nos incêndios de 92.» Se as autoridades competentes começam a varrer as matas e a limpar as sarjetas, deixamos de ter a noção da passagem do tempo. Ainda vamos ter de comprar uma agenda. Com as calamidades, é dinheiro que se poupa.
E não só. Há gente cuja vida tem sido salva pelas calamidades. Gente que sobreviveu às cheias de 87 porque ainda estava no hospital a recuperar dos incêndios de 86. Gente que se salvou dos incêndios de 99 porque ainda tinha a casa alagada pelas cheias de 98 e usou a água para combater as chamas.
Enfim, gosto da esfera armilar, na nossa bandeira. Mas uma sarjeta entupida, entre o vermelho e o verde, também não ficava mal.
No meu tempo não era assim
Ricardo Araújo Pereira
in, Visão
O filme da escola Carolina Michaëlis tem essa virtude: mostra a idiotice em toda a sua nudez. Um regalo para os meus olhos, que aprecio muito idiotice – e nudez ainda mais
Quando este texto for publicado, o leitor já viu várias vezes o vídeo em que uma aluna da escola Carolina Michaëlis dá início a um motim porque a professora de Francês teve a ousadia de lhe confiscar o telemóvel. (Se não viu o filme, digo-lhe que impressiona. Sobretudo porque, enquanto a generalidade dos cidadãos é assaltada na rua, a esta senhora o gang apareceu-lhe no local de trabalho.) Também calculo que já terá tido oportunidade de ouvir várias pessoas a garantirem-lhe que isto, no tempo delas, não era assim. Eu nunca perco uma oportunidade de me juntar a um coro de moralistas (que, normalmente, têm uma afinação irrepreensível), e por isso estou aqui para dizer o mesmo: isto, no meu tempo, não era assim.
Era pior. Sobretudo porque não havia telemóveis. Privados da possibilidade de filmar os seus actos de indisciplina, os alunos do meu tempo tinham muito mais dificuldade em tomar consciência da sua própria idiotia. O filme da escola Carolina Michaëlis tem essa virtude: mostra a idiotice em toda a sua nudez. Um regalo para os meus olhos, que aprecio muito idiotice – e nudez ainda mais. Acredito sinceramente que, depois de verem a figura que fizeram, tanto a protagonista do filme como o magnífico cineasta que captou a acção, lançando a todo o passo estupendas indicações de cena, não voltarão a comportar-se assim. No meu tempo, teríamos continuado. Um alarve que toma consciência de ser alarve insiste na alarvidade? Não creio. E se um alarve cair no meio de uma floresta e não estiver lá ninguém para ouvir, faz barulho? Julgo que sim, e confesso que até espero que se aleije com alguma gravidade na queda.
A verdade é que, se há coisa que nunca muda em toda a História da Humanidade é esta: os adolescentes são parvos em todo o lado. Todos os senhores respeitáveis já foram, numa altura ou noutra, adolescentes parvos. Jorge de Sena começa um livro autobiográfico dando conta da «indisciplina ruidosa» que eram as suas aulas de Filosofi a. Que, notem, decorreram no tempo dele. Tempo esse que é bem anterior ao tempo dos que agora dizem que no seu tempo isto não era assim. Está baralhado com isto dos tempos? Siga para o próximo parágrafo, que é já o penúltimo.
É por isso que a culpa do que sucedeu na escola Carolina Michaëlis, a ser de alguém, é da professora. Ser professor de liceu é das actividades mais insolentemente arrogantes a que alguém se pode dedicar: trata-se de pretender ensinar coisas a quem já sabe tudo. Eu, pelo menos, sabia tudo aos 15 anos. A própria Carolina Michaëlis, que era tão boa senhora, sabia com certeza muito mais aos 15 anos do que quando foi ensinar para a Universidade de Coimbra. Toda a gente sabe tudo aos 15 anos. Só com o passar do tempo se vai descobrindo, com razoável sobressalto, que não se sabe quase nada. Mas há duas ou três pessoas que nunca aprendem o seguinte: o tempo delas, apesar de contar com a sua inestimável presença, não é especial em nada. No meu tempo, aliás, toda a gente sabia isto.
Nota: Não conheço bem as recentes propostas do Ministério da Educação e por isso não sei se, actualmente, posso pronunciar-me acerca de um professor sem o avaliar. Aqui fica, então, a minha avaliação da professora de Francês da escola Carolina Michaëlis, baseando-me apenas nas imagens do vídeo:
Resistência: 17
Capacidade de sofrimento: 19
Equilíbrio: 16
Persistência: 18
in, Visão
O filme da escola Carolina Michaëlis tem essa virtude: mostra a idiotice em toda a sua nudez. Um regalo para os meus olhos, que aprecio muito idiotice – e nudez ainda mais
Quando este texto for publicado, o leitor já viu várias vezes o vídeo em que uma aluna da escola Carolina Michaëlis dá início a um motim porque a professora de Francês teve a ousadia de lhe confiscar o telemóvel. (Se não viu o filme, digo-lhe que impressiona. Sobretudo porque, enquanto a generalidade dos cidadãos é assaltada na rua, a esta senhora o gang apareceu-lhe no local de trabalho.) Também calculo que já terá tido oportunidade de ouvir várias pessoas a garantirem-lhe que isto, no tempo delas, não era assim. Eu nunca perco uma oportunidade de me juntar a um coro de moralistas (que, normalmente, têm uma afinação irrepreensível), e por isso estou aqui para dizer o mesmo: isto, no meu tempo, não era assim.
Era pior. Sobretudo porque não havia telemóveis. Privados da possibilidade de filmar os seus actos de indisciplina, os alunos do meu tempo tinham muito mais dificuldade em tomar consciência da sua própria idiotia. O filme da escola Carolina Michaëlis tem essa virtude: mostra a idiotice em toda a sua nudez. Um regalo para os meus olhos, que aprecio muito idiotice – e nudez ainda mais. Acredito sinceramente que, depois de verem a figura que fizeram, tanto a protagonista do filme como o magnífico cineasta que captou a acção, lançando a todo o passo estupendas indicações de cena, não voltarão a comportar-se assim. No meu tempo, teríamos continuado. Um alarve que toma consciência de ser alarve insiste na alarvidade? Não creio. E se um alarve cair no meio de uma floresta e não estiver lá ninguém para ouvir, faz barulho? Julgo que sim, e confesso que até espero que se aleije com alguma gravidade na queda.
A verdade é que, se há coisa que nunca muda em toda a História da Humanidade é esta: os adolescentes são parvos em todo o lado. Todos os senhores respeitáveis já foram, numa altura ou noutra, adolescentes parvos. Jorge de Sena começa um livro autobiográfico dando conta da «indisciplina ruidosa» que eram as suas aulas de Filosofi a. Que, notem, decorreram no tempo dele. Tempo esse que é bem anterior ao tempo dos que agora dizem que no seu tempo isto não era assim. Está baralhado com isto dos tempos? Siga para o próximo parágrafo, que é já o penúltimo.
É por isso que a culpa do que sucedeu na escola Carolina Michaëlis, a ser de alguém, é da professora. Ser professor de liceu é das actividades mais insolentemente arrogantes a que alguém se pode dedicar: trata-se de pretender ensinar coisas a quem já sabe tudo. Eu, pelo menos, sabia tudo aos 15 anos. A própria Carolina Michaëlis, que era tão boa senhora, sabia com certeza muito mais aos 15 anos do que quando foi ensinar para a Universidade de Coimbra. Toda a gente sabe tudo aos 15 anos. Só com o passar do tempo se vai descobrindo, com razoável sobressalto, que não se sabe quase nada. Mas há duas ou três pessoas que nunca aprendem o seguinte: o tempo delas, apesar de contar com a sua inestimável presença, não é especial em nada. No meu tempo, aliás, toda a gente sabia isto.
Nota: Não conheço bem as recentes propostas do Ministério da Educação e por isso não sei se, actualmente, posso pronunciar-me acerca de um professor sem o avaliar. Aqui fica, então, a minha avaliação da professora de Francês da escola Carolina Michaëlis, baseando-me apenas nas imagens do vídeo:
Resistência: 17
Capacidade de sofrimento: 19
Equilíbrio: 16
Persistência: 18
1% é melhor que nada (muito ligeiramente, mas é)
Ricardo Araújo Pereira
in, Visão
As minhas ideias para explorar o povo português são ainda mais pérfidas do que as de José Sócrates, o que é ao mesmo tempo difícil e assustador
Se uma pessoa não anda com atenção, deixa-se enganar com facilidade. Segundo a comunicação social, o Governo anunciou uma descida de 1% no IVA. Não é verdade. O que o Governo fez foi anunciar um aumento de 1% no IVA. Vamos lá pensar bem nisto: há uns meses, aumentaram o IVA em 2%. Agora, tiraram 1%. O resultado é que, desde que este governo foi eleito, o IVA aumentou 1%. É uma excelente ideia, mas podia ser melhor. Realmente bem pensado seria José Sócrates anunciar, no primeiro mês de governação, um aumento do IVA de 250%. Depois, todos os meses anunciava uma substancial descida de 5%. No fim do mandato ainda teria saldo positivo e, quando a comunicação social fizesse um balanço da legislatura, contabilizaria apenas uma medida impopular contra 48 medidas populares. Daqui se conclui que as minhas ideias para explorar o povo português são ainda mais pérfidas do que as de José Sócrates, o que é ao mesmo tempo difícil e assustador.
Não estou a dizer que a ideia do Governo é má, antes pelo contrário. O facto de ser mais sonsa que a minha só lhe fica bem. O conceito é, aliás, tão bom que não ficaria surpreendido se Sócrates o aplicasse a várias outras áreas. Escolher duas ou três medidas impopulares que foram tomadas até meio do mandato e suavizá-las na metade que sobra até às eleições. Por exemplo, abrir meio centro de saúde em cada concelho. Ou avaliar só metade dos professores, e com teste de consulta. Ou ir tirar meia licenciatura. Bom, isso, ao que dizem, já ele fez, e deu sarilho. Esqueçam a última. Mas as outras têm potencial.
Quanto ao impacto que a medida vai ter na economia, permitam-me que manifeste algum receio. Todos sabemos que o povo fazer poupanças de IVA a menos no bolso, assim de um dia para o outro, pode começar a desbaratar. Eu, que não sou excepção, já estou de olho num iate, que vou adquirir só com o que passo a poupar na mercearia.
O ideal seria que a medida fosse acompanhada de, adivinharam, uma acção de sensibilização. Por princípio, apoio todas as acções de sensibilização. Julgo que uma pessoa sensibilizada é uma pessoa melhor. E, se os cidadãos forem sensibilizados no sentido de amealhar todos os cêntimos que pouparão no IVA que deixam de pagar, quando chegarem à idade da reforma aqueles 10 ou 15 euros vão-lhes saber bem. Hoje parece pouco, mas no futuro, com a inflação, parecerá menos ainda.
in, Visão
As minhas ideias para explorar o povo português são ainda mais pérfidas do que as de José Sócrates, o que é ao mesmo tempo difícil e assustador
Se uma pessoa não anda com atenção, deixa-se enganar com facilidade. Segundo a comunicação social, o Governo anunciou uma descida de 1% no IVA. Não é verdade. O que o Governo fez foi anunciar um aumento de 1% no IVA. Vamos lá pensar bem nisto: há uns meses, aumentaram o IVA em 2%. Agora, tiraram 1%. O resultado é que, desde que este governo foi eleito, o IVA aumentou 1%. É uma excelente ideia, mas podia ser melhor. Realmente bem pensado seria José Sócrates anunciar, no primeiro mês de governação, um aumento do IVA de 250%. Depois, todos os meses anunciava uma substancial descida de 5%. No fim do mandato ainda teria saldo positivo e, quando a comunicação social fizesse um balanço da legislatura, contabilizaria apenas uma medida impopular contra 48 medidas populares. Daqui se conclui que as minhas ideias para explorar o povo português são ainda mais pérfidas do que as de José Sócrates, o que é ao mesmo tempo difícil e assustador.
Não estou a dizer que a ideia do Governo é má, antes pelo contrário. O facto de ser mais sonsa que a minha só lhe fica bem. O conceito é, aliás, tão bom que não ficaria surpreendido se Sócrates o aplicasse a várias outras áreas. Escolher duas ou três medidas impopulares que foram tomadas até meio do mandato e suavizá-las na metade que sobra até às eleições. Por exemplo, abrir meio centro de saúde em cada concelho. Ou avaliar só metade dos professores, e com teste de consulta. Ou ir tirar meia licenciatura. Bom, isso, ao que dizem, já ele fez, e deu sarilho. Esqueçam a última. Mas as outras têm potencial.
Quanto ao impacto que a medida vai ter na economia, permitam-me que manifeste algum receio. Todos sabemos que o povo fazer poupanças de IVA a menos no bolso, assim de um dia para o outro, pode começar a desbaratar. Eu, que não sou excepção, já estou de olho num iate, que vou adquirir só com o que passo a poupar na mercearia.
O ideal seria que a medida fosse acompanhada de, adivinharam, uma acção de sensibilização. Por princípio, apoio todas as acções de sensibilização. Julgo que uma pessoa sensibilizada é uma pessoa melhor. E, se os cidadãos forem sensibilizados no sentido de amealhar todos os cêntimos que pouparão no IVA que deixam de pagar, quando chegarem à idade da reforma aqueles 10 ou 15 euros vão-lhes saber bem. Hoje parece pouco, mas no futuro, com a inflação, parecerá menos ainda.
Sobre um pequeno pormenor chamado liberdade
Ricardo Araújo Pereira
in, Visão
Para quem aprecia a liberdade, o 25 de Abril foi agradável; para os que não gostam, foi uma oportunidade para fazerem aquela viagem ao Brasil
Eu não gosto de militares. Não gosto da ética militar, nem da brutalidade, nem daquele fanatismo patriótico que é, com muita frequência, trágico.
E também não gosto do povo. Não gosto da irresponsabilidade da multidão, nem daqueles que parecem ser os dois principais factores de interesse da massa popular: aglomerar-se em torno de acidentes rodoviários e insultar as camionetas que levam os arguidos para o tribunal. Tinha um amigo da UDP (notem que é possível fazer amizade com gente da UDP) que gritava com gosto a palavra de ordem do partido: «UDP, sempre ao lado do povo!» E depois acrescentava, mais baixinho: «Mas nunca no meio dele.» O escritor Mário de Carvalho costuma advertir para a necessidade de distinguir o povo do populacho, porque o primeiro é um conceito nobre e até mítico, e o segundo é uma massa infame. O problema é que é difícil encontrar o povo, mas é muito fácil dar de caras com o populacho.
E, no entanto, foram os militares e o povo que fizeram o 25 de Abril. Às vezes dá-se o caso de um casal muito feio ter um filho muito bonito. Parece-me que foi o que aconteceu, embora nem toda a gente esteja convencida da beleza da criança. Para mim, o mais divertido nas comemorações do 25 de Abril têm sido as tentativas para tornar a data «mais consensual». O Dia da Liberdade não reúne consenso, o que me deixa verdadeiramente surpreendido. Percebo que a liberdade não seja consensual, mas do meu ponto de vista ninguém teve razões de queixa: para quem aprecia a liberdade, o 25 de Abril foi agradável; para os que não gostam, foi uma oportunidade para fazerem aquela viagem ao Brasil que tinham andado tanto tempo a adiar. Sempre pensei que a data agradasse a todos.
Na verdade, porém, o 25 de Abril parece agradar a cada vez menos gente. Há autores para quem o Salazarismo não foi um fascismo, e outros para quem o 25 de Abril não foi exactamente uma revolução. O que faz com que, aparentemente, na frase «25 de Abril sempre, fascismo nunca mais», não haja nada que se aproveite. Nem o 25 de Abril foi 25 de Abril, nem o fascismo foi fascismo.
E por isso, amanhã, numa data que, pelos vistos, não chegou a ocorrer, comemora-se a nossa libertação de um opressor que, ao que me dizem agora, nunca existiu. Até parece mais bonito assim, não parece? Parece. Resumindo e concluindo: 25 de Abril sempre, fascismo nunca mais.
in, Visão
Para quem aprecia a liberdade, o 25 de Abril foi agradável; para os que não gostam, foi uma oportunidade para fazerem aquela viagem ao Brasil
Eu não gosto de militares. Não gosto da ética militar, nem da brutalidade, nem daquele fanatismo patriótico que é, com muita frequência, trágico.
E também não gosto do povo. Não gosto da irresponsabilidade da multidão, nem daqueles que parecem ser os dois principais factores de interesse da massa popular: aglomerar-se em torno de acidentes rodoviários e insultar as camionetas que levam os arguidos para o tribunal. Tinha um amigo da UDP (notem que é possível fazer amizade com gente da UDP) que gritava com gosto a palavra de ordem do partido: «UDP, sempre ao lado do povo!» E depois acrescentava, mais baixinho: «Mas nunca no meio dele.» O escritor Mário de Carvalho costuma advertir para a necessidade de distinguir o povo do populacho, porque o primeiro é um conceito nobre e até mítico, e o segundo é uma massa infame. O problema é que é difícil encontrar o povo, mas é muito fácil dar de caras com o populacho.
E, no entanto, foram os militares e o povo que fizeram o 25 de Abril. Às vezes dá-se o caso de um casal muito feio ter um filho muito bonito. Parece-me que foi o que aconteceu, embora nem toda a gente esteja convencida da beleza da criança. Para mim, o mais divertido nas comemorações do 25 de Abril têm sido as tentativas para tornar a data «mais consensual». O Dia da Liberdade não reúne consenso, o que me deixa verdadeiramente surpreendido. Percebo que a liberdade não seja consensual, mas do meu ponto de vista ninguém teve razões de queixa: para quem aprecia a liberdade, o 25 de Abril foi agradável; para os que não gostam, foi uma oportunidade para fazerem aquela viagem ao Brasil que tinham andado tanto tempo a adiar. Sempre pensei que a data agradasse a todos.
Na verdade, porém, o 25 de Abril parece agradar a cada vez menos gente. Há autores para quem o Salazarismo não foi um fascismo, e outros para quem o 25 de Abril não foi exactamente uma revolução. O que faz com que, aparentemente, na frase «25 de Abril sempre, fascismo nunca mais», não haja nada que se aproveite. Nem o 25 de Abril foi 25 de Abril, nem o fascismo foi fascismo.
E por isso, amanhã, numa data que, pelos vistos, não chegou a ocorrer, comemora-se a nossa libertação de um opressor que, ao que me dizem agora, nunca existiu. Até parece mais bonito assim, não parece? Parece. Resumindo e concluindo: 25 de Abril sempre, fascismo nunca mais.
A rotatividade é o melhor de todos os sistemas
Ricardo Araújo Pereira
in, Visão
Neste momento, há cinco candidatos a presidente do partido, sendo que entre estes se incluem alguns que todos sabemos não terem a mais pequena hipótese de ganhar umas eleições nacionais, como um Neto da Silva ou, imagine o leitor, um Santana Lopes
Toda a gente concorda que o PSD faz falta ao país. Ninguém sabe bem para quê, mas é consensual que faz falta. Pessoalmente, não tenho nada contra os sociais-democratas. Do ponto de vista ideológico, nada me afasta do PSD.
É muito difícil divergir ideologicamente de um partido que não tem ideologia nenhuma. Recordo que o presidente mais bem sucedido de sempre do PSD ficou conhecido, não pelo programa político que apresentou num congresso, mas por ter lá ido fazer a rodagem de um carro. Só por embirração eu poderia arranjar divergências ideológicas com aquela gente, e é por isso que o facto de PS e PSD continuarem a descobrir matéria para discordar entre si me deixa sempre surpreendido. Deve ser um esforço tremendo.
Bom, nada de exageros. É evidente que há dois ou três traços ideológicos no partido. O PSD tem muito apreço pela iniciativa privada, e talvez isso explique a razão pela qual nenhum dos militantes tenha especial vontade de gerir a coisa pública. O problema é que se torna muito mais fácil termos êxito nas nossas iniciativas privadas se tivermos um companheiro a organizar as coisas públicas. Normalmente, o PSD (e o PS) põe em prática um inteligente sistema de rotatividade em que alguns militantes vão suportando o aborrecimento de olhar pelo bem comum enquanto os outros vão tratar da vida, e depois troca. E assim sucessivamente. Mas, ultimamente, o PS tem gerido a coisa pública de modo agradável para os militantes do PSD que estão a tratar da vida, pelo que nenhum deles está suficientemente aborrecido para precisar de dar uns retoques na coisa pública.
Luís Filipe Menezes, entretanto, foi tão inofensivo para o Governo como Marques Mendes havia sido, mas Marques Mendes foi inofensivo de um modo muito mais respeitável. Como os militantes do PSD apreciam a compostura e a discrição, inquietaram-se. Neste momento, o PSD está de tal forma confuso que se torna difícil de compreender. Os militantes que fizeram excelente oposição a Luís Filipe Menezes não parecem interessados em fazer oposição a José Sócrates. E, na altura em que escrevo, há cinco candidatos a presidente do partido, sendo que entre estes se incluem alguns que todos sabemos não terem a mais pequena hipótese de ganhar umas eleições nacionais, como um Neto da Silva ou, imagine o leitor, um Santana Lopes. Ou o PSD recupera a credibilidade, ou não conseguirá voltar a ser alternativa a José Sócrates, para ir para o Governo fazer mais ou menos o mesmo que ele. É todo o nosso conceito de democracia que está em perigo.
in, Visão
Neste momento, há cinco candidatos a presidente do partido, sendo que entre estes se incluem alguns que todos sabemos não terem a mais pequena hipótese de ganhar umas eleições nacionais, como um Neto da Silva ou, imagine o leitor, um Santana Lopes
Toda a gente concorda que o PSD faz falta ao país. Ninguém sabe bem para quê, mas é consensual que faz falta. Pessoalmente, não tenho nada contra os sociais-democratas. Do ponto de vista ideológico, nada me afasta do PSD.
É muito difícil divergir ideologicamente de um partido que não tem ideologia nenhuma. Recordo que o presidente mais bem sucedido de sempre do PSD ficou conhecido, não pelo programa político que apresentou num congresso, mas por ter lá ido fazer a rodagem de um carro. Só por embirração eu poderia arranjar divergências ideológicas com aquela gente, e é por isso que o facto de PS e PSD continuarem a descobrir matéria para discordar entre si me deixa sempre surpreendido. Deve ser um esforço tremendo.
Bom, nada de exageros. É evidente que há dois ou três traços ideológicos no partido. O PSD tem muito apreço pela iniciativa privada, e talvez isso explique a razão pela qual nenhum dos militantes tenha especial vontade de gerir a coisa pública. O problema é que se torna muito mais fácil termos êxito nas nossas iniciativas privadas se tivermos um companheiro a organizar as coisas públicas. Normalmente, o PSD (e o PS) põe em prática um inteligente sistema de rotatividade em que alguns militantes vão suportando o aborrecimento de olhar pelo bem comum enquanto os outros vão tratar da vida, e depois troca. E assim sucessivamente. Mas, ultimamente, o PS tem gerido a coisa pública de modo agradável para os militantes do PSD que estão a tratar da vida, pelo que nenhum deles está suficientemente aborrecido para precisar de dar uns retoques na coisa pública.
Luís Filipe Menezes, entretanto, foi tão inofensivo para o Governo como Marques Mendes havia sido, mas Marques Mendes foi inofensivo de um modo muito mais respeitável. Como os militantes do PSD apreciam a compostura e a discrição, inquietaram-se. Neste momento, o PSD está de tal forma confuso que se torna difícil de compreender. Os militantes que fizeram excelente oposição a Luís Filipe Menezes não parecem interessados em fazer oposição a José Sócrates. E, na altura em que escrevo, há cinco candidatos a presidente do partido, sendo que entre estes se incluem alguns que todos sabemos não terem a mais pequena hipótese de ganhar umas eleições nacionais, como um Neto da Silva ou, imagine o leitor, um Santana Lopes. Ou o PSD recupera a credibilidade, ou não conseguirá voltar a ser alternativa a José Sócrates, para ir para o Governo fazer mais ou menos o mesmo que ele. É todo o nosso conceito de democracia que está em perigo.
terça-feira, maio 13, 2008
Nada de especial
António Lobo Antunes
in, Visão
Que silêncio tão grande. No interior do silêncio mais silêncio e no interior do mais silêncio um relógio minúsculo a anunciar
– Já é tarde, já é tarde
de forma que nem reparamos nos ponteiros. Para quê se o relógio insiste
– Já é tarde, já é tarde
e nós a olharmos uns para os outros,
inquietos
– O que diz o relógio?
apesar de termos ouvido perfeitamente a sua vozinha apressada, nós de súbito com medo
– Tarde?
e o que significa tarde meu Deus, o que pretende o relógio? Mesmo tapando as orelhas com as mãos a teimosia permanece
– Já é tarde
mesmo não escutando mais nada escutamos o
– Já é tarde
não sabemos se no relógio se no interior da gente, olhamos em volta, olhamos para dentro à procura, achamos episódios antigos, um triciclo, um avô a espantar-se
– O que tu cresceste
um colar de pérolas
(de quem?)
numa tacinha, achamos a nossa vida de hoje e qual o sentido da nossa vida de hoje, o que fazemos com ela, dias atrás de dias, o supermercado, o jantar no restaurante aos domingos, a maçada das crianças às vezes e não era bem isto que nos apetecia, não era bem isto o que tínhamos desejado, falta qualquer coisa, onde é que errámos, o que falhámos, não somos infelizes mas também não temos o que secretamente ansiávamos, os anos vão passando
(– o que tu cresceste)
e não temos o que secretamente ansiávamos, de vez em quando momentos tão vazios, de vez em quando, mesmo no meio dos outros, uma solidão tão grande, um desamparo, uma sensação de queda, esta dificuldade em respirar, porque a mobília sufoca, que vem e desaparece e volta, de vez em quando, sem motivo, vontade de chorar, não lágrimas grandes, não soluços, uma coisa vaga, uma pergunta
– E agora?
sem resposta, caras familiares que se tornam estranhas, se te abraçar continuo sozinho, o que se passa comigo, o que se passa connosco, o relógio prossegue
– Já é tarde
monótono, acusador, implacável, os
objectos quietinhos sem nos ajudarem
– Porque não nos ajudam?
Nada nos ajuda, é tarde, tentamos conversar e é tarde, fazemos amor e é tarde apesar de termos feito amor na esperança que não seja tarde e depois, em lugar do prazer, ou misturado com o prazer, ou mais forte que o prazer, uma espécie de amargura que persiste, se não dilui, persiste, o
– E agora?
sem resposta aumenta, um
– E agora?
imenso, que horror, um
– E agora?
que nos preenche inteiros, se nos pegassem ao colo, fugissem connosco, nos
garantissem
– Não é tarde ainda
e pudéssemos acreditar que não é tarde ainda, tranquilizar-nos afirmando
– Não é tarde ainda
embora cientes que mentimos
– Não é tarde ainda
e tornar a mentira verdade, que outra coisa fizemos para além de tentarmos transformar as mentiras em verdades, não há ninguém mais crédulo que um desesperado
– O que tu cresceste
e em que direcção cresci que não dou por ter crescido, lá está o triciclo, lá está o avô, lá está o colar, os frascos de perfume que cheirávamos às escondidas, os cigarros que fumávamos secretamente no quintal, cresci para onde, cresci como, se nos metermos no carro, se almoçarmos fora, se te pegar na mão melhoramos e contudo
ficamos parados
a teimar no silêncio
(que silêncio tão grande)
– Já é tarde
e não é o relógio, somos nós
– Já é tarde
não noite ainda e contudo tão tarde, aproximamo-nos da janela, os prédios do costume na rua
(esperavas outros prédios, outro
bairro?)
e tão tarde, ganas de apanhar aquele cinzeiro e quebrá-lo no chão, de que serve apanhar aquele cinzeiro e quebrá-lo no chão, no espelho a nossa cara
– O que tu cresceste
diferente, a nossa cara e diferente, porquê diferente, o que é isto nos olhos, o que é isto na boca, a boca a ecoar
– Tarde
tal como os olhos ecoam
– Tarde
todo o corpo a afirmar
– Tarde
e quando o
– Tarde
diminui o
– E agora?
a dilatar-se nele, o
– E agora
imenso, sentamo-nos no sofá com uma revista, o jornal, um livro e as mãos vazias, apertamo-las uma na outra, espreitamos o triciclo, a certeza que se pedalássemos muito depressa não seria tarde, pedalar mais depressa que o relógio, os episódios antigos, aquela parente que nos oferecia rebuçados cujo papel não descolava e se nos prendia aos dentes, tentávamos retirar o papel com a unha e não saía, ainda nos lembramos do gosto do papel na língua, largamos a revista, o jornal, o livro, e ficamos no sofá, tanto tempo passado, com o papel na língua, a mastigá-lo, a mastigá-lo, a mastigá-lo, no fundo da gente nós mesmos a acusarmo-nos
– Porque me tornaste nisto?
o silêncio aumentou tanto que o relógio se calou, uma palma no nosso ombro
– O que foi?
e construímos peça a peça um sorriso
difícil
(custa tanto um sorriso)
que responde por nós
– Não foi nada.
in, Visão
Que silêncio tão grande. No interior do silêncio mais silêncio e no interior do mais silêncio um relógio minúsculo a anunciar
– Já é tarde, já é tarde
de forma que nem reparamos nos ponteiros. Para quê se o relógio insiste
– Já é tarde, já é tarde
e nós a olharmos uns para os outros,
inquietos
– O que diz o relógio?
apesar de termos ouvido perfeitamente a sua vozinha apressada, nós de súbito com medo
– Tarde?
e o que significa tarde meu Deus, o que pretende o relógio? Mesmo tapando as orelhas com as mãos a teimosia permanece
– Já é tarde
mesmo não escutando mais nada escutamos o
– Já é tarde
não sabemos se no relógio se no interior da gente, olhamos em volta, olhamos para dentro à procura, achamos episódios antigos, um triciclo, um avô a espantar-se
– O que tu cresceste
um colar de pérolas
(de quem?)
numa tacinha, achamos a nossa vida de hoje e qual o sentido da nossa vida de hoje, o que fazemos com ela, dias atrás de dias, o supermercado, o jantar no restaurante aos domingos, a maçada das crianças às vezes e não era bem isto que nos apetecia, não era bem isto o que tínhamos desejado, falta qualquer coisa, onde é que errámos, o que falhámos, não somos infelizes mas também não temos o que secretamente ansiávamos, os anos vão passando
(– o que tu cresceste)
e não temos o que secretamente ansiávamos, de vez em quando momentos tão vazios, de vez em quando, mesmo no meio dos outros, uma solidão tão grande, um desamparo, uma sensação de queda, esta dificuldade em respirar, porque a mobília sufoca, que vem e desaparece e volta, de vez em quando, sem motivo, vontade de chorar, não lágrimas grandes, não soluços, uma coisa vaga, uma pergunta
– E agora?
sem resposta, caras familiares que se tornam estranhas, se te abraçar continuo sozinho, o que se passa comigo, o que se passa connosco, o relógio prossegue
– Já é tarde
monótono, acusador, implacável, os
objectos quietinhos sem nos ajudarem
– Porque não nos ajudam?
Nada nos ajuda, é tarde, tentamos conversar e é tarde, fazemos amor e é tarde apesar de termos feito amor na esperança que não seja tarde e depois, em lugar do prazer, ou misturado com o prazer, ou mais forte que o prazer, uma espécie de amargura que persiste, se não dilui, persiste, o
– E agora?
sem resposta aumenta, um
– E agora?
imenso, que horror, um
– E agora?
que nos preenche inteiros, se nos pegassem ao colo, fugissem connosco, nos
garantissem
– Não é tarde ainda
e pudéssemos acreditar que não é tarde ainda, tranquilizar-nos afirmando
– Não é tarde ainda
embora cientes que mentimos
– Não é tarde ainda
e tornar a mentira verdade, que outra coisa fizemos para além de tentarmos transformar as mentiras em verdades, não há ninguém mais crédulo que um desesperado
– O que tu cresceste
e em que direcção cresci que não dou por ter crescido, lá está o triciclo, lá está o avô, lá está o colar, os frascos de perfume que cheirávamos às escondidas, os cigarros que fumávamos secretamente no quintal, cresci para onde, cresci como, se nos metermos no carro, se almoçarmos fora, se te pegar na mão melhoramos e contudo
ficamos parados
a teimar no silêncio
(que silêncio tão grande)
– Já é tarde
e não é o relógio, somos nós
– Já é tarde
não noite ainda e contudo tão tarde, aproximamo-nos da janela, os prédios do costume na rua
(esperavas outros prédios, outro
bairro?)
e tão tarde, ganas de apanhar aquele cinzeiro e quebrá-lo no chão, de que serve apanhar aquele cinzeiro e quebrá-lo no chão, no espelho a nossa cara
– O que tu cresceste
diferente, a nossa cara e diferente, porquê diferente, o que é isto nos olhos, o que é isto na boca, a boca a ecoar
– Tarde
tal como os olhos ecoam
– Tarde
todo o corpo a afirmar
– Tarde
e quando o
– Tarde
diminui o
– E agora?
a dilatar-se nele, o
– E agora
imenso, sentamo-nos no sofá com uma revista, o jornal, um livro e as mãos vazias, apertamo-las uma na outra, espreitamos o triciclo, a certeza que se pedalássemos muito depressa não seria tarde, pedalar mais depressa que o relógio, os episódios antigos, aquela parente que nos oferecia rebuçados cujo papel não descolava e se nos prendia aos dentes, tentávamos retirar o papel com a unha e não saía, ainda nos lembramos do gosto do papel na língua, largamos a revista, o jornal, o livro, e ficamos no sofá, tanto tempo passado, com o papel na língua, a mastigá-lo, a mastigá-lo, a mastigá-lo, no fundo da gente nós mesmos a acusarmo-nos
– Porque me tornaste nisto?
o silêncio aumentou tanto que o relógio se calou, uma palma no nosso ombro
– O que foi?
e construímos peça a peça um sorriso
difícil
(custa tanto um sorriso)
que responde por nós
– Não foi nada.
Migalhas
Excerto do texto "Migalhas" de António Lobo Antunes publicado na Visão
Gosto do teu cheiro. Se te apetecer voltar toca a campainha três vezes e carrego naquele botão que abre a porta da rua. E se me avisares com antecedência compro um bolo. Quando não estiveres cá e me sentir sozinho como as migalhas que sobrarem. Vou contar-te um segredo: há alturas em que as migalhas ajudam.
Gosto do teu cheiro. Se te apetecer voltar toca a campainha três vezes e carrego naquele botão que abre a porta da rua. E se me avisares com antecedência compro um bolo. Quando não estiveres cá e me sentir sozinho como as migalhas que sobrarem. Vou contar-te um segredo: há alturas em que as migalhas ajudam.
Abraça-me bem
Mafalda Veiga
in, Chão
levantas o teu corpo cansado do chão
afastas esse peso que te esmaga o coração
abres uma janela e perguntas-te quem és
respiras mais fundo e enfrentas o mundo de pé
eu venho de tão longe e procuro há mil anos por ti
estendo a minha mão até te sentir
não sabemos nada do que somos nós
mas sabemos tanto do que muda por não estarmos sós
abraça-me bem
levantas os teus olhos para me olhar assim
procuras cá dentro onde me escondi
e eu tenho medo, confesso, de dar
o mundo onde guardo tudo o que mais vale salvar
tu dizes que não há outra forma de ficarmos perto
não há como saber se o caminho é certo
só pode voar quem arriscar cair
só se pode dar quem arriscar sentir
abraça-me bem
in, Chão
levantas o teu corpo cansado do chão
afastas esse peso que te esmaga o coração
abres uma janela e perguntas-te quem és
respiras mais fundo e enfrentas o mundo de pé
eu venho de tão longe e procuro há mil anos por ti
estendo a minha mão até te sentir
não sabemos nada do que somos nós
mas sabemos tanto do que muda por não estarmos sós
abraça-me bem
levantas os teus olhos para me olhar assim
procuras cá dentro onde me escondi
e eu tenho medo, confesso, de dar
o mundo onde guardo tudo o que mais vale salvar
tu dizes que não há outra forma de ficarmos perto
não há como saber se o caminho é certo
só pode voar quem arriscar cair
só se pode dar quem arriscar sentir
abraça-me bem
segunda-feira, maio 12, 2008
Sem comentários!
Notícia do DN
"A minha filha mereceu morrer por se apaixonar"
Pai esfaqueou rapariga por falar com soldado
Abdel-Qader Ali não tem dúvidas: o mínimo que a filha merecia era morrer. O crime da rapariga de 17 anos? Ter-se apaixonado por um dos 1500 soldados britânicos estacionados na cidade iraquiana de Baçorá. "Se eu soubesse no que ela se ia transformar, tê-la-ia matado logo que a mãe a deu à luz", garantiu este funcionário público xiita, numa entrevista ao semanário britânico The Observer.
Dois meses depois de a morte de Rand Abdel-Qader - sufocada e esfaqueada pelo pai e irmãos a 16 de Março - ter chocado o mundo, Abdel-Qader Ali continua em liberdade. Foi no jardim da sua casa que o homem de 46 anos recordou como teve "o apoio dos meus amigos que também são pais e sabem que o que ela fez é inaceitável". A própria polícia, que chegou a deter Abdel-Qader umas horas, deu-lhe razão. "Todos sabem que os crimes de honra são impossíveis de evitar", disse o iraquiano, segundo o qual "os agentes ficaram ao meu lado o tempo todo a dar-me os parabéns pelo que fizera".
Rand Abdel-Qasser terá conhecido Paul, um militar britânico de 22 anos, numa acção de caridade na cidade do Sul do Iraque, em que ambos participavam como voluntários. Como qualquer adolescente apaixonada, apressou-se a contar tudo à melhor amiga Zeinab. "Ela gostava de falar do seu cabelo louro e olhos cor de mel, da sua pele branca e da sua maneira suave de falar", recordou a rapariga de 19 anos em declarações ao Daily Mail. Para as amigas, o britânico era "muito diferente dos homens de cá, rudes e analfabetos".
Estudante de Inglês na Universidade de Baçorá, Rand tinha a vantagem de poder falar com Paul sem intermediários. E rapidamente começou a usar todos os argumentos possíveis para prolongar o seu trabalho de voluntariado, que lhe dava a oportunidade de estar com ele.
Uma paixão que podia até nem ser retribuída. De facto, Rand e Paul não se terão encontrado mais de meia dúzia de vezes e sempre em locais públicos. "Ela nunca fez nada para além de falar com ele", garantiu Zeinab. Mesmo assim, esta não se cansou de alertar a amiga para os perigos desta amizade: "Disse-lhe vezes sem conta que ela era muçulmana e que a sua família nunca aceitaria que casasse com um soldado britânico cristão." Como confidente de Rand, era Zeinab quem guardava os presentes que este lhe oferecia, como um leão em peluche para o qual diz agora ser "difícil olhar".
E foi o que aconteceu. Quando o pai de Rand soube que a filha se andava a encontrar com o militar, perdeu a cabeça. "Entrou em casa com os olhos raiados de sangue e a tremer", recordou ao The Observer a mãe da rapariga. Quando viu o marido a sufocar a filha com o pé, Leila Hussein chamou os dois filhos, de 21 e 23 anos, para ajudarem a irmã. Mas quando o pai lhes disse o motivo da agressão estes ainda o ajudaram.
Considerada "impura", Rand não teve direito a funeral e os tios cuspiram sobre o seu corpo quando este foi lançado a uma vala. Incapaz de viver sob o mesmo tecto que o homem que matou a sua filha, Leila pediu o divórcio e está, desde então, escondida para evitar a vingança do marido. "Fui espancada e fiquei com o braço partido", disse a mulher, que agora trabalha para uma organização que denuncia os crimes de honra.
Em 2007, 47 mulheres foram mortas por terem violado "a honra" da família só em Baçorá e desde Janeiro deste ano a Comissão de Segurança da cidade garante que o número já vai em 36. Segundo a ONU, pelo menos cinco mil mulheres são anualmente vítimas de crimes de honra em todo o mundo, e, apesar de a maioria decorrer em países islâmicos, estão a acontecer cada vez mais a muçulmanas que vivem no Ocidente.
Apesar da presença britânica, Baçorá é em parte controlada pelas milícias, que definem regras estritas de comportamento. São elas quem impõem os códigos de vestuário, as práticas religiosas e determinam que a prostituição e a homossexualidade são puníveis com a morte.
"A minha filha mereceu morrer por se apaixonar"
Pai esfaqueou rapariga por falar com soldado
Abdel-Qader Ali não tem dúvidas: o mínimo que a filha merecia era morrer. O crime da rapariga de 17 anos? Ter-se apaixonado por um dos 1500 soldados britânicos estacionados na cidade iraquiana de Baçorá. "Se eu soubesse no que ela se ia transformar, tê-la-ia matado logo que a mãe a deu à luz", garantiu este funcionário público xiita, numa entrevista ao semanário britânico The Observer.
Dois meses depois de a morte de Rand Abdel-Qader - sufocada e esfaqueada pelo pai e irmãos a 16 de Março - ter chocado o mundo, Abdel-Qader Ali continua em liberdade. Foi no jardim da sua casa que o homem de 46 anos recordou como teve "o apoio dos meus amigos que também são pais e sabem que o que ela fez é inaceitável". A própria polícia, que chegou a deter Abdel-Qader umas horas, deu-lhe razão. "Todos sabem que os crimes de honra são impossíveis de evitar", disse o iraquiano, segundo o qual "os agentes ficaram ao meu lado o tempo todo a dar-me os parabéns pelo que fizera".
Rand Abdel-Qasser terá conhecido Paul, um militar britânico de 22 anos, numa acção de caridade na cidade do Sul do Iraque, em que ambos participavam como voluntários. Como qualquer adolescente apaixonada, apressou-se a contar tudo à melhor amiga Zeinab. "Ela gostava de falar do seu cabelo louro e olhos cor de mel, da sua pele branca e da sua maneira suave de falar", recordou a rapariga de 19 anos em declarações ao Daily Mail. Para as amigas, o britânico era "muito diferente dos homens de cá, rudes e analfabetos".
Estudante de Inglês na Universidade de Baçorá, Rand tinha a vantagem de poder falar com Paul sem intermediários. E rapidamente começou a usar todos os argumentos possíveis para prolongar o seu trabalho de voluntariado, que lhe dava a oportunidade de estar com ele.
Uma paixão que podia até nem ser retribuída. De facto, Rand e Paul não se terão encontrado mais de meia dúzia de vezes e sempre em locais públicos. "Ela nunca fez nada para além de falar com ele", garantiu Zeinab. Mesmo assim, esta não se cansou de alertar a amiga para os perigos desta amizade: "Disse-lhe vezes sem conta que ela era muçulmana e que a sua família nunca aceitaria que casasse com um soldado britânico cristão." Como confidente de Rand, era Zeinab quem guardava os presentes que este lhe oferecia, como um leão em peluche para o qual diz agora ser "difícil olhar".
E foi o que aconteceu. Quando o pai de Rand soube que a filha se andava a encontrar com o militar, perdeu a cabeça. "Entrou em casa com os olhos raiados de sangue e a tremer", recordou ao The Observer a mãe da rapariga. Quando viu o marido a sufocar a filha com o pé, Leila Hussein chamou os dois filhos, de 21 e 23 anos, para ajudarem a irmã. Mas quando o pai lhes disse o motivo da agressão estes ainda o ajudaram.
Considerada "impura", Rand não teve direito a funeral e os tios cuspiram sobre o seu corpo quando este foi lançado a uma vala. Incapaz de viver sob o mesmo tecto que o homem que matou a sua filha, Leila pediu o divórcio e está, desde então, escondida para evitar a vingança do marido. "Fui espancada e fiquei com o braço partido", disse a mulher, que agora trabalha para uma organização que denuncia os crimes de honra.
Em 2007, 47 mulheres foram mortas por terem violado "a honra" da família só em Baçorá e desde Janeiro deste ano a Comissão de Segurança da cidade garante que o número já vai em 36. Segundo a ONU, pelo menos cinco mil mulheres são anualmente vítimas de crimes de honra em todo o mundo, e, apesar de a maioria decorrer em países islâmicos, estão a acontecer cada vez mais a muçulmanas que vivem no Ocidente.
Apesar da presença britânica, Baçorá é em parte controlada pelas milícias, que definem regras estritas de comportamento. São elas quem impõem os códigos de vestuário, as práticas religiosas e determinam que a prostituição e a homossexualidade são puníveis com a morte.
sexta-feira, maio 09, 2008
Seu pensamento
A uma hora dessas
por onde estará seu pensamento
Terá os pés na terra
ou vento no cabelo?
A uma hora dessas
por onde andará seu pensamento
Dará voltas na Terra
ou no estacionamento?
Onde longe Londres Lisboa
ou na minha cama?
A uma hora dessas
por onde vagará seu pensamento
Terá os pés na areia
em pleno apartamento?
A uma hora dessas
por onde passará seu pensamento
Por dentro da minha saia
ou pelo firmamento?
Onde longe Leme Luanda
ou na minha cama?
por onde estará seu pensamento
Terá os pés na terra
ou vento no cabelo?
A uma hora dessas
por onde andará seu pensamento
Dará voltas na Terra
ou no estacionamento?
Onde longe Londres Lisboa
ou na minha cama?
A uma hora dessas
por onde vagará seu pensamento
Terá os pés na areia
em pleno apartamento?
A uma hora dessas
por onde passará seu pensamento
Por dentro da minha saia
ou pelo firmamento?
Onde longe Leme Luanda
ou na minha cama?
Pelo tempo que durar
Nada vai permanecer
no estado em que está
E eu só penso em ver você
Eu só quero te encontrar
Geleiras vão derreter
Estrelas vão se apagar
E eu pensando em ter você
pelo tempo que durar
Coisas a se transformar
para desaparecer
E eu pensando em passar
a vida a te transcorrer
E eu pensando em passar
pela vida com você
no estado em que está
E eu só penso em ver você
Eu só quero te encontrar
Geleiras vão derreter
Estrelas vão se apagar
E eu pensando em ter você
pelo tempo que durar
Coisas a se transformar
para desaparecer
E eu pensando em passar
a vida a te transcorrer
E eu pensando em passar
pela vida com você
O outro
Texto: Mário de Sá Carneiro
Música: Adriana Calacanhoto
Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro.
Música: Adriana Calacanhoto
Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro.
quinta-feira, maio 08, 2008
Canção por acaso
Adriana Calcanhoto
Sem ordem
Sem harmonia
Sem belo
Sem passado
Sem arte
Sem artéria
Sem matéria
Sem artista
Sem voz
Sem formato
Sem escalas
Sem achados
Sem sol
Sem Tom
Sem Melodia
Sem tempo sem contratempo
Sem mito
Sem rito
Sem ritmo
Sem teoria
Uma canção por acaso
Uma música sem som
Uma canção por acaso
Uma sem som
Sem ordem
Sem harmonia
Sem belo
Sem passado
Sem arte
Sem artéria
Sem matéria
Sem artista
Sem voz
Sem formato
Sem escalas
Sem achados
Sem sol
Sem Tom
Sem Melodia
Sem tempo sem contratempo
Sem mito
Sem rito
Sem ritmo
Sem teoria
Uma canção por acaso
Uma música sem som
Uma canção por acaso
Uma sem som
Calor
Adriana Calcanhoto
Tarde turquesa
Quarenta graus
Talvez porque você não esteja
Tudo lateja
Tarde sem nuvem
Cinquenta graus
Talvez por sua ausência
tudo derreta
Noite sem ninguém
Nada se mexe
Eu sonho nosso amor a sério
e você em outro hemisfério
Enquanto tudo derrete
enquanto tudo derrete
enquanto tudo parece
derreter
Tarde turquesa
Quarenta graus
Talvez porque você não esteja
Tudo lateja
Tarde sem nuvem
Cinquenta graus
Talvez por sua ausência
tudo derreta
Noite sem ninguém
Nada se mexe
Eu sonho nosso amor a sério
e você em outro hemisfério
Enquanto tudo derrete
enquanto tudo derrete
enquanto tudo parece
derreter
Âmbar
Adriana Calcanhoto
Tá tudo aceso em mim
Tá tudo assim, tão claro
Tá tudo brilhando em mim
Tudo ligado
como se eu fosse um morro iluminado
por um âmbar elétrico
que vazasse nos prédios
e banhasse a Lagoa
até São Conrado
e ganhasse as Canoas
aqui do outro lado
Tudo plugado, tudo me ardendo
Tá tudo assim queimando em mim
como salva de fogos
Desde que sim, eu vim morar nos seus olhos
Tá tudo aceso em mim
Tá tudo assim, tão claro
Tá tudo brilhando em mim
Tudo ligado
como se eu fosse um morro iluminado
por um âmbar elétrico
que vazasse nos prédios
e banhasse a Lagoa
até São Conrado
e ganhasse as Canoas
aqui do outro lado
Tudo plugado, tudo me ardendo
Tá tudo assim queimando em mim
como salva de fogos
Desde que sim, eu vim morar nos seus olhos
Alegre
Adriana Calcanhoto
Hoje tem uma alegria em mim
Hoje eu acordei alegre
Nem nada mudou tanto assim
mas qualquer coisa em mim
urge
arde em febre
Hoje serei enfim
quem você quiser de mim, me leve
que eu hoje vou dizer: sim
ao que quer que me espere
me espere
Hoje tem uma alegria em mim
Hoje eu acordei alegre
Nem nada mudou tanto assim
mas qualquer coisa em mim
urge
arde em febre
Hoje serei enfim
quem você quiser de mim, me leve
que eu hoje vou dizer: sim
ao que quer que me espere
me espere
Onde andarás
Letra: Caetano Veloso
Música: Ferreira Gullar
in Maré, Adriana Calcanhoto
Onde andarás nesta tarde vazia
Tão clara e sem fim
Enquanto o mar bate azul em Ipanema
Em que bar, em que cinema
Te esqueces de mim?
Enquanto o mar bate azul em Ipanema
Em que bar, em que cinema
Te esqueces…
Eu sei
Meu endereço apagaste do teu coração
A cigarra do apartamento
O chão de cimento
Existem em vão
Não serve pra nada a escada, o elevador
Já não serve pra nada a janela
A cortina amarela
Perdi meu amor
E é por isso que eu saio pra rua
Sem saber pra quê
Na esperança talvez de que o acaso
Por mero descaso
Me leve a você
Na esperança talvez de que o acaso
Por mero descaso
Me leve…
eu sei
Música: Ferreira Gullar
in Maré, Adriana Calcanhoto
Onde andarás nesta tarde vazia
Tão clara e sem fim
Enquanto o mar bate azul em Ipanema
Em que bar, em que cinema
Te esqueces de mim?
Enquanto o mar bate azul em Ipanema
Em que bar, em que cinema
Te esqueces…
Eu sei
Meu endereço apagaste do teu coração
A cigarra do apartamento
O chão de cimento
Existem em vão
Não serve pra nada a escada, o elevador
Já não serve pra nada a janela
A cortina amarela
Perdi meu amor
E é por isso que eu saio pra rua
Sem saber pra quê
Na esperança talvez de que o acaso
Por mero descaso
Me leve a você
Na esperança talvez de que o acaso
Por mero descaso
Me leve…
eu sei
quarta-feira, abril 30, 2008
Rui Reininho : "A estupidez dos ‘tripeiros’ foi virarem-se contra Lisboa em vez de se virarem para Barcelona"
Entrevistas Vox Publica
Rui Reininho : "A estupidez dos ‘tripeiros’ foi virarem-se contra Lisboa em vez de se virarem para Barcelona"
28.04.2008 - 17h14 Sérgio C. Andrade, Carla Marques (Rádio Nova)
Há pouco mais de uma semana, em Lisboa, foi a reunião em palco, impensável há uns anos atrás, dos dois GNR – o Grupo Novo Rock e a banda sinfónica da Guarda Nacional Republicana. Na próxima quarta-feira, é o concerto em nome próprio (e da nova Companhia das Índias) na Casa da Música. Rui Reininho está a abrir um ciclo de novas apostas na sua carreira. Mas continuará a ser a voz do GNR e de uma certa “pronúncia do Norte”: crítica, irónica e sempre um pouco blasé. Não é pose, diz ele, que agora, “depois de umas terapias”, já não é as três personagens que costumava ser. Conseguiu passar para uma “bipolaridadezita mais simpática”. “Agora sou só dois: o Sr. Rui Braga, ex-chefe de família, e Rui Reininho, mais conhecido aí entre o povo. O outro, um tal Rudy Romeu, adormeci-o”.
Na altura da fundação, em 1981, a escolha do nome GNR [Grupo Novo Rock] fez algum barulho. Agora apareceram envolvidos com a [própria banda sinfónica da] GNR. Fizeram as pazes?
Nunca tive, assim, um conflito com a corporação. Mas, agora, conhecendo os seres humanos que estão dentro daquelas fardas… É uma gente fantástica. São músicos como nós. Têm bastante talento e qualidade musical. Antigamente, associava-se sempre as bandas militares às charangas. Agora, têm uma qualidade de instrumentos muito boa. Estão ali milhares de euros em bons instrumentos. São muito disciplinados, e têm grande sentido de humor. Talvez também pese o facto de a sua média de idades andar aí pelos 30 anos...
Muitos cresceram a ouvir os GNR.
Sim. Foram seis dias de uma relação muito simpática.
Não teve medo de ser preso?
Não. Eu não sou um ilegal. O único cadastro que tive foi ali na antiga PIDE, ao pé de minha casa. Vim a descobrir, por um amigo que estava na comissão de extinção da PIDE, que tinha lá cadastro.
Por mau comportamento social, ou político?
Fazíamos umas reuniões lá em casa [dos meus pais], gente ligada à UEC, aos maoístas. Era prático, porque era perto do liceu.
O concerto com a GNR vai ser levado a outro lugar, ou foi gravado para editar?
Foi gravado pela RTP, que parece que o irá apresentar. Foi uma coisa bem nacional, uma daquelas decisões administrativas, três dias antes do concerto.
Mas a edição em disco não está prevista?
Eu gostaria. Achei um pouco estranho, até, a falta de interesse da EMI, que é dona do nosso reportório. Mas isso faz parte da crise discográfica. Está tudo a assobiar para o ar, e raramente se toma uma decisão firme. Aquilo é um pouco como o Titanic: eles viram um bocado de gelo e não viram o iceberg que estava por trás, os down-loads, o MP3...
Como é que o GNR está a sobreviver à situação?
Com os espectáculos. Como sempre fizemos.
Mas estão agora a fazer menos concertos do que antes.
O ano passado foi excepcionalmente bom, mesmo sem disco [editado]. Talvez porque fizemos os Coliseus, que dá uma certa visibilidade. E provavelmente até atrelados a um êxito de rádio, que foi a versão do Inferno, do Roberto Carlos. Este ano está particularmente fraco para os artistas nacionais, porque há muita invasão do chamado artista estrangeiro. E há dois ou três vortex, quase sanguessugas, que dão cabo dos apoios todos. Não quero estar agora a ser desagradável, a dizer que é o festival A, B ou C, que leva os apoios todos. O chamado promotor local desapareceu. Aquele sujeito que estava ali na Mealhada, e que não pode competir com os bancos, com as gasolineiras, com as cervejeiras.
A nova lei da rádio não vai ajudar a resolver a crise?
Estas coisas não deviam ser forçadas – também não tenho quotas lá em casa. Devia ser uma coisa espontânea, como respirar. Mas há uma certa autofagia. Para artistas, sem falta modéstia, mais ou menos consagrados desta geração, como nós, os Xutos, o Rui Veloso e por aí fora, se calhar, nem afectará muito. Mas, para quem está a começar, é autofágico, esta coisa de se ter acabado com o CD. Nenhuma editora vai apostar em projectos giros. Por muito talento que tenha, ninguém vai editar. Então, tocamos todos músicas entre nós, em computador, como muita gente faz.
Vão às Queimas, este ano?
Provavelmente não. Já estamos em Maio, e só tenho espectáculos a partir de Junho.
Também não é grande adepto de tocar em Queimas e em festivais.
Fui, durante muitos anos. Creio que Coimbra é o nosso recorde. É a cidade onde mais tocamos na vida, mais de vinte vezes.
Mas os festivais de Verão…
Sim. Claro que prefiro ir espreitar o de Paredes de Coura, de que gosto da programação. Não sou homem para me deslocar lá abaixo ao Alentejo só para ver A, B ou C.
E tocar em festivais?
Não é o meu formato preferido, em termos de espectáculos, estar ali no meio daquela programação. Até porque aconteceu-me, há dois anos, no Rock in Rio, um dos momentos mais desagradáveis da minha vida. Deram-nos das 7 às 9 da manhã para fazer o ensaio de som. É um pouco de desconsideração, àquela hora da manhã… E nos outros festivais, também. Acham que é uma honra, terem-nos lá, e vice-versa.
Vai fazer um concerto no ciclo Música e Revolução, na Casa da Música. Por que é que lhe chamou Mayday?
Partiu de um filmezito daqueles mal traduzidos que eu estava a ver. “Mayday” é o S.O.S. na aviação. Nesse filme de guerra, um avião caía e o piloto estava a falar com terra: “Mayday, Mayday”... E o tradutor, na sua ignorância, traduziu “1º de Maio. 1º de Maio”. Achei fantástico. Ainda se fosse “13 de Maio”…
O concerto vai ser sobre a sua história pessoal do rock n’ roll?
Sim. A maneira como eu a vejo. Vamos começar com o Elvis Presley. Há mesmo uma frase que tirei do Leonard Bernstein, o grande maestro, que dizia que aquele homem mudou tudo: mudou o ritmo, mudou a maneira de vestir das pessoas. Foi, de facto, uma ruptura. E o John Lennon dizia que, antes do Elvis, não havia nada. É engraçado ele dizer isso. E, por ser a véspera do 1º de Maio e da festa das maias, tive uma ideia fantástica para decorar a Casa da Música, lembrando-me da minha infância, quando se punha uma maia nos buraquinhos das casas, porque andava o diabo à solta.
Mas, nos anos 75/76, você estava mais virado para o jazz.
Sim. Foi quando me abriram a cabeça. Creio que foi com o Miles Davis, num festival Monterey pop, creio. Fiquei admirado. Era uma música um pouco mais estranha do que aquilo a que estava habituado a ouvir, desde muito cedo, no liceu Alexandre Herculano.
No concerto haverá um mestre-de-cerimónias, Armando Teixeira, e outros convidados...
Montámos aquilo a que chamei a Companhia das Índias. Pode ser que venha a resultar num disco. Gosto muito de trabalhar com o Armando [Teixeira]. Entendemo-nos muito bem, do ponto de vista musical. E com o João Rato, que é um pouco o director musical, e também responsável pela maior parte dos arranjos. E também com o Nuno Espírito Santo (que tem tocado com o Sérgio Godinho), e o Zé Vilão, que foi uma grande surpresa. Nesta formação, eu estava a apostar até em não ter baterista, mas, depois, talvez resultasse um bocadinho frio. O nosso cuidado é não fazer um espectáculo de covers, de versões que toda a gente pode ouvir nalguns bares.
Não quer fazer um espectáculo de karaoke.
Exactamente – é um “desporto” que abomino. Não percebo qual é a graça de ver as pessoas a tentar imitar os cantores. Há que ter respeito por estes clássicos. No jazz, faz-se isso aos músicos: pega-se nos chamados standards... Não tenho a pretensão de ir por esse caminho. Mas os Beatles são incontornáveis. Nunca fui grande adepto deles, como muita gente da minha geração. Eu era mais dos Stones. E gostava ainda mais dos Kinks. A minha maneira de pegar nos Beatles vai ser quase um improviso à volta do meu Beatle preferido, que é o George Harrison, que trouxe o lado oriental. Vamos fazer uma encenação ligada às cítaras, e não o óbvio do Oblá-di Obla-dá, ou do Yesterday.
O pressuposto do programa é ir buscar músicas que fizeram revoluções, na história da música e na própria História. Agora, a música já não faz revoluções, como a Marselhesa ou o Grândola Vila Morena…
Pois. Aquela fase dos anos 70 e do punk, para mim, foi extremamente importante. Até pela maneira como me levou para a música. Pensei: “Se estes tipos tocam dois acordes ou três e conseguem fazer discos, vou tentar fazer também”. Sempre me considerei um músico medíocre menos, e arrisquei um pouco… Depois conheci os GNR, onde executei algumas das minhas ideias. De facto, hoje, os ícones são muito distantes. Eu sou contemporâneo, até em termos de idade, da geração da Madonna, e desde Like a Virgin não há aquela ruptura. As coisas estão diferentes.
Por que é que isso acontece?
É um processo um bocadinho esquizóide. Está tudo muito no teclado e no ecrã. As pessoas estão muito na rede, fechadas umas com as outras, e parece-me que a única maneira em que ainda há contacto físico, de prazer com as músicas, é nos espectáculos.
Que tal é a acústica da Casa da Música?
É uma casa difícil. Não quero juntar-me ao coro dos protestos, mas há muita gente que diz que ali se gastou muito dinheiro nas maçanetas e nas carpetes, e que há deficiências.
Mas gosta da arquitectura?
Ontem disseram-me que o projecto era para um milionário que queria oferecer aquele diamante a uma princesa, e que depois a coisa não se efectivou e ele acabou por aterrar ali no cimo da Avenida da Boavista. Mas gosto. Gosto de certas modernices. Mas – e podem-me chamar parolo – detesto o que fizeram ao Jardim da Cordoaria e à Avenida dos Aliados. E à minha praia de Leça da Palmeira, que é agora uma auto-estrada, sem uma sombra onde os passarinhos possam pousar, onde a gente possa escrever o nome da pessoa amada numa árvore.
Mas são projectos de arquitectos de renome.
Concerteza. E tenho o máximo respeito por eles. Sempre tive. Em Leça da Palmeira, por exemplo, estou perante uma das coisas mais lindas: a casa de chá, a piscina, que frequento até de Inverno – salto o muro. Mas “cada macaco no seu galho”. Não me parece que todas as pessoas sejam adequadas. Eu não servia para cantar ópera. Tenho a noção das minhas limitações. Mas a Casa da Música, naquele sítio, parece-me um pouco uma nave espacial que aterrou ali por acidente. Seria muito mais agradável ter aquele objecto no meio de um jardim.
Em termos de acústica, o que é que não funciona na Sala Suggia?
É uma sala difícil. Não sei porquê. Ainda não tive oportunidade de discutir isso com o técnico que vai fazer o som. Também já assisti a espectáculos do chamado reportório clássico – não gosto de lhe chamar assim, acho um preciosismo chamar-lhe clássico ou ligeiro. Mas, naquela música mais séria, notei que tinha alguma dificuldade em ouvir os baixos ou contrabaixos. Mas cada caso é um caso. E acho que pode ser melhorado. Uma das coisas que a Casa da Música não tem, e devia ter, era disponibilizar mais salas para o exterior, para os músicos terem os seus gabinetes, o seu lado experimental. Mas é uma honra estrear ali uma ideia assim tão rubicunda como esta. E isto vai ser o princípio de muitas coisas. Abriram-se muitas portas. Por exemplo, fazer um disco de originais.
No GNR, retratou o Porto dos anos 70 e 80, por exemplo, em Piloto automático, Whiskey puro ou Vodka vodka, e noutras músicas que sugeriam uma geração muito boémia, muito voltada para o álcool e para as drogas. Já não bebe, já não fuma.
Vou bebendo o que me deixam.
Que relação tem hoje com o Porto?
Eu fui, de certa maneira, expulso da Baixa. Não foi por culpa de A, B ou C. A Capital da Cultura também contribuiu, de certa maneira, para o desmantelamento da Baixa. Fiquei um bocado triste por ver a Baixa toda em pantanas. E aqueles comerciantes, uns até pais de amigos meus – o Sr. Moreira e o Sr. Santos ¬– ali aflitos, à porta das suas lojas, a ver as pessoas a começarem a debandar para os centros comerciais. Rebentaram com o pequeno comércio. Talvez o facto de os novos campus universitários e aqueles núcleos adjacentes ao Piolho, a Medicina, Ciências… Aquela gente debandou toda. Para o 2001, o [Artur] Santos Silva tinha uma ideia fantástica – a cultura também é civilização, não é só exibir o Pierre Boulez. A cultura de rua, a animação, faltou ao 2001, tirando performances pontuais. Apostou-se, um pouco, naquele pseudo-elitismo e não se devolveu a cidade às pessoas.
Agora começa a haver grande animação à noite, nas ruas de Cândido dos Reis, Galeria de Paris e Almada.
São ruas lindíssimas. Mas é uma fauna muito típica. Sem querer mandar “bocas”, é um bocadinho Ípsilon, não é? É o pessoal de alterne de maneira diferente. E a Ribeira está um pouco perigosa. Se não fossem os meus amigos Super Dragões, não me atreveria a ir à Ribeira.
Tem boas relações com os Super Dragões?
Gosto das tribos. Se os fenómenos existem, têm que ser entendidos. Percebo o meu caro colega Morrissey, que chegou a ser obrigado a sair de Inglaterra, porque, de certa maneira, defendia o hooliganismo. Conotavam-no com aquele nacionalismo inglês, e ele dizia. “Eu percebo estes jovens pobres, que chegam a Copenhaga e não têm nada – o seu gesto mais brutal será assaltar a ourivesaria ou partir tudo”. Há um lado de violência que é inata à humanidade e que se tem de compreender. Eles nada têm a perder. Se calhar, é o meu lado bakuniniano. Mas não vou por aí. São tribos que, a certa altura, são tão necessários, ou tão desnecessárias, como o exército.
Em que ponto está o seu anarquismo?
É pura e simplesmente estético. A minha ideologia não é nem deus nem chefes, porque, precisamente, tenho vivido sem uns nem outros. E, se calhar, eles existem.
Falava, há bocado, do Morrissey. Há muita gente que diz que você se parece agora com ele.
É da idade. Os velhinhos tendem…
Aquela pose de fato branco, com a GNR, é deliberada?
Não. O fato branco foi uma questão estética, por estarem cento e tal senhores fardados com fato azul e verde. Por acaso, é bem bonita, a farda da GNR. É extraordinário. As pessoas dizem: “O tipo está um bocado xé-xé”. Ou dizem: “Não, agora está mais comedido”. Tenho é de tirar o máximo partido das minhas potencialidades, enquanto tiver um fiozinho de voz. Não me vejo a fazer as mesmas acrobacias de há vinte anos atrás. Era mesmo cansativo. A tal personagem, já prescindi dela.
Havia, então, uma personagem deliberada.
Não era deliberada. Era espontânea. Não me reconheço nalgumas delas, no tom de voz, no comportamento. Agora, se não me sai, vou tentar procurar outra via. Não percebo porque é que um músico da chamada clássica pode fazer espectáculos até aos 70, 80 anos, e ao pop-rock exigem… Teremos que morrer cedo?
O concerto que vai apresentar em Maio no S. Luiz, em Lisboa, é já a expressão dessa nova etapa?
Sim. De um novo espaço de contenção sonora. Há menos decibéis, e uma exigência grande. São vinte canções.
Terá originais?
Não. Felizmente vou tocar com estes músicos [do concerto na Casa da Música]. Em 15 dias, não vou mexer no plantel. Vamos fazer rearranjos de músicas. Até porque, se conseguir concretizar, ainda este ano, um disco com a Companhia das Índias, no espectáculo que se lhe seguirá, o objectivo será fazer uma pequena viagem pelo país, mas em recintos fechados. Há sítios maravilhosos, como o Vila Flor, em Guimarães. (Parece que custou um décimo da Casa da Música, e tem condições acústicas óptimas). E há muitos outros sítios que gostaria de visitar. É aquilo a que chamo um voo low-cost: cabe tudo num táxi. E é realista, na crise que estamos a atravessar. É uma coisa mais portátil.
Voltando a falar do Porto. Numa entrevista, disse uma vez que era bom que Rui Rio se candidatasse à liderança do PSD, “para desamparar a loja”....
Era bem feito. Com o senhor como primeiro-ministro, se calhar, aí o pessoal dos subsídios nacionais ia sentir na pele. Passava a ser um problema nacional.
Também acha que há um esvaziamento cultural na cidade?
No outro dia, estava com o meu antigo mestre, o Ricardo Pais, em Lisboa, e ele disse-me: “Se reparares, no roteiro do Porto, não há hoje uma única peça de teatro em cena”. A Seiva não estava a funcionar, e como o S. João estava com uma peça em Lisboa… Isto é mau, numa cidade destas. Desabitua as pessoas de ir ao teatro, como de ir ao cinema.
O que pensa da privatização do Rivoli?
“Nein Danke”. O teatro popular tem todo o direito... Lembro-me de ir ver a revista ao Sá da Bandeira, com a Laura Alves. Mas tem que haver espaço para a dança, e para um cinema que não é propriamente comestível. Eu passava fins-de-semana fabulosos, gastava ali todas as minhas mesadas a ver as noites e as tardes fantásticas, com o Howard Hawks. Nem sequer há uma cinemateca. O Pedro Mexia está agora na Cinemateca, lá em baixo. Dou-lhe os parabéns. E acho que uma das ideias dele é descentralizar a Cinemateca nacional e haver um protocolo com o Porto, com uma ou mais salas. O Mexia tem inteligência e acção suficiente para fazer uma coisa dessas.
Com o Rui Veloso e, depois, o Pedro Abrunhosa, o GNR assumiu, de certo modo, a pronúncia do Norte. Sentia essa responsabilidade de estar a representar a cidade e a região?
Sem bairrismo, gosto da proximidade das pessoas. Emociono-me bastante com o povo, como dizia o Pedro Homem de Melo. Sou um bocado casmurro, um bocado forreta. Nesta região até à Galiza, sinto uma proximidade, mais do que com o calcário alentejano. Mas também me dou bem com alentejanos. A única coisa de que não gosto é daquele espírito do antigo Terreiro do Paço. Mas Lisboa é uma cidade maravilhosa. A estupidez dos “tripeiros” foi, durante muito tempo, virarem-se contra Lisboa em vez de se virarem para Barcelona, por exemplo, uma atitude que era muito mais interessante.
Mas essa estratégia deu frutos no FC Porto, até certo ponto.
Essa e outras. As pessoas sentem-se ressentidas. Tive a felicidade de ter estado no after party [da conquista do campeonato de futebol] com a equipa toda, aquela gente toda, e vi o que eles sentem contra aquela imprensa desportiva. Eles podem conquistar os feitos mais gloriosas, mas é sempre uma nota de roda-pé. O que vem na primeira página é sempre quem vai ser o novo treinador do “Glorioso”. Eles sentem-se feridos. E aquele programa da SIC anti-FCP foi um grande tocar a reunir.
Esse espírito faz algum sentido, nos dias de hoje?
Não, porque não há tropas, como diria o outro senhor da Madeira. É pena. Aparecem trinta ‘gatos pingados’, e são sempre os mesmos voluntariosos, ali no Rivoli. Se calhar, vão aparecer poucos mais no Bolhão, repetindo o que me disse a minha amiga Regina Guimarães, que é uma defensora de um mercado de frescos no centro da cidade.
O que está a acontecer com o Bolhão mostra que a cidade já não reage como reagiu com o Coliseu.
Não, porque não há gente. As pessoas estão mais nos subúrbios e pensam assim: “Se calhar, vou defender uma coisa que já não é a minha luta”. A Baixa tem uma população muito envelhecida e triste. São os que restam. Não há grande apelo. É pena, porque eu gostava de regressar, nem que fosse para ser cremado ali. Mas, agora, ouvi dizer que vai haver um crematório na Lavra. Vou-me inscrever ali, nas cinzas da Petrogal.
Estado da Educação
Está visto!
Passagens automáticas, a bem do défice!
Notícia do Público de hoje:
Insucesso sai caro ao Estado
Chumbos no básico e secundário custam mais de 600 milhões de euros por ano
30.04.2008 - 09h04 Isabel Leiria
Sem apresentar estimativas globais para o impacto económico que o insucesso escolar tem, o exemplo foi dado pela ministra da Educação: "Se o Estado gasta por ano três mil euros com um aluno, quando ele repete vai custar seis mil no ano seguinte". Ou seja, contabilizando os cerca de 170 mil que chumbaram em 2006/2007 (100 mil no básico e 70 mil no secundário) e multiplicando pelo custo por aluno, chega-se a um valor superior a 600 milhões de euros.
Estas contas são feitas pelo PÚBLICO a partir do valor de 3700 euros que, em 2004/2005, o Estado pagou para financiar integralmente a frequência de cada aluno em escolas privadas localizadas em sítios onde não há oferta pública (através dos contratos de associação).
"Se, ao fim de três anos, o aluno ainda abandona a escola, então o país acaba por ter no final um gasto que não serviu", sublinhou ontem a ministra Maria de Lurdes Rodrigues, em declarações aos jornalistas, a propósito do ensino da Matemática e da conferência internacional sobre o ensino da disciplina, que decorrerá em Lisboa, na próxima semana.
O encontro reunirá peritos nacionais e estrangeiros e servirá para fazer a avaliação das medidas tomadas ao longo dos últimos três anos para melhorar os resultados a uma das disciplinas que mais dificuldades causam aos alunos portugueses. "Será também um momento de prospectiva, para verificar que outras medidas são necessárias", explicou a ministra.
O que não é necessário, considera Maria de Lurdes Rodrigues, é continuar a ter taxas de insucesso sem paralelo no espaço da OCDE - aos 15 anos, só Espanha e Luxemburgo apresentam taxas de repetências comparáveis a Portugal -, cuja eficácia é posta em causa pelo facto de que quem fica retido frequentemente volta a chumbar. "Os sistemas de ensino moderno tentaram substituir um sistema chamado "chumbo" por outros instrumentos chamados "mais trabalho". É isso que precisamos de fazer nas nossas escolas: substituir este instrumento que não tem um objectivo de recuperação", defendeu Maria de Lurdes Rodrigues. "O objectivo actual é proporcionar a todos os alunos, sem excepção, a escolaridade básica de nove anos." E o chumbo, que foi introduzido quando o sistema educativo se organizava para seleccionar e separar, "não é adequado a este objectivo", reforçou.
O exemplo finlandês
Para a ministra, a solução passa pela "identificação precoce das dificuldades" e pela diversificação de estratégias de recuperação, num trabalho que tem de ser feito por toda a escola. Maria de Lurdes Rodrigues rejeita ainda a ideia de que este princípio corresponda a qualquer tipo de "facilitismo": "Facilitismo é chumbar. Rigor e exigência é fazer com que todos aprendam".
Num relatório recente da OCDE, intitulado No More Failures: Ten Steps in Education e ontem distribuído na conferência de imprensa, apoiam-se os argumentos da ministra. "Apesar de a repetência ser frequentemente utilizada pelos professores, faltam provas de que as crianças ganhem com isso. A retenção é cara - o custo económico global vai até aos 20 mil dólares [13 mil euros] por cada aluno que chumba um ano -, mas as escolas são pouco incentivadas a ter em conta os custos envolvidos", lê-se no documento.
Os peritos da OCDE referem o Luxemburgo como um dos países que estão a tomar medidas para reduzir as taxas de insucesso e apontam o caso finlandês, onde os chumbos são absolutamente residuais, como exemplo a seguir. "A Finlândia recorre a um conjunto de intervenções formais e informais para ajudar quem está a ficar para trás na escola. Esta abordagem parece ser bem sucedida." A OCDE diz mesmo que "muitos países podiam seguir" esta estratégia de "sucesso", recomendando ainda o apoio aos professores no desenvolvimento de técnicas de recuperação dos alunos.
Passagens automáticas, a bem do défice!
Notícia do Público de hoje:
Insucesso sai caro ao Estado
Chumbos no básico e secundário custam mais de 600 milhões de euros por ano
30.04.2008 - 09h04 Isabel Leiria
Sem apresentar estimativas globais para o impacto económico que o insucesso escolar tem, o exemplo foi dado pela ministra da Educação: "Se o Estado gasta por ano três mil euros com um aluno, quando ele repete vai custar seis mil no ano seguinte". Ou seja, contabilizando os cerca de 170 mil que chumbaram em 2006/2007 (100 mil no básico e 70 mil no secundário) e multiplicando pelo custo por aluno, chega-se a um valor superior a 600 milhões de euros.
Estas contas são feitas pelo PÚBLICO a partir do valor de 3700 euros que, em 2004/2005, o Estado pagou para financiar integralmente a frequência de cada aluno em escolas privadas localizadas em sítios onde não há oferta pública (através dos contratos de associação).
"Se, ao fim de três anos, o aluno ainda abandona a escola, então o país acaba por ter no final um gasto que não serviu", sublinhou ontem a ministra Maria de Lurdes Rodrigues, em declarações aos jornalistas, a propósito do ensino da Matemática e da conferência internacional sobre o ensino da disciplina, que decorrerá em Lisboa, na próxima semana.
O encontro reunirá peritos nacionais e estrangeiros e servirá para fazer a avaliação das medidas tomadas ao longo dos últimos três anos para melhorar os resultados a uma das disciplinas que mais dificuldades causam aos alunos portugueses. "Será também um momento de prospectiva, para verificar que outras medidas são necessárias", explicou a ministra.
O que não é necessário, considera Maria de Lurdes Rodrigues, é continuar a ter taxas de insucesso sem paralelo no espaço da OCDE - aos 15 anos, só Espanha e Luxemburgo apresentam taxas de repetências comparáveis a Portugal -, cuja eficácia é posta em causa pelo facto de que quem fica retido frequentemente volta a chumbar. "Os sistemas de ensino moderno tentaram substituir um sistema chamado "chumbo" por outros instrumentos chamados "mais trabalho". É isso que precisamos de fazer nas nossas escolas: substituir este instrumento que não tem um objectivo de recuperação", defendeu Maria de Lurdes Rodrigues. "O objectivo actual é proporcionar a todos os alunos, sem excepção, a escolaridade básica de nove anos." E o chumbo, que foi introduzido quando o sistema educativo se organizava para seleccionar e separar, "não é adequado a este objectivo", reforçou.
O exemplo finlandês
Para a ministra, a solução passa pela "identificação precoce das dificuldades" e pela diversificação de estratégias de recuperação, num trabalho que tem de ser feito por toda a escola. Maria de Lurdes Rodrigues rejeita ainda a ideia de que este princípio corresponda a qualquer tipo de "facilitismo": "Facilitismo é chumbar. Rigor e exigência é fazer com que todos aprendam".
Num relatório recente da OCDE, intitulado No More Failures: Ten Steps in Education e ontem distribuído na conferência de imprensa, apoiam-se os argumentos da ministra. "Apesar de a repetência ser frequentemente utilizada pelos professores, faltam provas de que as crianças ganhem com isso. A retenção é cara - o custo económico global vai até aos 20 mil dólares [13 mil euros] por cada aluno que chumba um ano -, mas as escolas são pouco incentivadas a ter em conta os custos envolvidos", lê-se no documento.
Os peritos da OCDE referem o Luxemburgo como um dos países que estão a tomar medidas para reduzir as taxas de insucesso e apontam o caso finlandês, onde os chumbos são absolutamente residuais, como exemplo a seguir. "A Finlândia recorre a um conjunto de intervenções formais e informais para ajudar quem está a ficar para trás na escola. Esta abordagem parece ser bem sucedida." A OCDE diz mesmo que "muitos países podiam seguir" esta estratégia de "sucesso", recomendando ainda o apoio aos professores no desenvolvimento de técnicas de recuperação dos alunos.
sexta-feira, abril 25, 2008
Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar!
A defesa da escola pública e democrática foi o centro da intervenção do meu camarada e amigo, Zé na sessão parlamentar do 25 de Abril. "A limitação da democracia na vida das escolas, na sua gestão, na sua organização, é sempre um empobrecimento da escola pública. Se pedirmos a professores e alunos para se demitirem de participar na gestão das escolas, não nos admiremos que se demitam também da gestão do país."
25 de Abril, a utopia viável
Ouvi há uns anos na Dinamarca, num acampamento de Jovens da IVª Internacional (organização política mundial criada por Leon Trotsky, em resposta à IIIª Internacional, dominada por Estaline), a seguinte interrogação: "Se a Utopia é inantigível e intangível, então porque a perseguimos?". A resposta veio pronta: "A utopia é inantigível e intangível, porque ela mesma é composta de mudança, e à medida que caminhamos para ela, ela pula e avança. Então avançamos para ela, para caminhar!" (As palavras poderão não ter sido exactamente estas).
O meu camarada e amigo João Teixeira Lopes (que não esteve na Dinamarca :-)), escreve um texto sobre a Utopia ainda por alcançar do 25 de Abril. Caminhemos, então!
Em abstracto, a utopia é o fio do horizonte. Desloca-se, cada vez que nos aproximamos. É inatingível e intangível. Uma espécie de movimento perpétuo, que nos deixa sempre aquém. Uma representação sem território ou história, que nenhuma rede analítica consegue captar na sua imensidão, uma vez que os furos da rede, os espaços lassos entre os conceitos, deixam escapar aquilo que, apesar de produto dos homens, deles se desliga, ganhando existência própria.
Não vou falar, por conseguinte, de uma utopia. Falarei de um tempo e de um espaço concretos. Falarei de uma Revolução - o 25 de Abril de 1974 - que constitui a ruptura fundadora da nossa democracia e da segunda República.
É de uma revolução que falo. E jamais é desnecessário insistir neste ponto, uma vez que correntes de um certo revisionismo histórico persistem num afã de pirueta ideológica em apresentar o momento inicial como uma continuidade face aos anos de agonia da ditadura. Não se tratou, na verdade, de um mero golpe de estado. Desde cedo, nesse dia luminoso, o povo saiu à rua e não mais a largou, forçando e fazendo a história. Bem sei que a memória e a história são permanentes terrenos de luta, em que cada implicado usa a sua força para impor uma versão legítima. A Versão.
Não pretendo - jamais o pretenderia - reter a chave histórica única para a interpretação de um acontecimento histórico de tal grandeza e conflitualidade. Aliás, sou parte implicada no fazer da história. Tenho um ponto de vista, falo a partir de um lugar preciso, exacto, inequívoco: o dos que se revêem na luta contra o fascismo, a hedionda repressão e o moribundo império.
Falar do 25 de Abril é, pois, abordar a questão das possibilidades da utopia, da sua concretização em utopias viáveis, de carne e osso, utopias incorporadas nas pessoas e na sua condição perante o mundo. Basta olharmos para um indicador que condensa toda a ruptura: nas vésperas da revolução, a mortalidade infantil era de 40 por mil. Hoje desceu para 5 por mil. Ou para um outro, embora não tão expressivo: em 1960 a população universitária representava apenas 3% da população juvenil. Hoje ultrapassa já os 30%
Olho, pois, com a distância que estes anos me permitem, para a Revolução de Abril como uma Revolução inacabada. Um processo. Uma construção permanente. Uma insurgência inquieta. Uma dissidência com objectivos. Sendo utopia, move-nos para horizontes largos de justiça e fraternidade. Sendo viável, exige de nós, a cada momento, a intenção, o impulso e a paixão de ir mais além. Sempre mais além. É desta insatisfação que brotam os magníficos combates. É preciso estar à altura. Aqui e agora.
João Teixeira Lopes
terça-feira, abril 22, 2008
Olha à tua volta
Manifesto Anti-Dantas de José de Almada Negreiros, dito por Mário Viegas
(versão integral)
Olha, olha à tua volta
Há, algo que nos une
Se eu posso, tu também
Ter a coragem de gritar
BASTA!
Quinta do Bill
segunda-feira, abril 21, 2008
quarta-feira, abril 16, 2008
terça-feira, abril 15, 2008
Clã na Antena 3
Ver vídeos em:
Sexto Andar
Versão de "Golden Skans", dos Klaxons
Ver versão dos Klaxons
Golden Skans
Qual a que preferem?
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segunda-feira, abril 14, 2008
quinta-feira, abril 03, 2008
domingo, março 30, 2008
sábado, março 29, 2008
sexta-feira, março 28, 2008
quinta-feira, março 27, 2008
quarta-feira, março 26, 2008
quinta-feira, março 20, 2008
A história das coisas
Acede a este link e assiste a uma apresentação sobre a história das coisas, ciclo de vida dos produtos, poluição, consumismo, o poder da publicidade, etc, etc... Vale mesmo a pena ver e ouvir! São cerca de 20 minutos, mas no fim, vão com certeza dar esses 20 minutos como muito bem gastos.
Só neste país!
Só neste país
Letra e Música:Sérgio Godinho, in Ligação Directa
Unamo-nos
Nós somos os famosos anónimos
Mesmo assim já cumprimos os mínimos
Somos todos únicos
Que mais vão querer de nós
Para provar quem vai à frente
Ou fica atrás
Se é por
Ir estabelecer um novo record
Compremos o Guinness
Ao preço que for
E fica o assunto homologado
E sai espumantes
Às vezes dá p'ra um banquete
Ou dele as sandes
Sempre
Complicamos a coisa mais simples
E simplificamos a complicada
Sai em rajada
O tiro pela culatra
Às vezes mata
Às vezes ressurreição
Foi de raspão
(Só neste país...)
Só neste país
É que se diz:
Só neste país
Só neste país
Só neste país
Só neste país
Só neste país
São muitos séculos em morna ebulição
A transitar entre o granizo e a combustão
E um qualquer hino
P'ra qualquer situação
A pessimista, a optimista...
E vai abaixo e vai acima
E vai abaixo, e vai acima
(e agora a rima):
Portugal é nosso p'ro bem e p'ro mal
E o mal que está bem
E o bem que está mal
E o bem que está bem
Juro
P'lo fado
P'lo baile e p'lo kuduro
Que este país 'inda tem futuro
É verde e maduro
Como a fruta, às vezes brota
Às vezes, consternação
Secou no chão
Por isso unamo-nos
Nós somos os famosos anónimos
Mesmo assim já cumprimos os mínimos
Somos todos únicos
Que mais vão querer de nós
Para provar
Quem vai à frente
Ou fica atrás...
(Só neste país...)
Só neste país
É que se diz:
Só neste país
Só neste país
Só neste país
Só neste país
Só neste país
(...)
sábado, março 15, 2008
O meu estilo
A notícia de capa do JN de hoje é, que o PS prepara um projecto em que aplicar piercings na língua passará a ser proibido, a menores de 18 anos.
Ver notícia aqui.
Já me tinham enviado essa informação por email ontem, mas pensei que fosse uma brincadeira e não liguei, pois pensei, que o Governo tem tempo para fazer borrada atrás de borrada, mas que não o teria para algo deste género, que não deveria ser tema de discussão. Por outro lado, não via um PS (qualquer que ele seja), a tomar uma posição deste género. E foi precisamente isso que hoje ouvi, quando me desloquei a um quiosque, de alguém que supôs ser de direita: "Se fossemos nós a fazer isto, caíam-nos logo em cima!". Pois é, este Governo de Sócrates, consegue, uma vez mais, ser mais de direita e ir mais longe, que a própria direita. Digamos que Sócrates não consegue disfarçar muito bem o "curso" que fez na JSD! Ao menos um, em que se tenha safado...
Posto isto, eu que até nem tenho qualquer piercing, deixo aqui uma canção do album Kazoo, dos Clã. Chama-se O meu estilo"
O meu estilo
Letra:Carlos Tê / Música:Hélder Gonçalves e Manuela Azevedo
in Kazoo
Eu quero furar a narina
usar uma argola no umbigo
tingir-me de purpurina
e andar pela rua contigo
quero furar o mamilo
tatuar um peixe no braço
afirmar lá o meu estilo
e demarcar o meu espaço
eu quero ser afro-zulu
mostrar na pele o meu tabu
eu quero usar um brilhante
nas nuvens do céu da boca
mas a minha mãe não gosta
porque é demasiado barroca
ela não sabe a angústia
que esta diferença me poupa
não vou ser o zombie cinzento
que ela tem no guarda roupa
eu quero ser afro-zulu
mostrar na pele o meu tabu
quero ser afro-zulu
nativo urbano industrial
mostrar na pele o meu tabu
ser por direito um ser tribal
quero ser afro-zulu
nativo urbano industrial
mostrar na pele o meu, tabu
eu quero ser afro-zulu
mostrar na pele o meu tabu
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quinta-feira, fevereiro 28, 2008
quarta-feira, fevereiro 27, 2008
Louçã critica lucros insensatos dos bancos
Francisco Louçã criticou hoje os dados recentemente divulgados que apontam para lucros diários, no sector bancário, de 7,9 milhões de euros, que considerou ser "um oásis de prosperidade, num país com tantas dificuldades económicas e tanto desemprego".
"É bom que se perceba que os bancos são uma forma de brutalizar os direitos de muitas pessoas, através de lucros insensatos", afirmou Louçã no Porto, criticando ainda a legislação sobre os impostos que os bancos pagam sobre os lucros.
"É inferior à que paga a mercearia da esquina", frisou.
Em declarações aos jornalistas à margem de um encontro com jovens universitários, Francisco Louçã rejeitou ainda liminarmente a possibilidade dos bancos virem a cobrar uma comissão sobre as operações realizadas nas máquinas automáticas (Multibanco).
"Era só o que faltava, tirem daí a ideia. Não é aceitável, nem sequer pensar que isto possa acontecer", afirmou.
terça-feira, fevereiro 26, 2008
É urgente um acordo ortográfico. A foto não deixa dúvidas...
Texto publicado no blog dos Trabalhadores do Comércio:

Já não há volta atrás. O acordo ortográfico está aí e, com ele, a abulição de uns quantos costumes, outrora fonemas, agora considerados supérfluos.
Parece que o peso da raiz latina, que ainda transparece no Português (de Portugal), já não é relevante nem suficiente para manter o P que abre o A de Baptista, ou o C que garante a abertura da vogal E em direcção.
Aos governantes não lhes fará grande diferença, pois seguramente a alguns lhes soará melhor Bätista (como em bätota).
Pois muito bem. Se assim vai ser, porque não aproveitar a "embalagem" e tratar já de acabar com a "chatice" que é o H. Á anos que estou farto dele... E ninguém já lê o AGÁ. Se o problema for o CH, não é coisa que um bom X não resolva. Para o LH têm os Espanhóis a solução perfeita, que podemos fàcilmente, e sem vergonha, adaptar. Não é por isso que correremos riscos de perda de identidade. É muito pior o "software", o "spread", o "know-how" ou o "timing" e um larguíssimo etc... E o mesmo se aplica ao NH, o seja NN, onde demonstraríamos, à partida, a nossa absoluta originalidade, em vez de usar esse "chapéu" irritante que é o TIL, um nefasto invento ibérico, que é justamente um N encavalitado noutra letra do alfabeto.
É que enquanto aos nossos vizinhos só lhes deu o til um pequeno problema com a rede das redes, a nós criou-nos os mais variados inconvenientes: primeiro deu origem ao que classificamos como ditongos nasais, coisas por si só um pouco asquerosas, já que costumam fazer-se acompanhar de sons mucosos desagradáveis; em segundo lugar trousse (nunca entendi o papel do X neste vocábulo) vícios de rima absolutamente lamentáveis. Terminar versos com "coração", "mão", "emoção", "canção", "adoração", "amarão" ou até com "bão" (já ouvi isto num "poema" brasileiro) são realmente lugares comuns do nosso cancioneiro Pop(ular).
E já postos a modificar, podíamos dar-lhe o golpe de misericórdia à CEDILLA. Tem fácil solussom.
Após fexar esta primeira parte do processo, deveriam os ilustres responsáveis meditar detalladamente sobre uns quantos outros carateres ou sinais que, por demais incómodos, só servem para ocupar espasso na gramática e, por conseguinte, no nosso cérebro. Que caiam o acento circunflexo, o ífen e o acento grave que confunde.
Em resumo, creio que temos mais a ganhar em chegar a acordo ortográfico com os vizinhos do lado, que com aqueles que, á séculos, abandonaram a "terra mater" á sua sorte, justificandoo com a atlántica distáncia.
Sobre o V, se nos pomos a dissertar, num bai aber sebenta suficiente. Mas seguramente ebitaríamos que alguém, ainda que gozando de "voa" saúde, "vorrasse" o calsado com "vosta" de "voi" numa escapada ao campo num solleiro Domingo de Primabera. Quase me atrebería a falar da terceira língua oficial. Mas fica prá próssima...
Já não há volta atrás. O acordo ortográfico está aí e, com ele, a abulição de uns quantos costumes, outrora fonemas, agora considerados supérfluos.
Parece que o peso da raiz latina, que ainda transparece no Português (de Portugal), já não é relevante nem suficiente para manter o P que abre o A de Baptista, ou o C que garante a abertura da vogal E em direcção.
Aos governantes não lhes fará grande diferença, pois seguramente a alguns lhes soará melhor Bätista (como em bätota).
Pois muito bem. Se assim vai ser, porque não aproveitar a "embalagem" e tratar já de acabar com a "chatice" que é o H. Á anos que estou farto dele... E ninguém já lê o AGÁ. Se o problema for o CH, não é coisa que um bom X não resolva. Para o LH têm os Espanhóis a solução perfeita, que podemos fàcilmente, e sem vergonha, adaptar. Não é por isso que correremos riscos de perda de identidade. É muito pior o "software", o "spread", o "know-how" ou o "timing" e um larguíssimo etc... E o mesmo se aplica ao NH, o seja NN, onde demonstraríamos, à partida, a nossa absoluta originalidade, em vez de usar esse "chapéu" irritante que é o TIL, um nefasto invento ibérico, que é justamente um N encavalitado noutra letra do alfabeto.
É que enquanto aos nossos vizinhos só lhes deu o til um pequeno problema com a rede das redes, a nós criou-nos os mais variados inconvenientes: primeiro deu origem ao que classificamos como ditongos nasais, coisas por si só um pouco asquerosas, já que costumam fazer-se acompanhar de sons mucosos desagradáveis; em segundo lugar trousse (nunca entendi o papel do X neste vocábulo) vícios de rima absolutamente lamentáveis. Terminar versos com "coração", "mão", "emoção", "canção", "adoração", "amarão" ou até com "bão" (já ouvi isto num "poema" brasileiro) são realmente lugares comuns do nosso cancioneiro Pop(ular).
E já postos a modificar, podíamos dar-lhe o golpe de misericórdia à CEDILLA. Tem fácil solussom.
Após fexar esta primeira parte do processo, deveriam os ilustres responsáveis meditar detalladamente sobre uns quantos outros carateres ou sinais que, por demais incómodos, só servem para ocupar espasso na gramática e, por conseguinte, no nosso cérebro. Que caiam o acento circunflexo, o ífen e o acento grave que confunde.
Em resumo, creio que temos mais a ganhar em chegar a acordo ortográfico com os vizinhos do lado, que com aqueles que, á séculos, abandonaram a "terra mater" á sua sorte, justificandoo com a atlántica distáncia.
Sobre o V, se nos pomos a dissertar, num bai aber sebenta suficiente. Mas seguramente ebitaríamos que alguém, ainda que gozando de "voa" saúde, "vorrasse" o calsado com "vosta" de "voi" numa escapada ao campo num solleiro Domingo de Primabera. Quase me atrebería a falar da terceira língua oficial. Mas fica prá próssima...
sexta-feira, fevereiro 22, 2008
Comércio Justo no Rádio Clube Português
A convite de Ana Sereno, estive ontem de tarde no Rádio Clube Português a falar de Comércio Justo e a apresentar a Reviravolta.
A conversa foi conduzida pela própria Ana e por Jaime Gomes.
Para além da Reviravolta, esteve também presente o projecto Raízes, que vende produtos de agricultura biológica pelo seu site, representado pelo Pedro Rocha.
Quanto à Ana Sereno, podem continuar a ouvi-la todas as 5ªs feiras às 15h nos 90.0 FM (região Porto).
quarta-feira, fevereiro 20, 2008
terça-feira, fevereiro 19, 2008
Remendos e Côdeas
O Governo recuou no novo diploma sobre autonomia, gestão e administração escolar, ao admitir a possibilidade dos professores presidirem ao Conselho Geral, futuro orgão de direcção estratégica das escolas.
Entende-se que Sócrates, tendo andando pela JSD enquanto novo, nunca tenha ouvido José Mário Branco cantar:
"nós não precisamos só desse remendo
precisamos do casaco por inteiro
nós não queremos ficar só com esta côdea
precisamos de comer o pão inteiro"
Mas o que é que esta gente tem para nos oferecer?! Remendos e Côdeas!!!
domingo, fevereiro 17, 2008
União Europeia
Os governantes da União Europeia não nos deixam decidir sobre o Tratado de Lisboa, mas estão a promover uma votação para escolher a face da nova moeda de 2€, comemorativa do 10º aniversário da moeda única. Basta irem a este site para votarem. Os cidadãos só servem para isto, tudo o que saia do formato "reality show", não é para ser tido em conta pelos governantes. Brinquem enquanto podem meus senhores! Enquanto podem!
quinta-feira, fevereiro 14, 2008
Ensaio Geral dos Clã a 22 de Agosto de 2007
Tira a Teima
Apareço algumas vezes neste vídeo
Fábrica de Amores
Sexto Andar
Foi a primeira vez que a ouvi e quando fui entrevistado no final, elegia-a logo como a mais bonita! Mantenho a opinião. Curiosamente, eu próprio habito num sexto andar.
Utilidade do Humor
Portugal
Excerto de Os Maias, de Eça de Queiroz, adaptado para crianças por José Luís Peixoto.
"Conversando com Afonso da Maia, Ega disse mal de Portugal, mas ficou claro que ele próprio falava bastante, mas concretizava muito pouco.
- Não vale a pena, Sr. Afonso da Maia - disse Ega. Neste país, no meio desta prodigiosa imbecilidade nacional, o homem de senso e de gosto deve limitar-se a plantar os seus legumes.
O avô Afonso, mais sensato, respondeu-lhe:
- Pois então, planta os teus legumes. É um serviço à alimentação pública. Mas tu nem isso fazes."
Como diz o Sérgio Godinho: "Só neste país é que se diz 'só neste país' (...) Portugal, é nosso para o bem e para o mal!".
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